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A descoberta do material original do estudo de Oscar Niemeyer para o auditório do Ministério da Educação e Saúde permite novos olhares sobre o projeto de 1948, reiterando a relevância de esquemas não construídos para o entendimento de sua obra.

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FIGUEIREDO, Rolando Piccolo. Auditório do Ministério da Educação e Saúde. Projetos, São Paulo, ano 20, n. 238.01, Vitruvius, out. 2020 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/20.238/7924>.


Ao se estudar a obra de um arquiteto, é possível inferir dupla importância a seus projetos não construídos. Enquanto para o próprio profissional estes esquemas podem ser fontes de soluções a serem aproveitadas ou aprimoradas em trabalhos futuros, devido à possibilidade de ampla divulgação, há também o potencial deles fortemente influenciarem a apreensão que o público tem de sua obra. A Ville Radieuse, de Le Corbusier, ou o arranha-céu da Friedrichstrasse, de Mies van der Rohe (para citar apenas exemplos modernos), testemunham a relevância para a historiografia da arquitetura de certas propostas que nunca chegaram a sair do papel.

Em relação à obra de Oscar Niemeyer, destaca-se neste contexto seu projeto para o Museu de Arte Moderna de Caracas (1954), amplamente divulgado à época, chegando mesmo a ser a capa de revistas internacionais (a exemplo da Progressive Architecture de fevereiro de 1956 (1). Juntamente com seu papel crucial na mudança de estratégia projetual que Niemeyer inaugura naquele momento, estes fatores o tornam objeto de estudo indispensável para aqueles que desejam melhor entender a obra do arquiteto. Se este projeto indica nova preocupação com a concisão de meios em sua prática, é no estudo para um auditório para o edifício do Ministério da Educação e Saúde (1948) que se pode primeiramente notar a aproximação entre seu tratamento dos volumes e suas pesquisas estruturais, em que há uma evolução para além das abóbadas parabólicas rumo à novas formas (2).

A menor relevância da inflexão notada neste projeto de 1948 é proporcional à sua divulgação, substancialmente menor que a do exemplo venezuelano, ainda que não irrelevante – além de constar do primeiro livro de Stamo Papadaki (3), uma fotomontagem do projeto (Figura 2) foi utilizada em propaganda da célebre exposição do MoMA sobre arquitetura latino-americana, quando de sua montagem em Ohio (4). A totalidade da documentação sobre este projeto, portanto, resumia-se aos pesquisadores àquilo presente na primeira monografia do arquiteto: três croquis, duas plantas, um corte e duas elevações, adicionados de sete fotomontagens da maquete em que claramente se busca ilustrar sua relação com o edifício do Ministério.

Era de conhecimento do autor, no entanto, a existência de três pranchas de apresentação do projeto que haviam sido leiloadas no Rio de Janeiro há alguns anos. Mesmo com imagens em baixa qualidade, foi possível notar material original de grande valor à pesquisa, sendo que houve até mesmo a tentativa de contato com o então proprietário das peças, sem sucesso. No início de 2020, no entanto, o material voltou a leilão, sendo prontamente adquirido. De forma condizente com a importância dos objetos, estes passaram por limpeza e conservação pelo historiador e especialista em papel Carlos Eduardo Sampietri, processos que revelaram algumas surpresas.

Primeiramente, no verso das pranchas em tamanho A2 há a marca d’água do fabricante ou distribuidor do papel e seu modelo: Cadet Artist Illustration Board. Mais relevante, no entanto, foram as análises química e ótica que indicaram não se tratar de material impresso ou copiado, reforçando sua autenticidade para além de outros claros sinais, como a coloração manual em guache da segunda prancha, e as indicações da utilização de compasso no desenho das plantas. Vale notar, inclusive, que o único croqui presente no livro de Papadaki que não consta destas pranchas é aquele que explica a melhor visibilidade do edifício do Ministério permitido pelo perfil da cobertura, provavelmente feito para a própria publicação dada a legenda em inglês visibility.

A primeira prancha traz o texto explicativo do projeto, padrão para o método de trabalho do arquiteto. Nunca publicado, este traz informações imprescindíveis para o entendimento do projeto, incluindo sua gênese a partir da impossibilidade da articular dois volumes distintos numa composição de proporções horizontalizadas, a ele tão cara. Lembra-se aqui, que o projeto é publicado em inglês como Twin Theaters, dada a presença de duas salas no mesmo edifício. Ademais, a assinatura em caneta esferográfica também revela outro dado importantíssimo e desconhecido até então – Hélio Uchôa Cavalcanti, seu frequente colaborador no período, tem participação também neste projeto.

Já a segunda prancha traz o corte e as plantas do projeto, como já dito, setorizadas em cores. Reafirmando a originalidade das peças, é perceptível, através dos defeitos do processo manual de pintura, se tratar das exatas plantas cuja fotografia figuram, em preto e branco no livro de Papadaki, embora sem a legenda, que nada significaria na publicação sem cores. Aqui, esta clarifica o funcionamento do Teatro de Comédia no térreo, com grande área de apoio aos espetáculos, e o reduzido palco da sala superior, para 3000 pessoas, a ser utilizada para comemorações e canto orfeônico, reforçando a relação entre o projeto e a política educacional do período logo após o Estado Novo.

Finalmente, a terceira prancha contém as duas elevações já conhecidas do projeto, trazendo algumas discrepâncias em relação ao corte, as plantas e mesmo a maquete, indicando se tratar de estudo preliminar em que questões básicas da arquitetura continuavam indefinidas.

Acompanhando a escala da prancha anterior, os desenhos em 1:500 comprovam a relação bastante conflituosa com o edifício do Ministério, sendo este demasiado grande para permitir a harmonia explicitamente buscada (inclusive nos materiais e acabamentos), de acordo com o texto e o desenho da cobertura. Em algumas das fotomontagens publicadas, percebe-se que o tamanho do auditório fora manipulado para obtenção de perspectivas em que ele parecesse mais discreto frente ao edifício já tombado pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Sphan. Outras, no entanto, dão a real dimensão da proposta.

Apesar de se tratar de um estudo preliminar cujas deficiências e qualidades ainda careciam de atenção, fica claro que o impacto deste objeto frente ao quiçá mais importante edifício moderno brasileiro seria maior que os autores gostariam que fosse percebido. O desenvolvimento urbano deste lote, não obstante, que até hoje contém um grande estacionamento para o edifício Barão de Mauá (curiosamente, também projeto de Niemeyer), não permite comemoração quanto à não realização deste relevante projeto. Segue abaixo, o texto explicativo inédito, na grafia original:

O projeto de se construir em frente ao edifício do Ministério da Educação e Saúde, exige quer das autoridades públicas como do próprio arquiteto a se incumbir da obra, especial cuidado, por ter sido aquele edifício recentemente tombado pelo Sphan como monumento artístico nacional.

A nosso ver, para seu bom êxito essa construção deverá atender a diversos requisitos:

Ser tanto quanto possível uma construção baixa e vasada de forma a não sufocar o ambiente. Adaptar-se harmoniosamente às construções locais e ao prédio existente, ao qual deverá subordinar, mantendo com a adopção do mesmo espírito arquitetônico a indispensável unidade. Atender às questões de visibilidade que o problema sugere, evitando perfis que venham a prejudicar aquele edifício. Ser situada de forma livre, mas adequada, prevendo-se cuidadosamente a proporção dos espaços e alturas a fixar. Ter enfim como princípio básico uma perfeita integração no conjunto que deverá completar plasticamente.

A obediência a êstes itens orientou portanto a solução que apresentamos, cuja evolução para maior clareza passamos a expor:

O programa proposto pelo Ministério da Educação e Saúde prevê, além de um teatro para comédia, um grande salão que, se destinado a comemorações, servisse também para canto orfeônico.

A solução que primeiro nos ocorreu foi estudar dois edifícios separados numa disposição livre e derramada (1), solução que as dimensões do terreno afastaram definitivamente, por não permitirem espaçamentos proporcionados (2). Verificamos então a necessidade de encontrar uma forma compacta que, garantindo as áreas exigidas no programa não ocupasse o terreno demasiadamente. A forma que adotamos foi a superposição dos dois elemento, isto é, no pavimento térreo o teatro de comédia e no superior o grande salão.

Esboçado o partido e verificada a justesa da solução, começamos a examinar a questão de funcionamento, acessos, etc, assim como a forma da cobertura que no caso assumia importância especial.

O projeto que apresentamos permite construção bastante econômica e, quanto à circulação e funcionamento, esquemas simples e precisos. No pavimento térreo ficam localizadas as bilheterias e o teatro de comédias com sala de espetáculos para 600 pessoas e serviços anexos como camarins, guarda-roupas, carpintarias, controles, etc. Duas rampas externas condusem à esplanada e ao grande salão e outras diretamente aos balcões na sobreloja. O salão tem capacidade para 3000 espectadores, e o palco, para o qual foram previstos acessos independentes, está servido de todas as instalações necessárias. Quanto à forma da cobertura evitamos o tipo usual em que a parte posterior da platéia e balcões constitue sempre um alto muro vertical (3). A solução adotada, afastando êste inconveniente, garante a obra em apreço aspéto característico e original (4). Um pequeno teatro infantil completa o conjunto.”

notas

1
Progressive Architecture. Nova York, vol. XXXVII, n. 2, Reinhold, fev. 1956

2
MACEDO, Danilo. Da matéria à invenção: a obra de Oscar Niemeyer em Minas Gerais 1938-1955. Dissertação de mestrado. Belo Horizonte, FA UFMG, 2002.

3
PAPADAKI, Stamo. The Work of Oscar Niemeyer. Nova York, Reinhold, 1950.

4
TATE, Jennifer. Study Day: MoMA and UN Headquarters (Newsletter Report). Society of Architectural Historians, 13 abr. 2015 <www.sah.org/publications-and-research/fellowship-reports/study-tour-reports/detail/study-tour-blog/2015/04/13/moma-un-study-day-newsletter-report>.

sobre o autor

Rolando Piccolo Figueiredo é formado em engenharia mecânica pela universidade de Bath. Atualmente cursa Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie, e administra o perfil Oscar Niemeyer Works, focado em pesquisas sobre o trabalho pré-Brasília do arquiteto.

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