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Rodrigo Queiroz faz um perfil conceitual do arquiteto Ruy Ohtake, falecido recentemente.

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QUEIROZ, Rodrigo. Ruy Ohtake e a laranja da feijoada. Resenhas Online, São Paulo, ano 20, n. 239.01, Vitruvius, nov. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/20.239/8331>.


Por ocasião do centenário de Oscar Niemeyer (15/12/2007), fui convidado pelo Memorial da América Latina para organizar uma exposição em homenagem ao arquiteto carioca na Galeria Marta Traba (o volume cilíndrico e raso com fechamento em vidro escuro em toda sua circunferência).

De imediato, pensei em chamar os dois arquitetos que representam aspectos distintos, porém indissociáveis, da obra de Niemeyer: Paulo Mendes da Rocha e a técnica, Ruy Ohtake e a “graça”.

Residência Tomie Ohtake, perspectiva da primeira fase, São Paulo, 1966. Arquiteto Ruy Ohtake
Croquis do arquiteto [GUERRA, Abilio; ROMANO, Silvana. Ruy Ohtake, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra/In]

Reservei para cada arquiteto um dos painéis que acompanham o perímetro da planta circular da galeria. Paulo Mendes da Rocha fez um conjunto de desenhos in loco direto sobre o painel (esse episódio merece um texto só para ele). Já Ruy Ohtake instalou no seu painel a reprodução ampliada de um desenho de Niemeyer pertencente ao seu acervo pessoal. Tratava-se de uma versão inusitada do próprio Memorial, com a adição de uma imprevista marquise estreita e reta que cruzava, de ponta a ponta, todo o comprimento da esplanada principal, da entrada até o Salão de Atos, no extremo oposto.

A abertura da exposição ocorreu em 14 de dezembro, uma sexta-feira, um dia antes do centésimo aniversário de Niemeyer. Todas as tratativas com Ruy foram estabelecidas por contato telefônico. Até então não havíamos nos encontrado pessoalmente.

Na véspera da abertura, Ruy me liga e pergunta se eu não gostaria de passar no seu escritório à tarde para conversarmos um pouco e em seguida irmos juntos à exposição, cuja abertura estava marcada para às 18h. Eu adoraria poder aceitar o convite, claro. Acontece que exatamente nesse dia 14 de dezembro de 2007, às 14h, ocorreria a defesa da minha tese de doutorado, Oscar Niemeyer e Le Corbusier: Encontros.

Residência Tomie Ohtake, perspectiva da primeira fase, São Paulo, 1966. Arquiteto Ruy Ohtake
Croquis do arquiteto [GUERRA, Abilio; ROMANO, Silvana. Ruy Ohtake, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra/In]

Agradeci o convite, mas disse que naquele horário estaria defendendo minha tese na Sala dos Espelhos da sede da Pós-Graduação da FAU USP, localizada na Rua Maranhão 88, em Higienópolis.

Combinamos então de nos encontrarmos direto no Memorial da América Latina no final da tarde. Eis que para a minha surpresa e de todos os presentes, Ruy Ohtake chegou à FAU Maranhão rigorosamente às 14h para acompanhar a minha defesa. Ficou lá com meus familiares e amigos até o final da banca e ainda brindou o resultado final conosco com uma taça de espumante. Disse então ao Ruy que de lá eu iria direto para a abertura da exposição no Memorial. Eis que, novamente, para a minha surpresa, Ruy perguntou se poderia ir conosco. Ruy foi no banco de trás do meu Gol “bolinha” vermelho duas portas. Com o tempo, descobri que Ruy não dirigia e que, justamente por isso, não tinha cerimônia em pedir e nem dispensava uma carona.

Depois dessa data, saímos para jantar algumas vezes. Na época eu ficava constrangido em parar o Gol “bolinha” no valet de restaurantes bacanudos. Ruy não estava nem aí, descia se contorcendo do banco de trás e ainda achava engraçado. Um dos episódios mais surpreendentes dessa vibe “nem aí” do Ruy foi em um jantar feito por chef estrelado e que no final, o Ruy pediu uma “quentinha” para cada um com alguns docinhos para a gente comer no dia seguinte.

Residência Tomie Ohtake, perspectiva da primeira fase, São Paulo, 1966. Arquiteto Ruy Ohtake
Croquis do arquiteto [GUERRA, Abilio; ROMANO, Silvana. Ruy Ohtake, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra/In]

Além de descobrir que Ruy não dirigia, descobri também que Ruy não tinha sequer cozinha no apartamento (pelo menos é o que ele dizia) e que toda comida vinha pronta de fora ou ele comia fora.

Ruy tinha outras duas paixões que se juntavam à arquitetura: a gastronomia e o São Paulo Futebol Clube. Em um desses jantares, Ruy desenhou em um caderninho o projeto que estava fazendo para a cobertura do estádio do Morumbi, até então cotado para sediar partidas da Copa do Mundo de 2014. Era um projeto incrível. Duas “vigas vagão” paralelas sobrevoavam o estádio no sentido do seu comprimento e repousavam em pilares monumentais localizados do lado de fora. O projeto de Artigas se manteria intacto.

Ruy tinha muitas amizades no São Paulo. Na abertura de uma das exposições no Instituto Tomie Ohtake – ITO, Ruy me apresentou o ex-jogador Raí. Que tipo de conversa poderíamos ter eu, Ruy e Raí? Isso mesmo: nenhuma. Ruy percebeu, e antes de nos pedir licença, disse que eu era corintiano, porém gente boa, e que poderíamos ficar ali conversando. Só não mandei o Ruy “para aquele lugar” em respeito a Tomie...

Residência Tomie Ohtake, perspectiva da primeira fase, São Paulo, 1966. Arquiteto Ruy Ohtake
Croquis do arquiteto [GUERRA, Abilio; ROMANO, Silvana. Ruy Ohtake, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra/In]

Fiz dois trabalhos com o Ruy: a curadoria da exposição “Ruy Ohtake: Presente!”, em 2008, no Salão Caramelo da FAU USP e participei como coautor de um livro sobre sua obra, editado pelo ITO em 2009. Nesses dois anos foram muitas as reuniões e sessões de trabalho em seu escritório, localizado na esquina da Av. Faria Lima com a Av. Rebouças.

Nas reuniões para a seleção das obras da exposição, Ruy espalhava fotos dos projetos sobre a mesa e dividíamos em categorias para, em seguida, escolhermos quais iriam integrar a exposição. A equipe da exposição era composta pelos estagiários do escritório e por estudantes da FAU USP. Na seleção dos projetos era evidente a predileção dos estudantes (principalmente os da FAU USP) pelos projetos do Ruy realizados nas décadas de 1960 e 1970, em certa medida ainda fiéis aos estilemas do “brutalismo paulista”. A gentileza nipônica não era suficiente para mascarar a insatisfação e o desanimo do Ruy em ver reconhecidas pelos mais jovens apenas as suas obras realizadas havia mais de meio-século. Ruy percebeu que para apresentar uma amostragem cronologicamente mais alargada da sua obra deveria convencer a equipe de estudantes. As estratégias de convencimento eram variadas.

Residência Tomie Ohtake, perspectiva da segunda fase, São Paulo, 1987. Arquiteto Ruy Ohtake
Croquis do arquiteto [GUERRA, Abilio; ROMANO, Silvana. Ruy Ohtake, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra/In]

Havia uma casa com contornos mais extravagantes que ficava escanteada em todas as reuniões. Ruy disse que a proprietária era uma grande amiga, que com certeza estaria na abertura da exposição e que, também com certeza, claro, percorreria toda a exposição até encontrar o projeto da casa dela. O lugar da casa na exposição representaria a amizade de décadas entre ambos etc. Em resumo: a casa entrou na exposição, a senhora proprietária foi à abertura e Ruy ficou feliz com o olhar entusiasmado da amiga de longa data ao ver a casa exposta.

Contudo, o apelo ao sentimental era um recurso utilizado apenas quando os argumentos do campo próprio da arquitetura não obtinham êxito. Na maioria das vezes, Ruy explicava seu procedimento projetual definindo a beleza como resultado da relação equilibrada entre elementos diferentes: a reta e a curva, a luz e a sombra, o pesado e o leve, a opacidade e a transparência, a presença e a ausência da cor etc.

Como analogia à relação de contraste complementar entre as partes, Ruy sempre falava da função da laranja na feijoada. Sim, isso mesmo. A laranja como um corte, como uma interrupção ácida e doce que contrasta perfeitamente com a untuosidade defumada e salgada da feijoada em si. Ruy dizia que projetar, nesses termos, seria como alternar sabiamente um gomo da laranja entre meia dúzia de garfadas da feijoada. Uma parte não apenas interrompe abruptamente a saturação da outra como faz querer a outra parte. Ou seja, a laranja corta, mas também nos faz desejar a feijoada novamente para cortar a acidez da laranja e vice-versa. Trata-se de uma relação harmoniosa entre opostos que, no caso da arquitetura de Ruy Ohtake, percebe-se principalmente no diálogo entre a linha gestual (que é diferente de linha curva, vale lembrar) e a linha reta, e entre as cores fortes e o cinza do concreto aparente.

Residência Tomie Ohtake, esquema do projeto completo, São Paulo, 1997. Arquiteto Ruy Ohtake
Croquis do arquiteto [GUERRA, Abilio; ROMANO, Silvana. Ruy Ohtake, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra/In]

A analogia à laranja da feijoada feita por Ruy se aplica à arquitetura e às artes visuais em geral, como, por exemplo, à própria obra de uma de suas principais referências: Oscar Niemeyer. Contudo, vale destacar que a linha livre de Ruy e Niemeyer assume configurações distintas em suas respectivas obras. Para Niemeyer, a linha sinuosa tem um caráter mais distendido, gráfico. Ao passo que para Ruy, essa mesma linha ganha um aspecto deliberadamente plástico, material mesmo.

Se podemos entender Niemeyer como “filho” de dois pais, Lúcio Costa e Le Corbusier, ao incorporar a matéria do primeiro e o vocabulário formal do segundo, podemos localizar Ruy Ohtake como “filho” do casal Niemeyer e Tomie. A curva, antes resposta acessória à retidão da “escola paulista”, assume o perfil do projeto como um todo, de ponta a ponta, aos moldes das elevações e dos cortes de Niemeyer. Contudo, a materialidade e a espacialidade contorcida dos projetos de Ruy realizados a partir da década de 1980 parecem rumarem ao encontro da obra escultórica de sua mãe, Tomie Ohtake. Mesmo nos tratamentos das superfícies dos seus edifícios, com aberturas irregulares e padronagens tonais em ritmo desordenado, mas lógico, é possível entrever também o raciocínio pictórico de Tomie.

Residência Tomie Ohtake, perspectiva da terceira fase, São Paulo, 1997. Arquiteto Ruy Ohtake
Croquis do arquiteto [GUERRA, Abilio; ROMANO, Silvana. Ruy Ohtake, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra/In]

Os sucessivos projetos de ampliação da casa-atelier de Tomie são um exemplo nítido desse cronológico processo de aproximação entre a arquitetura de Ruy e os experimentos tridimensionais de sua mãe.

Tive a oportunidade de compartilhar almoços de domingo com a família Ohtake no jardim da casa da Tomie e na companhia do professor e arquiteto Julio Katinsky, grande amigo do Ruy. A coreografia ritual do almoço em torno da figura da Tomie, tendo como pano de fundo suas obras e espaço a arquitetura do Ruy transformada no tempo por aquelas mesmas obras configuravam uma experiência-síntese que me fez compreender com clareza o lugar da arte e da arquitetura não apenas na vida como um todo, mas principalmente no cotidiano.

O estímulo à interlocução com aquele espaço foi tão latente que cheguei a projetar e executar dois revisteiros com chapas de pvc e de acrílico encurvadas por tração e presenteei Ruy com as duas peças. Não sei se as mesmas ainda compõem o interior da casa. Foi uma obra imatura, quase uma citação que depunha contra tanto à arquitetura do Ruy como às obras da Tomie...

Residência Tomie Ohtake, perspectiva da terceira fase, São Paulo, 1997. Arquiteto Ruy Ohtake
Croquis do arquiteto [GUERRA, Abilio; ROMANO, Silvana. Ruy Ohtake, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra/In]

Não quero aqui advogar em favor de uma arquitetura feliz em si ou de uma arquitetura da felicidade, mas havia uma característica rara no Ruy se comparado aos seus pares. Ruy tinha um prazer e uma satisfação imensa em projetar e fazer arquitetura. A indignação e o sentimento de contrariedade constante que o arquiteto é acometido nos faz ter uma relação dura, triste mesmo, com o ofício. É evidente que Ruy tinha consciência da nossa precariedade crônica, mas tentava o tempo todo responder a essas demandas com uma prática estimulante e prazerosa. A lição de Ruy é que a arquitetura deve ser feita com felicidade.

Assim como Paulo Mendes da Rocha, Ruy Ohtake se despediu da vida em um momento de revisão regressiva e pouco propositiva dos cânones da arte e da arquitetura. Se essa revisão detratora entende toda forma autoral como forma autoritária seria ingênuo de nossa parte esperarmos uma resposta propositiva daqueles que intentam dissolver a expressão em discurso (não à toa, a obra que ocupa o vazio central da 34ª Bienal de Arte é uma arena de conversas...).

Residência Tomie Ohtake, planta térreo do projeto completo, São Paulo, 1966. Arquiteto Ruy Ohtake
Imagem divulgação [GUERRA, Abilio; ROMANO, Silvana. Ruy Ohtake, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra/In]

Em 2021, a morte preservou nossos mestres do quadro convulsivo que se desenha sobre o futuro e o sentido da arquitetura e principalmente do projeto. Quanto maior a catarse, mais tento aprender com meus mestres. São escolhas.

Apesar das diversas aventuras gastronômicas e arquitetônicas com Ruy Ohtake, nunca o vi se satisfazendo com o exercício do equilíbrio perfeito, alternando a laranja e a feijoada. Mas eu acredito nele.

Ruy Ohtake na exposição “Ruy Ohtake: Presente!”, Salão Caramelo da FAU USP, 2008, curadoria Rodrigo Queiroz
Foto divulgação

sobre o autor

Rodrigo Queiroz é arquiteto (FAU Mackenzie, 1998), licenciado em Artes (Febasp, 2001), mestre (ECA USP, 2003), doutor (FAU USP, 2007) e professor livre-docente do Departamento de Projeto da FAU USP. Curador de exposições de arquitetura moderna, tais como “Ibirapuera: modernidades sobrepostas” (Oca, 2014/2015), “Le Corbusier, América do Sul, 1929” (CEUMA, 2012), “Brasília: an utopia come true”, (Trienal de Milão, 2010) e “Coleção Niemeyer” (MAC USP, 2007/2008).

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