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Resenha assinada por Rosana S.B. Parisi do livro “Arquitetura. Gustavo Penna. Impressões.”, de Gustavo Penna, Beatriz Magalhães e Guilherme Seara

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PARISI, Rosana S. B.. Provocações e sutilezas na obra de Gustavo Penna. Resenhas Online, São Paulo, ano 16, n. 186.02, Vitruvius, jun. 2017 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/16.186/6575>.


Para falar sobre o livro Arquitetura: Gustavo Penna. Impressões, recupero um episódio ocorrido no final de julho de 2016, quando realizava um trabalho de pintura de uma passarela juntamente com um grupo de alunos, próxima ao prédio 9 da PUC-Minas Poços de Caldas, onde o curso de Arquitetura e Urbanismo passaria a funcionar.

Absorta pela dinâmica do trabalho, fiquei longe do celular por muito tempo e, ao utilizá-lo novamente, observei um grande número de chamadas perdidas, cuja origem eu não reconhecia. Pouco depois, o aparelho tocou novamente e, em seguida, a voz que parecia ser de uma pessoa simpática, funcionária de um escritório, que identificou-se como secretária de Gustavo Penna, dizendo-me que o arquiteto desejava falar comigo. Uma surpresa, confesso, já que não falava com Gustavo desde os idos de 2002-2003, quando esteve em Poços de Caldas para participar de uma Semana de Arquitetura – período em que eu coordenava o curso. Engraçado, mas como me disse uma senhorinha há pouco tempo: a conversa parece ter sido retomada exatamente do ponto onde parou anos atrás.

Depois de um bate-papo inicial, o arquiteto falou sobre seu último livro, justamente Arquitetura: Gustavo Penna. Impressões, escrito com Beatriz Magalhães e Guilherme Seara, que seria lançado na sede do Instituto Moreira Salles – Poços de Caldas, em 08 de setembro.

A partir de então, sucessivos contatos foram realizados a fim de que pudéssemos envolver a universidade, assim como os professores e alunos da Arquitetura da PUC Poços de Caldas no evento. Em uma feliz coincidência, a data para o lançamento, que fora definida pelo escritório do arquiteto e pelo Instituto Moreira Salles, se inseria justamente durante o período em que a escola realizaria sua Semana de Arquitetura. Solicitei que me fosse enviado um exemplar do livro para uma análise prévia, uma vez que Gustavo pediu para que eu fizesse sua apresentação. Em poucos dias, o belo exemplar chegou-me às mãos.

A primeira vista, impressionaram-me a dimensão, o cuidado com a escolha de imagens, a forma de distribuição dos temas: fragmentos, desenhos e produção, além das fotografias impressionantes tomadas por meio de enquadramentos precisos. Não poderia deixar de mencionar a qualidade geral do trabalho e dos projetos criteriosamente escolhidos para dar conta de expressar o refinamento, a complexidade e a diversidade dessa trajetória dos quase 44 anos de trabalho de Gustavo Penna, assim como sua intensidade, riqueza e vigor.

Calmamente folheei o livro, “experimentei” a textura dos papéis escolhidos para a impressão de cada tema proposto. Com cuidado ainda maior, detive-me na leitura dos textos sucintos que acompanham os projetos apresentados, ou que se apresentam como reflexões: são textos que não apenas discorrem sobre as propostas projetuais, mas transcendem o campo da arquitetura, revelando a veia poética e o olhar atento do arquiteto para com a natureza, para com os lugares, para as sinuosidades do relevo e diversidade das paisagens de Minas Gerais. Leitura fácil, convidativa, simples e agradável de ser realizada.

Confesso que participar da apresentação de Gustavo no auditório lotado do Instituto Moreira Salles em Poços de Caldas, seguida de um debate e conversa do arquiteto com os presentes aproximou-me ainda mais da obra, tornaram-se mais claras as ideias desse profissional que, nas palavras de Roberto Segre, “integra a linguagem abstrata do mundo contemporâneo com a efervescência plástica barroca” (1).

O primeiro dos três temas do livro, “Fragmentos da memória” – apresentado de forma não linear e muito interessante – de início revela uma declarada afeição do arquiteto para com o artista e escultor também mineiro, Amilcar de Castro (1920-2002), que assina a logomarca do escritório Gustavo Penna Arquiteto e Associados. Sobre esse autor, afirma Penna: “com o mestre Amílcar aprendi que, ao dobrar uma chapa, você cria o lado de dentro e o lado de fora e, assim, altera o mundo em torno da peça. São chaves de pensamentos” (2).

A seleção e o tratamento das reproduções das imagens contidas nos chamados ‘fragmentos’ são muito bem-feitos e instigantes. Denotam claramente as lembranças presentes na trajetória de Penna, sejam em obras como a Escola Guignard (1994), os Pavilhões da Expominas (1998 e 2006) e o Memorial da Imigração Japonesa (2009) , entre outras. Assim como a sua poesia intensifica-se através das imagens do casarão histórico que fora de seu avô e que se tornou, desde o início de 1974, a  sede de seu escritório, situada no coração da área central da capital mineira. A essa altura, lembrei-me de Anatxu Zabalbeascoa, descrevendo em seu “Vidas Construídas, biografias de arquitectos” a personalidade de Frank Lloyd Wright, quando, em suas viagens ao oriente, encantado com as gravuras de pássaros e paisagens, passou a adquiri-las (3). Ao mesmo tempo, lembrei-me das clássicas imagens do escritório de Wright dos tempos da Taliesin, com um expressivo número de pranchetas. Na contemporaneidade, o belo escritório-espaço-praça de Gustavo Penna substitui as antigas pranchetas da Taliesin por computadores de última geração, por maquetes e objetos criados pelo arquiteto e sua equipe.

A aparente miscelânea de imagens presentes nessa primeira parte do livro é composta de significativos fragmentos memorialistas e de desenhos vigorosos. Encerra-se com um texto quase visceral, emocionado, em que o arquiteto acaba por se abrir para o mundo, resgatando suas memórias e a afetividade com a figura do pai, um misto de ídolo, construtor de Brasília, amigo, presente e ausente.

Na segunda parte da obra, Gustavo, a partir da escada - obra conceitual Ventura - entendida como síntese de como pensa a arquitetura, uma metáfora, discorre sobre o seu processo criativo e sobre o fazer arquitetônico iniciado com a pergunta, que mais uma vez é transformada em poesia concreta: por que faço arquitetura? Levantando diversos questionamentos, instiga o seu leitor a inúmeras reflexões a partir de palavras colocadas de forma clara, objetiva e intencional e explica que “quando a arquitetura ainda tem coisas a dizer, ela é naturalmente preservada, ela continua a aceitar novos usos com a maior dignidade, com a maior eficiência” (p. 64-65).

Com as palavras de Gustavo Penna, relaciona-se uma afirmação realizada por Cavalcanti em seu livro Ainda moderno? Arquitetura brasileira contemporânea (parte 1), de 2005: “acreditamos, eu e meu parceiro André Correa do Lago, que um modernismo em movimento, mais dialético e conciliador, começa a se delinear nos mais jovens arquitetos brasileiros. Uma arquitetura múltipla e plural praticada por profissionais que, sem reverenciar um tempo já passado, sabem nele encontrar riquezas e não fardos” (5). Esse texto transparece em Arquitetura: Gustavo Penna. Impressões. Observam-se as conexões que o arquiteto, de forma hábil e sutil, encontra e resgata de elementos essenciais, ora barrocos, ora modernos, ora contemporâneos, que se fazem perceber, tanto em sua concepção arquitetônica como em suas obras: várias metáforas de Penna evidenciam-se na segunda parte do livro.

O arquiteto adota uma estratégia peculiar para relacionar o desenho à natureza, transformando-o em “um grande emulador de perspectivas, uma grande moldura” (p. 76-77).

Com delicadeza e precisão, o enquadramento tanto da paisagem natural, quanto da paisagem construída é apresentado na sequência de belas imagens de obras como o Expominas – Centro de Feiras e Exposições de Minas Gerais (1998 e 2006), ou residências como a casa Feliciano (2004), a casa Lincoln (2007), a casa Lagoa Santa (2003), ou ainda, como o Parque Ecológico da Pampulha (2004), a casa Alphaville (2006), a Galeria Leila Pace (1996) e o Memorial à Imigração Japonesa (2009), além da casa Tiradentes (2006), a Escola Guignard (1994), a vila Gardner (2007) e o Monumento à Liberdade de Imprensa (1996). Se para Gustavo Penna “a arquitetura é um gesto de generosidade no acolhimento do outro, na interpretação da demanda do outro” (p. 111), tal gesto pode ser facilmente percebido nesse conjunto de obras.

A terceira parte do livro é concebida como um resgate da extensa e diversa produção do arquiteto ao longo dos quase 44 anos de trajetória profissional. A imagem da escada Ventura reaparece, impressiona com suas dobras e a noção de continuidade e fechamento, transmitindo, de certa maneira, a sensação de dois tempos: provocação e instigamento.

Parece-me em seguida, que a resposta se compõe pelos desenhos vigorosos, sutis, em que se percebe a continuidade de traços, o movimento, o enquadramento da paisagem – trazendo a natureza para dentro ou descortinando o fazer arquitetônico para fora, a sutileza da curva e a ortogonalidade das linhas e planos, como a força do pensamento de Penna “quando você faz um desenho você pré-visita os espaços. Essa intenção é muito mais ampla do que aquilo que fica grafado ou que você imagina” (p. 180-181).

A partir de então a publicação, depois de questionar se o ato de desenhar elimina o uso do computador, apresenta uma surpreendente mostra de projetos. São imagens interessantes, certeiras, geradas a partir de recursos computacionais, encerradas com a convicção de que possibilitam o registro de propostas que por não se concretizarem, permanecem como desejo e sonho.

O livro se concluí através de novas provocações onde Gustavo Penna torna evidente mais uma vez a sua preocupação com as cidades e a relação de suas obras com o espaço urbano. Ao mesmo tempo que deseja, afirma que “as cidades podiam ser mais integradas, múltiplas, visíveis, intervisíveis, permeáveis” (p. 297) e complementa: “por que não transformar o espaço das cidades de novo em cidades caminháveis? O que, sob sua ótica, deseja usar a cidade de maneira mais simples, então, continua: “de um modo diferente... com menos especialização, mais multiplicidade, mais interpenetração das coisas, dos valores, dos sentidos, dos meios, dos sonhos, para que isso possa ser usado por muita gente e de forma muito variada. E por muito tempo” (p. 297). Desejo poético e exequível, ainda que árduo, uma vez que exige extensas e complexas interrelações entre os diversos atores urbanos.

Com elementos convidativos, tanto para a apreciação quanto para a leitura, a publicação leva o leitor para conhecer o perfil de um arquiteto contemporâneo surpreendente, que imprime características referenciais da arquitetura brasileira em todo o conjunto de sua obra, seja arquitetura ou intervenções urbanas.

Pode-se dizer que a sutileza e a poesia presentes na trajetória do arquiteto, em seu texto, em seu gesto, em sua forma de ser, ver, desenhar e transformar com simplicidade, programas e encomendas com o “jeito mineiro”, traduzem a originalidade, a irreverência e a emoção que bem definem a arquitetura e as impressões de Gustavo Penna.

Croqui da escada Ventura, 1980
Desenho Gustavo Penna

notas

NE -  Fotos de Eugênio Paccelli, Hélio José Macie, Jomar Bragança, José Israel Abrantes, Leonardo Finotti e Marcílio Gazzinelli

1
RATTENBURY, Kester; BEVAN, Rob; SEGRE, Roberto. Arquitetos contemporâneos. Rio de Janeiro, Viana & Mosley, 2004. Do mesmo autor, ver: SEGRE, Roberto. Gustavo Penna. Rio de Janeiro, Viana & Mosley, 2009.

2
Frase extraída do website do arquiteto: http://www.gustavopenna.com.br/. Acesso em 28/02/2017.

3
ZABALBEASCOA, Anatxu. Vidas construidas: biografias de arquitectos. Barcelona, Gustavo Gili, 1998.

4
CAVALCANTI, Lauro; LAGO, André Corrêa do. Ainda moderno? Arquitetura brasileira contemporânea. Arquitextos, São Paulo, ano 06, n. 066.00, Vitruvius, nov. 2005 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.066/404>.

5
Ver também: BORGES, Celina. Gustavo Penna: arquiteto. Belo Horizonte, Celanto, 2001; BORGES, Celina. O centro de Belo Horizonte. Blog de Gustavo Penna, 15 set. 2011 <http://blog.gustavopenna.com.br/2011/09/o-centro-de-belo-horizonte-por-celina-borges/>.

Sobre a autora

Rosana Soares Bertocco Parisi é arquiteta, especialista e mestre em urbanismo (FAU PUC-Campinas 1998 e 2002), doutora em ciências da engenharia ambiental (EESC-USP 2008), professora adjunta IV da PUC-Minas campus Poços de Caldas desde 1998.

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resenha do livro

Arquitetura Gustavo Penna impressões

Arquitetura Gustavo Penna impressões

Beatriz Magalhães, Guilherme Seara and Gustavo Penna

2014

186.02 livro
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