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my city ISSN 1982-9922

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português
Martin Jayo, colecionador de imagens históricas da cidade de São Paulo, comenta foto anônima do século 19 que registra o centro histórico da capital paulista, encarapitada no triângulo histórico, mas já promovendo transformações no rio Tamanduateí.

how to quote

JAYO, Martin. A cidade na colina, a várzea em obras. Raro registro fotográfico de São Paulo circa 1875. Minha Cidade, São Paulo, ano 20, n. 237.02, Vitruvius, abr. 2020 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/20.237/7705>.


Vista geral da cidade de São Paulo, detalhe da foto esquerda, c.1875, fotógrafo desconhecido [Acervo do autor]


Dias atrás, descobri um registro fotográfico da cidade de São Paulo que me fascinou. São duas fotos que, postas lado a lado, formam uma panorâmica. Eu já tinha visto a São Paulo da década de 1870 retratada deste jeito em pinturas e gravuras – por exemplo, em uma famosa litografia de Jules Martin, de 1875 (1) – mas não me lembro de tê-la visto por este ângulo em foto.

“Vista Geral da Imperial Cidade de São Paulo”, litografia de Jules Martin, c.1875 [Acervo Fundação Biblioteca Nacional /Biblioteca Digital Luso-Brasileira]

O fotógrafo está na Várzea do Carmo, atual Parque Dom Pedro, e a visão que ele tem da cidade é bem completa. São Paulo ainda não cresceu muito além da colina histórica, e é pequena o suficiente para caber em duas chapas. Na extremidade esquerda, cortada pela margem da primeira foto, há uma igreja que parece ser a da Boa Morte, existente até hoje na rua do Carmo. Seguindo pelo horizonte para a direita, uma segunda torre aparece em destaque: é o antigo convento do Carmo, ao lado do atual Poupatempo Sé. Uma terceira torre aparece um pouco mais à direita, e talvez seja de uma das igrejas que havia no antigo Largo da Sé. Demorei para achar a torre da igreja do Colégio, que aparece meio cortada na divisa entre as duas fotos. Curioso que o local de fundação da cidade apareça exatamente no centro da imagem formada pelas fotos. Deve ter sido de propósito.

Vista geral da cidade de São Paulo, detalhe da foto esquerda, c.1875, fotógrafo desconhecido [Acervo do autor]

Vista geral da cidade de São Paulo, detalhe da foto esquerda, c.1875, fotógrafo desconhecido [Acervo do autor]

Já na foto da direita, é impossível não notar um prédio baixo e comprido, cheio de portinhas. É o “mercado dos caipiras”. O mercadão atual funciona ali pertinho, em outro prédio, da década de 1930. À direita do mercado se vê uma longa fileira de casinhas, bem ao pé da colina. É a rua 25 de Março. No alto da colina, avista-se mais uma torre: pode ser a igreja do Mosteiro de São Bento (na época bem mais acanhada que hoje, e com uma torre só), ou então a antiga igreja do Rosário, demolida em 1903. Quem quiser explorar mais, com certeza reconhecerá outros lugares.

Vista geral da cidade de São Paulo, detalhe da foto direita, c.1875, fotógrafo desconhecido [Acervo do autor]

Vista geral da cidade de São Paulo, detalhe da foto direita, c.1875, fotógrafo desconhecido [Acervo do autor]

O par de fotos em papel albuminado, com 8,5 por 13,5 centímetros cada uma, estava à venda em um site de leilões na Alemanha, sem qualquer informação de autoria ou de data. A foto da esquerda está perfeita, e a da direita tem manchas que parecem ser defeito do próprio processo de revelação.

Provavelmente nunca saberemos quem é o fotógrafo, mas a data é relativamente fácil de aproximar. O mercado dos caipiras foi construído em 1867, portanto a imagem não pode ser anterior a isso. Mas também não é muito posterior, a julgar pelos montes de pedra e de areia ou terra que vemos espalhados pela várzea, indicando que a área está em plena reforma. Meu palpite é que são as obras feitas ali pelo governo da Província na gestão de João Teodoro Xavier de Matos (1872-1875), quando o rio Tamanduateí teve suas primeiras obras de retificação. João Teodoro entregou a obra com o trecho de rio canalizado e alguns melhoramentos paisagísticos, que já aparecem na gravura citada de Jules Martin (2).

O fotógrafo flagrou, portanto, o momento exato em que São Paulo começava a mexer com seus rios. Deu no que deu.

notas

1
Arquiteto, pintor, desenhista e litógrafo francês, Jules Martin estabeleceu-se em São Paulo em 1868. A litografia “Vista Geral da Imperial Cidade de São Paulo” data aproximadamente de 1875 segundo OLIVEIRA, Maria Luiza Ferreira de. O registro dos limites da cidade: imagens da várzea do Carmo no século XIX. Anais do Museu Paulista, v. 6/7, n. 1, São Paulo, 1999, p. 37-59.

2
TOLEDO, Roberto Pompeu de. A capital da solidão: uma história de São Paulo das origens a 1900. São Paulo, Objetiva, 2003.

sobre o autor

Martin Jayo é professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo – EACH-USP.

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