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O intelectual Mário Henrique Simão D´Agostino, falecido recentemente, recebe homenagem de Luís Antônio Jorge, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

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JORGE, Luís Antônio. Mário Henrique Simão D´Agostino, palavra escrita e falada. Resenhas Online, São Paulo, ano 20, n. 239.02, Vitruvius, nov. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/20.239/8333>.


“O que é uma inteligência infinita?” indagará talvez o leitor. Não há teólogo que não a defina; eu prefiro um exemplo. Os passos que um homem dá, desde o dia de seu nascimento até o de sua morte, desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência de Deus intui essa figura imediatamente, assim como a dos homens um triângulo. Esse desenho tem (quem sabe) sua determinada função na economia do universo.
Jorge Luis Borges, Outras inquisições (1)

Arquiteto e urbanista, nascido em Penápolis SP, em 13 de julho de 1963, formado nos estertores da ditadura militar e no calor dos movimentos pela democracia, pela liberdade de expressão, pela explosão de um sentimento de que haveríamos de virar o jogo e ver realizar o que era potência acumulada e promessa de revolução. Os jovens universitários daquela primeira metade dos anos 1980, misturavam boemia e afeto à formação intelectual, às ações culturais e à ampla participação política, em doses pessoalmente definidas. Dos vindos de pequenas cidades do interior de São Paulo, o alumbramento com o ambiente universitário, sobretudo, aquele da FAU PUC-Campinas, era inevitável. Havia um sentimento difuso que misturava esperança em uma virada histórica no Brasil, para uma sociedade democrática e mais justa, em compasso com a transformação nas vidas pessoais, movida pelos novos horizontes intelectuais e pelos estímulos ao desenvolvimento de sensibilidades e práticas artísticas. O meio universitário se propagava pela cidade de Campinas e a FAU PUC-Campinas parecia ser a mais sedutora das mestres de cerimônias, com seu rico, estimulante e comprometido grupo de docentes.

Mário Henrique, logo se tornou Maíque, naquele doce e bárbaro ambiente de cumplicidades estudantis, trocas de afetos e pensamentos. Trazia, com entusiasmo, relatos de experiências com o teatro na sua juventude. O teatro e a música, principalmente, a MPB, formavam solo fértil para brotar a paixão pela arquitetura. Aliás, as aproximações entre teatro e música estavam presentes na ironia, no sarcasmo e na dramaturgia de grupos e movimentos musicais como os da chamada vanguarda paulista que expressavam o espírito da época pós-censura da ditadura militar.

Naquele movimento inicial de formação do conhecimento do amplo e abrangente campo da arquitetura e urbanismo, uma obra e um autor, assumia uma dimensão epistemológica incomparavelmente superior para alguns e, sobretudo, para Maíque: O capital, de Karl Marx. Reconhecia-se ali, o valor de um pensamento estruturado: a força da clareza argumentativa, a solidez das análises mais profundas, a trama de relações entre interpretação e fatos históricos, a chave para a compreensão da realidade socioeconômica do país e do mundo capitalista. A leitura d’O capital, na primeira publicação integral em língua portuguesa, traduzido por Reginaldo Sant’Anna, editado pela Civilização Brasileira, no primeiro ano do curso de arquitetura e urbanismo, 1981, era o pedágio para a maturidade intelectual exigente que Maíque pagou com dedicação e paixão. A trama disciplinar entre História, Economia, Sociologia, Filosofia e Política tecida, pela dialética de Marx – “a ciência das leis gerais do movimento tanto do mundo exterior quanto do pensamento humano” (2) – é, antes, uma experiência formadora do pensamento. Ela não só ensina a pensar, como a prezar pelas formulações estruturais, aquelas mais fundantes para a constituição de uma visão de mundo, simultaneamente, a de um ideal de atividade intelectual – ambas concorrentes na construção de uma carreira acadêmica. Marx foi um paradigma para o trabalho interpretativo que Maíque procurou construir: uma exegese da arquitetura como disciplina do espírito.

O ingresso no programa de mestrado da FAU USP, quase simultaneamente ao início da carreira docente na FAU PUC-Campinas, em 1987, ofereceu ao Maíque as condições profissionais para a continuidade dos estudos, movidos pelas indagações sobre os fundamentos disciplinares da arquitetura ou, em espectro mais amplo, sobre a racionalidade do juízo estético e a longa tradição do conhecimento humano sobre o belo e a arte do projeto. Acrescente-se que, em 1990, ele também inicia, concomitantemente, sua carreira na Universidade de São Paulo, no Departamento de Arquitetura e Planejamento da Escola de Engenharia de São Carlos, hoje, Instituto de Arquitetura e Urbanismo – IAU.

Não é raro, no ambiente acadêmico e, até mesmo, profissional, da arquitetura, os processos criativos serem admitidos como territórios insondáveis pela razão, inquestionavelmente delimitados pelo exercício da intuição, no seu livre curso expressivo em busca da forma e da concepção do espaço. Às vezes, por legítimas convicções, às vezes, por desapreço a tudo que soa como regra ou tradição, a elaboração da arquitetura é completamente destituída de historicidade e do seu conhecimento como disciplina, o que equivale dizer, no mundo ocidental, o conhecimento da tradição clássica e a grandiosa aventura de elaborar teorias que orientassem a atividade de projetação. Ou ainda, a consciência de que os problemas envolvidos nessa atividade pressupõem a percepção de que somos parte de uma história que buscou formalizar e enunciar regras ou métodos para estabelecer as boas relações entre as diferentes partes e, entre a parte e o todo, no coração da linguagem. Maíque era um intelectual movido pelo amor às ideias. Como elas se constituem, ganham corpos, signos e linguagens? Como reconstituí-las, desde as suas representações, seus lampejos iniciais, suas nascentes e seus ambientes mentais e culturais?

O reconhecimento do valor da pesquisa de mestrado empreendida por Maíque e orientada pelo saudoso professor Philip Gunn, promoveu-a ao doutorado direto, defendido em 1995 e publicado, em 2006, na forma do livro Geometrias simbólicas da arquitetura – espaço e ordem visual do Renascimento às Luzes (Hucitec). Texto refinado, de escrita apurada, em sintonia com as imagens que evoca e apresenta, com o objetivo de perfazer o chamado “processo de racionalização do espaço”, entre os séculos 16 e 18, articulando os problemas de representação com a concepção do espaço. Desenho e linguagem ou formas de representação e intenções estéticas amalgamadas. A paixão pela escrita o impulsionava ao diligente escrutínio dos significados que as palavras contêm, de modo que, para enfrentar, por exemplo, a leitura dos clássicos da história do renascimento, assim como dos seus próprios personagens – Alberti, Di Giorgio Martini, Filarete, Pacioli, Palladio, Serlio, Vignola, além de Vitrúvio, renascido e redescoberto nesse período – habituou-se a comparar edições e traduções em diversas línguas, com especial interesse, pelas italiana e grega, de modo a recompor o trajeto entre a Antiguidade e a Renascença, a gestação de um espírito moderno que alcançará o período das Luzes. Atestemos, em página aberta ao acaso, mas com a segurança de quem sabe que não há parágrafo em vão ou palavra desperdiçada, a qualidade do texto referido:

“Com seu labirinto, Dédalo impõe divisas àquele cuja natureza é enodoar toda linha divisória; contém a violência e loucura de Minotauro neste palácio real símil ao mundo dado aos seus olhos e à sua natureza, nesta arquitetura que apaga, no seu interior, todo traço diferencial. Duplo jogo de enganos, interno e externo. Com contornos bem-definidos, o hipnótico tópos do Minotauro, sua casa, o único lugar que, afeito à sua natureza híbrida, não põe em risco o limite dos outros, traz consigo esquecimento da hýbris e do ‘símbolo’ da realeza de Minos” (3).

A citação faz jus à expressão geometrias simbólicas do título do livro e às analogias ou correspondências traçadas entre números, figuras geométricas e significados simbólicos que edificam a tratadística e a tradição clássica. A racionalização do espaço apresentada por Maíque, equilibra as expressões de uma razão objetiva (ou matemática) com uma razão simbólica que emerge da cultura e das suas formas de manifestar.

Em 2002, Maíque começa a trabalhar, exclusiva e integralmente na FAU USP, onde ele pôde se concentrar no estabelecimento de uma unidade quase absoluta, entre sua pesquisa e suas atividades de ensino, tanto na graduação, quanto na pós-graduação, em um movimento pendular entre a escrita e a fala, quase cotidianamente. Quem teve a sorte e o interesse pelo assunto, usufruiu das suas aulas, dedicadamente preparadas, com rigor e encantamento, certamente, terá visto o Amor. O amor pelo ofício de professar, de dar voz ao pensamento, fala ao personagem do dia a descobrir os artifícios retóricos ou poéticos na singela transmissão de uma ideia. O amor como princípio da beleza, como fundamento estético, como significado do trabalho intelectual e como conduta social. A ideia de Amor é o que dá sentido: o mundo inteiro é “um dar, um receber, um devolver, como exemplifica a iconografia das Graças renascentista”, estudadas por Edgar Wind, autor tão caro ao Maíque. O Amor assume um lugar central nas suas reflexões, a partir da obra De Amore – Commentarium in Convivium Platonis (Do Amor – Comentário a “O Banquete”, de Platão), 1594, do médico, filósofo, astrólogo, sacerdote e músico Marsilio Ficino, humanista e tradutor de Platão e um dos responsáveis pela difusão do platonismo desde os tempos de Lorenzo, o Magnífico em Firenze, até o século 18. O Amor como problema filosófico que relaciona o bom e o belo, como tema, metáfora ou alegoria fertilizando a iconografia renascentista: Botticelli, Michelangelo, Rafael, Tiziano, Giorgione.

No Capítulo I (Deus é bondade, beleza, justiça, princípio, meio e fim) do Discurso Segundo do De Amore, Ficino escreve (livre tradução do autor): “Os filósofos pitagóricos quiseram que o número três fosse a medida de todas as coisas, e estimo por esta causa que, com o número ternário, Deus governa todas as coisas e as coisas, por esse número, se aperfeiçoam. Daqui as palavras de Virgílio: Deus se alegra com o número ímpar” (4). A medida das coisas e o princípio que as governa na infinitude das relações possíveis é o problema central da arquitetura, mas, sobretudo, o que permite dialogar com similares problemas do espírito presentes na diversidade dos saberes. Mais que um problema é um convite à reflexão amorosa: a descoberta dos nexos ocultos entre as coisas do mundo e da natureza, entre a própria natureza e o pensamento, entre a transcendência (os ideais divinos) e a carne do mundo, entre a Ideia de beleza ou bondade e os meios de alcançá-las, entre a elaboração dos significados ou interpretações e a retórica como arte (poética) da persuasão.

Desde a finalização da sua tese de doutorado, Maíque passou a focar seus estudos, elegendo o Tratado De Architectura de Vitrúvio, como a obra a ser profundamente investigada, o que resultou na sua tese de livre-docência, defendida na FAU USP, em 2007 e na publicação do livro A beleza e o mármore – o tratado De Architectura de Vitrúvio e o Renascimento (Annablume), em 2010. A profundidade analítica da obra de Vitrúvio estabelece um outro patamar para a compreensão do Renascimento e é reconhecida, internacionalmente, por um seleto e reduzido grupo de especialistas. O título do livro convoca a uma passagem na fina ourivesaria textual do autor:

“Como o estatuário que esculpe na pedra a beleza dos corpos, o arquiteto, ‘transpondo’ em material mais duradouro as disposições dos primeiros templos, não almeja um simulacro ou engano dos olhos, pretende fazer justiça à realidade sagrada e atemporal da beleza. Se se deve falar em simulacro, ele não reside propriamente na contrafação em pedra de algo que ela não é – o madeiro, o corpo belo –, mas na ilusão de, pelo espelho lapídeo, o artista salvar definitivamente a beleza sensível do transitório das coisas deste mundo” (5).

Nada menos do que um dos maiores historiadores da arquitetura e da cidade, Joseph Rykwert, apresenta o último, o mais ensaístico e de maior abrangência cronológica dos livros do Maíque: A coluna e o vulto – reflexões sobre a casa e o habitar na história antiga e moderna (Annablume), publicado em 2016. Rykwert, retribuindo o Prólogo que Maíque escreveu para a edição brasileira de seu A casa de Adão no paraíso, e reconhecendo nele um interlocutor dos mais qualificados e, especialmente, neste caso, do seu livro A coluna dançante: sobre a ordem na arquitetura, escreve:

“No tempo em que escrevia Vitrúvio, as colunas, por séculos, por milênios já faziam parte das construções. Mas, quiçá, ainda antes de se tornarem componente integral do edifício, as grandes pedras eretas ou os troncos de árvore fincados no solo eram identificados com os corpos dos homens que lhes tinham erigido – e as sombras que se lançavam ao chão eram como signos da presença humana e guias para a orientação no espaço. Mário D’Agostino possui vasto conhecimento destes assuntos e seu ensaio é um precioso guia para adentrar sua complexa trama. E bem sabe ele que, afinal, ao propor a sua ideia mais escandalosa, aquela da casa como machine a habiter, também Le Corbusier, o mais radical entre os arquitetos de seu tempo, considerava essencial insistir no fato de que, malgrado a admirável leveza que a máquina conferia à casa, somente a analogia do corpo humano, explícita na articulação das colunas antigas, podia assegurar a harmonia essencial da arquitetura” (6).

Ao desembocar no século 20, este brilhante conjunto de ensaios fortalece e renova os estudos que compreendem a modernidade no seu devido arco temporal: tradição clássica, Renascimento, Luzes e Modernismo, em favor da inteligibilidade do juízo estético e dos processos de criação artística. Das ordens clássicas aos pilotis de Le Corbusier, as colunas acolhem os símbolos e o corpo humano como sistema de medidas, ordem e modelo de beleza: palavras e pedras.

O que é uma inteligência estética? Quais os passos que devemos percorrer para conhecer a sublime beleza do mundo, a arquitetura das ideias, dos valores, dos significados cultural e socialmente construídos? O que nos irmana e vence fronteiras disciplinares, divisas geográficas, períodos históricos no universo do pensamento? O que é, em suma, amar o humano no mundo?

Nos 40 anos dedicados à vida universitária e à profissão de professor, Maíque percorreu um vasto território que podemos vislumbrar por tudo que ele nos legou: livros, artigos, aulas, conversas e desenhos. Impossível é saber dos percursos, das linhas percorridas em passos miúdos, errantes, hesitantes, de todo o caminhar solitário. Sabia-se dos seus apegos, das suas afinidades eletivas, dos seus autores, das suas obras-primas, dos seus professores, dos seus parceiros, dos seus alunos e colaboradores – tantos, tão importantes para ele que seria injusto citá-los, pelo risco de uma provável e imperdoável omissão – que, aliás, ele externava com franca emoção. Ele não perdia ocasião para se irmanar, para nos envolver naquilo que o mundo tem de articulado, como observou Merleau-Ponty: nas linguagens, invenções da vida para superar a solidão (e a subjetividade), para dar vida ao pensamento, para permitir o diálogo (condição do entendimento, mas também, da paz) que fará realizar o conhecimento humano sobre toda provocação do desconhecido. Ele era um professor que cultivava o espaço da sala de aula como o lugar por excelência da vida acadêmica: amava o diálogo que sucede à apresentação de um autor, de uma obra, de um juízo. Um dar e receber, porque o conhecimento é um mover sem fim. E os sentidos das coisas é benefício de algum tipo do diálogo, a forma mais elevada da simpatia cósmica, como disse Octavio Paz. O prazer da aula bem dada era medido pelo interesse despertado na audiência, invariavelmente, para assuntos que a cada dia, parecem ser mais distantes em um mundo mais reativo do que reflexivo. Um professor, um pensador, um amigo que fará uma falta imensa. Um professor que honrava a universidade e que amava as palavras e as pedras.

notas

1
BORGES, Jorge Luis. Outras inquisições. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo, Companhia das Letras, 2007, em nota de rodapé, p. 77.

2
ENGELS, Friedrich. Apud KOPNIN, Pavel Vasilyevich. A dialética como lógica e teoria do conhecimento. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978, p. 47.

3
D'AGOSTINO, Mário Henrique Simão. Geometrias simbólicas da arquitetura – espaço e ordem visual do Renascimento às Luzes. São Paulo, Hucitec, 2006, p. 34.

4
FICINO, Marsilio. De Amore. Comentario a “El Banquete” de Platón. Traducción y estúdio preliminar: Rocío de La Villa Ardura. Madrid, Editorial Tecnos, 1989, p. 21, Discurso Primero.

5
D'AGOSTINO, Mário Henrique Simão. A beleza e o mármore – o tratado De Architectura de Vitrúvio e o Renascimento. São Paulo, Annablume, 2010, p. 189.

6
RYKWERT, Joseph. Apresentação. D'AGOSTINO, Mário Henrique Simão. A coluna e o vulto – reflexões sobre a casa e o habitar na história antiga e moderna. São Paulo, Annablume, 2016, orelha.

sobre o autor

Luís Antônio Jorge é arquiteto (FAU PUC-Campinas, 1985), mestrado, doutor e livre-docente (FAU USP, 1993, 1999 e 2016). Professor da FAU USP e pesquisador da área “Projeto, Espaço e Cultura” do Programa de Pós-Graduação. Foi professor-convidado da Universidad Autónoma Metropolitana do México (UAM-Xochimilco), da Universitat Politècnica de Catalunya (UPC Barcelona), da Universidade Técnica de Lisboa (UTL Portugal), da Universidade Eduardo Mondlane (UEM-Maputo/Moçambique), da Yokohama Graduate School of Architecture (Y-GSA/Japão) e do Politecnico di Milano (Itália).

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