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Obra monumental de Luis Fernández-Galiano, publicada pela Fundação BBVA, quatro Atlas abarcam a produção arquitetônica de todas as regiões do planeta. Este é o último texto de Roberto Segre.

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SEGRE, Roberto. Atlas das arquiteturas do século XXI. Opulência, crise e esperança. Resenhas Online, São Paulo, ano 12, n. 140.01, Vitruvius, ago. 2013 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/12.140/4842>.


É de fato um importante evento editorial, neste início de século, a publicação dos cinco volumes do Atlas: Arquitecturas del siglo XXI – cada um deles editado em espanhol e inglês –, que resume a conjuntura mundial da produção arquitetônica na mudança de milênio. Luis Fernández-Galiano, com o apoio da Fundação BBVA, elaborou em 2007 um primeiro tomo, o Atlas Arquitectura Global circa 2000, com um panorama das principais obras realizadas nas diferentes regiões do planeta. Ali ficou evidente que a intensa atividade construtiva ocorrida entre o final do século XX e início do XXI, não cabia no limitado espaço das 300 páginas do livro. Para atingir o objetivo de embrenhar-se em uma visão detalhada e abrangente de áreas pouco conhecidas do planeta Terra, decidiu dividi-lo ‘salomonicamente’ em quatro partes. Consequentemente publicou os volumes dedicando-os separadamente a América, a Ásia e Pacífico, a África e Oriente Médio, e finalmente, concluindo a obra em 2012, a Europa. Esta obra monumental que soma quase 1500 páginas constitui uma façanha editorial ao reunir mais de quarenta críticos e historiadores especializados nas diferentes áreas geográficas presentes nos livros – cada um deles foi organizado em dez capítulos, assumindo a herança decimal da Revolução Francesa –; responsáveis por redigir os textos introdutórios que explicam em detalhe as condições sociais, econômicas e culturais do ambiente construído dos países citados. Ou seja, a apresentação gráfica das obras selecionadas, exaustiva e detalhada, está precedida por um corpus teórico de uma particular consistência intelectual, que busca uma moldura contextual para os projetos apresentados.

Atlas da Arquitetura Global, capa, 2007
Divulgação

Os Atlas se diferenciam do conjunto de obras publicadas recentemente sobre a arquitetura mundial pelo extenso conteúdo teórico e por incluir regiões do mundo tradicionalmente esquecidas. Estão bem distantes dos luxuosos coffee table books que divulgam as obras do jet set internacional – de dimensões e custos somente acessíveis para uma minoria que pode colecionar os livros monográficos da Taschen dedicados a Tadao Ando, Richard Neutra, Jean Nouvel, Shigeru Ban, Alvaro Siza –; ou da sequência infinita de obras contidas no The Phaidon Atlas of Contemporary World Architecture. Por conta da preocupação com o detalhe e pela profundidade dos textos, os Atlas provavelmente terão pouco apelo para aqueles aficionados – sem tempo para ler – que gostam de consumir o ‘zapping’ arquitetônico apresentado nos quase dez volumes da Taschen – Architecture Now! – editados por Philip Jodidio.

Consideramos que esta obra é o ponto culminante de um trabalho editorial que Fernández-Galiano iniciou no final da década dos anos oitenta com a criação das revistas Arquitectura Viva e AV Monografias. Aquele era um momento de entusiasmo e de perspectivas otimistas sobre uma arquitetura que iria acompanhando as mudanças políticas e econômicas mundiais: a guerra de Vietnam tinha acabado, os governos conservadores de Thatcher e Reagan seriam substituídos pelos mais liberais de Blair e Clinton; a Espanha iniciava uma etapa de desenvolvimento social e econômico com a instauração da democracia, depois da longa ditadura de Franco; e começava a desagregação do império soviético, que teria seu ponto de inflexão com a derrubada do muro de Berlim. A China saía lentamente da fase maoista, e tentava se integrar na dinâmica econômica internacional; assim como os países asiáticos cuja eficiência industrial concorria com a dos países ocidentais. Na arquitetura, já era evidente a fragilidade e superficialidade do curto período de ‘convulsão’ criado pelo pós-modernismo; voltava-se a resgatar os valores positivos do Movimento Moderno, o equilíbrio entre razão e sentimento em procura de uma liberdade expressiva – parafraseando Alexander Tzonis –; o relacionamento com as particularidades regionais dos países do Terceiro Mundo; e, ao mesmo tempo, se abriam novas possibilidades projetuais, tanto com o uso dos computadores na elaboração dos projetos, quanto na aplicação de inovações materiais e tecnológicas.

Os 150 números publicados até 2013, tanto da Arquitetura Viva  quanto de AV Monografias, são uma demonstração do entusiasmo, da perseverança e da força de vontade de Fernández-Galiano. No sistema mundial de revistas de arquitetura não é fácil perdurar no tempo se não existe uma direção com objetivos precisos, uma capacidade de atingir um público amplo, e um embasamento econômico que permita a continuidade da publicação. Assim, conseguiu se consolidar na Espanha, onde tinha a concorrência de El Croquis de Madri, e Quaderns em Barcelona. Optou por outorgar às suas duas publicações uma personalidade diferente da asséptica apresentação das obras de El Croquis e a sofisticada intelectualização de Quaderns. Por um lado, difundiu a obra dos arquitetos reconhecidos internacionalmente, e sempre justificados por um embasamento teórico; em particular de aqueles que eram afins à sua visão de arquitetura – Norman Foster, Herzog & de Meuron, Souto de Moura, David Chippierfeld, Cruz & Ortiz; Mansilla & Piñón, entre outros –; por outro, difundiu anualmente as obras realizadas na Espanha; e dedicou múltiplos números monográficos nas duas revistas a temas significativos da complexa realidade mundial: lembremos a antológica Arquitectura Viva sobre o atentado das torres do World Trade Center no 11/09/01.

Fernández-Galiano se insere na tradição das personalidades que no século XX caracterizaram a identidade das principais revistas de arquitetura. Na Espanha, a longa ditadura de Franco e a imposição da arquitetura acadêmica pelo governo não facilitou o debate sobre as tendências da vanguarda que dominavam o panorama internacional. Apesar da censura e da repressão ideológica, foi possível a difícil sobrevivência de revistas que abriam uma perspectiva sobre a  arquitetura moderna: Hogar y Arquitectura, dirigida por Carlos Flores, teve uma importante significação; a Revista Nacional de Arquitectura, por 25 anos sob a orientação de Carlos de Miguel; e as menos douraduras como Nueva Forma de Juan Manuel Fullaondo, e Arquitectura Bis de Oriol Bohigas. Mas temos que citar a significativa presença cultural das revistas caracterizadas por uma direção polêmica e engajada que ao longo do século XX  influenciou gerações de estudantes e profissionais no mundo inteiro.

Na Inglaterra, a decana e tradicional Architectural Review, cuja visão conservadora era controlada por Nikolaus Pevsner, teve como complemento a dinâmica Architectural Design, que Monica Pidgeon coordena por muitos anos, relacionada diretamente com o movimento da vanguarda suscitado pela Architectural Association. Na França, L´Architecture d´Aujourd´Hui criada em 1930 por André Bloc, foi a revista de arquitetura de maior difusão internacional até os anos setenta, e a defensora inquestionável do Movimento Moderno. Na Itália, a paixão latina caracterizou as linhas contrapostas de Casabella-continuitá dominada pela equipe chefiada por Ernesto N. Rogers, com a participação dos membros da Tendenza – Aldo Rossi, Vittorio Gregotti, Giorgio Grassi –; e a combativa Architettura Cronache e Storia, sob a direção de Bruno Zevi. Com uma postura independente, a longa persistência de Domus, de Gió Ponti, que espalhou o design italiano urbe et orbi. Posteriormente, surgiram revistas menos douradoras como Zodiac de Guido Canella, Controspazio de Paolo Portoghesi, e L´Arca de Cesare Maria Casati.

Finalmente, nos Estados Unidos, lembremos-nos de Art and Architecture na Califórnia, editada por John Entenza; a Architectural Forum de Peter Blake, e desde os anos setenta, a curta e intensa repercussão obtida por Oppositions, publicada pelo Institut for Architecture and Urban Studies, sob a direção de Peter Eisenman, acompanhado pela prestigiosa equipe de Kenneth Frampton, Anthony Vidler, Kurt Foster, Mario Galdelsonas. E seria injusto não citar arquitetos e críticos reconhecidos da América Latina que publicaram revistas especializadas: no México, Mario Pani editou Arquitectura; no Brasil, Oscar Niemeyer publicou Modulo; Lina Bo Bardi,  Habitat, e Vicente Wissembach, Projeto, continuada nos anos noventa por Fernando Serapião. E na Argentina, perdurou até hoje a revista Summa, primeiro sob a direção de Lala Méndez Mosquera e Marina Waisman; e recentemente, editada por Fernando Diez.

Neste complexo e sofisticado panorama editorial, as duas revistas expressaram a sua linha de pensamento sobre a arquitetura, na integração entre o global e o local, entre a teoria e a prática; entre a perenidade das ideias e a dinâmica frágil e rápida das informações cotidianas. A sua postura nos faz lembrar Vincent Scully, na sua introdução ao livro de Robert Venturi, Complexidade e contradição na arquitetura, quando escreveu: “Muitas espécies de alta qualidade podem habitar o mesmo mundo. Tal multiplicidade é, com efeito, a promessa suprema da idade moderna á humanidade”. E não acreditar como Le Corbusier que a arquitetura pode evitar a revolução – termo já obsoleto que perdeu a credibilidade –, mas que pode ajudar à “evolução” – parafraseando Bjarke Ingels – e a melhoria das condições precárias de vida de milhões de habitantes do planeta; na criação de novas soluções ambientais, que segundo Santo Agostinho, na constante invenção humana “divina”, convertem em uma realidade visível às estruturas ocultas que adormecem na mente.  “Projetar”, com fundamentos éticos e estéticos, significa também participar do combate à maldade, à injustiça, à exploração, ao egoísmo humano. Daí a recente postura de Fernández-Galiano no apoio às transformações radicais que são necessárias implementar neste momento de crises econômicas e ecológicas; e aos indispensáveis debates sobre o futuro da arquitetura, em concomitância com as novas regras de jogo estabelecidas pela dura realidade atual. São os temas desenvolvidos nas exposições do MoMA – small scale, big changes –; na Bienal de Veneza (2012) – common ground -; e nos dois congressos organizados em Pamplona pela Fundação Arquitetura e Sociedade sobre os temas, Arquitectura: más por menos; e Arquitectura: lo común.

Seria impossível neste breve espaço detalhar os conteúdos dos cinco Atlas. Mas podemos ressaltar algumas características mais relevantes. A primeira característica importante que identifica a coleção é a homogeneidade da apresentação gráfica nos diferentes volumes. As capas de todos estão unificadas pela geografia, com a visão planetária de cada um dos continentes e regiões. No miolo, ao longo dos dez capítulos, é definida com precisão a área correspondente ao tema, estabelecendo-se o cromatismo persistente que domina no planeta: o amarelo-marrom dos territórios áridos e desérticos; o verde das áreas férteis, o azul dos oceanos e o branco das nuvens e das cada vez mais escassas regiões polares, que constituem os limites físicos do espaço vital. Concretiza-se assim a reiterada ideia de Buckminster Fuller sobre o nosso pertencimento à “aldeia global”, moradores da cada vez mais reduzida “nave” Terra.

No primeiro volume, dedicado ao panorama internacional global, foram selecionadas três obras para cada região, mas nos posteriores os exemplos quase se duplicaram, sem um limite rígido de obras para cada país. Dependendo da importância dos projetos, são dedicadas de duas a quatro páginas para cada um, o que permite a apresentação de planos e detalhes construtivos. Existe um equilíbrio entre as obras espetaculares dos arquitetos famosos localizadas nos países “ricos”, e as modestas elaboradas por nomes pouco conhecidos em regiões nunca citadas nas revistas de arquitetura tradicionais. Na visão de conjunto ficam evidenciadas duas verdades: a globalização permite a presença dos escritórios mais renomados nos quatro cantos do planeta; e o desejo de melhorar as condições de vida dos mais necessitados, também gera boa arquitetura, até nas difíceis condições existentes na Faixa de Gaza. Sem dúvida, impressiona a presença internacional de alguns escritórios europeus e norte-americanos: Zaha Hadid & Patrik Schumacher, tem obras na China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Alemanha, Inglaterra, Itália; Oma/Rem Koolhaas, está presente em China, Estados Unidos, Cazaquistão, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Russia, Inglaterra, Portugal; a dupla de SANAA aparece em Japão, Estados Unidos, Suíça e Inglaterra; Snohetta, em Gâmbia, Egito e Noruega; e Norman Foster tem o escritório mais diversificado pela quantidade de obras e projetos espalhados no mundo: Brasil, Cazaquistão, China, Serra Leona, Marrocos, Emirados Árabes Unidos. Líbano, Alemanha, Dinamarca, França, Inglaterra. O único privilegiado da América Latina é Ricardo Legorreta, com uma obra em Qatar. Assim, as principais edificações destes escritórios, com a identificação da linguagem expressiva de cada arquiteto, constituem o corpus da produção desta mudança de milênio e representam os infinitos recursos gastos na ilusória etapa do bem-estar sem limites do “capitalismo triunfante” – segundo Juan Antônio Ramírez –; sendo a maioria delas inseridas nos diferentes Atlas.

Surge uma afinidade entre os dois tomos de América e Europa; assim como nos de África e Oriente Médio, e Ásia e Pacífico: os dois primeiros identificam uma coerência e homogeneidade nas obras apresentadas; enquanto que nos outros, predominam os contrastes e as diferenças. Apesar das condições opostas existentes entre o norte e o sul da América – uma rica e desenvolvida, outra, em alguns países, pobre e subdesenvolvida –, as obras arquitetônicas estão unidas pela criatividade e originalidade dos autores; uns utilizando os recursos da alta tecnologia e dos materiais industriais conseguem soluções inéditas e surpreendentes – o Cooper Union de Morphosis em Nova York, ou a Academia das Ciências de Renzo Piano em São Francisco –; outros, com recursos artesanais limitados, obtém imagens insólitas, como o prédio de escritórios de Alberto Mozó em Santiago de Chile, ou a Biblioteca España de Giancarlo Mazzanti em Medellín, na Colômbia. Mas esta afirmação não é categórica, já que acontece também a situação inversa: na América Latina é também possível utilizar a tecnologia avançada como acontece na Casa Comunal de Matias & Mateo Pintó em Caracas, ou no Museu do Chocolate de Michel Rojkind em Toluca, México. No Canadá e nos Estados Unidos, se destacam obras ‘vernáculas’ e ‘contextualizadas’, tais como o Ateliê de Arquitetura de MacKay-Lyons & Sweetapple na Nova Escócia; e a ponte de pedestres de Miró & Rivera em Austin, Texas.E chama a atenção o escasso número dos membros do jet set internacional presentes na América do Sul.

O último volume da série – Europa – é fechado por Fernández-Galiano com tristeza e pessimismo, comentando que com a crise atual, a imagem apresentada corresponde a quase duas décadas de euforia econômica, que já se converteram em anacronismo. Afirmação certa quando pensamos na taxa de desemprego na Europa – 11 %, e que atinge especificamente na Espanha 25 % da população economicamente ativa –; a crise política na Grécia e na Itália – país politicamente dividido entre um corrupto e um cômico, e que não tem recursos para manter funcionando o MAXXI de Zaha Hadid –; e a perseguição aos imigrantes africanos e islâmicos, agora desnecessários, depois de terem sido explorados por décadas; além disso, o sonho da Europa unida quase  se transforma em pesadelo por conta das ameaças separatistas. Cabe reconhecer que a alta qualidade das obras aqui apresentadas é impressionante, com as lógicas diferenças de cultura e desenvolvimento dos diferentes países. Somente cabe citar os exemplos mais relevantes e pouco conhecidos, como o resgate do construtivismo dos anos vinte na Escola de Administração de Moscou de David Adjaye; o contextualismo urbano da Universidade Luigi Bocconi de Yvonne Farrell e Shelley McNamara em Milão; a quase incompreensível Elbphilharmonie de Herzog & Meuron em Hamburgo; o obsessivo pavilhão de Espanha na Expo de Zaragoza em 2008; o inacreditável diálogo entre arquitetura e natureza no Estádio Municipal de Braga de Eduardo Souto de Moura; a modéstia e severidade das obras nos países nórdicos, tais como a gélida Ópera de Oslo de Snohetta, e a minimalista igreja paroquial de Lassila Hirvilammi em Kärsämäki, Finlándia. Por último a ascética integração entre o velho e o novo no Neues Museum de David Chipperfield e Julian Harrap em Berlim; a elegância e sobriedade das obras olímpicas de Londres – o Velódromo de Hopkins Architects –; a persistente experimentação no tema da moradia dos arquitetos holandeses: os apartamentos de Frits van Dongen e o conjunto habitacional e de escritórios Silodam de MVRDV, em Amsterdam; e as criativas intervenções em prédios reciclados de Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal na França.

Os volumes da África e Oriente Médio, e o da Ásia e Pacífico, são, sem dúvida os mais apaixonantes. Primeiro, porque neles se percorrem áreas geográficas quase desconhecidas, com obras realizadas por arquitetos locais e estrangeiros em países  nunca presentes nas revistas canônicas. Segundo, porque os extremos da riqueza e pobreza são radicais e quase inimagináveis: desde a dissipação de recursos na península arábica, no Cazaquistão e na China, e a exasperante miséria de Bangladesh e de Burkina Faso. Ou a significação assumida pela arquitetura no Irã – país que somente conhecemos pela sua hipotética ameaça atômica –, onde existem 300 escolas de arquitetura com 150 mil estudantes. Então é uma constante surpresa descobrir um número considerável obras de qualidade, e ao mesmo tempo, verificar a existência de construções modestas com um profundo conteúdo social, de arquitetos jovens locais trabalhando para a comunidade. E a presença de alguns profissionais e estudantes europeus, dispostos a ajudar a sociedades africanas enraizadas na miséria e a desesperança. Não citarei as sofisticadas loucuras elaboradas pelos arquitetos do jet set no Cazaquistão – onde concordamos com a representação de Borat de Sacha Baron Cohen –; em Qatar, Dubai, Abu Dabi – onde além das torres mais altas do mundo, o projeto da cidade de Masdar de Norman Foster, poderia ser de utilidade na imagem de um futuro urbano ecológico –, no Japão, na China, em Cingapura, na Coréia do Sul, na Malásia, no Taiwan, na Austrália e no Egito; mas assinalar algumas emotivas pequenas obras, representativas das perspectivas que deveriam ser assimiladas como exemplos para o inesperado porvir do século XXI.

Na Índia, as ancestrais tradições religiosas e culturais têm a sua incidência na arquitetura que reflete também as particularidades ambientais e climáticas dos diferentes espaços geográficos. Em uma área desértica e isolada está localizada a escola Druk do Loto Branco, em Shey, construída em pedra e madeira, projeto do escritório Arup de Londres. A arquiteta alemã Anna Heringer, desenvolveu com a comunidade pobre o projeto e a construção do conjunto educacional DESI em Rudrapur, Bangladesh, realizado com barro e bambu, integrando uma expressão contemporânea com elementos tradicionais da cultura rural. Na Austrália a obra de Glenn Murcutt é sempre lembrada, exemplo de relacionamento harmônico entre arquitetura, materiais locais, clima e contexto natural. Na África, ocorreu uma significativa repercussão internacional as escolas de Diébédo Francis Kéré, na Burkina Faso, mas outros exemplos desenvolvem experiências semelhantes. Nas áreas rurais pobres o uso do barro, a madeira e o bambu, é uma constante nas pequenas obras sociais, como no centro para crianças com problemas motores em Orange Farm, Johannesburg, projeto de uma equipe de professores e estudantes da Universidade de Arte de Linz (Áustria); a escola e centro de formação em Chimundo, Mozambique, realizado por estudantes da Escola de Arquitetura de Bergen (Noruega), com grossos muros de sacos de areia; e o emotivo e original orfanato em Rakai, Uganda, de Koji Tsutsui, caracterizado pela livre composição geométrica das pequenas cabanas, situado em uma área rural identificada como a principal área de concentração do AIDS. Por último, a simples e elementar escola Abu Hindi para uma comunidade beduína em uma área desértica dos territórios palestinos, realizada com estrutura metálica e painéis de bambu; projeto para uma ONG, do escritório italiano ARCó.

Esta resenha poderia continuar com a descrição das grandes obras urbanas que estão surgindo nas cidades da Ásia, África e do Oriente Médio – Johannesburg, Beirute, Amam, Cairo, Doha, Istambul, Telavive –; no entanto, algumas já foram difundidas internacionalmente nas revistas de arquitetura. Cabe então afirmar que no conjunto das múltiplas publicações que contam em detalhe os sucessos da arquitetura contemporânea, os Atlas apresentam um inventário de edificações já conhecidas e muitas pouco divulgadas, mostradas nas 272 obras selecionadas, capazes de demonstrar que apesar dos negros vaticínios para o futuro urbano no planeta, imaginados por Rem Koolhaas – o junk space, – e por Mike Davis – o planet of slums –, é possível ainda a existência de uma arquitetura baseada em valores éticos e estéticos.

nota

NE
A presente resenha foi enviada pelo Roberto Segre no dia 6 março de 2013 e chegou às mãos do editor no dia 12 de março, dois dias após o trágico falecimento do autor. A mensagem enviada foi a seguinte: “Rio, 06/03/13. Abilio, não acredito que dediquei uma semana da minha vida para escrever este texto!!! No CD estão as fotos e o texto. No final tem a identificação das fotos. Um abraço. RS. Me avise quando chegue (sic) e verifique que (sic) o material está bom”. Era muito comum Roberto Segre nos enviar colaborações pelo correio, principalmente quando envolvia muitas imagens. No caso, parece que a decisão foi providencial para nos legar uma bem humorada mensagem, como também era do seu hábito. Mas esta foi diferente, pois foi póstuma.


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