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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Relato de uma arquiteta-urbanista cidadã de Recife, abordando inquietações e constatações sobre diversos aspectos da evolução urbana da capital pernambucana, com foco no planejamento local e seus impactos socioespaciais e ambientais recentes.

english
Report of an architect and urban planner citizen from Recife, addressing concerns and findings about various aspects of the urban evolution of the capital of Pernambuco, focusing on local planning and its recent socio-spatial and environmental impacts.

español
Informe de una Arquitecta y urbanista ciudadana de Recife, abordando inquietudes y hallazgos sobre diversos aspectos de la evolución urbana de la capital de Pernambuco, con foco en la planificación local y sus impactos socio espaciales y ambientales.

how to quote

CÂMARA, Clarissa Duarte Dornelas. No aniversário da minha cidade. Recife, entre o sonho e a realidade. Minha Cidade, São Paulo, ano 23, n. 273.01, Vitruvius, abr. 2023 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/23.273/8767>.


Recife 500 anos, desenho de Helena Duarte em hidrocor sobre papel, Toulouse, 09 set. 2022
Foto Clarissa Duarte


Recife, 12 de março de 2037.

Acordei cedo para caminhar, me dei conta que o sol e o azul do céu estavam diferentes, o verde das árvores mais florescente e o reflexo da luz sobre as águas límpidas do rio Capibaribe mais brilhante do que nunca. Essa ambiência revigorante me lembrou que era aniversário da minha cidade. Recife completa hoje 500 anos (1).

Como em toda caminhada a pé ganhamos a oportunidade de “pensar livre”, um filme passou pela minha cabeça. Voltei quinze anos e me lembrei o quanto sonhava com a urbanidade e saúde integral da minha cidade, o quanto acreditei que ela seria referência de cidade viva, cidadã, inclusiva e integrada. Nesta época as desigualdades sociais no mundo e no Brasil estavam ainda mais evidentes do que hoje, e o meu “sonho feliz de cidade” parecia sempre um idealismo bobo, ofuscado pela crescente violência, segregação social e sensação de insegurança urbana.

Há trinta e cinco anos atrás, quando me formei em arquitetura e urbanismo, já existia uma forte inquietação dentro de mim: Como pode? Uma cidade tropical de gente tão acolhedora e sorridente inibir seu povo a andar nas ruas de maneira digna e segura? Como é possível que, na cidade que acolhe o maior e melhor carnaval de rua do mundo, sejam esquecidos e mesmo negados, em todos os outros 361 dias do ano, toda a vibração, respeito à diversidade e “evolução da liberdade”, vividos intensamente nos “quatro dias mágicos" que antecedem a quaresma? Como podemos pulverizar, em toda a cidade, alguma proporção dessa alegria e democracia ao ar livre ao longo de todo o ano?

Participei direta e indiretamente de muitos Planos e Projetos Urbanísticos para o Recife, que buscavam promover mais cidadania, mais sensação de segurança e conforto nas ruas, mais resiliência e sustentabilidade. Qualidade técnica e científica nunca faltaram nos profissionais recifenses. O que existia normalmente era uma grande desconexão entre o planejamento e a realização coerente e integral dos estudos propostos. De um lado, planos exequíveis com diagnósticos e dados claros, de outro, uma tradição de governanças desintegradas, com pouca coerência aos planos desenvolvidos e pouco esforço de inclusão social nas políticas locais.

Durante muito tempo Recife se incluiu na clássica caricatura conflitante “dos pesquisadores que pensam, mas não conseguem agir versus os gestores e técnicos que agem sem tempo para pensar”. Até que algumas “sementes híbridas" foram plantadas pelas mãos de pesquisadores e técnicos de várias áreas, regadas por gestores e políticos que começaram a perceber o “poder da co-criação” e do compartilhamento de saberes e práticas. Indícios de uma “governança mais compartilhada" pareciam surgir. Pequenos frutos de saúde e urbanidade, plantados graças à união “do pensar” com “o agir”, começaram a brotar na cidade.

Um deles, 100m de rua em frente a instituições de ensino foram re-partilhados em benefício dos pedestres e dos usuários de transporte coletivo, sendo a velocidade máxima permitida da via reduzida para 30Km/h (antes 50km/h) visando também acolher uma ciclorrota. A calçada anterior, com um metro e meio de largura, passou a ser um “passeio-praça” de nove metros graças à "gentileza urbana” da Universidade Católica que compartilhou mais de cinco metros de seu recuo frontal para uso público. Jovens estudantes, que antes se arriscavam aguardando o ônibus no leito da rua, ganharam uma praça arborizada, segura e confortável para conviver enquanto esperavam. Dentre os outros frutos, dois trechos de bordas de rio foram reabilitados para reconectar as pessoas com as águas e a natureza ribeirinha. Crianças passaram a brincar na rua, perto do rio e das capivaras. A comunidade local ganhou motivos para sair às ruas, caminhar e ativar o dia a dia.  Os idosos ganharam mais estímulo para se movimentarem e interagir socialmente. Mais uma parceria entre Universidade e poder público confirmava a viabilidade da união entre teoria e prática.

Em maio de 2022 uma grave cheia atinge a cidade, matando mais de cem vítimas e desabrigando cerca de 350 mil pessoas. Como já era de se imaginar, no país da desigualdade, os mais pobres foram os mais atingidos, mas os prejuízos impactaram a cidade como um todo e a pauta das emergências climáticas finalmente começou a se fazer expressivamente presente em muitas políticas, eventos e debates. Por sorte do Recife, vivíamos um momento de frutíferas relações internacionais, especialmente com a França. A contribuição exterior focou na importância de se conceber e aplicar normas claras, baseadas em planos sistêmicos e inclusivos que facilitassem a governança, a (re)construção e a manutenção da qualidade global das ruas e demais espaços públicos. Mais! Assimilamos também a importância da “pedagogia urbana” como instrumento de sensibilização e inclusão social.

Ao olharmos pra fora, para cidades como Nantes, por exemplo, vimos o poder transformador da arte e da cultura serem bem explorados o ano todo, o que nos fez valorizar ainda mais nosso potencial criativo. Aprendemos bem e fizemos melhor! Não copiamos as belas e minerais ruas europeias, mas evoluímos ao adaptarmos o modelo clássico para a nossa realidade cultural, climática e econômica. Em tempos de elevação do nível médio do mar, de inundações, tempestades severas e ondas de calor, encontramos maneiras de reabilitar integralmente as ruas de modo ainda mais permeável e vegetalizado, garantindo saneamento exemplar, estimulando a mobilidade ativa, multiplicando as hortas urbanas, as trocas sociais e o convívio com a natureza.

Havia naquele momento a consciência clara de que precisaríamos “de-colonizar” nossa cultura e valorizar mais as pessoas, grupos e práticas invisibilizados. Um grande esforço coletivo, transdisciplinar e intersetorial foi realizado para pulverizar na cidade oficinas e eventos de sensibilização pública, através da arte e da cultura, para temas urgentes e diversos. Peças teatrais de rua provocaram reflexões sobre a nossa empatia com os grupos marginalizados, projeções das histórias de vida de personagens urbanos diversos se espalharam por toda a cidade noturna, animando e simultaneamente sensibilizando os olhares para as diversidades. Os comerciantes populares de rua se uniram às universidades para aprenderem a ser “agentes ambientais”, alertando cada passante ou cliente ao cuidado com a limpeza urbana. Pouco a pouco deixaram de ser indesejados e, ao se organizarem apoiados pela municipalidade, passaram a ser vistos como trabalhadores e vigilantes socioambientais.

As políticas de gênero ganharam também mais força. As ruas identificadas como trechos de “rotas noturnas femininas” ganharam postes na escala do pedestre, iluminando diretamente as calçadas e aumentando as estatísticas de mulheres estudantes, antes em queda livre por conta da alta sensação de insegurança noturna nos caminhos das escolas e faculdades. Na revisão da lei urbanística municipal foram inseridos incentivos ao térreo ativo nas esquinas, que passou a encorajar bastante a “cidadania noturna inclusiva” já que a vigilância social está sempre presente na vivacidade de cafés, restaurantes e serviços noturnos.

Naquele momento em que decidimos agir pelas emergências climáticas estávamos bastante defasados em saneamento integrado e urbanidade. Decidimos então unir e valorizar nosso capital humano local (técnico, científico, político, ativista, comunitário), buscando agregar os mais diversos olhares e experiências, especialmente os que tocam o planejamento sistêmico das ruas para, junto aos parceiros internacionais, buscarmos alternativas alinhadas com a transição social e ecológica do nosso planeta urbano. As narrativas e demandas das pessoas menos favorecidas, de crianças, jovens, mulheres, homens, idosos e representantes dos mais diversos grupos foram equilibradamente consideradas. Chegamos juntas e juntos à conclusão que seríamos muito mais saudáveis e felizes se todas as ruas da cidade fossem integralmente saneadas e passassem a ser nossas ágoras da convivência cotidiana, jardins lineares biodiversificados que comporiam, junto às tramas azuis e verdes, a trama viva da cidade. Esta trama viria acolher muito mais vidas vegetais e animais e, com elas, a vida humana, especialmente em seus modos mais ativos e não poluentes.

Assim, o Sistema municipal de unidades protegidas da cidade passou a incluir o “sistema viário urbano” como unidade ambiental a "bio-diversificar" e preservar. Pouco a pouco, como determinou a revisão da Lei de uso e ocupação do solo, a construção e manutenção das calçadas da cidade passou a ser de responsabilidade do poder público (com apoio do capital privado), finalmente permitindo à população residente, usuária e visitante do Recife uma caminhabilidade digna e contínua. Com essas duas mudanças basilares foi possível realizar a drenagem integrada e o saneamento básico de quase toda a cidade. As ruas passaram a ser amadas, deixaram de ser associadas a sensações negativas ou apenas como lugar para passar carros. No Recife, hoje, as ruas são compreendidas por todas e todos como um grande parque urbano, como espaços públicos de vida, coexistência e trocas sociais por excelência. Conflitos e problemas relacionados ao uso diverso e diversificado do espaço público continuam a existir, mas de modo muito menos crítico e violento do que antes.

Com a conquista de uma cultura de planejamento viário mais integrada e inclusiva, os planos cicloviários foram predominantemente postos em prática. Pedestres e ciclistas de todas as idades, cores, gêneros e classes sociais passaram a povoar e colorir permanentemente a cidade, dia e noite, de domingo a domingo, de janeiro a janeiro. Milhares de novas árvores puderam ser adequadamente plantadas quando as obras de drenagem e saneamento foram geridas de modo integrado, aliando também o planejamento e implantação de uma iluminação pública mais humanizada, enaltecedora do patrimônio e cautelosa com a preservação da biodiversidade. Com o alargamento contínuo das calçadas, muitas mesinhas, cadeiras e bancos surgiram para permitir permanências prazerosas, passeios mais atrativos e seguros.

E os shoppings gigantes da cidade? Uma grande transição aconteceu! Eles abriram as lojas do térreo para as ruas, reabilitaram as calçadas e vias do entorno e diversificaram criativa e sustentavelmente o uso de suas imensas superfícies, que foram adaptadas para receber habitações para públicos diversos, especialmente habitação social e habitações intergeracionais para jovens e idosos, agregando ateliers de arte e grandes hortas urbanas para alimentar a população local. Muitos andares de estacionamento passaram a abrigar centros de acolhimento temporário para populações em vulnerabilidade climática. O comércio popular de rua continuou a dar vida e segurança à cidade, mas agora percebido como atributo urbano e incluído no planejamento como elemento chave da vitalidade e identidade local. E a arte? E a música? Eleita “Cidade criativa da música” pela Unesco em 2021, Recife não poderia se transformar monocromática e silenciosamente. Principalmente as esquinas e cruzamentos da cidade ganharam mais vida, mais arte e mais música. Hoje em dia é difícil caminhar sem ver e ouvir expressões artísticas diversas. Me dei conta que, finalmente, a vivacidade e alegria carnavalesca havia sim pulverizado cotidianamente as nossas ruas.

Termino enfim as reflexões de minha caminhada matinal, no auge dos meus sessenta anos, me sentindo feliz e saudável na minha cidade mãe. Tenho ainda disposição e me sinto segura para ir de bicicleta dar aulas na Universidade, voltar pedalando satisfeita porque irei buscar minha neta para ir na feirinha de arte e reciclados do meu bairro que ajudo a organizar. Já me imagino a caminhar com ela na cidade que sua mãe desejou e ilustrou quando tinha dez anos e morávamos em Toulouse, cidade onde aprendeu que meninas também são cidadãs e têm todo o direito e segurança para viver, radicalmente, a urbanidade.

notas

NA – O presente texto foi apresentado no Seminário de Acompanhamento Individual de Tese de Doutorado na Universidade de Toulouse, França, em 14 de setembro de 2022.

1
O texto foi escrito em 2022, mas é ficcionalmente datado de 12 de março de 2037, exatos 500 anos da fundação da Vila do Recife, em 12 de março de 1537.

sobre a autora

Clarissa Duarte Dornelas Câmara é arquiteta e urbanista (UFPE, 2002), mestre em Planejamento Urbano e Dinâmica dos Espaços (Universidade Paris 1 – Sorbonne, 2005) e, desde 2020, doutoranda em Arquitetura e Urbanismo Sustentáveis pela Université de Toulouse-FR. Desde 2006 é professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicap e pesquisadora, neste mesmo curso, do Laboratório humaniLAB.

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