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“O Gambito da Rainha”, série da Netflix, sucesso de público e crítica, traz o design de produção e a estética dos interiores referenciada na cenografia como ponto alto.

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PEIXOTO, João Paulo Campos. Cenografia e design de interiores. Cruzando referências de O Gambito da Rainha com elementos da história do design. Resenhas Online, São Paulo, ano 20, n. 233.04, Vitruvius, maio 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/20.233/8106>.


21 horas e 58 minutos do dia 22 de dezembro de 2020. Acabo de terminar os sete episódios de O Gambito da Rainha, produzidos e disponibilizados pela Netflix. Assisto a todos os episódios da minissérie tal qual um filme extenso, quase sem pausa. Não acreditei que fosse consumir nenhum produto cultural de qualidade significativa após o dia 20 de dezembro, momento em que geralmente me cerco de especiais natalinos de gosto questionável. O Gambito da Rainha (1) contrariou essa expectativa. Na necessidade urgente de procrastinar uma imensa quantidade de artigos, trabalhos e um memorial de qualificação do mestrado, todos a serem apresentados nos meses que iniciam o ano de 2021, me vi tentado a iniciar uma incursão nessa narrativa que atraiu mais de 64 milhões de espectadores nas primeiras quatro semanas de seu lançamento na plataforma de streaming (2). É irônico pensar que no mesmo minuto em que termino de assistir, resolvo escrever uma resenha.

A protagonista, Elizabeth Harmon, compra mobiliário moderno. Na parede está escrito “modern living”, “viver moderno” em tradução livre. Cena do filme O Gambito da Rainha, direção de Scott Frank
Foto divulgação [Netflix]

A incursão pelo universo enxadrista criado por Scott Frank e Allan Scott, tendo por base o romance homônimo de Walter Tevis publicado em 1983, é, para dizer o mínimo, entretenimento na sua melhor definição. Narrativas que envolvem superação geralmente são bastante cativantes ao público. Soma-se a esse enredo uma figura feminina que se empodera, conflitos familiares, drogas, personagens coadjuvantes simpáticos e bem escritos, o xadrez enquanto esporte (e meio de superação) e a atmosfera de competição. Seria improvável que todos esses elementos reunidos em uma produção bem feita resultassem em um produto ruim. Mas O Gambito da Rainha é muito mais que uma produção “bem feita”. Certamente não é por acaso que tenha quebrado recordes de audiência em uma plataforma que, ao início do ano, contava com mais de quatro mil títulos (3). Uma hipótese que me ocorre para explicar o diferencial da série recai em um aspecto que perpassa toda a trama: o design de produção e a estética dos interiores referenciada na cenografia.

Ao acompanharmos a trajetória ascendente de Elizabeth Harmon enquanto enxadrista, somos levados por localizações diversas e ambientes cujo design do interior enche os olhos: Cincinnati, Las Vegas, Cidade do México, Paris, Moscou. Ambientes que se contrapõem ao anterior cenário do orfanato, para onde Elizabeth é levada após o falecimento de sua mãe, antes de se descobrir um prodígio no xadrez. Nessa perspectiva, o ambiente que mais se destaca é o de sua própria casa. A nova casa, para onde a protagonista é levada depois de adotada, é um chamariz a parte: seja com a decoração pretensamente datada de sua mãe, seja com a mobília moderna adquirida posteriormente. Tudo é trabalhado aos mínimos detalhes.

Sala de estar, estampa nos papéis de parede, no tapete e no estofado da poltrona. Cena do filme O Gambito da Rainha, direção de Scott Frank
Foto divulgação [Netflix]

O designer de produção da série, Uli Hanisch, em entrevista à revista Architectural Digest, conta que os interiores retratados são, na verdade, adaptações de ambientes em edifícios na cidade de Berlim (4). Isso, a meu ver, reforça a ideia de um projeto de design que, apesar de recorrer à certos clichês, é executado em maestria diante de seu “programa de necessidades”: o retrato de um local em determinada época.

“Por causa da história de Berlim ser separada entre oeste e leste, temos muito desse tipo de arquitetura voltada para o mundo ocidental dos anos 1960, onde a Berlim Ocidental tentava se mostrar como parte do mundo ocidental, enquanto a Berlim Oriental estava olhando diretamente para Moscou” (5).

A oportuna escolha de filmagem em Berlim não foi aleatória. Uli Hanisch é alemão, de Nuremberg, e estudou artes gráficas em Düsserldorf. Em seu portfólio constam o design de produção de filmes amplamente conhecidos, como Perfume (2006) e Cloud Atlas (2011). O primeiro o rendeu o Prix d´Exellence of the European Film Academy para melhor design de produção. N’O Gambito da Rainha atuou em conjunto com a set decorator Sabine Schaaf. Juntos, Hanisch e Schaaf transformaram, como aponta a reportagem da revista Architectural Digest, a prefeitura do bairro de Spandau em Berlim no lobby do hotel fictício Gibson em Cincinnati; o Palais am Funkturm, projeto de Bruno Grimmek nos anos 1950, no Hotel Mariposa em Las Vegas; e o teatro Friedrichstadt-Palast em um hotel de inspiração Art déco na Cidade do México (6).

Friedrichstadt-Palast, Berlim
Foto divulgação [página Facebook do Friedrichstadt-Palast]

A seleção dos objetos a compor cada um dos espaços em cena é bastante cuidadosa, sem que nenhuma peça desponte fora de contexto ao olhar do espectador. O que não é justificativa para que o design de produção passe desapercebido: há uso ostensivo de cores e estampas marcantes nas paredes, nos estofados, nas roupas. A cenografia é trabalhada nos mínimos detalhes. Não é preciso ir além de livros basilares da história do design de interiores para encontrar referências, ainda que as imagens construídas misturem toques do contemporâneo à referencias ainda anteriores aos anos 1950. O audiovisual não é essencialmente um registro histórico fiel, suas referências podem ser reinterpretadas e mescladas – parte da beleza reside justamente nisso. O livro A History of Interior Design (7), publicado pela primeira vez em 2000, de John Pile e Judith Gura, por exemplo, volume que cobre quase toda a história do design de interiores, apresenta múltiplas imagens que poderiam constituir referência ao design de produção da série. É difícil afirmar que Uli Hanisch e Sabine Schaaf tenham recorrido a essa publicação em específico para consultar referências, mas certamente o arcabouço imagético que se tem dos 1950s, 1960s e 1970s se deve, em parte, a publicações como essa.

Larsen Design Studio, foyer da Rainbow Room, estampa em padronagem geométrica nas paredes e no piso, Rockfeller Center, Nova York, 1996
Foto divulgação [PILE; GURA, 2014]

 

Quarto de Elizabeth, estampa xadrez nos papéis de parede combinada com o floral na cama. Cena do filme O Gambito da Rainha, direção de Scott Frank
Foto divulgação [Netflix]

Um elemento marcante a ser discutido nos interiores de O Gambito da Rainha é o uso de papéis de parede e elementos têxteis com estampas em padronagens diversas. Estampas florais, geométricas, xadrez, coloridas. Na história dos projetos de interiores, esses elementos (em produção industrial) surgem em linha com a ascensão da estética modernista, a despontar nos anos 1920s, dominante sobretudo nos de 1960, 1970 e 1980, mas o uso de estampas e padronagens nas paredes, por exemplo, data de muito antes (8). Segundo John Pile e Judith Gura, a ampla aceitação da estética modernista impulsionou os principais fabricantes de têxteis a produzir uma vasta gama de padrões de cores simples e sólidas, além de listras, xadrez e outros desenhos geométricos adequados para uso em estofados e cortinas, além de estampas, tecidos florais e outros motivos decorativos usados para ornamentação de interiores (9). Na série, é lógica a associação do uso ostensivo da estampa xadrez, uma vez que o assunto central da trama é o esporte que dá o nome à essa mesma estampa.

Design de papel de parede de William Morris, Inglaterra, 1876
Foto divulgação [PILE; GURA, 2014 p. 273]

 

Sala de estar, com destaque para o papel de parede. Cena do filme O Gambito da Rainha, direção de Scott Frank
Foto divulgação [Netflix]

Sobre o uso dos papéis de parede e suas estampas, Sabine Schaaf, também em entrevista à Architectural Digest (10), conta que a ideia surgiu da referência a imagens de casas americanas do mesmo período, com papéis de parede e tecidos combinados, estampados de forma exagerada. É curioso se atentar ao fato de que, apesar da estética modernista e a clara referência aos anos 1960 e 1970 na mobília, alguns dos papéis de paredes e a composição dos ambientes se assemelhem com referências de momentos anteriores, como à William Morris e ao Arts & Crafts e até a interiores em estilo vitoriano de casas da classe média. Isso tudo, sem que a imagem do conjunto e o aspecto “moderno” sejam perdidos.

Robert Taft, Casa do escritor Thomas Carlyle, London, 1857
Foto divulgação [Wikimedia Commons]

 

Quarto da Sra. Wheatley. Cena do filme O Gambito da Rainha, direção de Scott Frank
Foto divulgação [Netflix]

Segundo John Pile e Judith Gura (11), os interiores vitorianos de casas médias denotavam um “ornamental chaos”. Até mesmo as casas mais modestas teriam estampas decorando todas as superfícies. Restrições de gosto ou financeiras, contudo, implicavam em certo “controle” dessa aparente desordem decorativa, resultando, geralmente, em um efeito de “charme aconchegante”. Esse efeito aconchegante em meio à uma espécie de caos decorativo nos remete novamente à cenografia da casa de Beth.

São muitas as referências que poderiam ser cruzadas, e uma pesquisa mais minuciosa certamente resultaria em maiores (e até mais certeiras) comparações. É interessante ressaltar que, através de um produto audiovisual, um amplo referencial iconográfico pode ser articulado. Do Arts & Crafts ao modern living, muito pode ser absorvido através dos interiores de O Gambito da Rainha.

A presente reunião de referências demonstra que o design dá o tom à época em que a narrativa ficcional se passa, ao mesmo tempo em que colabora para compor a atmosfera ímpar da produção. Não só o design de interiores e o mobiliário têm essa função, aliás, mas elementos como o vestuário e a beleza (cabelo e maquiagem) também desempenham papel igualmente significativo nessa construção imagética lida pelo espectador. O Gambito da Rainha certamente faz toda essa construção com maestria. Ao criar imagens visualmente tão ricas, a série permite que se faça esse exercício de identificação de referências tão diversas através da história do design. Pode ser que nenhuma dessas referências tenham sido, de fato, utilizadas de forma intencional. Ainda assim, a comparação se faz justa. Não se deve, porém, atribuir a esses elementos uma importância maior que aquela que lhes cabe. Sem um bom roteiro e uma boa direção, o design de produção não garantiria a qualidade do produto. Não é o design que torna a série imperdível, mas talvez esse seja um de seus trunfos. Um, dentre vários outros.

notas

1
O Gambito da Rainha (“The Queen’s Gambit”), 2020, inglês, Estados Unidos, 393min. Direção de Scott Frank. Roteiro de Scott Frank, Allan Scott e Walter Tevis. Design de produção de Uli Hanisch.

2
YAO, Rodrigo. O Gambito da Rainha quebra recorde de audiência e se consagra na Netflix. Observatório de séries, dez. 2020 <https://bit.ly/34A2zjW>.

3
DEMARTINI, Felipe. Quantos filmes estão disponíveis na Netflix? Uma resposta aproximada. Canaltech, 26 fev. 2020 <https://bit.ly/3uCL9Of>.

4
WALLACE, Rachel. Why is everyone so obsessed with The Queen’s Gambit? Architectural Digest, nov. 2020 <https://bit.ly/2R8l63X>.

5
“Because of the history of Berlin being separated by west and east, we have a lot of this kind of Western-world-orientated architecture from the ’60s where West Berlin was trying to show off to be part of the Western world, while East Berlin was looking straight to Moscow”. WALLACE, Rachel. Op. cit.

6
Idem, ibidem.

6
PILE, John; GURA, Judith. A History of Interior Design. 4th edition. New Jersey, Wiley, 2014.

7
Idem, ibidem, p. 415.

8
Idem, ibidem, p. 414.

9
WALLACE, Rachel. Op. cit.

10
PILE, John; GURA, Judith. Op. cit.

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