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português
Texto em homenagem ao arquiteto britânico Richard Rogers, falecido no dia 18 de dezembro de 2021.

english
The article is a tribute to British architect Richard Rogers that passed away on December 18, 2021.

how to quote

MARQUES, André. O legado de Richard Rogers. Adaptabilidade, transparência, leveza e cor. Resenhas Online, São Paulo, ano 20, n. 240.01, Vitruvius, dez. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/20.240/8354>.


”Richard Rogers é um grande arquiteto. É o único arquiteto que conheço que pode ser humanista às 9 horas da manhã, construtor às 11h, poeta antes do almoço e filósofo à hora do jantar. É o que chamo de grande arquiteto”.
Renzo Piano (1)

Sábado, 18 de dezembro de 2021. Faleceu o arquiteto britânico Richard Rogers.

Nascido em Firenze em 23 de julho de 1933, a família de Rogers se estabeleceu na Inglaterra em outubro de 1939 para fugir do regime ditatorial fascista imposto por Benito Mussolini (2). Esta mudança marcou sua forma ver o mundo: questões políticas e seu ideal democrático e social passam a ser temas recorrentes em suas futuras obras. Nas palavras do próprio arquiteto, o exílio de sua família representou para ele o encontro com o novo: the shock of the new (3).

Acompanhado de sua mãe, uma amante das artes, Richard Rogers visitou, em 1945, a exposição das obras de Picasso no Victoria and Albert Museum e, em 1951, o Festival of Britain. Em suas memórias publicadas no livro Richard Rogers: a place for all people, o arquiteto lembra ter se impressionado com a relação entre arte e ciência no Dome of Discovery e no Skylon, projetados, respectivamente, por Ralph Tubbs e por Powell & Moya com Felix Samuely (4). Esse grande monumento tecnológico de 91 metros de altura foi para Rogers um símbolo construído das possíveis transformações estéticas e sociais de uma nova era, como colocado por Karl Marx e Friedrich Engels em Manifesto comunista (5). O avanço cientifico e tecnológico colocou a sociedade em constante transformação: valores antigos são descartados e os novos, rapidamente substituídos.

Casa Rogers, foto da maquete desenvolvida pelos alunos da disciplina Desenho Arquitetônico da Universidade São Judas Tadeu em 2018, Richard Rogers e Su Rogers, 1968-1969.
Redesenhos André Marques

Rogers não teve uma formação acadêmica brilhante. Devido a um problema de dislexia, tinha dificuldade com o desenho e a escrita. Foi reprovado no quarto ano do curso de arquitetura, mesmo demonstrando verdadeiro amor pela profissão, conforme descrito em seu boletim (6).

Após receber o diploma da Architecture Association School of Architecture de Londres, Rogers se muda para Connecticut a fim de desenvolver seu mestrado na Yale School of Architecture. A viagem para os Estados Unidos foi o primeiro passo para alavancar sua carreira profissional. Em 1963, com sua esposa, a arquiteta Susan Jane Brumwell, também conhecida como Su Rogers, associa-se ao colega de Yale Norman Foster e sua esposa Wendy Cheeseman Foster, dando origem ao Team 4. Apesar de terem atuado juntos por apenas cinco anos, suas obras são marcadas pelas preocupações tecnológicas e industriais. É também importante destacar a forte influência das obras norte americanas de Frank Lloyd Wright, Mies van der Rohe, Paul Rudolph, do casal Eames e dos austríacos Rudolph Schindler e Richard Neutra.

O começo profissional do casal Su e Richard Rogers foi marcado pelos projetos residenciais para seus familiares: a casa Greek Vean (1966) para o pai de Su, com o Team 4, e a casa para Dr. William Nimo e Dada Rogers (1968-1969). É neste projeto, para os pais de Richard Rogers, que o casal passa a incorporar elementos que, posteriormente, se tornarão importantes marcas de sua arquitetura: adaptabilidade, transparência e cor. A proposta tinha características de um protótipo, utilizando um sistema de pré-fabricação que foi por eles denominado como Zip-Up House. Trata-se de um sistema construtivo baseado no uso de oito pórticos de aço com 12 metros de vão livre, repetidos a cada 3,8 metros de distância de eixo a eixo, revestidos externamente por painéis de alumínio e vedados com Neoprene. O resultado final da casa, segundo Richard Rogers, é “um tubo transparente com paredes de contenção sólidas” (7). Esse mesmo sistema foi aplicado em projetos posteriores, tais como: o Design Research Unit – DRU (1971) e UOP Fragrances (1974, em parceria com Renzo Piano).

Casa Rogers, foto da maquete desenvolvida pelos alunos da disciplina Desenho Arquitetônico da Universidade São Judas Tadeu em 2018, Richard Rogers e Su Rogers, 1968-1969.
Redesenhos André Marques

Essa investigação tecnológica e construtiva aproximou Rogers do jovem arquiteto italiano Renzo Piano (1937). Ambos pesquisavam sobre estruturas leves, inspirados pelos domos de Buckminster Fuller e pelas membranas de Frei Otto: nos dois casos, estruturas desenhadas pelos esforços de tração e compressão.

O pavilhão da Itália na Expo 70, em Osaka, projetado por Renzo Piano, chamou a atenção de Rogers, que posteriormente se uniu ao italiano para juntos desenvolverem o projeto do concurso para o Centro Georges Pompidou em Paris. Esta união entre eles marcou profundamente o panorama da arquitetura internacional. Os então jovens arquitetos Rogers e Piano – respectivamente 37 anos e 33 anos e que ficaram conhecidos como os bad boys – propuseram para o centro cultural um edifício adaptável, com leveza estrutural, legibilidade das cores, transparência e que representasse, em sua arquitetura, a rápida e constante transformação da sociedade.

Casa Rogers, foto da maquete desenvolvida pelos alunos da disciplina Desenho Arquitetônico da Universidade São Judas Tadeu em 2018, Richard Rogers e Su Rogers, 1968-1969.
Redesenhos André Marques

Richard Rogers entende que a importância da flexibilidade de um edifício está diretamente relacionada com a visão de Marx e Engels sobre as transformações dos valores sociais:

“Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é, enfim, forçado a enfrentar com sobriedade suas reais condições de vida e sua relação com a humanidade” (8).

Nesse sentido, tomando como mote as constantes transformações sociais, Rogers entende qual é o verdadeiro papel do arquiteto. Sua arquitetura se afasta das visões meramente funcionais e estéticas dos edifícios, que não mais correspondem à sociedade contemporânea.

“Além de emoldurar a vida pública, os edifícios atendem às necessidades de seus usuários. Isso suscita uma questão prática de como projetar para satisfazer essas exigências. A vida moderna está mudando muito mais depressa do que os edifícios que a abrigam. Um local que hoje abriga um centro financeiro pode, em cinco anos, precisar transformar-se em um escritório, ou em uma universidade depois de dez anos. Assim, edifícios fáceis de serem modificados terão vida útil mais longa e representam utilização mais eficiente dos recursos. Porém, projetar tendo em vista a flexibilidade de uso dos edifícios inevitavelmente desloca a arquitetura das formas fixas e perfeitas. A beleza da arquitetura clássica, por exemplo, advém de sua composição harmoniosa: nada pode ser adicionado ou retirado. Mas quando a sociedade exige edifícios capazes de atender a necessidades em modificação, devemos proporcionar tal flexibilidade e buscar novas formas que expressem beleza dentro de um padrão de adaptabilidade” (9).

Casa Rogers, foto da maquete desenvolvida pelos alunos da disciplina Desenho Arquitetônico da Universidade São Judas Tadeu em 2018, Richard Rogers e Su Rogers, 1968-1969.
Redesenhos André Marques

Surge então uma nova forma de projetar: uma que prioriza a flexibilidade e adaptabilidade do espaço e dos equipamentos, a leveza estrutural, a legibilidade construtiva e funcional e a transparência espacial e construtiva. O edifício passa a expressar sua estética por aquilo que é como estrutura, instalação e ocupação funcional; e não mais pelos elementos formais que representam valores simbólicos. As cores se tornarão a principal ferramenta para democratizar o edifício, torná-lo legível e didático para qualquer usuário. As estruturas e instalações, antes escondidas dentro das paredes, passam a ser parte de sua estética. Outro ponto importante é a transformação de seu escritório em uma comuna criativa: a prática profissional passa a mesclar diferentes especialidades, de modo a evitar a figura do arquiteto artista e individual.

Desde o inicio de sua carreira, Richard Rogers teve inúmeros parceiros em diferentes escritórios: Team 4 (1961-1967), Richard Rogers + Su Rogers (1967-1971), Richard Rogers + Renzo Piano (1971-1977), Richard Rogers + Partners (1978-2007) e Rogers Stirk Harbour + Partners (2007-2020). E o que une todas estas experiências é a visão de uma sociedade civil sustentável que consagra as ideias de equidade, trabalho em equipe e responsabilidade social. Um exemplo disso é o próprio estatuto do escritório Rogers Stirk Harbour + Partners:

“As principais características incluem a propriedade da prática por uma instituição de caridade – nenhum diretor tem participação direta na empresa; a divisão do lucro entre funcionários, instituições de caridade e investimentos; a oportunidade para funcionários com dois anos de casa fazerem doações para uma instituição de caridade de sua escolha; e o acordo de prática de que todos os trabalhos para projetos militares, prisões ou fabricantes de armas serão evitados” (10).

Casa Rogers, foto da maquete desenvolvida pelos alunos da disciplina Desenho Arquitetônico da Universidade São Judas Tadeu em 2018, Richard Rogers e Su Rogers, 1968-1969.
Redesenhos André Marques

Os ensinamentos profissionais deixados por Richard Rogers foram muito influentes na produção de inúmeras obras arquitetônicas ao redor do mundo. No Brasil, por exemplo, muitos arquitetos experimentaram com estruturas mais leves e transparentes – ao invés das grandes e pesadas estruturas de concreto – e com as instalações tendo maior presença na composição formal do edifício.

Richard Rogers se apoiou da tecnologia e na ciência para criar suas arquiteturas, verdadeiras obras de arte. Tinha uma postura irreverente, um sorriso irônico e uma fala rápida e engajada. Sua imagem era marcada pelas roupas coloridas e contrastantes e pelo relógio Bulova Accutron Spaceview, com funcionamento a diapasão, presente de sua mãe Dada Rogers, que dizia ser sua essência encapsulada. Gostava de ser fotografado sentado em suas bicicletas dobráveis, desenvolvidas para a marca britânica Brompton Bicycle, e elétrica, a Gocycle G4. Outro acessório importante de seu vestuário rebelde eram os Crocs coloridos, que ele dizia serem modernos e aerodinâmicos (11).

Seu caráter revolucionário era visível também em sua casa na Royal Avenue, em Londres. Na enorme sala de pé direto duplo e com poucos móveis, que ele definia como uma grande piazza, se destacam, de um lado, a escada metálica de acesso ao mezanino e, do outro, os dez retratos de Mao Tsé-tung, de Andy Warhol.

Casa Rogers, foto da maquete desenvolvida pelos alunos da disciplina Desenho Arquitetônico da Universidade São Judas Tadeu em 2018, Richard Rogers e Su Rogers, 1968-1969.
Redesenhos André Marques

Segundo Norman Foster, seu parceiro e amigo, Rogers era sua própria arquitetura:

“Richard era sociável, extrovertido, generoso e possuía um gosto contagiante pela vida. Seus prédios são um espelho social dessa personalidade – abertos, acolhedores e, como seu guarda-roupa, elegantemente coloridos” (12).

Seus parceiros de trabalho o definiam como um arquiteto engajado nas questões sociais e sem nenhum apego a status. Nos dizeres da equipe que trabalhou com ele ao longo de quarenta anos, Richard Rogers sempre buscou fazer uma arquitetura para todos:

“Pelas quatro décadas e mais que compartilhamos com ele de várias maneiras, ele será lembrado como um colega e amigo, que era gregário, sempre completamente livre de status, sempre inclusivo, sempre explorando e olhando para frente.
Homem de imenso impulso e carisma, foi igualmente um homem de civilidade e integridade, dedicado à arte e à ciência da arquitetura, do urbanismo, da vida na cidade, do compromisso político e da mudança social positiva.
Seu amor pelas pessoas, pela discussão, pela partilha de pontos de vista, por explorar novos caminhos e pelo trabalho cooperativo e criativo se refletiu na prática que ele fundou e que continua a adotar e desenvolver esses ideais hoje” (13).

Casa Rogers, foto da maquete desenvolvida pelos alunos da disciplina Desenho Arquitetônico da Universidade São Judas Tadeu em 2018, Richard Rogers e Su Rogers, 1968-1969.
Redesenhos André Marques

Sua última obra foi a Richard Rogers Drawing Gallery, situada no vinhedo do Château La Coste, com 120 metros quadrados e projetada em conjunto com o arquiteto Stephen Spence. O pavilhão, com estrutura em treliça metálica pintada de laranja com 7 metros de altura e 27 metros em balanço, faz parte da Architectural & Art Walk do Château La Coste que inclui, entre outros pavilhões de arquitetos renomados, os de Renzo Piano, Tadao Ando e Jean Nouvel.

A obra de Richard Rogers no ensino de arquitetura

Há 7 anos aplico, em minhas aulas, alguns exemplos da obra de Richard Rogers para os alunos de arquitetura e urbanismo na Universidade São Judas Tadeu: desde o uso das cores em contraste, nas aulas de composição plástica, até as grandes vigas em treliças usadas pelo arquiteto. Um dos exercícios é o redesenho e construção da maquete da residência Dr. William Nimo e Dada Rogers. Nas aulas teóricas, apresento os conceitos fundamentais do projeto e as principais transformações ocorridas ao longo dos anos (1968, 1973, 2015 e 2019), sendo a última reforma desenvolvida pelo escritório de Philip Gumuchdjian. O sistema estrutural e construtivo do edifício é apresentado de forma didática, dando base para os alunos redesenharem as plantas, cortes e elevações e, em seguida, construírem um modelo em escala utilizando madeira balsa.

Casa Rogers, implantação, Richard Rogers e Su Rogers, 1968-1969
Redesenhos André Marques

Para além do redesenho e produção da maquete, a principal questão que trabalho com meus alunos é a análise da obra através de sua preocupação com a flexibilidade, clareza construtiva e funcional e sua dimensão pública. Tendo como referencial teórico o livro Cidades para um pequeno planeta (14), trabalhamos em sala o entendimento das demandas públicas do edifício e seu impacto no espaço urbano e na natureza. Dessa forma, evitamos a análise focada unicamente no programa funcional, dando lugar a temas como os custos da construção, funcionamento e manutenção dos edifícios.

Casa Rogers, corte longitudinal e planta térreo, Richard Rogers e Su Rogers, 1968-1969.
Redesenhos André Marques

notas

1
BURDETT, Richard. Richard Rogers: inside out. Londres, Royal Academy of Arts Publications, 2013.

2
ROGERS, Richard; BROWN, Richard. A place for all people: life, architecture and the fair society. Londres, Conongate, 2017, p. 16.

3
O termo “choque do novo” foi usado pelo crítico de arte, escritor e produtor australiano Robert Studley Forrest Hughes (Sydney, 28 de julho de 1938 – Nova York, 7 de agosto de 2012). ROGERS, Richard; BROWN, Richard. A place for all people (op. cit.), p. 21.

4
ROGERS, Richard; BROWN, Richard. A place for all people (op. cit.), p. 22.

5
Idem, ibidem, p. 31.

6
Segundo a imagem do boletim, disponibilizada na internet: “Rogers' late entry the 4th years was not successful; he has a genuine interest in and of a feeling for architecture, but sorely lacks the intellectual equipment to translate the feelings into sound building. His designs will continue to suffer while his drawing is so bad, his method of work so chaotic and his critical judgment so inarticulate”.

7
Rogers House. Rogers Stirk Harbour + Partners <https://bit.ly/3FdEFf0>.

8
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. The communist manifesto. Apud ROGERS, Richard; BROWN, Richard. A place for all people (op. cit.), p. 31.

9
ROGERS, Richard; GUMUCHDJIAN, Philip. Cidades para um pequeno planeta. Barcelona, Gustavo Gili, 2001, p. 74.

10
Teamwork. Rogers Stirk Harbour + Partners <https://bit.ly/3E5YSC9>.

11
‘Shocking pink’ crocs? How could you, Richard Rogers? Independent <https://bit.ly/3qdFRZx>.

12
Norman Foster: a tribute to Richard Rogers. Foster and Partners, 19 dez. 2021 <https://bit.ly/3spr3K9>.

13
Richard Rogers, architect 1933-2021. Rogers Stirk Harbour + Partners, 19 dez. 2021 <https://bit.ly/3E6nPgx>.

14
ROGERS, Richard; GUMUCHDJIAN, Philip. Cidades para um pequeno planeta. Barcelona, Gustavo Gili, 2014.

sobre o autor

André Marques, arquiteto (USJT, 2003), mestre e doutor (FAU Mackenzie, 2012 e 2018), com especialização em Conforto Ambiental e Eficiência Energética (Fupam, FAU USP, 2006). Professor de tecnologia e projeto de arquitetura na Universidade São Judas, é autor do livro Lelé: diálogos com Neutra e Prouvé (Romano Guerra/Nhamerica, 2020).

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