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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
O artigo discute a vegetação urbana como elemento estruturador dos espaços públicos por sua capacidade microclimática das calçadas e a influência desta no deslocamento dos cidadãos.

english
The article discusses the urban vegetation as a structuring element of the public spaces by its microclimatic capacity of the sidewalks and the influence of this in the displacement of the citizens.

español
El artículo discute la vegetación urbana como elemento estructurador de los espacios públicos por su capacidad microclimática de las aceras y la influencia de ésta en el desplazamiento de los ciudadanos.

how to quote

RODRIGUES, Giovana Gravellos Dias Starke; BROCANELI, Pérola Felipette. Calçadas, vegetação e controle térmico. A condição microclimática no Parque da Luz. Minha Cidade, São Paulo, ano 19, n. 224.02, Vitruvius, mar. 2019 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/19.224/7266>.


Parque da Luz, São Paulo SP Brasil
Foto Giovana Starke


As cidades densamente urbanizadas são diretamente afetadas pelo efeito de Ilhas de Calor, fenômeno que aumenta a temperatura do local e abaixa a umidade relativa do ar. Sendo assim, a condição microclimática das calçadas influência nos hábitos de deslocamento – esportivos ou não – dos cidadãos. A vegetação urbana entendida como elemento estruturador dos espaços públicos, com capacidade de refrigeração e umidificação é motivo de pesquisas e mensurações neste artigo.

Dessa forma, se faz necessário investigar como as condições microclimáticas influenciam nos hábitos diários dos cidadãos, visto que esse fenômeno aumenta os problemas respiratórios e cardiovasculares, afetando assim, a saúde da população.

O trabalho de Garrett Hardin (1) nos alerta para a “tragédia dos comuns” entendidos também como “recursos naturais”, se o desenvolvimento urbano e humano privilegiar o acesso de alguns em prejuízo de outros.

No contexto do problema da população, mas se aplica igualmente bem a qualquer instância em que os apelos da sociedade para um indivíduo explorando um bem comum de se conter para o bem geral (2).

A qualidade de vida nas cidades contemporâneas está intimamente ligada ao equilíbrio do microclima urbano e também, relacionada a preservação da vegetação urbana nas ruas, praças e parques das cidades.

Desta forma a gestão coletiva de bens, espaços e recursos, deve ser considerada no desenho das cidades, no que tange o equilíbrio e a manutenção da qualidade entre as áreas de preservação ambiental e as áreas destinadas a urbanização.

Apesar dos diversos encontros internacionais constituídos em favor da preservação dos recursos naturais, foi a partir do relatório de mudanças climáticas mundiais, divulgado pelo Intergovernmental panel on climate change – IPCC (3), contendo mensurações e prognósticos de cenários futuros que demonstravam o aumento da temperatura global.

Publicações recentes, apresentam dados relativos ao aumento de mortalidade de humanos e animais, em momentos de “ondas de calor” que tem sido mais frequentes na última década. Neste contexto, Rodrigo da Silva Riquena (4) comprovou que as ondas de calor podem causar a mortalidade de até 34% das aves, pois nas aves a perda de calor ocorre em pontos extremamente pequenos tornando-as extremamente vulneráveis, principalmente quando a temperatura ambiente se aproxima da temperatura interna do corpo (5).

Segundo Hugo Rogério Barros e Magda Adelaide Lombardo (6), as ondas e ilhas de calor podem se relacionar com importantes fatores climáticos, como poluição atmosférica, fortes precipitações com risco de inundações e alteração nas amplitudes térmicas, além da dinâmica de uso e cobertura do solo, habitação e saúde pública.

Camilo Mora et al. (7) apresentam em suas pesquisas 27 formas de morrer em consequência do calor excessivo, dentre elas: infarto, coagulação sanguínea, incapacidade respiratória ou danos no cérebro, rins, pâncreas e outros órgãos.

As ondas de calor tem sido mapeadas mundialmente, e já se faz previsões para o aumento da mortalidade em “locais de comunidades e variação média percentual do excesso de mortes relacionadas a ondas de calor em 2031-2080, em comparação com 1971-2020” (8), conforme gráfico apresentado pelo Representative Concentration Pathway – RCP. Em regiões mais próximas da Linha do Equador a variação percentual de morte relacionada com ondas de calor mostra-se mais alta do que em outras regiões, podendo ser acima de 775% – América Central, norte da América do Sul e extremo sul da Ásia –, enquanto regiões mais afastadas apresentam a média de percentuais abaixo de 275% – Europa e Ásia – ou até 525% – Estados Unidos.

Para Geirinhas (9) no contexto brasileiro, houve crescimento anual acentuado do número de dias com ondas de calor, nos estados de São Paulo, Manaus e Recife entre os anos de 1961 a 2014. Sendo que entre 1960 e 1980 a média de dias com ondas de calor era baixa, principalmente em Manaus, enquanto que, a partir de 2000, a cidade que mais sofreu com a incidência de ondas de calor foi São Paulo, possuindo até 50 ondas no ano.

Para Paulo Henrique Cirino Araújo (10) o calor extremo e persistente por pelos menos 3 dias, pode ser considerado uma onda de calor e deve ser combatido com as medidas necessárias para melhoria da qualidade térmica dos espaços, a fim de minimizar os efeitos das ondas de calor.

Dessa forma, é lícito considerar algumas estratégias para o controle de ondas de calor e dos altos índices de temperatura no desenho dos espaços públicos, como: plantio de árvores, criação de parques, preservação de áreas verdes, implantação de telhados verdes, aumento de área permeável no solo, instalação de jardins verticais irrigados com água de reuso, desenho e construção de lagos e espelhos d’água, entre outros.

Esta pesquisa revela que a estruturação dos espaços públicos e a caracterização das calçadas precisam de maior atenção, com políticas públicas e legislação que possam ir além das recentes conquistas de acessibilidade, entendendo-as como os espaços públicos urbanos mais utilizados nas cidades e indicando soluções completas e mais adequadas para sua composição, estruturação e controle térmico, a fim de atenuar as ondas de calor aos pedestres proporcionando-lhes caminhadas em ambiente com conforto climático.

Na imagem abaixo, a variação de temperatura na calçada é de 23,6 Cº ficando evidente a importância no desenho de calçadas em conjunto com as fachadas ativas nos centros urbanos comerciais, a fim de amenizar a incidência solar e promover melhoria na qualidade ambiental urbana ao pedestre.

Rua São Caetano, altura do número 537. Bairro da Luz, dia ensolarado, 09 jan. 2019, às 13h44min. temperatura do ar na cidade 34 Cº
Foto Giovana Starke [Website AccuWeather]

 

Além das soluções projetadas para refrigeração e proteção da incidência solar nos percursos urbanos, tais como: pergolados e toldos, deve-se ressaltar que a vegetação tem papel importante neste contexto, colaborando na umidificação e refrigeração dos espaços urbanos e na manutenção do conforto térmico dos parques, das praças e das calçadas.

As calçadas, se confortáveis termicamente, podem colaborar na prática de atividades esportivas, tornando-se os principais espaços de caminhada urbana.

Na calçada do Parque da Luz junto a rua Ribeiro de Lima, em um dia nublado foi registrada variação de 18Cº e, em um dia ensolarado, foi registrada variação de 31Cº, conforme imagens abaixo.

0Rua São Caetano, altura do número 537. Bairro da Luz, dia nublado, 12 dez. 2018, às14h12min. Temperatura do ar na cidade 32 Cº
Foto Giovana Starke [Website AccuWeather]

Rua São Caetano, altura do número 537. Bairro da Luz, dia ensolarado, 09 jan. 2019, às 14h04min. Temperatura do ar na cidade 32 Cº
Foto Giovana Starke [Website AccuWeather]

Considerações finais

As imagens térmicas aqui apresentadas comprovam que o desenho das calçadas e dos espaços públicos da cidade devem ser entendidos como um espaço único e articulado, de um sistema de refrigeração e umidificação único, que apresenta importantes áreas de fluxo intenso (calçadas) e de pausas (praças e parques).

As mensurações já realizadas apontam que os projetos para espaços públicos urbanos, devem ser pautados também pela busca de materiais mais adequados a construção e ao uso dos espaços externos, que possam colaborar qualitativa e termicamente para melhoria da qualidade de vida e da qualidade ambiental urbana dos cidadãos.

notas

NE
Este artigo foi escrito utilizando algumas das mensurações realizadas na iniciação científica “Parques, conforto térmico e suas influências na qualidade ambiental: estudo de caso em São Paulo” em desenvolvimento na FAU Mackenzie pela aluna de graduação em arquitetura e urbanismo Giovana Gravellos Dias Starke Rodrigues, orientada pela prof.ª dr.ª Pérola Felipette Brocaneli, com apoio do MackPesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

1
HARDIN, Garrett. A Tragédia dos Comuns. Revista Science, v. 162, n. 3859, Washington D.C., 13 dez. 1968, p. 1243-1248 <http://www.garretthardinsociety.org/articles/art_tragedy_of_the_commons.html>.

2
HARDIN, Garrett. Op. cit.

3
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE – IPCC. Climate change. The physical science basis. Contribution of working group I to the fourth assessment report of the IPCC. Cambridge University. Press, Cambridge, 2007 <https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/05/ar4_wg1_full_report-1.pdf>.

4
RIQUENA, Rodrigo da Silva. Modelo computacional para previsão de mortalidade de galinhas poedeiras em função de ondas de calor e tipologia dos aviários. Dissertação de mestrado. Tupã, PGAD Unesp, 2016 <https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/150210/riquena_rs_me_tupa.pdf?sequence=4>.

5
AZOULAY, Y; DRUYAN, Shelly; YADGARY, Liran; HADAD, Yair; CAHANER, Avigdor. The viability and performance under hot conditions of featherless broilers versus fully feathered broilers. Poultry science, n. 1, v. 90, p. 19-29, 2011. Apud RIQUENA, Rodrigo da Silva. Op. cit.

6
BARROS, Hugo Rogério; LOMBARDO, Magda Adelaide. A ilha de calor urbana e o uso e cobertura do solo em São Paulo SP. Geousp: espaço e tempo (online), v. 20, n. 1, 2016, p. 160-177.

7
MORA, Camilo; COUNSELL, Chelsie W.W.; BIELECKI, Coral R.; LOUIS, Leo V. Twenty-seven ways a heat wave can kill you: deadly heat in the era of climate change. Circ cardiovasc qual outcomes, v. 10 (11), p. 1-6, 2017 <https://www.ahajournals.org/doi/pdf/10.1161/CIRCOUTCOMES.117.004233>.

8
SALLES, Silvana. Brasil vai estar entre mais afetados por mortes em ondas de calor. Jornal da USP, São Paulo, 15 ago. 2018 <https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/brasil-vai-estar-entre-mais-afetados-por-mortes-em-ondas-de-calor/>.

9
GEIRINHAS, João Lucas; TRIGO, Ricardo M.; LIBONATI, Renata; COELHO, Caio A. S.; PALMEIRA, Ana Cristina. Climatic and synoptic characterization of heat waves in Brazil. International journal of climatology, 19 set. 2017 <https://rmets.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/joc.5294>.

10
ARAUJO, Paulo Henrique Cirino. Ensaios econômicos sobre ondas de calor e seus impactos sobre a saúde no Brasil. Tese de doutorado. Viçosa, PPGEA UFV, 2017 <http://www.locus.ufv.br/bitstream/handle/123456789/10586/texto%20completo.pdf?sequence=1&isAllowed=y>.

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