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drops ISSN 2175-6716

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Texto de Sabrina Fontenele, originalmente escrito para a cerimônia “Encontro Ruy Ohtake, arquitetura e vida”, evento em homenagem ao arquiteto falecido em 27 de novembro de 2021, promovido pelo Instituto Tomie Ohtake no dia 30 de março de 2022.

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FONTENELE, Sabrina. Ruy Ohtake: a revisão de uma trajetória a partir da habitação. Drops, São Paulo, ano 22, n. 175.03, Vitruvius, abr. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/22.175/8468>.



Gostaria de começar agradecendo o convite, especialmente da Pryscila Gomes (a quem agradeço aqui diretamente) para participar desta homenagem ao arquiteto Ruy Ohtake. Especialmente para uma arquiteta formada na Universidade Federal do Ceará que conheceu a obra do arquiteto inicialmente pelos livros publicações e veio a usufruir de seus prédios quando aqui me estabeleci há vinte anos.

Neste processo de pensar e elaborar esta fala, lembrei da primeira vez que o vi pessoalmente. Era 1997, eu estava no segundo ano da graduação da Universidade Federal do Ceará e fui a um congresso brasileiro de arquitetos em Curitiba. Meu primeiro evento acadêmico/profissional.

Ruy estava em uma mesa desenhando pacientemente para profissionais e estudantes interessados em sua obra. Uma fila longa de pessoas aguardando seus croquis e ele dedicava o mesmo cuidado a todos. Para mim, ele desenhou o edifício do antigo Banespa no Butantã, com sua fachada de concreto armado representada pelos pontinhos, poucos riscos, mas a síntese da obra muito bem representada. Guardo este desenho até hoje com carinho em meu escritório.

Ainda na graduação no Ceará, o livro de Marlene Acayaba (Residências em São Paulo 1947-1975) era uma como uma bússola para nós estudantes do curso de arquitetura e urbanismo. A publicação nos apresentava um método de como pensar e analisar habitações. Dentre tantas analisadas, a casa de Tomie Ohtake era certamente uma das que eu mais admirava.

Décadas depois, já morando e trabalhando em São Paulo, iniciei um pós-doutorado na Unicamp estudando a ideia de domesticidade moderna e passei a investigar como transformar uma casa em lar. A pesquisa buscava entender como arquitetos buscam a promover a transformação de hábitos e rotinas familiares no programa habitacional.

O recorte baseava-se em apartamentos duplex desenhados entre a década de 1930 e 1960, mas o interesse pelo tema tem acompanhado meus últimos anos de atuação profissional e docente.

Algumas vezes me voltei para a residência Tomie Ohtake, a casa de uma artista mulher com um programa que levava em consideração o programa doméstico, assim como a necessidade de espaços da profissional.

Como em outras casas paradigmáticas da arquitetura moderna, entre elas a interessante Casa Vanna Venturi, o filho arquiteto projeta um edifício para sua mãe. Mas Tomie era mãe e também uma grande referência artística e intelectual para várias gerações de arquitetas e arquitetos. O desafio estava colocado e a partir dele foi construída um dos mais belos exemplares da escola paulista.

A casa abrigava uma vida íntima familiar, rotinas domésticas, mas também era espaço de investigação artística, era galeria e era local de encontros entre artistas, arquitetos, intelectuais, amigos. Seus espaços organizam-se a partir de uma cobertura e das entradas de luzes.

A casa se transformou na medida em que as ocupações pelos usuários se modificaram. Mas em comum, nas fotografias publicadas em artigos, livros ou apresentadas em exposições percebemos a presença das cores, em contraste com o concreto aparente, vasos, luminárias e a bela rede naquilo que poderíamos chamar de varanda. Rastros do morar, como diria Walter Benjamin.

Em 2017, quando assumi a cadeira do IABsp como Conselheira do Conpresp, ao lado do colega Silvio Oksman, deparei-me novamente com uma questão que envolvia uma casa projetada pelo arquiteto no Jardim Lusitânia. A Residência Paulo Bittencourt Filho, com seus móveis de concreto, pé direito baixo que trazia sensação de acolhimento e intimidade para a família que ali morou por décadas. O edifício era analisado como mais um do conjunto da obra de Ruy Ohtake que entrava em estudo de tombamento pelo Departamento do Patrimônio Histórico. A obra era uma representação da escola brutalista de arquitetura e também era espaço de encontro e sociabilidade na metrópole paulistana.

Ruy Ohtake sugeria que fosse feito um levantamento constante das obras arquitetônicas culturalmente relevantes, de modo que o processo de tombamento fosse ser iniciado em momentos de calmaria. O arquiteto afirmava isso com a experiência de quem foi presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico – Condephaat, entre os anos de 1979 e 1982. Uma demonstração de sua atuação no escritório, como em órgãos governamentais; desenhando o novo nos contextos urbanos, mas também atuando sobre perímetros tombados, a exemplo de sua casa em Parati, vizinha ao do amigo Julio Katinsky. Desenhada com respeito à escala local e às técnicas construtivas tradicionais.

Trago esta questão neste encontro hoje porque é notório a importância de edifícios projetados por Ruy na cidade cuja presença e significância é inquestionável dentro da nossa paisagem urbana. No entanto, é importante também nos voltarmos para obras do cotidiano, da escala uni e multifamiliar que marca um modo de vida e um pensamento sobre de como a cidade poderia ser.

Gostaria de fechar esta fala trazendo os conjuntos da CDHU de Heliópolis (2008-2011), conhecidos como “Redondinhos”. Onde as famílias, o arquiteto e sua equipe participaram juntos em um processo de repensar suas vidas e rotinas, em conjuntos também marcantes e com uma arquitetura de qualidade. Apartamentos de 50 metros quadrados, inseridas em um conjunto de espaços que apresentam possibilidades de recreação, desenvolvimento pessoal e de sociabilidade. Novamente volto ao tema da habitação para demonstrar a potência de sua arquitetura em diversos contextos.

Ruy fez de seus prédios um convite ao convite ao entrar, ao se deslocar e à descoberta. Foi assim com as casas, mas também com seus edifícios institucionais, entre eles o que nos encontramos neste momento.

nota

notas NE – Texto originalmente escrito para a cerimônia “Encontro Ruy Ohtake, arquitetura e vida”, evento em homenagem ao arquiteto falecido em 27 de novembro de 2021, promovido pelo Instituto Tomie Ohtake no dia 30 de março de 2022, com as participações de Abilio Guerra, Sabrina Fontenelle, José de Souza Martins, Antônia Cleide Alves, Renato Anelli, Paulo Miyada, Marcy Junqueira, Priscyla Gomes, Rodrigo Ohtake e Elisa Ohtake.

sobre a autora

Sabrina Studart Fontenele Costa é arquiteta e urbanista (UFC), mestre e doutora (FAU USP). Finalizou em 2019 a pesquisa de pós-doutorado na Unicamp. Autora dos livros Edifícios modernos e o traçado urbano no Centro de São Paulo (2015) e Restauro da Faculdade de Medicina da USP: estudos, projetos e resultados (2013) e Modos de morar nos apartamentos modernos: rastros de modernidade (2021). Colabora desde 2018 como professora na Escola da Cidade onde também é Coordenadora de Pesquisa do Conselho Científico. Diretora de Cultura do IABsp onde atua como responsável pelos projetos relacionados ao acervo do órgão, programação cultural e editorial (2020-2022). Curadora residente da 13ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo de 2022.

 

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