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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Cidade Livre, romance de João Almino, reconstrói a narrativa da fundação de Brasília, enlaçando a memória popular e o discurso oficial, o real e o ficcional, personalidades históricas e personagens romanescas, processo sintetizado em Bernardo Sayão.

english
Cidade Livre, João Almino’s novel, rebuilts the narrative of Brasília´s foundation, linking popular memory and official discourse, the real and the fictional, historical personalities and novel characters, a process exemplified in Bernardo Sayão.

español
Cidade Livre, romance de João Almino, reconstruye la narrativa de la fundación de Brasilia, vinculando la memoria popular y el discurso oficial, lo real y lo ficcional, personas históricas y personajes, proceso ejemplificado en Bernardo Sayão.

how to quote

PERRONI, Otávio Augusto Buzar. Bernardos Sayões, Cidade Livre. Minha Cidade, São Paulo, ano 22, n. 261.01, Vitruvius, abr. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/22.261/8494>.


Bernardo Saião, última foto
Foto Jankiel [REDAÇÃO. A morte do pioneiro. Manchete, n. 354, Rio de Janeiro, 31 jan. 1959, p. 25]


E sobre o herói fez tombar
Outro herói da floresta, majestoso jatobá.
A terra toda estremeceu.
Dois gigantes abraçados,
O homem e a natureza.
Morrendo, o homem venceu!
Vingança do Curupira, de Francisco Manoel Brandão

João Almino reconstrói, mediante a polivalência de vozes, o mito fundador de Brasília no romance Cidade Livre (1). Dez linhas iniciais prenunciam a estrutura da obra: termos íntimos de um relato memorialista; relação dinâmica de memória, história, ficção; promiscuidade entre discursos oficiais, boatos, manchetes; embates de narrador, personagens, leitores-comentadores desatentos de um blog.

A narrativa inicia-se no período cerratense pré-Brasília (2). Em 1941, no ensejo da “Marcha para o Oeste”, Bernardo Sayão Carvalho de Araújo dirige-se à Colônia Agrícola Nacional de Goiás. Esse já famoso desbravador de caminhos – Energic Road Builder (3) – ressurge na narração apenas ao final dos anos 1950, em fluxo inverso ao dos candangos que chegavam: ele saía rumo ao sertão, para construir a “espinha dorsal”, a rodovia Belém-Brasília (4). O narrador aproveita o episódio, afirmando que seu pai, Doutor Moacyr, teria sido uma das fontes sobre Sayão:

“o escritor John dos Passos, em sua visita a Brasília, ficara embevecido com Bernardo Sayão a ponto de decidir escrever sobre ele para a revista Life, ele, papai, que havia estado com Sayão entre maio e junho, havia sido uma das fontes a lhe passar informações sobre as expedições daquele bandeirante moderno nas selvas amazônicas” (5).

Mas Sayão era o porta-bandeiras (bandeirante?) do progresso rumo ao interior do Brasil e é sintomático que a ele tenha sido atribuído o início da saga familiar no romance: Doutor Sayão convidara pessoalmente o pai do narrador para construir a capital (6).

Brasília já foi Nova Lisboa, Pedrália, Vera Cruz... Como todo mito, exige a narração de sua gênese; e, como epopeia, Cidade Livre é reconstruída por memórias. Mas é um erro separar a “memória popular” do “discurso oficial”, o real do ficcional, o Bernardo de queixo quadrado de braços em mangas do Sayão-Eneias construtor de estradas. É o perigo de se pretender decantar a personalidade histórica da personagem romanesca:

“Na aventura candanga, é preciso estar atento para saber quem é quem. Afinal, todas as entidades que interferem na elaboração do livro, a real – o escritor – e as inventadas, possuem um mesmo objetivo, o de recuperar as narrativas que cercam Brasília a partir do ponto de vista subjetivo de um menino que se faz homem junto com a cidade que envelhece em tempo recorde. São retirados do diário enterrado pelo pai escrevente, e redescoberto somente na maturidade por João, fatos envolvendo personalidades da história real – Juscelino Kubitschek, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Bernardo Sayão, entre outros. Rol de nomes que faz com que o leitor menos desconfiado seja levado a crer que são reais. Mero recurso ilusório inventado pelo autor, pois sabemos que ao introduzir personalidades históricas no romance, elas se tornam ficcionalizadas” (7).

O procedimento estético polifônico (8) assumido por Almino, por outro lado, apresenta uma multiplicidade de vozes simultâneas em contexto em que nenhuma delas anula as demais nem a elas se sobrepõe. Na construção narrativa de Brasília, a cidade fruto de muitos braços também deve ser resultado da epopeia de várias vozes. O narrador-personagem sopesa a opinião dos outros em face do que escreve, admitindo inclusive que terceiros exteriores à história – desatentos leitores, e comentadores, do blog – intervenham na construção da memória e participem da narração: entrelaçam-se as vozes históricas com as ficcionais.

“Você sabe que eu acredito em estradas”, disse Rolando Vilar em Quarup (9), personagem também baseado em Bernardo Sayão. Mas o problema em Cidade Livre aumenta exponencialmente, já que a personagem de Almino ostenta o mesmo nome do engenheiro da Estrada Norte-Sul. Os diálogos não recebem marcas gráficas, trata-se de palavras recuperadas na memória do narrador, o que amalgama discursos por rememorações e cortes na evolução linear do tempo histórico, para implicar um tempo narrativo povoado de analepses, permitindo estruturalmente a mistura das vozes. Em termos não iniciáticos: Almino justifica a trama entre o que Bernardo teria dito e feito nas picadas da Belém-Brasília e o que Sayão faz e diz nas linhas de Cidade Livre.

Também está registrado que Sayão ficara no canteiro da Nova Capital somente entre 1956 e 1958, depois do que se deslocou para o trecho norte da BR-153, onde a partir de então passaria a maior parte do tempo. O romance apropria-se desse cenário para aprofundar a relação do “Novo Bandeirante” com Moacyr:

“papai lembrou o dia em que conhecemos Valdivino, no fim de outubro de 1956, mês que tinha começado com uma visita do presidente JK a Brasília, mês da construção do Catetinho e logo depois que papai tinha voltado de Luziânia com Bernardo Sayão trazendo material para as primeiras construções” (10)

O narrador, assim, ficcionaliza o “leitor do blog”, justifica o aspecto épico da personagem e afasta a desconfiança ante os fatos históricos que está a manipular:

“Um leitor do blog me pergunta neste ponto se é verdade que papai acompanhava Sayão no dia em que seu teco-teco, depois de planar, perdeu altura e ficou enganchado na copa de uma árvore. Papai dizia que sim e contava essa história com frequência, acrescentando o detalhe de que ele e Sayão deslizaram facilmente pelo tronco da árvore, e Sayão, já embaixo, apenas indagou, despreocupado, Como é que vou tirar esse danado da galharia? Não duvido, contudo, que aqui se revele o lado mitômano de papai e que a verdadeira fonte dessa história tenha sido JK num de seus livros, onde encontrei a mesma versão” (11).

A propósito, no prefácio ao livro da filha do Bernardo tangível, Juscelino Kubitschek atribui ao Sayão intangível todo tipo de epíteto – pioneiro, bom gigante, “grande bandeirante do século XX” – e transforma o herói popular em fundador épico da nação, resgatando as raízes da transferência da capital para o centro do país:

“Eu vi simbolizado naquele homem simples todos os anseios dos que lutaram pela interiorização da capital, desde Tiradentes e José Bonifácio aos autores das três constituições democráticas da República. Levantando sua barraca, o bandeirante Bernardo Sayão como que revivia numa só imagem todos os heróis que ser esforçaram para que o Brasil cumprisse, sem demora, seu destino de grande nação” (12).

Almino reconhece o poder cosmogônico da personalidade histórica e insinua o germe de lenda do homem tombado pela floresta, o gigante abraçando-se ao Curupira:

“Esse galho que matou Sayão — me explicou tia Matilde — é “o pau de feitiço”, um pau vingativo de que fala um personagem de Monteiro Lobato, vou lhe dar de presente o livro Urupês, para que você leia o conto A vingança da peroba” (13).

E a morte do herói – declinada no substantivo singular a despeito das várias versões – é evento crucial no processo. O traslado do corpo desde o Maranhão, os velórios na Cidade Livre e na Igrejinha da 307/308 Sul e o sepultamento são ponto de virada na narrativa. O féretro daquele que havia iniciado a saga familiar do narrador é capaz de reunir personagens que, por motivos vários (de perseguição política a enlaces semi-incestuosos), haviam percorrido seu arco isoladamente:

“Aqui pela primeira vez meu blog se encheu de comentários, mas esta não é uma biografia de Bernardo Sayão, para mim basta contar os efeitos que teve sua morte sobre minha família, não vou perder tempo em dizer que fulano ou sicrano confirma as impressões que aqui transmiti sobre sua personalidade, nem em transcrever páginas e páginas de informações que serão melhor aproveitadas por um historiador ou mesmo futuramente por mim, numa de minhas reportagens jornalísticas [...] Com a morte de Sayão e a tristeza que se apoderou de papai, de tia Francisca, de mim e até mesmo de tia Matilde, papai passou a dormir conosco diariamente em casa, pois a tristeza tem a capacidade de aproximar as pessoas, e creio que foi a tristeza que amoleceu o coração de tia Francisca, que a fez aceitar de vez que papai voltasse” (14).

Sayão foi a primeira pessoa sepultada no Campo da Esperança, cemitério demarcado pouco antes por ele próprio: o obstinado canteiro de obras da Nova Capital retumbou em inédito silêncio. Mas o discurso de JK no enterro do homem contribuiu sobremaneira para a moldagem do mito: o colonizador que deu a vida pela cidade, o bandeirante morto pela interiorização, o abridor de caminhos...

A Caravana da Integração Nacional confirma, no fechar da bambolina do romance, a veneração dos candangos por aquele que, de chefe-companheiro, tornava-se lenda:

“O entusiasmo de Valdivino era tal que todos nós formamos um time com ele em torno da coluna mais aplaudida, a do Norte. Não importava que ele fosse da Bahia, papai e tia Matilde de Minas, eu e tia Francisca de Goiás, queríamos nos ver representados por Belém do Pará. Era nossa maneira de prestar homenagem a Bernardo Sayão” (15)

Simultânea e quase paradoxalmente, Bernardo Sayão igniza as narrativas dos esquecidos, rebaixados na história em face das distantes autoridades de Niemeyer, Costa, Pinheiro... E, na narrativa de Almino, o enterro do Doutor Moacyr finca um pé-de-cruz no cerrado:

“Passamos pelo túmulo de uma norte-americana — que um blogueiro me informou ser a mesma Joana Lowell Bowen que papai conhecia de seus tempos de Goiás, proprietária de uma fazenda perto de onde a gente morava e que dirigiu uma Kombi na Caravana da Belém-Brasília — e pudemos localizar ao lado o de Bernardo Sayão. Eu nunca vira Sayão, mas papai certamente gostaria de saber que eu e tia Francisca ali prestávamos a Sayão a nossa e a sua homenagem” (16).

Os personagens anônimos deixam de ser poeira e tornam-se discurso fundamental em Cidade Livre, antes calados pela retórica oficial que mascarou massacres, aplainou acidentes e deletou memórias. O narrador, distanciado no tempo para executar sua tarefa, reconhece o “lapso” que apagou muitas vozes construtivas e as resgata, como que a expiar o pecado capital da Cidade Livre, fazendo dos Bernardos e dos Sayões marcos miliários da travessia na estrada aberta entre fatos e ficção.

Nestas linhas finais, beiraria crônica efêmera a inclusão de uma experiência deste ensaísta: na visita ao túmulo de meu pai, no dia do que seria seu aniversário natalício, pela primeira vez visitei a Praça dos Pioneiros no Campo da Esperança. Desviando-me dos carcarás e com braços em mangas recém caídas, vi, ao lado da sepultura de Bernardo Sayão, a de Mozart Paradas – “O Primeiro Engenheiro a Chegar” – e, um pouco abaixo, a de Moacyr Gomes e Souza – Presidente da Novacap em 1960 –, supervisor da construção dos trechos Brasília–Anápolis e Brasília–Luziânia, entre outras.

Lembrei-me do livro de Almino, de seu narrador resgatando memórias do pai e de personalidades históricas ficcionalizadas.

Mas o espaço, o tom e a forma conduzem-me forçosamente a mudar de pessoa: são mais que suficientes, no momento, as personagens já moldadas em Cidade Livre. Aqui, sou apenas um desatento leitor e comentador do blog – digo romance – de João Almino.

notas

1
ALMINO, João. Cidade Livre. Rio de Janeiro, Record, 2015.

2
BERTRAN, Paulo. História da terra e do homem no Planalto Central: eco-história do Distrito Federal. Brasília: EdUnB, 2011

3
PASSOS, John dos. Pioneers in Brazil. Life, vol. 25, n. 25, Chicago, 20 dez. 1948, p. 5.

4
SAYÃO, Léa. Meu pai, Bernardo Sayão. 3a edição. Brasília, Centro Gráfico do Senado, 1976, p. 137.

5
ALMINO, João. Op. cit., p. 158.

6
Idem, ibidem, p. 31.

7
RAMOS, Graça. Cidade Livre: romance de formação nos ritmos de Brasília. In: CHIARELLI, Stefania; DEALTRY, Giovanna; VIDAL, Paloma (Org.). O futuro pelo retrovisor: inquietudes da literatura brasileira contemporânea. Rio de Janeiro, Rocco, 2013, p. 195.

8
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2008.

9
CALLADO, Antonio. Quarup. 25a edição ampliada. Rio de Janeiro, José Olympio, 2021, p. 183.

10
ALMINO, João. Op. cit., p. 86.

11
ALMINO, João. Op. cit., 147.

12
SAYÃO, Léa. Op. cit., p. 24.

13
ALMINO, João. Op. cit., p. 188.

14
Idem, ibidem, p. 193-194.

15
ALMINO, João. Op. cit., p. 213.

16
Idem, ibidem, p. 235.

sobre o autor

Otávio Augusto Buzar Perroni é procurador federal, professor e escritor, graduado em Direito e Letras pela Universidade de Brasília (UnB). Mestrando do programa de Pós-Graduação em Literatura da UnB (Póslit) e membro do Grupo de Estudos Literatura e Cultura (Póslit/UnB). Especialista em Direito Processual Civil, pela Universidade do Sul de Santa Catarina e Instituto Brasileiro de Direito Processual. Autor do livro O contrato eletrônico no Código Civil brasileiro. Primeiro lugar no concurso mundial de redação em língua italiana L´Italiano Perché em 2002 (Accademia della Crusca; Ministero degli Affari Esteri, Itália). Prêmio de Melhor Trabalho de Iniciação Científica em 2001 (UnB e CNPQ).

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