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RODRIGUES, Felipe SS. São Paulo, de volta às alturas. Edifício Santos Augusta de Isay Weinfeld. Drops, São Paulo, ano 18, n. 127.08, Vitruvius, abr. 2018 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.127/6956>.



Os edifícios Sampaio Moreira, Martinelli, Banespa (atual Santander), Itália, Mirante do Vale, Condomínio São Luis e Robocop são, cada um a seu tempo, algumas das materializações em altura na cidade de São Paulo que tinham como ambição, para além da multiplicação do pão corporativo, sinalizar a capacidade técnica, a pujança financeira, o marco urbano, a nova região de desenvolvimento, o futuro cyber-high-tech, dentre outras realizações. É possível que edifícios banais, feitos estritamente para arrendar, sempre tenham existido, mas a produção comercial excepcional também nunca foi tão carcomida quanto atualmente. Hoje, são edifícios do século 21: Premium, Plaza e Platinum, barateados, feios e certificados. Ainda, usam do bótom sustentável como álibi – exógeno, mas eco-friendly –, criado pelo tio Sam para garantir que empresas-sam se estabelecam em edifícios-sam, com produtos-sam, gerando dividendos-sam onde quer que estejam.

Mas, faz algum tempo que os edifícios comerciais haviam deixado de ser objeto de interesse coletivo, do cidadão comum e até do especialista. Desde que as vidraçarias assumiram o papel do embelezamento – de embrulhar em celofane multicolorido a maior metragem quadrada que a legislação permitisse – o papel do arquiteto nestes empreendimentos foi minimizado a validar as plantas e pôr o laço no embrulho; um chanfro ali, uma curvinha aqui, e de raio curto, para que não se perca a rentabilidade da laje. Nem mesmo escritórios de arquitetura tradicionais neste programa, como Botti Rubin ou Aflalo e Gaperini – com arquitetos, filhos de arquiteto, netos de arquiteto – com décadas acumuladas de experiência, parecem ter tido algum crédito com seus velhos clientes investidores para algo novo, que não seja um esqueleto otimizado, revestido - como suavizaria Paulo Mendes da Rocha - em "cristal". Conforme esse tema foi ficando maçante restou apenas o interesse das revistas especializadas, que têm como principais anunciantes os fornecedores destes produtos semindustrializados e semitecnológicos, vendidos em grandes metragens para encapar edifícios sem arquitetura.

Trata-se da criatura devorando o criador. O pavimento-tipo, o edifício provido de qualidades anônimas e neutras é uma invenção do novo mundo. Segundo Rem Koolhaas sobre o Typical Plan, em seu livro S,M,L,XL, o edifício de pavimento-tipo é o marco zero da arquitetura, é o desenho extirpado de singularidades e especificidades, a promessa de um futuro pós-arquitetura. É o contrário da planta atípica do final da história da arquitetura europeia. Segundo o teórico, Bunshaft, Harrison e Abramovitz – a vanguarda dos arquitetos “apagadores de arquitetura” – representam truques de desaparecimento tão bem-sucedidos que hoje são completamente esquecidos; com sorte, o futuro reserva um destino junto deles para nossos contemporâneos que trivializaram a técnica (1).

Nesse sentido o Santos Augusta entra na contramão. A começar pelo arquiteto autor, Isay Weinfeld, que não é especialista em arquitetura comercial; faz arquitetura. Conforme rumoram que esteja realizando sua última residência unifamiliar no Brasil – programa pelo qual o arquiteto é reconhecido – seus edifícios residências e comerciais se concretizam em Mônaco, Nova Iorque, Miami, Belgrado e Viena. Pedro Moreira Salles, patrono do grande concurso do novo IMS Paulista, quando perguntado sobre o motivo de ter deixado de fora da seleção o arquiteto, é contundente – “Isay Weinfeld está em outro patamar, não precisava deste projeto, e nosso interesse foi dar a chance para uma prática em ascensão” (2). Não que receba todas as encomendas importantes como acontecia com Oscar Niemeyer, mas a fala de Moreira Salles esconde o fato de que o arquiteto é unanimidade em um círculo social específico, que transita entre as belas residências do arquiteto. Ainda que o grato reconhecimento tenha lhe tolhido de realizar um centro cultural na Paulista, aos poucos a experiência individual, e para poucos, da arquitetura de Weinfeld chega ao coletivo. Em São Paulo, o Santos Augusta ajuda a pavimentar essa nova trajetória.

O projeto começa na guia da calçada, no desenho do piso, nas grelhas especiais que envolvem as árvores, no desenho de todas as interferências urbanas pré-existentes. Rememora, imediatamente, o projeto da agência do Unibanco de Poços de Caldas de 1978, quando ainda recém-formado, dividia sociedade com o arquiteto e mestre local da Bauhaus, Aurelio Martinez Flores. Naquele projeto, chamava a atenção, além destes elementos, o desenho da cabine do ponto de táxi na esquina da construção. Coincidentemente, tanto lá como aqui, volumes cegos revestidos em pedra e sobrepostos, sintetizam a fisionomia da obra, com o fato curioso de que o Unibanco talvez tenha sido uma das primeiras experiências com inserts metálicos no Brasil para fixação de placas de pedra, em oposição às coladas diretamente na alvenaria.

Nada de halls de acesso distintos, com pé-direito triplo e marmorizados – verdadeiros mausoléus para os vivos. A recepção do Santos Augusta é discreta, convidativa, e acontece junto e misturada ao bar-café e bilheteria do teatro que o ocupa o primeiro volume, logo acima. A superposição programática é o lugar do risco, do atrito, uma prática corajosa em todas as escalas, notadamente contemporânea; no caso de Weinfeld, travestida em aparente sisudez. Aqui se resgata uma estratégia empregada a oito quadras dali, no Hotel Fasano de 2003, quando o arquiteto inverteu a lógica da recepção hoteleira, e dispôs o bar no acesso, e a sempre monótona bancada de recepção nos fundos; afinal, conclui-se diante do executado: o térreo dos edifícios é um espaço valoroso demais para nada abrigar. Sobretudo, na confluência de uma alameda comportada com uma rua pop-rock, onde espera-se que tanto o bar da recepção quanto o restaurante no quarto pavimento, sejam mais Augusta e menos Santos, num Tim Maia meets Jacques Tati – a festa granfina de Playtime, descendo a ladeira.

Cada volume acima recebeu um tratamento diferente no quartzito do Espírito Santo – liso, ranhurado, levigado, apicoado –, mas os panos de vidro e janelas alternam-se sequencialmente entre os blocos. De dentro, estas janelas são uma dose reconhecível de humor – sátira do moderno, tal as múltiplas colunas espelhadas do Edifício Minneapolis de 2004 – formam dípticos e trípticos da paisagem, dentro do campo de visão que acaba por valorizar a vista que emolduram; são altamente contra intuitivas, e levantam suspeita dos locatários, acostumados ao que estão acostumados a acostumar. No topo, o último volume não chega a ser o sky pavilion proposto pelo OMA para o Rothschild Bank, mas dá a condição de identidade para que uma única empresa mencione o volume que ocupa.  

Enquanto a vacância nas torres comercias continua alta pela cidade, o Santos Augusta tem mais de 50% de suas lajes alugadas antes da inauguração; localização importa, e arquitetura também. Trata-se de liquidez versus rentabilidade – algo que muitos investidores seguem sem distinguir. O primeiro conceito diz respeito à capacidade do ativo de se transformar em dinheiro, enquanto o segundo se refere ao percentual de remuneração que você receberá ao aplicar nele. Há investimentos que oferecem melhor rentabilidade, mas pouca liquidez. Segundo Otávio Zarvos, conhecido incorporador de edifícios de médio porte singulares – “os prédios autorais, sem dúvida, possuem alta liquidez e valorizam o entorno, pois tão importante como contar com a experiência de um arquiteto gabaritado é ter a garantia que seu imóvel será rentável durante décadas” (3).

Sentado na segunda fila da Avenida Paulista, introvertido do chão e metropolitano do alto, sem fazer feio para seus vizinhos antigos – o Conjunto Nacional (David Libeskind, 1956) e Edifício Plavinil-Elclor (Rino Levi, 1961) –, o Santos Augusta de Isay Weinfeld, desenvolvido para Fernando Tchalian da REUD, engrossa o caldo cultural com seu teatro ao mesmo tempo que entrega acomodações de ponta para uma região que se acreditava esgotada. São Paulo, aos poucos, de volta às alturas.

notas

1
KOOLHAAS, Rem; MAU, Bruce. S, M, L, XL. Nova York, The Monacelli Press, 1995. p.343.

2
SALLES, Pedro Moreira. Depoimento a Felipe SS Rodrigues, 22 mar. 2017, para a dissertação de mestrado: RODRIGUES, Felipe de Souza Silva. Aurelio Martinez Flores: a produção do arquiteto mexicano no Brasil (1960-2015). Dissertação de mestrado. Orientador Abilio Guerra. São Paulo, FAU Mackenzie, 2018.

3
Conceito “prédio ótimo para” valoriza arquitetura e garante liquidez a investidores. Disponível in <http://guiaconstruirereformar.com.br/noticia_6215-conceito_pr_dio_timo_para_valoriza_arquitetura_e_garante_liquidez_a_investidores.htm>.

sobre o autor

Felipe SS Rodrigues é mestre em arquitetura (FAU Mackenzie, 2018) com estudos complementares na New Jersey Institute of Technology (2012) e no Pratt Institute em Nova York (2013). Colaborou com o arquiteto Isay Weinfeld (2011) e com Rem Koolhaas no OMA de Roterdã (2013). Atualmente é arquiteto do processo de reconstrução do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo.

 

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127.08 edifício comercial
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