Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Em Barra do Piraí/RJ, uma movimentação nas redes sociais demonstra a relação do sujeito barrense com o seu patrimônio cultural através da fotografia engajada – concerned photography, contribuindo para a educação patrimonial e o direito à cidade.

english
In Barra do Piraí/RJ, a movement in social networks demonstrates the relation of people with their cultural heritage through concerned photography contributing to heritage education and the right to the city.

español
En Barra do Piraí/RJ, un movimiento en las redes sociales demuestra la relación del sujeto barrense y su patrimonio cultural a través de la fotografía comprometida – concerned photography, contribuyendo a la educación patrimonial y el derecho a la ciudad.

how to quote

ROSSONE, Jéssica. @barradopirahy. Fotografia engajada, educação patrimonial e direito à cidade. Minha Cidade, São Paulo, ano 22, n. 254.04, Vitruvius, set. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/22.254/8266>.



A diferença entre passado e futuro, do ponto de vista da teoria do conhecimento, consiste no próprio fato de que o passado é, em parte, experimentado agora e que, do ponto de vista da ciência urbana, pode ser esse o significado a dar às permanências: elas são um passado que ainda experimentamos”
Aldo Rossi, L’Architettura della città (1)

Nos últimos anos, a relação da população de Barra do Piraí/RJ com suas permanências tem sido evidenciada através da fotografia engajada – concerned photography, que em tradução livre seria "a fotografia que se importa". As fotografias acontecem muitas das vezes sem a intenção documental – no sentido estrito do termo, por parte de quem fotografa. Mesmo assim, fotógrafos profissionais e amadores tem contribuído para a constituição de um precioso acervo fotográfico da cidade, e junto a tal acervo floresce um movimento crítico que reivindica o direito à cidade e à preservação do patrimônio cultural barrense.

Por outro lado, neste momento conturbado e de perdas que vivemos a partir de 2020, as eleições municipais estão tomando outras proporções. Sabemos que com isso, outros aspectos ficam mais intensos, e no âmbito do patrimônio cultural e do direito à cidade isso não seria diferente. Nesse sentido, inclusive, a fotografia engajada tem sido fundamental enquanto base e expressão de ideias e críticas, não a toa, incomodando o poder hegemônico que pensa uma cidade exclusiva.

Foto de Barra do Pirahy
Coletivo Barra do Pirahy no Instagram [@barradopirahy]

Por um lado, isso significa que a população está se conscientizando de seus direitos, procurando construir democraticamente os rumos da cidade. Nessa perspectiva, se a cidade é realmente nossa, devemos e podemos pensá-la para todos, considerando a opinião, as críticas e reinvindicações de todos, e engana-se quem pensa que isso se resume às urnas. De fato, se a cidade é de todos e para todos, as críticas devem ser tomadas como o melhor e mais importante indicador para a elaboração de políticas públicas visando a melhoria da qualidade de vida da população. E mais, os que criticam deveriam ser convocados a participar ativamente, propondo, elaborando e realizando as políticas públicas juntamente com os órgãos competentes, como pressupõe uma democracia. Isso seria exercer de fato o direito à cidade.

Foto de Barra do Pirahy
Coletivo Barra do Pirahy no Instagram [@barradopirahy]

Entretanto, por outro lado, ao povo barrense – me incluo – muito nos custa dizer “minha cidade” e remeter à processos participativos ou a um certo sentimento de pertencimento, ao passo que isso é comum para as pessoas que vivem em outras cidades da região a qual fazemos parte. Isso não é de hoje, muito pelo contrário, esse modus operandi do status quo tem longa data. Mas com as transformações mais recentes e, principalmente aquelas que acompanhamos nos últimos anos, que ampliam a noção de patrimônio cultural e trazem ao centro do debate a questão do direito à cidade, constituiu-se uma certa movimentação que reclama direitos, ainda que ao seu jeito e com suas particularidades. Desse modo constituiu-se o projeto @barradopirahy, a partir de uma concepção ampla sobre o patrimônio cultural, considerando a memória tão essencial tanto quanto a materialidade, e reconhecendo que a preservação do patrimônio cultural é parte imprescindível do que vem a ser direito à cidade.

@barradopirahy

O povoado de Barra do Piraí surgiu sob o despertar de uma época áurea econômica nos fins do século 18 e se fortaleceu no século 19 com a economia cafeeira. A sua história tem início na barra do Rio Piraí com o Rio Paraíba do Sul, daí seu topônimo, e se confunde com a história das ferrovias no Brasil. Alguns ainda consideram o seu entroncamento ferroviário o maior da América Latina. Barra do Piraí se difere dos municípios vizinhos desde a sua formação até aos dias atuais, se destacando ora pelo caráter vanguardista, ora por sua centralidade geográfica. A estimativa do IBGE para 2020 era que Barra do Piraí tivesse cerca de 100 mil habitantes.

Foto de Barra do Pirahy
Coletivo Barra do Pirahy no Instagram [@barradopirahy]

Ao considerar Barra do Piraí a partir de seu histórico, percebe-se a riqueza e a diversidade de elementos arquitetônicos e urbanísticos em sua paisagem. Entretanto, boa parte deles se encontra em processo de degradação contínua devido a diversos fatores, e estes últimos se tornam ainda mais complexos dada a inexistência de uma política ativa de preservação do patrimônio cultural no município. Ao analisar os aspectos normativos da preservação do patrimônio cultural na cidade, percebe-se que falta de proteção legal é uma das principais questões, mas também a falta de critérios envolvendo a valoração de bens culturais e ações visando a sua preservação propriamente dita são fatores determinantes para o processo vivido na atualidade. Barra do Piraí não possui qualquer repartição administrativa voltada especificamente para a preservação de seu patrimônio cultural, e outro fator a ser considerado é a ausência de documentação dos processos de tombamento nos arquivos das repartições administrativas (2).

Foto de Barra do Pirahy
Coletivo Barra do Pirahy no Instagram [@barradopirahy]

Das iniciativas da sociedade civil em prol da preservação do patrimônio barrense, pode-se destacar aquelas do Instituto de Desenvolvimento Econômico Histórico e Cultural, que esteve envolvido em diversas ações que perpassam a temática nos últimos anos e tem obtido sucesso em suas iniciativas (3), apesar de enfrentar constantemente entraves financeiros, por falta de recursos e apoio para a realização de seus projetos. Destaca-se também o projeto Théâtre d’infiltration: l’espace de la ville au prisme des dramaturgies urbaines, iniciativa que promoveu a ocupação artística do prédio da antiga Estação Ferroviária de Barra do Piraí, até então semiabandonado. Por fim, mas não menos importante está o documentário “Entroncamentos” que busca reavivar as memórias dos trabalhadores que dedicaram suas vidas à ferrovia no maior entroncamento ferroviário da América Latina. O longa metragem, financiado coletivamente, é produzido pela Quiprocó Filmes.


Vídeo da Quiprocó Filmes para a campanha de financiamento coletivo

Dito isto, compreende-se que o patrimônio cultural em Barra do Piraí carece de atenção por parte dos órgãos responsáveis pela sua preservação, e que neste momento faz-se necessário o maior envolvimento da comunidade em ações preservacionistas, visando a salvaguarda do patrimônio barrense. Foi neste sentido que surgiu o projeto @barradopirahy, lá em 2014.

Na atualidade, a população barrense, consciente de seu patrimônio cultural e repleta de memórias, registra em fotografias aquilo que deseja salvaguardar – tudo o que valora em termos culturais, históricos, artísticos e ambientais – e, nos últimos anos, se utiliza das redes sociais para expor seus anseios. Ao observar o movimento, foi criado um perfil coletivo com a intenção de reunir todo o conteúdo publicado relacionado às temáticas, no qual são republicadas as fotografias acrescentando escritos que enfatizam o valor do elemento fotografado. Para fins de nomenclatura, foi utilizado o modo como se escrevia o nome da cidade antigamente: Barra do Pirahy. Aos poucos, o perfil se tornou um importante acervo de fotografias de Barra do Piraí, tendo como autores todos aqueles que se identificam de alguma forma com o patrimônio cultural e que se veem nele representados.

O projeto @barradopirahy acontece em apenas uma rede social, o Instagram, que oferece diferentes formas de interação, desde curtidas, comentários ou compartilhamento, até a produção de conteúdo propriamente dita, como fotografias, pesquisa histórica, adaptação e releitura de conteúdo, elaboração de escritos críticos e descritivos e também abordagem sobre fatos recentes que implicam na preservação do patrimônio cultural e no direito à cidade.

Foto de Barra do Pirahy
Coletivo Barra do Pirahy no Instagram [@barradopirahy]

Aos poucos, questões sociais foram despontando. As imagens, que mostram o município tal qual como parece, revelaram o seu foco em discussões de cunho cultural e ambiental, integrando-se assim à fotografia engajada, ramo da fotografia documental que tem o objetivo de mostrar a vida de pessoas ou comunidades desfavorecidas e geralmente tenta chamar a atenção para questões relacionadas à violação de direitos, atuação de movimentos sociais, condições de vida e também agressões ao meio ambiente.

Um aspecto particular desta experiência tem sido a valorização do patrimônio arquitetônico. A identificação das permanências arquitetônicas na paisagem através da fotografia engajada tem permitido o reconhecimento de fragmentos espaciais que conformam a cidade, que guardam memórias e significados, e que permanecem constituindo um vasto mosaico do espaço-tempo. Assim como para Aymonino, “a cidade é um lugar onde cada época tenta, mediante a representação de si própria nos monumentos arquitetônicos, assinalar aquele tempo determinado, para além das necessidades e dos motivos contingentes porque os edifícios foram construídos” (4). Nesse sentido, o testemunho dos monumentos continua a ser válido exatamente em virtude das constantes transformações ou adaptações que estes sofreram no tempo histórico-social.

Foto de Barra do Pirahy
Coletivo Barra do Pirahy no Instagram [@barradopirahy]

Por outro lado, este projeto permite perceber que, assim como a fotografia, as redes sociais são instrumentos poderosos. Quando utilizados com responsabilidade e critérios bem definidos, permitem a confluência de ideias, a discussão e a reflexão acerca de determinado tema, influenciando positivamente aqueles que participam e acompanham a dinâmica. Recentemente, o projeto despertou o interesse de colaboradores e também de fotógrafos profissionais, que com rigor técnico, conseguem transferir para as fotografias todo o sentimento de pertencimento e as memórias presentes na cidade.

Trata-se de uma ação em andamento, e que, portanto, não traz conclusões finais, apenas parciais, mas que já se encontra relacionada a um sentimento de pertencimento no qual os barrenses se identificam e se sentem de alguma forma representados. Sabe-se que há muito o que se fazer em prol do patrimônio cultural de Barra do Piraí e esta é apenas uma das formas de manifestar as inquietações daqueles que se importam, dos que acompanham o fim daquilo que lhes é caro sem muito poder fazer para mudar a própria realidade. Espera-se que de alguma forma este brado de fotografias engajadas surta algum efeito e que o patrimônio cultural barrense seja salvaguardado, preservando assim os elementos que permanecem na paisagem da cidade e a memória desta comunidade singular, cuja materialidade histórica tem escapado, ao longo do tempo, do conhecimento comum de seus próprios moradores.

Foto de Barra do Pirahy
Coletivo Barra do Pirahy no Instagram [@barradopirahy]

notas

1
ROSSI, Aldo. L’Architettura della città. Macerata, Quodlibet Abitare, 2011, p. 52.

2
O Arquivo Municipal está instalado desde 2015 em um dos galpões que serviam à ferrovia aos fundos da antiga Estação Central, que fica no Centro da cidade, porém se encontra ainda carente de organização que possibilite sua consulta por aqueles interessados. A escassa documentação relacionada à preservação do patrimônio cultural encontrada em outras repartições municipais não abrange os aspectos aqui levantados. De todo modo, não foram encontrados os documentos relativos aos processos de tombamento.

3
Recentemente deu-se por iniciado o processo de restauração e reabilitação da Estação Ferroviária Central de Barra do Piraí, iniciativa do IDEHC com apoio financeiro da empresa MRS Logística.

4
AYMONINO, Carlo. O significado das cidades. Lisboa, Editorial Presença, 1984, p. 11.

sobre a autora

Jéssica Rossone é arquiteta e urbanista (2016) e mestra em Ambiente Construído (2018) pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF. Fez intercâmbio na Alma Mater Università di Bologna (2013-2014) e professora bolsista na Fundação de Apoio a Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro (2017-2020). É especialista em Desenvolvimento Regional e Sustentabilidade pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ, 2021) e doutoranda do Instituto de Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IPPUR UFRJ.

comments

newspaper


© 2000–2021 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided