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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Sobre a planta em arquitetura, objetivando mais que seu reconhecimento como elemento básico na definição da ordem geométrica, reafirmar seu papel e seu valor como elemento central na compreensão da dimensão experiencial / topológica da arquitetura

english
The plan in architecture is through this text not only recognized as a basic element for defining the geometrical order, but as a central element for understanding the dimension of the experience/topology

español
La planta en arquitectura tiene que ser reconocida más allá de su rol como elemento básico de la definición de un orden geométrico, pero afirmar su valor en la comprensión de la dimensión topológica y de la experiencia


how to quote

AGUIAR, Douglas Vieira de. Planta e corpo. Elementos de topologia na arquitetura. Arquitextos, São Paulo, ano 09, n. 106.07, Vitruvius, mar. 2009 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.106/70>.

Introdução

Nos dias que correm, tempos em que o projeto arquitetônico auxiliado por computador é capaz de produzir infinitas variedades de formas inusitadas, soa bizarro que alguém ainda escreva sobre a planta; a planta baixa, essa aparentemente trivial descrição espacial. O propósito, no entanto, desse memorial das propriedades e significados imersos na planta arquitetônica, é simplesmente decorrência do atual momento da disciplina, um momento em que os produtos daquilo que passou a ser denominado arquitetura digital tem revelado, em paralelo à produção de formas arquitetônicas exóticas, um crescente distanciamento da experiência espacial da arquitetura e um quase generalizado descaso com a inserção do corpo na equação arquitetônica. Na mão contrária a argumentação dada no que segue objetiva relembrar, e de certo modo recuperar, as propriedades topológicas da planta arquitetônica ao domínio operativo da disciplina e sobretudo ao que se refira ao ensino do projeto arquitetônico. Mais que seu reconhecimento como elemento básico na definição da ordem geométrica, é objetivado no que segue reafirmar o papel, e o valor, da planta como elemento central na compreensão da dimensão experiencial / topológica da arquitetura.

Objetos em relação

Enquanto a geometria revela um aspecto manifesto e percebido dos objetos – ela tem uma forma, é vista em pontos, linhas e superfícies – a topologia é menos visível. De fato as características topológicas – decorrentes do arranjo espacial - de um objeto arquitetônico, seja ele edifício ou situação urbana, são invisíveis em sua totalidade.  A topologia está escondida; imersa em relações espaciais. A planta arquitetônica é uma explícita descrição geométrica que carrega uma implícita descrição topológica. Enquanto a geometria é, a topologia se refere a. Geometria é local; a coisa em si própria. Já a topologia se refere ao mesmo objeto em relação a, ou como parte de ou inserido em. Topologia subentende relações; sejam essas locais ou entre o local e o global. A topologia tende a ser sistêmica; todas as partes tendem a afetar todas as partes. Seguindo a definição clássica, a topologia se refere a propriedades espaciais não afetadas por modificações de forma e/ou tamanho. (2) Topologia compreende fractalidade; relações espaciais similares ou idênticas que ocorrem em diferentes escalas ou, de outro modo, relações espaciais idênticas que se verificam em objetos e agregações de formas geométricas distintas. A ampliação do conceito permite que consideremos a topologia como o estudo das configurações espaciais em geral ou ainda, o estudo das relações espaciais. Assim sendo as formas espaciais, tanto na escala da edificação quanto na escala da cidade são essencialmente topológicas. Em virtude dessa essência topológica a configuração espacial – o modo de arranjo dos objetos no espaço – é elemento determinante do comportamento espacial das pessoas isto é, o desempenho espacial de edifícios e situações urbanas é naturalmente decorrente de características topológicas. Desempenho espacial no presente contexto se refere ao modo como a arquitetura, tanto na escala do edifício quanto na escala da cidade, opera com relação às necessidades espaciais das pessoas. Pode-se dizer que desde o ponto de vista das pessoas e, mais especificamente, do movimento dos corpos, o manejo do espaço é essencialmente topológico. Nesse contexto a planta arquitetônica emerge como descrição central do comportamento espacial humano. A planta contém o movimento dos corpos e esse movimento ocorre segundo relações topológicas. É oportuno nesse aspecto que relembremos as palavras de Robin Evans:

‘Se algo há sendo descrito numa planta arquitetônica esse algo é a natureza das relações humanas, pois os elementos cujas linhas ela registra – paredes, portas, janelas e escadas – são empregados primeiramente para dividir e num segundo momento para seletivamente re-agrupar os espaços habitados’. (3)

Descrição ambígua

A planta, no entanto, suscita sentimentos controversos e é vista pode-se dizer com certo desconforto pela disciplina, desconforto esse decorrente de um natural paradoxo interno; muito embora descreva espaços ela o faz de um modo não espacial, um modo bidimensional. Dificuldades com descrições em planta são particularmente notadas nos cursos de arquitetura onde estudantes são em geral encorajados a produzir imagens de um objeto virtual antes mesmo de que seja definida a distribuição espacial dessa imprevista totalidade. No entanto freqüentemente os estudantes não resistem à tentação e iniciam o procedimento de projeto a partir de uma descrição em planta. E nesse momento os professores se apressam em apontar os indícios daquilo que é comumente denominado como plantismo; o desenho inconseqüente em planta que desconsidera as implicações tridimensionais.

A desconfortável posição da planta no discurso arquitetônico é particularmente percebida nos círculos mais intelectualizados onde a arquitetura assume o status de arte e onde o foco da conversa tende a recair na imagem do edifício. Aí, o descaso com a planta está certamente ligado ao seu caráter abstrato. Muitos não estando confortáveis com a leitura da planta assumem uma posição defensiva referindo-se à mesma como uma mera descrição técnica; um guia para a construção onde medidas e especificações são fornecidas.  A dificuldade de ler o comportamento sócio-espacial das pessoas através da planta parece ser, no entanto, generalizado. Surpreendentemente essa dificuldade transcende ao leigo e inclui também o especialista, o arquiteto, aquele que deveria ter essa percepção como centro de sua especialidade. Esse tipo de cegueira está de certo modo ligado à imagem pública que a disciplina da arquitetura carrega; uma imagem que tende a ser associada ao espetacular e que em geral está dissociada da experiência espacial reconhecida pelo senso comum. Edifícios são em geral admirados em virtude de sua presença, imagem ou estilo. Nesse contexto, para o leigo, assim como para a maior parte da crítica especializada, a espacialidade conta pouco e menos ainda o modo como as edificações são utilizadas. A leitura errada, a leitura inadequada ou a não-leitura da planta arquitetônica parece desempenhar um papel preponderante nessa quase generalizada incompreensão da essência topológica da arquitetura.

Descrição virtual

A planta fornece, entre outros elementos, uma descrição sintética do comportamento espacial das pessoas e sua força reside no poder de síntese. Ela confere ao arquiteto um superpoder; a capacidade de ver simultaneamente um conjunto de espaços, conjunto esse que de outro modo seria inalcançável à visualização. A planta é simultaneamente real e irreal. Ela é graficamente real ainda que desde o ponto de vista da experiência espacial, seja irreal. Por descrever o uso do espaço ela tem o caráter de um instrumento de virtualidade. As múltiplas seqüências espaciais disponibilizadas em um conjunto de espaços qualquer estão ali registradas. No entanto somente o olho treinado é capaz de alcançar a visão serial através da leitura da planta. Na linha sugerida por Cullen (4), o deslocamento do observador em movimento implica na permanente transformação de uma visão existente em uma visão emergente; uma condição de permanente virtualidade. Essa seqüência de imagens que se descortina paulatinamente ao observador em movimento é inerente à descrição espacial em planta. Cullen tange essa virtualidade em seus diagramas. A planta, portanto, é um instrumento de simultaneidade; uma descrição de espaço-tempo e como tal incorpora naturalmente uma descrição de movimento.

A planta é uma descrição espacial que estabelece dois tipos de ordem. A primeira, e mais evidente, é a ordem geométrica. Esta se baseia nas condições de regularidade / irregularidade e repetitividade / não repetitividade de linhas, pontos, superfícies e sólidos. A segunda é a ordem topológica. Esta é dada pelo padrão de movimento i.e. pelo conjunto de percursos ou rotas geradas pela planta. A ordem topológica revela o modo como os edifícios são utilizados - ou apreendidos - tanto por usuários regulares, seus habitantes, quanto por usuários ocasionais, os visitantes. É sabido da experiência que a ordem topológica define características espaciais que tornam o espaço arquitetônico ou mais ou menos inteligível ao usuário. Todo e qualquer arranjo espacial produzido pelo homem conterá um inerente sistema de rotas que dará suporte à imensa variedade de programas / eventos que constituem a vida humana.

Levando um passo adiante a descrição dessas duas ordens, podemos a elas referir como a ordem dos conceitos por um lado e a ordem das experiências por outro. Ou ainda, em outras palavras, a dimensão intelectual da arquitetura por um lado e o modo como o espaço é ou será na prática utilizado, por outro (5). A ordem dos conceitos está expressa na geometria. Ela é visível na planta; descrita através de paredes e mobiliário. Já a ordem da experiência espacial é invisível; ainda que seja – ou pelo menos deva ser – conseqüente à posição das paredes e do mobiliário. No entanto em geral este não é o caso. Tschumi, nessa linha, sugere a existência de uma espécie de contradição interna na arquitetura; uma contradição natural entre o conceito abstrato de espaço e a experiência espacial propriamente dita. Sugere o autor que em paralelo, e relacionado a essa contradição, está o fato de os corpos serem freqüentemente indisciplinados, se comportando espacialmente de um modo diverso daquele programado. Ainda que essa contradição seja histórica ela vem sendo dramaticamente exacerbada nos tempos atuais quando o corpo parece ter perdido espaço na equação arquitetônica. Função, zoneamento, outros modos organizacionais, geometria, tecnologia e espetáculo vêm substituindo a experiência corporal da arquitetura.

A planta, muito embora seja uma descrição conceitual, carrega em si, de modo implícito, o movimento dos corpos.  A oposição entre o conceito de espaço - visível na planta - e a experiência de espaço – essa de mais difícil visualização – dá origem ao que podemos denominar como efeitos invisíveis, ou seja, a performance espacial inesperada de edifícios e situações urbanas. Isso é em geral conseqüência de uma leitura equívoca da planta ao longo da etapa de projeto. São as situações onde muito embora a geometria esteja sob controle, o mesmo não ocorre com o padrão de movimento dos corpos no espaço. De fato a arquitetura pode ter um desempenho positivo, auxiliando desse modo as pessoas em suas necessidades espaciais, ou um desempenho negativo, dificultando então a relação das pessoas com o mundo físico. No entanto a hipótese de que a essência da arquitetura esteja na busca de uma estruturação positiva da sociedade e do mundo físico não pode ser verificada de modo direto como se a resposta arquitetônica adequada a um determinado problema seja naturalmente decorrente da busca incansável de um casamento perfeito entre o conceito de espaço (forma) e a experiência do espaço (uso). De fato no fazer arquitetônico, quando esse é exercitado de modo positivo, o conceito / partido adotado é capaz de agregar à experiência espacial algo que transcende ao uso originalmente programado. É justamente sob tais condições que a arquitetura é elevada à condição de arte social e é desde essa perspectiva que a relação entre o corpo e a planta deve ser enfrentada.

Corpos em movimento

Imersa em sua superfície ou aparência geométrica, a planta arquitetônica esconde uma essência topológica que determina o movimento dos corpos no espaço. A presença do corpo, e mais precisamente, dos corpos em movimento, é natural no espaço arquitetônico e, portanto, inerente à planta arquitetônica. Nessa linha o arquiteto japonês Tadao Ando sugere que ‘um lugar não é o espaço absoluto da física newtoniana ou seja, um espaço universal, mas sim um espaço com direcionalidade significante e com uma densidade heterogênea que nasce de uma relação que denomino como o shintai . . . o corpo em sua relação dinâmica com o mundo torna-se o shintai’ (6) O reconhecimento dos corpos em movimento como elemento central na planta arquitetônica é conseqüente a uma preocupação natural com as rotinas da vida. O corpo - o individual e o coletivo – está no centro de qualquer argumento que se refira ao espaço arquitetônico e às rotinas da vida / movimento, mesmo que não se queira ou se ignore esse fato. No pensamento budista o movimento é parte do Absoluto; ‘. . . não há nada de outra natureza por trás do movimento. Não é correto também dizer que a vida está se movendo, pois a vida é o movimento em si próprio. . . vida e movimento não são duas coisas distintas’. (7) Edifícios e situações urbanas são containers de movimento; corpos em movimento. No entanto, estranhamente, a maior parte da produção de teoria da arquitetura está devotada à natureza do estilo e suas características geométricas.

A arquitetura tem uma tradição estática ainda que o movimento seja sua essência. De fato a descrição da natureza do movimento em si desafia a imaginação. Ainda no início do século 19, Balzac nos proporciona uma preciosa percepção sobre a natureza volátil do conceito de movimento, nas palavras de Planchette, um professor de mecânica. Diz ele:

‘toda a ciência descansa sobre um único fato; você vê essa bola?  Aqui ela repousa sobre essa barra. Já agora ela esta lá. Que nome devemos dar a esse fenômeno, algo tão natural desde o ponto de vista físico, no entanto tão espetacular desde o ponto de vista moral? Movimento, locomoção, troca de lugar? Que prodigiosa vaidade paira sob as palavras. . . Tudo é movimento, o próprio pensamento é um movimento e é no movimento que toda a natureza acontece. A morte é um movimento cujas limitações são pouco conhecidas. Se Deus é eterno, esteja certo que ele se move perpetuamente; é provável que Deus seja ele próprio movimento. E é por isso que o movimento, assim como Deus, é inexplicável, imensurável, ilimitado, incompreensível, intangível. . . (movimento) requer espaço, assim como nós. E o que é então o espaço? Sem o movimento o espaço é apenas uma palavra vazia, sem sentido. (8)

Nessa congruência entre as descrições de movimento e espaço está a essência da planta arquitetônica. Ao descrever a configuração espacial a planta arquitetônica homologa os padrões de movimento a essa configuração relacionados; ela dita o comportamento espacial das pessoas e em última análise à essência espacial da vida humana.

Porque então o movimento dos corpos seria relegado a um papel secundário na composição arquitetônica em geral e na teoria da arquitetura em particular? O pouco caso com o movimento dos corpos na teoria da arquitetura se reflete numa quase generalizada incompreensão da dimensão experiencial, ou corpórea, da planta arquitetônica: ‘A separação filosófica entre corpo e mente resultou em generalizada ausência da experiência do corpo em quase todas as teorias do significado em arquitetura. A demasiada ênfase no significado e em referências na teoria da arquitetura conduziu a uma concepção do significado como um fenômeno inteiramente conceitual, abstrato’. (9)

Barreiras, passagens e percursos

O reconhecimento do movimento como a essência na base do conceito de espaço arquitetônico tem como natural conseqüência uma percepção de arquitetura como um arranjo espacial constituído essencialmente por barreiras e passagens; tanto na escala do edifício quanto na escala da cidade. A planta arquitetônica é na essência um identificador de barreiras e passagens. Barreiras são todos os obstáculos ao livre movimento; nas edificações esses obstáculos podem ser reduzidos às paredes e ao mobiliário nas suas mais variadas configurações. A posição das barreiras define naturalmente a posição das passagens e, em conseqüência, o sistema de rotas que permeia e alimenta o espaço arquitetônico. Nesse contexto ‘os corpos não apenas se movem, mas geram espaços através desses mesmos movimentos’ (10). Uma rota, portanto, qualquer que seja, é uma porção dinâmica de espaço. A descrição do movimento através da rota é uma síntese; ela representa a vida espacial das pessoas e pode ser considerada como a essência, o extrato experiencial da arquitetura. Essa característica é consistente em edifícios, onde o posicionamento das paredes e do mobiliário, as barreiras, produz naturalmente um conjunto de rotas e em situações urbanas onde a posição das formas construídas, os quarteirões, determina o posicionamento da rede de espaços públicos; as ruas e avenidas das cidades. Esse modo de ver a disciplina dilui totalmente o limite entre a arquitetura e o urbanismo.

Corpos e eixos

Desde o ponto de vista do corpo, o passo é a unidade mínima, a redução última, do movimento humano no espaço; o passo, a linha que liga duas pegadas. Naturalmente os corpos não se movem em zigzag, mas em linha reta. Percursos são, portanto, desde essa perspectiva, conjuntos de segmentos de reta, uns maiores, outros menores, mas inexoravelmente, segmentos de reta. Ainda que o percurso seja curvilíneo ou sinuoso ele será sempre redutível a uma seqüência de eixos infletidos, sendo o passo a última redução. Assim a axialidade é central na disciplina arquitetônica: ‘. . . o eixo é talvez a primeira manifestação humana; ele é o meio de toda a ação. A criança em seus primeiros passos busca mover-se ao longo de um eixo, o homem se debatendo em meio a tempestade traça para si próprio um eixo. O eixo é o regulador da arquitetura ’ (11). Central nessas palavras de Le Corbusier é a preocupação com a linha reta i.e. o fato dos corpos se moverem em linha reta e do movimento dos corpos no espaço seguir eixos de visibilidade e acessibilidade irrestritas. A descrição da axialidade é, portanto uma descrição de movimento que uma vez estendida para ao domínio do comportamento espacial das pessoas sugere que ‘todo e qualquer arranjo seja uma gradação de eixos, e por isso também uma gradação de objetivos, uma classificação de intenções’ (12). Nesse axioma parece repousar a essência da planta arquitetônica; sendo a gradação de eixos uma espécie de guia configuracional e a gradação de intenções a contrapartida social que produz no espaço aquilo que Tschumi denomina o evento

Inflexões e malhas deformadas

Na medida em que os corpos se movem a malha é configurada; uma rede topológica. A rede de percursos inclui em suas formas topológicas todas as geometrias. Quando um corpo em movimento muda de direção o percurso é infletido. Nesse momento um eixo é transformado em dois eixos. Um segundo eixo é produzido resultante daquela simples inflexão. O percurso é descrito através da recorrência de inflexões. Uma inflexão é uma articulação; ela implica numa modificação nas condições de visibilidade e de acessibilidade do observador em movimento. A inflexão ou articulação é, desde um ponto de vista topológico, a unidade central na descrição da rede de percursos, na malha. Seu oposto é a árvore; o cul-de-sac. E essa informação é em conjunto sintetizada na descrição em planta; há que lê-la. Topologicamente a inflexão é o centro da descrição; a inflexão, a articulação, a dobra, o descortinar (13). O percurso se desdobra; a realidade se revela paulatinamente. No percurso há uma constante transformação do virtual no real. É desse modo que a rede de percursos acontece, toma forma. Ela assume a forma de uma malha deformada (14).

Gradações de acessibilidade

Acessibilidade é uma condição natural dada em qualquer distribuição espacial; ela determina a potencialidade de um espaço de ser alcançado, mais ou menos diretamente, em conseqüência de sua posição relativa. O modo de arranjo de uma planta define um sistema de percursos naturalmente dotado de gradações de acessibilidade. Nessa linha Hertzberger sugere que ‘marcando as gradações de acessibilidade pública das diferentes áreas e partes do andar térreo de uma edificação, uma variedade de mapas mostrando as diferenciações territoriais serão obtidos. Esses mapas mostrarão claramente que aspectos da acessibilidade existem na arquitetura e que demandas ocorrem com relação às áreas específicas ‘ (15). Portanto a planta produz naturalmente uma espécie de ranking de acessibilidade e, em conseqüência, a distribuição espacial, seja ela qual for, será sempre uma distribuição de integração espacial ou de segregação espacial, com uma variedade de gradações de acessibilidade no entremeio. Espaços mais acessíveis tendem a ser naturalmente aqueles mais percorridos. Eles são senso comum reconhecidos como rotas integradas ou integradoras. Por outro lado as rotas menos acessíveis em razão de sua posição mais escondida na distribuição espacial serão naturalmente menos percorridas. Nesse sentido, plantas arquitetônicas são instrumentos de distribuição de integração espacial e/ou segregação espacial. (16) Os corpos / as pessoas buscarão naturalmente por ambos, ora um ora outro, em diferentes tempos e situações. Qualquer planta, através de sua configuração espacial, tem um coração, um core, um núcleo, um núcleo de integração. O core, ou núcleo de integração, se materializa ao longo das rotas mais integradoras e é constituído pelo conjunto dos espaços mais utilizados em uma planta. Desse modo as gradações de acessibilidade produzem naturalmente uma ordem topológica; uma ordem que é subjacente e se esconde sob a ordem geométrica.

Em arquitetura essas gradações de acessibilidade e os padrões de movimento relacionados, deveriam sempre acontecer em concordância com a distribuição de atividades programadas. O espaço deve, ou pelo menos deveria, contribuir ao evento. Programas arquitetônicos carregam a intenção de ordenar necessidades e ambições inerentes às atividades humanas. Atividades, por sua própria natureza, são mais ou menos demandantes de acessibilidade. Não é, no entanto, incomum que experienciemos edifícios ou situações urbanas onde a lógica da distribuição de atividades colide frontalmente com a lógica da acessibilidade e fruição. Nesses casos, portanto, a lógica da distribuição de atividades é incompatível com a lógica espacial que emerge naturalmente das gradações de acessibilidade inerentes àquela distribuição espacial. Isso pode acontecer e freqüentemente acontece tanto em edifícios comerciais quanto em edifícios residenciais ou institucionais; edifícios bem dotados de tecnologia e estética, mas que não funcionam ou funcionam de modo deficiente no exercício das atividades para as quais foram concebidos.

A planta e o corpo

Tentativas de descrever a topologia da arquitetura não são recentes. Diferentes autores, em diferentes tempos, vêm trilhando esse caminho, o caminho da descrição da dimensão experiencial da arquitetura; muito embora a maior parte da literatura relacionada tenda a ser constituída por pálidas imitações de uma realidade muito mais complexa. A indicação de Tschumi de que ‘se a seqüência espacial implica no movimento de um observador, tal movimento pode ser mapeado e formalizado seqüencialmente’ parece ser mais fácil de ser proposta que efetivada (17).

Não obstante, a leitura da planta a partir da descrição das linhas de movimento por ela oportunizada parece ser um avanço no modo de ver a arquitetura, especialmente no período de aprendizado. Esse procedimento permite a visualização sintética do padrão de fruição dos corpos no espaço arquitetônico. Tal modo de fruição é inerente a cada arranjo espacial e quando a arquitetura é adequadamente pensada a função faz uso das gradações de acessibilidade para tornar-se evidente, clara, inteligível; as seqüências espaciais tendem a prover essa inteligibilidade. Percebe-se então que o espaço trabalha a favor, é inteligível, permite uma clara apreensão; a arquitetura auxilia o corpo.

Em tempo sobre o assim denominado espaço topológico

O conceito assim denominado de espaço topológico tornou-se, em tempos recentes, centro de uma discussão teórica no campo da arquitetura e também modo de expressão recorrente de uma ala da vanguarda arquitetônica. Nessa linha a obra de Deleuze e Guattari veio a prover um guia para a compreensão do espaço/tempo que se dobra. Nessa mesma linha a obra de Rem Koolhaas é especialmente profícua em sua tentativa de representar esse novo modo topológico de espacialização. Tanto uma quanto outra, a obra teórica e a prática arquitetônica acima exemplificadas, são situações excepcionais; a manipulação e o dobramento das superfícies horizontais não é, e provavelmente jamais será, moeda espacial corrente em arquitetura, trata-se sim da excepcionalidade. Na mão contrária, o conceito de topologia abordado no presente texto, muito embora tenha elementos comuns à linha de projeto e pesquisa acima mencionada, é estritamente aquele clássico (não é por acaso que utilizamos na abertura do trabalho a definição de topologia dada no Dicionário Oxford), aquele que em seu objetivo didático pode-se dizer quase-genérico, aborda categorias imanentes em arquitetura - eixos, inflexões, barreiras, passagens, corpos em movimento, gradações de acessibilidade – todas, essas sim, moeda espacial corrente, ou seja, categorias fundadas em uma apreciação espacial vinda do senso comum, e para as quais a planta emerge como principal instrumento descritivo; são categorias cujo reconhecimento e estudo interessam como base a todos aqueles ligados ao ensino, ao estudo e à prática da arquitetura.

notas

1
Artigo originalmente intitulado Elements of Topology in Architecture, proceedings of the 37th Australia & New Zealand Architectural Conference, Sydney, Austrália (2003), p. 236-244.  Artigo também apresentado no Seminário Projetar 2005 / 2º Seminário sobre o Ensino e a Pesquisa em Arquitetura, Rio, Novembro 2005.

2
Oxford Dictionary, Oxford University Press, Oxford 1985, p. 794.

3
EVANS, R. Figures, Doors and Passages. In: Architectural Design 4/1978, p. 267-278.

4
CULLEN, G. Townscape. London : Architectural Press, 1961.

5
TSCHUMI, B. Architecture and Disjunction, MIT Press, Cambridge, Mass, 1995.

6
ANDO, T. Shintai and Space. In S.Marble et al (Eds.), Architecture and Body. New York: Rizzoli, 1995

7
RAHULA, W. What the Buddha Taught, London: Gordon Fraser, 1959, p. 26

8
BALZAC, H. ‘The Wild Ass's Skin (La Peau de Chagrin)’. Harmondsworth ; New York : Penguin, 1977, pp. 205-206.

9
GARTNER, S. The Corporeal Imagination: The Body as the Medium of Expression and Understanding in Architecture’, In: The Architecture of the In-Between: The Proceedings of the 1990 ACSA Annual Conferece, San Francisco, 1990.

10
TSCHUMI, B. Op. cit., p.123

11
LE CORBUSIER. Towards a New Architecture, London: J. Rodker, 1931, p.187. Eixo, em arquitetura, é freqüentemente associado à monumentalidade, hierarquia ou simetria; as axialidades romanas de Sisto V, os bulevares parisienses e assim por diante. Esse não é o sentido aqui buscado assim como certamente não é o sentido das palavras de Le Corbusier.

12
ibid. p.187.

13
DELEUZE, G. The Fold – Leibniz and the Baroque, in Cristina, G. The Topological Tendency in Architecture. In Giuseppa Di Cristina (Ed.) Architecture and Science, Chichester : Wiley-Academy, 2001, pp. 39-43

14
HILLIER, B. and HANSON, J. The Social Logic of Space, Cambridge, University Press, Cambridge, 1984.

15
HERTZBERGER, H.  Lessons for Students of Architecture,  Uitgeverij 010 Publishers, Rotterdam 1991, p.21

16
HILLIER, B. and HANSON. J, Op.cit.

17
TSCHUMI, B. Op. Cit., p.162.

bibliografia complementar

CRISTINA, G. The Topological Tendency in Architecture. In Giuseppa Di Cristina (Ed.) Architecture and Science, Chichester : Wiley-Academy, 2001.

MARTINEZ, A. Ensayo sobre el proyecto, Kliczkowski Publisher, Buenos Aires, 1990.

sobre o autor

Douglas Vieira de Aguiar é professor adjunto da Faculdade de Arquitetura – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, PhD pelo University College London7

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