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architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
Rio de Janeiro, na vitrine da atração mediática, decide por um museu de Santiago Calatrava. O que isso pode significar no panorama atual da globalização neoliberal no Brasil, frente ao histórico recente de Calatrava na Espanha?

english
Rio de Janeiro, as a showcase of media attraction, choose from a museum by Santiago Calatrava. What that means in the current situation of neoliberal globalization in Brazil, compared with Calatrava´s recent historical in Spain?

español
Rio de Janeiro, como un escaparate de la atracción mediática, decide por un museo de Santiago Calatrava. ¿Que eso significa en la situación actual de la globalización neoliberal em Brasil, frente al histórico reciente de Calatrava en España?


how to quote

BOTTURA, Roberto. “O Estado das Coisas”. O Brasil na rota do star-system e Santiago Calatrava: ilusão e realidade se confundem nas próximas cenas da arquitetura contemporânea! Arquitextos, São Paulo, ano 12, n. 142.04, Vitruvius, mar. 2012 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.142/4274>.

Um filme do diretor Wim Wenders me vem à cabeça quando começo a tentar compreender o argumento que vem a orientar a arquitetura no Brasil. “Der Stand der Dinge”, ou simplesmente “O estado das coisas”, mostra o filme dentro do filme, com a sutileza e a mensagem que evoca o diretor alemão. Na película, um produtor desaparece com os negativos durante as filmagens num hotel em Portugal. Sem dinheiro para continuar o trabalho o diretor tenta achá-lo, mas encontra outros problemas. Enquanto os atores esperam passivamente a volta do aclamado produtor – que representa a salvação do filme, pois devolverá o desaparecido e com isso chegará dinheiro e sucesso - o diretor começa uma incansável e surreal busca, confundindo-se entre a realidade e sua própria ficção.

Que está passando com a arquitetura contemporânea brasileira? Depois do esgotamento da arquitetura moderna no Brasil e todas as histórias desenvolvidas em cima destes rolos bem gastos, desaparecem os negativos de nossa autêntica produção contemporânea... Como o personagem-diretor do filme de Wenders, se faz necessário ir atrás destes negativos.

Uma tendenciosa política pública e privada, de promoção imobiliária, está investindo em nomes internacionais da arquitetura para encargos no Brasil. Muitos, passivamente, aguardam a chegada no país dessa arquitetura revestida com a marca star-system, quando finalmente seremos agraciados com o espetáculo em torno à publicidade destes edifícios e recompensados com o dinheiro e com o sucesso do turismo de massas, retomando - quiçá - o filme de um país que um dia projetou uma imagem de destaque internacional. Examinar o que representa esta arquitetura é enfrentar a possibilidade do desconhecido e estar cientes de que pelo caminho poderemos encontrar mais problemas. Poderemos encontrar, por exemplo, que desta maneira, ao querer retomar esse filme,  nem que seja com certo descompasso (quase que natural desde a nossa modernização tardia), vamos acertar o quadro com o ritmo que vem seguindo a atual homogeneização neoliberal das cidades. Cumprida a primeira década do século XXI, estamos em falta com um mínimo de cenas já filmadas no contexto cultural mundial, mas valerá a pena investigar para qual modelo de cidade vamos nos orientando.

Outro filme, ainda mais subjetivo, me vem à cabeça quando leio notícias sobre um novo ícone cultural no Rio de Janeiro, o tal Museu do Amanhã, desenhado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava. O ícone/conjunto cultural idealizado pelo mesmo arquiteto - Cidade das Artes e das Ciências, em Valencia, Espanha - também sucesso de mídia e muito semelhante ao projeto carioca, esconde alguns frames que revelam um ponto-cego entre o seu suposto êxito e as falcatruas político-econômicas que envolvem a promoção de tão magnânimo projeto.

À modo de mensagem subliminar, poderemos ser absorvidos pela mesma onda caso acreditemos na propaganda em torno ao projeto do Museu do Amanhã, que como veremos por aqui, está efetivando-se da mesma maneira e com os mesmos motivos que seu “primo-rico” espanhol. Esses motivos falam de cultura, sustentabilidade e renovação urbana... E escondem centralização econômica, excessos orçamentários e arquitetura utilizada como identidade política.

Que significa começar por aqui este filme já rodado na Espanha?

Primeiro veremos o estado das coisas, em seguida o caso de Valência e logo o leitor poderá arriscar por si mesmo quais serão as cenas dos próximos capítulos...

1. Letargo

Revisões à parte, na esteira da geografia da globalização capitalista, o Brasil se encontra em um nível de obsolescência no que diz respeito à qualidade de arquitetura e espaço urbano. Entre o esquecimento e o abandono, nossas cidades escancaram o drama do descaso do poder público em querer romper as barreiras do letargo e do malcuidado, situação visível na maioria de nossas cidades. Inspirando apenas projetos que têm a ver com o lucro instantâneo das cidades postas em circuitos de consumo globais – bairros de torres de escritórios, grandes centros comerciais ou estruturas para massas temporais, citando alguns -  esquecemos de filtrar os bons exemplos de outros países e deixamos de lado a prática que as novas tecnologias e a agilidade nos processos de projeto e construção vêm possibilitando como melhora na qualidade de vida dos habitantes das cidades. Uma consulta rápida em publicações estrangeiras de arquitetura demonstra nosso atraso em métodos construtivos e no aperfeiçoamento estético que vem trazendo o século XXI para nossa área de conhecimento. Desenho paramétrico, por exemplo, para reduzir custos e impacto meio-ambiental é uma realidade em prática. Agilidade na construção e barateio de novos materiais, como estruturas em vidro ou reciclados, também são uma realidade no cotidiano estrangeiro. Lembramos também do update nos meios de transporte, como o bonde de superfície – agora elétrico através de captação solar e de baixo impacto no traçado da cidade – ou o sistema bicing, que incorpora a bicicleta na trama de vias prioritárias da cidade, como uma alternativa de transporte público.

Tudo indica que o Brasil tende a ignorar estes êxitos conseguidos no estrangeiro e seguir selecionando apenas o mau exemplo europeu de buscar cirurgias estéticas e intervenções no espaço público buscando atenção internacional e hordas de consumidores de “cultura”.

De alguma maneira acreditamos como natural – mas não unicamente louvável - querer finalmente pôr o Brasil na rota sólida do turismo de massas e no estímulo que edifícios-ícones provocam nestas massas viajantes – a curto prazo o lucro é fácil, o dinheiro circula e a economia terciária se eleva. A novidade dos jogos mundiais no Brasil vem consolidar essa iniciativa, porém não podemos esquecer que uma vez terminados os eventos são os habitantes da cidade que devem usufruir das estruturas construídas, portanto nada mais lógico que imaginar um conjunto de intervenções adequados à dinâmica do cotidiano, que logo será incorporado.

Os esperados eventos da Copa e Olimpíadas no Brasil vêm desperdiçando uma pauta mundial guiada pelos concursos públicos para seleção de projetos que possam acomodar os equipamentos necessários dentro de uma melhora na infraestrutura urbana da cidade. A política e ações engajadas na promoção dos projetos Copa e Olimpíadas estão deixando notar-se que estão enveredando por outro tipo de gestão urbana, mais para vocação empresarial e do tipo competição em redes globais, se alinhando com o midiático, com o espetáculo e com a imagem transmitida pelas grandes obras de arquitetura de um desejado recém-chegado star-system no Brasil.

2. Cultura

David Harvey nos explica que após a Segunda Guerra Mundial, “o maior evento da história da destruição criativa do capitalismo” (1) - as cidades começam a estabelecer-se como um centro de serviços, cujo espaço urbano se vá orientando em albergar estruturas que possibilitem as crescentes e variadas maneiras de consumir. Esta nova economia modificou o conceito de lazer e uso do tempo livre, utilizando a cultura como motivo de grandes intervenções urbanas, já que ela também começa a fazer parte das opções de consumo para as massas. Essa nova relação entre a cidade, seus cenários inventados e uma atraente arquitetura, consolida-se na criação de espaços de consumo nos quais se pretende construir uma memória afetiva, restando à arquitetura manipular os sonhos de turistas, provocando desejo e excitação aos visitantes (2), enquanto a economia é posta em ação.

Neste panorama, as políticas públicas vão favorecendo as atividades terciárias – comunicações, ócio e turismo – e as estruturas de cultura, adquirindo cada vez maior relevância (3).

Na euforia dos anos 1990, quando o capitalismo se afirmou como mão-única da economia mundial, o Brasil, foi recebendo alguns espasmos do que seria o consumo de cultura para as massas das grandes cidades (e tudo o que viria melhorar utilizando-a como palanca de renovação econômica/urbana).

Em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, apenas citando algumas, arriscaram tentativas de atrair atenção ao centro histórico, mas de uma maneira geral se mostraram ineficientes na melhora deste espaço urbano.

A renovação de edifícios de caráter histórico não foi capaz de retomar a potencialidade da região central, que voltou a ficar esquecida na escala do usuário do bairro. Implantar ali grandes equipamentos para a cidade criou um efeito-bolha para os que se movem através da tríade carro-estacionamento-carro. Os que habitam na região central, poucas melhoras notaram para o coração da cidade, o termômetro disso é a escassez de pequenos projetos que sirvam aos habitantes do Centro. Por onde estarão as bibliotecas de bairro, os mercados e feiras acontecendo em lugares mais apropriados, as creches e escolas primárias, as residências para estudantes, os centros cívicos, as quadras de esporte e pistas de skate ? Por onde andará o domínio e o alcance da arquitetura no Brasil?

Atualmente, em São Paulo, estamos vendo uma ambiciosa operação urbana no Bairro da Luz, cujos grandes equipamentos culturais instalados ali nos últimos anos não barraram a proliferação da marginalidade e o constante abandono de seu tecido urbano. A implosão de edifícios degradados, que contribuíam para sua má fama de “cracolândia”, estão dando espaço para iniciativas do poder público local como a contratação do escritório suíço Herzog & DeMeuron para o projeto do Complexo Cultural Teatro de Dança. Esta mais nova tentativa de recuperação da região central paulistana, aposta na arquitetura estrangeira estrelar como redentora. Se questiona se esta não seria uma boa oportunidade para abrir um concurso internacional e selecionar um projeto pelo seu mérito e não por sua assinatura. Nas palavras do próprio secretário de Cultura, João Sayad, escolhendo um escritório de renome internacional ao invés uma empresa local “queríamos provocar um escândalo na arquitetura brasileira. No bom sentido” (4).

Implosão da “Cracolândia” em Sao Paulo resolve o problema físico, mas não o social
Foto Lucas lg54 [Wikimedia Commons]

3. Objetos de desejo

Há alguns anos, o arquiteto Jean Nouvel desenvolveu um estudo de projeto para a implantação de um museu Guggenheim no Rio de Janeiro. Não poderia haver melhor combinação.

Por um lado, o francês Jean Nouvel, passado os anos 1990, é um dos expoentes máximos da arquitetura-ícone em uma cidade. Seus projetos estrambóticos vêm assombrando pela falta de escala, e edifício por edifício vão revelando o desleixo do mentor na perda de cuidado com a relação obra/entorno/usuário. Em Barcelona, o seu fálico edifício Torre Agbar se impõe bizarramente no skyline da cidade, enquanto bem perto na mesma avenida, no seu Parque de Glories, usuários protestam contra a falta de equipamentos mínimos desejados em um parque público: faltam bancos, lixeiras, áreas de recreação infantil, fontes de água, árvores, sombras, etc. Sobram muros, esculturas e cactos... além de bonitas fotos na mídia especializada e algum prêmio tendencioso. Não muito longe de ali, a ultima obra de Enric Miralles – a torre para a cia. Gas Catalana (5) – surpreende notavelmente pelo arrojo estrutural recordando a memoria local impressa nas formas em desconstrução, ao passo que cria uma praça aberta utilizada diariamente pelos moradores do bairro Barceloneta.

Torre Agbarem Barcelona, grife francesa Jean Nouvel
Foto Axelv [Wikimedia Commons]

Torre da Gas Catalana, grife catalana Enric Miralles
Foto Inge Kanakaris-Wirtl [Wikimedia Commons]

Por outro lado, o museu Guggenheim é um dos expoentes máximos da ilusão do consumo de arte em uma cidade. O êxito do Guggenheim Bilbao provocou uma onda de fetiche mundial, custe o que custar. E com isso, transformou a instituição em uma espécie de Mcdonalds de cultura. Se oferece uma franquia Guggenheim para as cidades que se animem a ter essa marca na sua carteira de atividades disponíveis (e para as que a possam pagar, obviamente).

O Rio de Janeiro mostrava a sua vontade em se inserir nessa reluzente áurea de desejo.

O projeto do museu Guggenheim foi para a gaveta, mas abriu frente a uma tendência que será difícil de evitar...

Cotados nomes da arquitetura-estrelar internacional estão começando a aparecer com mais frequência nos encargos públicos no Brasil.

Como o exemplo da vinda de Herzog & DeMeuron a São Paulo, na mesma cidade no bairro do Itaim, uma grande promoção imobiliária anuncia um novo empreendimento residencial de luxo projetado por Daniel Libeskind. A tendência ganha mais fervor com obras como o Museu da Fundação Ibere Camargo em Porto Alegre, do português Alvaro Siza; a Cidade da Música no Rio de Janeiro do francês Christian de Portzamparc; e o projeto vencedor do concurso para o Museu da Imagem e do Som (MIS), também no Rio, dos norte-americanos Diller Scofidio + Renfro.

Negociações e parcerias então sendo acordadas entre escritórios estrangeiros e locais. Os espanhóis do b720 Fermín Vázquez (que são os parceiros de Jean Nouvel em Barcelona) projetarão a nova frente portuária de Porto Alegre junto ao estúdio local Jaime Lerner arquitetos associados. O também espanhol Alonso Balaguer (parceiros de Richard Rogers em Barcelona) projetará a Vila Olímpica de Rio de Janeiro-2016 associados ao arquiteto carioca João Pedro Backheuser.

Tais associações funcionam ajustadas a dinâmica atual do campo de trabalho globalizado da arquitetura.         

Complexo residencial de luxo em São Paulo, grife polonesa Daniel Libeskind [www.daniel-libeskind.com]

Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, grife Portuguesa Álvaro Siza
Foto Eugenio Hansen, OFS [Wikimedia Commons]

Casa da Música, Rio de Janeiro, grife francesa Christian de Portzamparc [Wikimedia Commons]

MIS, Rio de Janeiro, grife americana Diller Scofidio + Renfro [www.dillerscofidio.com]

Frente portuária de Porto Alegre, grife catalana b720 Fermín Vázquez [www.b720.com]

Vila Olímpica RIO2016, grife catalana Alonso Balaguer [www.alonsobalaguer.es]

Uma vez contratado, o escritório estrangeiro manda arquitetos ao Brasil à procura de um escritório local para desenvolver os desenhos executivos, já que este são os que têm o conhecimento do código de obra e legislações locais. A diferença de uma colaboração, o que ocorre é uma “sub-empreitada”, ou seja, os escritórios brasileiros são empregados pelos estrangeiros, cujos internacionais recebem a maior parte da glória e dos honorários, enquanto localmente somos responsáveis por adaptar os desenhos as exigências legais realizando a parte mais chata e trabalhosa (e financeiramente recebendo a menor parte dos benefícios) (6).

Um profissional brasileiro devidamente registrado terá que assinar o projeto no Brasil, passando a ser o responsável técnico. O fato de ter tido um intercâmbio intelectual não transfere sua responsabilidade já que de acordo com a lei brasileira o profissional da arquitetura e engenharia tem que estar devidamente regulamentando, além dos aspectos trabalhistas e tributários a serem considerados.

Cabe valorar se a opção por estes “grandes” nomes internacionais tem como objetivo trazer melhor qualidade para os programas desenvolvidos e alavancar novos conceitos arquitetônicos entre os profissionais brasileiros ou simplesmente são escolhas ao sabor da atração midiática que eles provocam. Colocaremos um exemplo a debate.

4. Os perigos do remake

O autor catalão Llátzer Moix (7) costuma dizer que nos últimos anos a cidade de Valencia, na Espanha, passou do mono-cultivo de laranjas ao mono-cultivo de Calatrava. Interessante comentário, dada atual situação econômica espanhola e os escândalos nos jornais descarando uma rede de corrupção entre o Partido Popular e o renomado arquiteto Santiago Calatrava. Dadas reportagens põe em destaque esse curioso profissional do cenário arquitetônico mundial revelando seu desengano e o tamanho de sua ambição materialista. A mídia local incentiva as grandes intervenções de Santiago Calatrava na cidade - entre elas a conhecida Cidade das Artes e das Ciências - como o orgulho do povo valenciano, mas o volume de dinheiro entre a associação partidária e sua megalômana arquitetura ganham proporções comparáveis a ascensão de alguns partidos políticos europeus das décadas de 1930 e 1940. Enquanto a crise segue sua espiral ascendente, Valencia anuncia mais intervenções do arquiteto-escultor na cidade.

Rio de Janeiro em épocas de Copa e Olimpíadas anuncia que também terá o seu Calatrava.

Tentaremos compreender a pauta de trabalho do arquiteto no projeto de Valencia (que lhe alçou fama internacional) e desvendar sua relação com um partido político que lhe promove insistentemente.

O que virá a acontecer no Rio de Janeiro pode nos provocar uma perigosa sensação de déjà vu. Caberá ao leitor fazer suas análises e interpretar o papel que está representando a arquitetura neste triste modelo importado.

Recapitulando: Um novo símbolo em Valencia

Os museus, outrora edifícios que albergavam os tesouros nacionais - proporcionando uma maior compreensão da experiência humana – reaparecem nesta nova era como um símbolo “competitivo” na consolidação desta nova etapa do capitalismo. Um novo tipo de museu começa a estar em pauta em diversas cidades mundiais: os museus de Ciência e Técnica. Nestes, se celebram o triunfo do progresso científico e tecnológico, devidamente aparatado com ferramentas interativas multimídia e painéis eletrônicos (8). Adotando escalas que vão do grande espetáculo ao parque temático monumental, este modelo de museu encontra seu referente direto na Cidade das Ciências de da Indústria no Parque de la Villete de Paris. Esta fascinação pela máquina encontrará alguns seguidores...

Valencia levava anos tentando pôr em prática a necessidade de reinventar-se. Em 1989, o Conselho da Presidência da Generalitat Valenciana (9) convida um grupo de profissionais para preparar um primeiro rascunho teórico do que seria a então chamada Cidade das Ciências. O principal objetivo do projeto era – idealizado depois de uma inspiradora visita de Joan Lerma (então presidente da comunidade Valenciana – PSOE, Partido Socialista) ao parque de La Villete de Paris – conscientizar os cidadãos sobre o impacto das ciências e das novas tecnologias, ao passo que indiretamente refletiria seu poder na cidade, após um vitorioso mandato político.

Valencia levava anos também refletindo sobre o destino de seu porto e sua frente marítima. Esta trama de cidade era uma zona extremamente degradada, impregnada de vias obsoletas, galpões industriais, antigas estruturas em desuso e mal frequentada por uma crescente marginalidade. O governo autônomo planeja então uma ambiciosa operação de saneamento e reforma, desejando incorporar elementos de imagem capazes de potencializar a visualização e a recuperação da cidade, do mesmo modo que estavam fazendo Barcelona e Sevilla, com vistas aos Jogos Olímpicos e a Expo ´92. O cerne desta recuperação, que seria a construção de um conjunto simbólico em grande escala, viria a solucionar o malcuidado eixo que conectava a cidade ao mar.

Em 1991, as autoridades valencianas convocam um concurso internacional de ideias cujo objetivo é a construção do que se chamou primeiramente como Cidade das Ciências, com três elementos arquitetônicos: torre de comunicações, cine hemisférico/planetário e museu de ciência e tecnologia. Apresenta-se para o concurso o arquiteto valenciano Santiago Calatrava, recebendo o primeiro prêmio. Pese o fato de que já contava anos vivendo na Suíça, casado com a filha de um famoso banqueiro influente da alta economia internacional, Santiago Calatrava era no momento, o arquiteto mais adequado para representar o caráter midiático de tal intervenção urbana. Nos explica Oriol Bohigas, que estava no júri de seleção dos projetos:

“A arquitetura de Calatrava possui indubitavelmente um contorno publicitário, mas não estou seguro de que seja a mais adequada para planificar uma cidade inteira. No entanto, as autoridades valencianas foram em todo momento partidárias de que Calatrava ganhasse o concurso. A ideia dominante era que uma proposta espetacular - como a sua - levaria mais público a Valencia. Esse critério publicitário foi o que se impôs... E foi uma opção arriscada. Ante alguém que se apresenta como arquiteto, engenheiro e artista, as autoridades podem se impressionar. Os problemas vêm mais tarde. Por exemplo, quando a engenharia se concebe com critérios decorativos”. (10)    

Como excelente vendedor que é, Calatrava aproveita a ocasião para oferecer mais do que pediam. A partir de aí, já não será mais através de concursos que Santiago Calatrava se afirmará como o insaciável arquiteto de Valencia.

Durante 1994, entre o seu escritório-base em Zurich e um outro em Valencia, o arquiteto desenvolve e finaliza a redação dos três projetos.

Com a transição de governo que leva a Eduardo Zaplana (PP-Partido Popular) à presidência da Generalitat Valenciana, o ambicioso projeto se põe em xeque e é paralisado, contestada sua real necessidade para a cidade, frente aos faraônicos gastos previstos. Prevendo o sabor da derrota sem ânimo de lucro, Santiago Calatrava mobiliza sua rede de contatos espanhóis para que intercedam por ele: incluso Pasqual Maragall - então prefeito de Barcelona - telefona a Rita Barberá (prefeita de Valencia e baluarte do PP na comunidade valenciana) pedindo que os populares reconsiderem sua decisão de prescindir dos projetos da Cidade das Ciências. É certo também que, através da família de sua esposa, Santiago Calatrava possui um estreito contato com a comunidade judaica internacional (que lhe ajuda a consolidar seu modelo de negócio e expansão) (11) o que neste momento, seguramente, muito lhe há servido. Somado a isso, Santiago se fez ouvir na mídia, dizendo que tal empreendimento era o mais importante de sua carreira, fazendo-os reconsiderar algo tão relevante para o futuro e orgulho do povo valenciano.

Novos ventos chegam e ambiciosas negociações redefinem este filme.

O Partido Popular não somente muda de opinião, como aceita a sugestão do arquiteto de substituir a torre de comunicações por um grande auditório, que viria a ser chamado Palau de les Arts. Os mandatários do PP logo viram nesse  projeto o potencial emblemático de tal façanha, dando sua bendição decidindo morder a maçã da associação icônica arquitetura-política. Passado o período de paralisação, renomeia-se o conjunto como Cidade das Artes e das Ciências. As entrelinhas: consequência direta sobre as contas públicas, aumento do exacerbado egocentrismo de Calatrava em propor mais e mais projetos junto a submissão do organismo político rendido às vontades do profissional. Em realidade, “se juntaram dois gênios muito particulares”, de acordo com Ana Noguera, “a veia artística do arquiteto, que não crê imprescindível dosificar as propostas, nem em número, muito menos em desenvolvimento, caracterizado usualmente pelo gesto, a improvisação e o sobre-custo; e a fome icônica dos políticos, convencidos de que sua identificação com estas obras monumentais lhes outorgará um lugar na posteridade. A confluência de ambas as veias propiciam excessos. Estamos ante um caso de saturação solidária de egos artísticos e políticos. A operação da Cidade das Artes e das Ciências tem primado o espetáculo pelo conteúdo e avança com os custos fora de controle”. (12)

Da organização inicial “socialista”, composta por três elementos – torre de comunicações, Hemisfério y Museu da Ciência – derivava a uma “popular” composta por cinco, cuja torre era substituída pelo auditório Palau de les Arts e se agregavam o Umbráculo e Oceanográfico.

Surgidos de propostas de Calatrava, o Umbráculo daria uma configuração arquitetônica a uma zona de jardim disposta a modo de cobertura do estacionamento. Conseguiria assim, um mirante sobre o conjunto construído. O Oceanográfico foi agregado à maneira de orientar o conjunto como um parque temático e menos como um centro de interesse científico, como inicialmente proposto (esse projeto é o único de todo o conjunto que conta com um edifício de outro arquiteto, além de Calatrava, o falecido Félix Candela).

A verdade é que o desejo de redefinir a imagem representativa de Valencia encontrou eco com a magnitude de Calatrava, que esculpe seus edifícios com arrojo e não abre mão de suas exigências – mesmo que na metade do caminho os clientes descubram que a obra pode quadruplicar o orçamento inicial. A realidade mostra que na questão publicitária seus edifícios são um êxito: servem muito como vitrine de propaganda política e sedução dos olhares desatentos, que enxergam em tal empreitada certo ar de contemporaneidade e avanço tecnológico. Em público, os políticos populares aproveitam todo momento disponível para descrever a Cidade das Artes e das Ciências como um excelente investimento, que alavanca o turismo e toda a economia local. Na questão econômica, a realidade é outra: as cifras ao redor do conjunto afrouxam os cofres públicos e o retorno financeiro não se avista no horizonte. Índices demostram que o volume de visitantes vem se reduzindo em uma media de 8% em relação aos anos anteriores. (13)

Por ocasião do projeto da ponte Bac de Roda, em Barcelona, Calatrava disparou seus honorários iniciais de 2.000 milhões de antigas pesetas a 50 milhões. O responsável de obras naquele momento, Josep Acebillo, recorda o susto ao saber que os 50 milhões se referiam apenas a uma simples maquete. A ponte se completou meio ao mal-estar provocado pelo sobre-custo (pagou-se 800 milhões de pesetas).

Em setembro de 2008, o prefeito de Nova York criticou abertamente a desmedida de Calatrava. Referia-se ao seu projeto para a estação de metro para a Zona Zero, que devido a uma gigantesca estrutura desenhada com um complicado mecanismo de abertura e fechamento zenital, estava retrasando-se sem limites, junto a um acúmulo orçamentário já muito distante do previsto inicialmente. Somente durante a fase de projeto, o orçamento já havia crescido de 2.000 a 3.200 milhões de dólares.

Em Mälmo, Suécia, o presidente Johnny Örbäck assume publicamente os 40 milhões de coronas excedidos do orçamento inicial do edifício de apartamentos Turning Torso, o que resultou em uma inimizade entre Calatrava e o prefeito. Frente às críticas do prefeito aos excessos do arquiteto, Calatrava responde na mídia: “Suécia não é um país para visionários”. (14)

A Cidade das Artes e das Ciências acumula um sobre-custo de 625 milhões de euros, sendo que o orçamento inicial era de 308 milhões e já soma um custo total de 1 bi 300 milhões de euros. (15)

Propaganda pública oficial da cidade de Valência, Espanha. "In this city, the future is already here", ou seja lá o que isso quer significar!!! [www.spain.info; www.comunitatvalenciana.com]

Os informes da Sindicatura de Cuentas sobre a Cidade das Artes e das Ciências são muito esclarecedores. Em 31 de dezembro de 2006 as obras de construção do Palau de les Arts Reina Sofia já haviam subido aos 346 milhões de euros, quando o seu preço inicial, em fevereiro de 1995, era de algo mais que 84 milhões (sofrendo um incremento de 310%). Contando que 2006 foi o ano de sua inauguração e as obras seguiram por um bom tempo, até 2008 já havia consumido 28 milhões a mais. Este preço não inclui os 35 milhões gastados sobre forma de equipamento cênico. Somente para o Palau de les Arts a fatura chega a 500 milhões de euros.

Segundo o informe de 2005, o custo do Oceanográfico somava 172 milhões de euros (com um orçamento estourado de 336%); o Museu das Ciências Principe Felipe acumulava 142 milhões (e um orçamento extrapolado de 129%); o Umbráculo 33 milhões (121% a mais do previsto) e o Hemisférico 30 milhões (66% a mais do orçamento inicial).

Além dos gigantescos acúmulos orçamentários no conjunto cultural de Valencia, a conexão entre o PP – Partido Popular e Santiago Calatrava não para por aqui.

Por conta da deputada do partido Esquerra Unida de Valencia, Marina Albiol, pela primeira vez se tornaram públicos alguns contratos entre o governo Valenciano e o arquiteto Santiago Calatrava.

Através do jornal espanhol El País, se denunciaram fraudes fiscais em chamados “projetos fantasmas”, frutos de favorecimentos ilícitos na contratação de Calatrava por parte de governos dominados pelo PP.  Se tratam de encomendas sem a mínima base legal que efetivariam sua construção, ou seja, sem clareza nem cronograma da possibilidade de virem a serem edificados. Ganham todos através de uma cômoda estratégia que envolve o dinheiro público em um jogo de benefícios pessoais. Calatrava embolsou 5,8 milhões de euros, sendo um deles, o projeto de um Centro de Convenções em Castellón, cidade em território valenciano, cuja previsão de execução e orçamento disponível são praticamente inexistentes. Em outro caso, Palma Arena, Calatrava recebeu 1,2 milhões de euros por uma simples maquete de um espaço cênico sobre a baía de Palma de Mallorca (16). Sua execução tampouco tem alguma previsão real. O ex-presidente das ilhas Baleares e ex-ministro pelo PP, Jaume Matas, foi preso por imputações em suposta corrupção no caso Palma Arena, que envolve além da contratação de Calatrava, sonegações imobiliárias e estratégias ilícitas para uso do solo.

Cidade das Artes e das Ciências, Valência, grife valenciana Calatrava
Foto Roberto Bottura

Cidade das Artes e das Ciências, Valência, grife valenciana Calatrava
Foto Roberto Bottura

O escândalo dos orçamentos que estouram os valores iniciais licitados mostrou-se nos contratos publicados pelo jornal, revelando um ponto onde se especifica que os honorários do arquiteto se atualizarão em função do custo real da obra, sem nenhuma cláusula que estabeleça um limite (17), o que implica claramente que quanto mais sobre-custo exista, mais se beneficiará Calatrava. Esquerra Unida fez público também os comprovantes de pagamentos ao arquiteto e uma notificação oficial da Sociedad Proyectos Tematicos del País Valencià, datado de novembro de 2009, onde se afirma que Calatrava não cumpriu com a previsão inicial de um projeto básico requerido, já que não se limitava nem ao orçamento nem a superfície construída exigida. Calatrava triplicou a superfície prevista e elevou o pressuposto de 60 a 100 milhões de euros (18). Não podemos negar que estamos diante de um profissional que possui um estreito interesse em extrapolar orçamentos! Quem o compra, paga um preço – caro e muitas vezes ao princípio inimaginável – pela marca Calatrava.

Escamoteando o turbilhão entre excessos, denúncias e solicitações de sua presença nas cortes judiciais para justificar suas relações com o Partido Popular, Calatrava se mostra sensível e humano em seus dramáticos discursos de apresentação de projeto – onde utiliza aquarelas ao invés de PowerPoints e comove os presentes com referencias à própria infância e à emoção que pode provocar a arquitetura. Digno de um ator que estuda numa boa escola, dissimula uma famigerada realidade construtiva que extrapola os padrões financeiros europeus e imaginem só se os compararmos aos padrões brasileiros.

Em 2007, se somaram ao conjunto de Valencia mais duas desproporcionadas construções: a ponte Azud de Oro e a Ágora. A ponte conecta as duas margens do antigo leito do rio Turia, onde se encontra o conjunto de Calatrava – apelidado jocosamente na cidade de Calatravalândia. Cabos de aço sustentam a base da ponte desde um estilizado elemento curvo, que se ergue desde um dos lados. No final de 2008, já se havia investido cerca de 60 milhões de euros, quando seu orçamento inicial era de 23 milhões de euros.

O edifício chamado Ágora é uma complexa trama metálica vertical e chama atenção pela dinâmica (e cara) estrutura móvel que, recordando uma planta-carnívora, poderá abrir ou fechar de acordo com o evento sediado. A utilização do edifício não teve e não tem um caráter definido. O importante era construir, ao melhor estilo Calatrava. Desde o principio já se propôs um “espaço polivalente” que inicialmente viria a acolher a cerimônia de entrega da Copa América, mas não ficou pronto a tempo. Logo, confiaram que estaria pronto para abril de 2009, data que se acertou com a Associação de Tênis Profissional (ATP) para sediar um torneio da serie 500. Não se chegou a tempo, decidindo então postergar o torneio para novembro de 2009, quando por fim veio a ser inaugurado o edifício. Fechado 330 dias do ano, conforme indica a imprensa local, no natal de 2010 o reluzente edifício de 70 metros de altura recebia uma singela pista infantil de patinação no gelo. Um uso, digamos assim, mequetrefe, para uma obra licitada ao redor dos 55,8 milhões de euros, cifra que não inclui os honorários do arquiteto (que giram ao redor de 12,5% do valor da obra) e que assombra quando  descobrimos, ao passo que promovia – e pagava – as obras de Calatrava, a recusa do governo valenciano de financiar a ampliação do IVAM – Instituto Valenciano de Arte Moderno. O IVAM, exemplo digno de instituição cultural na cidade, organiza excelente mostras a preços acessíveis (a visita custa entre 1 e 2 euros contra os 12 euros de entrada em cada atração do conjunto de Calatrava) em seu edifício projetado por Emilio Gimenez e Carlos Salvadores (e no seu dia premiado pela Bienal de Veneza) insuficiente atualmente para o volume acolhido de visitantes e obsoleto com respeito as instalações que datam de 1989, ano de sua inauguração. Necessita-se urgentemente uma ampliação e uma reforma. O governo Valenciano alega falta de verba para tal obra e não existe previsão para que isso aconteça. Seguimos assombrados, se constatamos que em novembro de 2004, o então presidente do governo valenciano Francisco Camps e a prefeita Rita Barberà presidiram no Palácio da Generalitat um solene ato de apresentação das maquetes de três novos  arranha-céus em Valencia. Projetados por quem ? Sim, ele mesmo. Outra vez, Calatrava. Estarão destinados a residências (de luxo), escritórios e um hotel. Pretende-se construir com capital privado em um terreno de propriedade pública adjunto ao conjunto da Cidade das Artes e das Ciências. Não são simplesmente três edifícios, e sim, três torres helicoidais – a maior com 308 metros de altura (será a mais alta de Espanha) e a menor com 220 metros. O orçamento inicial: 335 milhões de euros. Pelo anteprojeto o arquiteto embolsou 2,5 milhões de euros, o que representa apenas uma sexta parte de seus honorários pelo novo conjunto. Sabe-se que, segundo estimações, Calatrava já embolsou, pela redação dos projetos e direção de obras em Valencia, ao redor de 48 milhões de euros.

Em 2007, Calatrava recebe o título oficial de “Hijo Predilecto” de Valencia. Na cerimônia, bem trajado e esbanjando felicidade, recebe o título de bom grado e lança mão de suas aquarelas arguindo sobre a beleza da arquitetura na sociedade e de seus tempos de criança percorrendo as ruas de Valencia. Admite que seus projetos na cidade são os mais importantes de sua carreira. Assegura que sua obra transmite uma mensagem de fé e esperança no futuro, de acolhida aos que chegam e de amor e devoção por Valencia e pelos valencianos (19).

O que virá: Um novo símbolo no Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, em épocas de Copa e Olimpíadas, anuncia que também terá um novo símbolo!

Notícias na mídia brasileira relatam que a renovação da zona portuária carioca terá um importante impulsor: o Museu do Amanhã, de Santiago Calatrava.

O principal objetivo do projeto é conscientizar os cidadãos sobre o desenvolvimento da sustentabilidade, criando um edifício-marca que represente um novo símbolo para o Rio de Janeiro, ajustado a nova etapa que inicia a cidade. Como em Valencia, a cidade do Rio buscava há tempos dar uma solução à sua degradada zona portuária.

Vários prefeitos vinham sugerindo uma grande ação nesta área portuária, cujo advento da “conteinerização” provocou o desuso e consequentes abandonos de inúmeros galpões nesta região.

Sob a gestão de Cesar Maia, em 1992, o então secretário de urbanismo Luiz Paulo Conde, tentou implementar no Brasil alguns dos dogmas de gestão politica realizados em Barcelona (cidade que visitava frequentemente e admirava por suas estratégias de transformação urbana). A contratação de um Plano Estratégico para o Rio de Janeiro (20), dirigido por Jordi Borja e Manel de Forn, e a contratação de Oriol Bohigas para a reforma da frente marítima da Praça XV evocam esse modelo de transformação urbana através do financiamento de grandes acontecimentos.

Esta presença espanhola se reforçou em 1996, quando se contrata uma equipe chefiada por Lluis Millet para preparar a candidatura olímpica do Rio de Janeiro para 2004, cujas tentativas apenas emplacaram na nomeação da cidade para as Olimpíadas de 2016.

Em meados de 2009, se celebra uma aliança entre as três esferas de governo – o então presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes, em que foram assinados os acordos que darão andamento oficial aos projetos, reforçando a união para este mesmo objetivo (21). No evento, foi divulgado que a revitalização da zona portuária teria como objetivo a atração de empresas e a melhoria da infraestrutura turística do porto.

Como explica Alvaro Ferreira, “o desejo do prefeito carioca vai de encontro com a máxima que vê grandes projetos arquitetônicos de grande monumentalidade como alavancadores de investimentos para as cidades. Fica evidente, também, que o prefeito procura aproveitar-se da sequencia de eventos que movimentarão a cidade nos próximos anos: Jogos Mundiais Militares, em 2011; Terceira Cúpula da Terra (a Rio+20), em 2012; Copa do Mundo de Futebol, em 2014; e os Jogos Olímpicos, em 2016”. (22)

A escolha pelo arquiteto Santiago Calatrava terá a ver com suas qualidades projetuais em relação as necessidades desta delicada trama urbana da cidade ou simplesmente é um tipo de arquitetura que vende uma imagem mediática de fácil comoção ao olhar desatento ?

Sobre uma superfície de 12.500 metros quadrados no atual píer Mauá – o mesmo onde Jean Nouvel sonhou um dia construir o Guggenheim-Rio – o edifício se dividirá em dois extensos pavimentos e estará pousado sobre dois gigantescos espelhos d’água. Justifica-se que a água servirá para criar um microclima mais fresco, que diminuirá a temperatura no seu interior, mas conhecendo a arquitetura de Calatrava que - como o mito de Narciso - se encanta por si mesma, este é um artifício corrente em seus projetos, onde abundam espelhos d´água que refletem as dispendiosas estruturas, criando fotogênicas perspectivas.

Não construindo nenhuma relação com o entorno, o edifício como arquitetura não facilita as relações com os galpões pré-existentes, nem restaura nenhuma relação da vida carioca marítima e portuária, tão marcante na época do nascimento da cidade. O edifício pousa sobre um platô, ilhado em seu pedestal, de costas para a cidade. Se a ideia geral da revitalização do Porto é desenvolver uma série de atividades ao longo deste espaço, como mínimo se esperaria um edifício que costurasse esses usos, conectando o passeio dos usuários e a contemplação da bela orla do Rio de Janeiro. Alguns elementos da nossa frutífera arquitetura moderna estariam mais apropriados a este espaço: marquises, paisagismo tropical, passeios sinuosos...

Na maquete apresentada não se nota nenhuma consideração com a história local, nem com o projeto urbano proposto.

No ensimesmado edifício, o primeiro andar vai albergar salas de investigação e mostras temporais, assim como um auditório, uma loja e um restaurante. Duas grandes rampas levarão ao segundo andar, de 16 metros de altura, onde estarão as exposições permanentes, uma cafeteria e um mirador onde se poderá contemplar a baía com vistas a cidade vizinha de Niterói. O aspecto que o autor concede mais importância, está, no entanto, no exterior. O museu, alinhado com a sua “mensagem ecológica” estará recoberto por grandes estruturas dinâmicas que não somente se moverão para dar sombra, como também captarão energia solar através de placas fotovoltaicas (23).

Complicadas estruturas dinâmicas que se movem, abrem e fecham, também estão se tornando um recorrente na obra de Calatrava. Em Valencia (edifício Ágora) e em Nova York (Estação de Metrô da Zona Zero), estas estruturas estão embelezando os olhos dos visitantes mas causando verdadeiro alarde nas contas públicas. A necessidade de uma constante revisão de tais estruturas está levando ao limite as empresas de manutenção. Verdadeiros malabarismos para limpeza, troca de peças e acesso aos pavimentos técnicos também estão se tornando um recorrente nas obras de Calatrava.

Debruçado sobre a baía de Guanabara, “o edifício verde (sic) estimulará os visitantes a viver de forma sustentável” (24). Estranha maneira de incorporar a sustentabilidade na forma de viver. Enquanto o Rio de Janeiro é uma das cidades mundiais com maior índice de formas irregulares de ocupação do solo – e tudo o que elas acarretam, entre ocupação em zonas de risco, ausência de saneamento básico e falta de integração social em seu contexto urbano – decidiram então transformar a sustentabilidade em um artigo de museu, uma realidade virtual a ser passivamente consumida através das telas de plasma tão abundantes nos museus contemporâneos. Em um outro amanhã, talvez estaríamos, caso parte do dinheiro investido no Museu do Amanhã fosse realmente destinado a financiar e incorporar técnicas sustentáveis ajustadas a realidade social brasileira. Nosso país é um dos que mais avança na pesquisa da sustentabilidade e um dos que menos põe em prática essa necessidade. Esse triste paradoxo é reforçado por iniciativas, como a do Museu, que tendem, através do espetáculo, a distrair a atenção das massas da necessidade do Estado assumir verdadeiramente uma postura responsável em organizar uma sociedade mais sustentável, mais equilibrada, mais próxima de uma cidadania dignamente universal. Existe realmente a necessidade de um museu para discorrer sobre a sustentabilidade?

Enquanto gastamos em um edifício-marca que irá expor o tema da sustentabilidade, nossas cidades não possuem nenhum programa que a incorpore em uma escala social, nem consciente muito menos palpável. Novamente pergunto: por onde andará o domínio e o alcance da arquitetura no Brasil ?

O gasto no projeto de Calatrava será de inicialmente 130 milhões de reais, mas como vimos existem infinitas possibilidades (e obscuros interesses) pra que esse orçamento venha a crescer deliberadamente.

Em uma apresentação digna de espetáculo (marca registrada do arquiteto espanhol) – descreveu um artigo da Veja-Rio – a prefeitura do Rio apresentou oficialmente o novo marco arquitetônico da cidade: “Calatrava deu seu show, esboçando traços em uma aquarela enquanto falava para o publico (...). Inspirado no movimento das plantas, criou uma estrutura que se abre para permitir a entrada de luminosidade no prédio, que, entre outras inovações, promete também estar a frente de seu tempo em matéria de sustentabilidade” (25). No mesmo discurso, Calatrava ousou e declarou: “o projeto prevê um museu totalmente auto suficiente. E vamos usar somente materiais recicláveis na construção”. Mais adiante, sensibiliza: “o visitante não vai apenas apreciar o museu. Ele também vai ter a experiência da luz, da vida, da natureza” (26). Calatrava afirma que esse é o projeto de museu  mais importante de sua carreira. Junto a ele e a maquete apresentada, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB) define o Museu do Amanhã como “um projeto futurista que resgata o espírito dos cariocas” (27).

Uma implicação tendenciosa

O impacto meio-ambiental que provocam as obras de Calatrava pode ser objeto de estudo para  outro artigo. 

O que, sim, sabemos com clareza é que o impacto econômico que provoca suas obras não tem a ver com inclusão social muito menos com melhora de espaço público na escala do habitante da cidade. Essa arquitetura de vitrine direciona uma implicação tendenciosa no entorno imediato: de maneira agressiva, ocorre uma especulação nos preços dos imóveis e a redefinição do espaço urbano como um lugar de grife, facilitando investimentos que atraem apenas uma pequena parcela da população.

Os governos, que ao invés de se organizarem como gestores do dinheiro dos contribuintes, estão se comportando mais como seus “donos”, o que consolida essa atual vocação empresarial no modelo de gestão de cidades.

Uma das consequências mais nefastas desta nova fase do capitalismo é a imposição da ideia de crescimento contínuo.

Horacio Capel afirma que não se pode haver um aumento contínuo e ilimitado de consumo e de crescimento econômico: é curioso que frente à crise mundial atual, se diga uma e outra vez que é necessário estimular o crescimento (28). Se torna urgente a necessidade de pôr em marcha políticas para repensar as reais necessidades dos habitantes das cidades em todo o seu perímetro.

Que tenhamos bons arquitetos de renome internacional construindo por aqui, isso sim viria a ser uma boa oportunidade pra injetar ânimos no nosso panorama arquitetônico; sobretudo se forem encomendas mais próximas de uma realidade brasileira, em lugares que desafiem o profissional a desenvolver um raciocínio lógico e que conte com o exame crítico de nós, brasileiros.

O princípio de um círculo vicioso será repetir, por aqui, essa mania de comprar certas “marcas” da arquitetura estrangeira. Os governos estão pondo sua/nossa conta em risco: inflar a bolha da construção desmesurada; assumir sobre-custos em obras públicas que priorizam o espetáculo;  planejar cidades como parques temáticos a serviço das massas turísticas; fomentar sem rigor os financiamentos e hipotecas, entre outros, foram os principais agentes da crise que corrói a economia europeia.

No filme de Wenders, o diretor na sua obcecada busca pelo aclamado produtor, já não distingue entre a realidade e a ficção. Ao invés de aprender com os erros de seu próprio personagem, o diretor repete as mesmas ações, se entregando lenta e dolorosamente a um suicida panorama.

Tendo em vista o estado das coisas, podemos refletir quais serão as cenas dos próximos capítulos...

Torna-se insustentável seguir com o obsoleto programa de construir cidades somente a engrandecer o poder do capital, instigando o espetáculo e a condução das massas a consumir. Não que elas não sejam bem-vindas, mas um pouco de equilíbrio sempre vai bem. E coerência, que caminha junto com a realidade de cada cidade.

Urge projetar para a necessidade e com uma agenda política mais próxima da sustentabilidade tentando pôr em pratica alguns paradigmas que assegurem uma arquitetura mais humana e local. Apartar, mesmo que por um momento, a ilusão de querer que cada edifício seja um ícone representativo do mais tecnológico e esteticamente apurado. Tentar enfim, que uma verdadeira arquitetura (29) volte a caminhar junta a uma verdadeira democracia, logrando construir um espaço urbano mais próximo ao cotidiano e ao bem-estar universal.

notas

1
HARVEY, David. La condición de la pormodernidad: investigación sobre los Orígenes del cambio cultural. 2ªed. Barcelona, Amorrortu, 2008, p. 34.

2
PEREIRA, Paulo César Xavier; SPOLON, Ana Paula Garcia. Turismo, hotelaria e imagem urbana: a construção e o consumo de espaços de simulação. Scripta Nova. Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Barcelona: Universidad de Barcelona, 1 de agosto de 2007, vol. XI, núm. 245 (59). <http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-24559.htm [ISSN: 1138-9788]

3
CUECO, Jorge Torres. Museion o el lugar de las musas. Espacios del arte en la Comunidad Valenciana. Ars Nova. Dossier Comunidad Valenciana. Valencia, 2002, pág. 128-139.

4
SAYAD, João. Entrevista. Revista ProjetoDesign. Edição 354, Agosto 2009.

5
Para uma análise mais crítica do edifício de Miralles, consultar:
ESTÉVEZ, Carolina B. García. “Lo sólido no se disuelve en el aire”. In: Revista DC. Barcelona, Febrero 2009, p. 185.

6
RUBIN, Marc. Entrevista. Revista Techné. Edição 59, Fevereiro 2002.

7
Se agradece ao arquiteto/jornalista Llàtzer Moix pelo material utilizado para elaboração deste artigo. Alem de seu livro essencial Arquitetcura Milagrosa (Barcelona, editorial Anagrama), se utilizou como fonte bibliográfica o material recolhido de sua apresentação na conferencia “Hacia los nuevos signos de la identidad global del siglo XXI: ¿Arquitectura o pato?” realizada no Centro de Cultura Contemporània de Barcelona, 2010.

8
CUECO, Jorge Torres. Museion o el lugar de las musas. Espacios del arte en la Comunidad Valenciana. Ars Nova. Dossier Comunidad Valenciana. Valencia, 2002, pág. 128-139.

9
Os governos estaduais na Espanha se organizam através de comunidades autônomas independentes, de modo que a Generalitat da Comunidade Valenciana é o conjunto de instituições de autogoverno da Comunidade Valenciana, cuja sede esta em Valencia. Formam parte as Cortes Valencianas, o Presidente e o Governo Valenciano. A grosso modo pro nosso entendimento, o Presidente da Comunidade é o equivalente a um governador estadual no Brasil.

10
MOIX, Llatzer. Arquitectura Milagrosa, Barcelona, editorial Anagrama, 2010, p. 48.

11
MOIX, Llatzer, Op. Cit., p. 68.

12
MOIX, Llatzer, Op. Cit., p. 54.

13
MOIX, Llatzer, Op. Cit., p. 76.

14
MOIX, Llatzer, Op. Cit., p. 80.

15
O jornal espanhol El País, em 16/03/2011,  indica em reportagem que os socialistas valencianos reclamam com insistência ao governo valenciano, presidido por Francesc Camps, explicações de como um complexo que custaria 308 milhões de euros já soma 1 bi 300 milhões.

16
Jornal El País, 22/02/2011: “Los escándalos que afectan al PP”

17
Jornal El País, 16/03/2011: “Camps pagó 2,7 millones a Calatrava por un proyecto nunca hecho por excesivo”

18
Jornal El País, 16/03/2011: “Camps pagó 2,7 millones a Calatrava por un proyecto nunca hecho por excesivo”

19
Soitu.es, 27/05/2009: “Calatrava, ¿hijo predilecto de Valencia?

20
Sobre o Plano Estratégico do Rio de Janeiro, consultar o texto de Carlos Vainer “Os liberais também fazem    planejamento urbano?”, em: ARANTES, Otília; VAINER, Carlos, MARICATO, Erminia. A cidade do pensamento  único. Desmanchando consensos. Petrópolis RJ- Brasil: Ed. Vozes,  Coleção Zero à Esquerda, 2000.  2ª ed. 

21
FERREIRA, Alvaro. O projeto “Porto Maravilha” no Rio de Janeiro: inspiração em Barcelona e produção a serviço do capital ?. Biblio 3W. Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona, Vol. XV, nº 895 (21), 5 de noviembre de 2010. <http://www.ub.es/geocrit/b3w-895/b3w-895-21.htm>. [ISSN 1138-9796].

22
Idem, ibidem.

23
Jornal El mundo, 21/06/2010: “Calatrava presenta el Museo del Mañana, la nueva cara de Río”.

24
Jornal El mundo, 21/06/2010: “Calatrava presenta el Museo del Mañana, la nueva cara de Río”.

25
Revista Veja, 21/06/2010: “Santiago Calatrava apresenta no Rio o Museu do Amanha”.

26
G1.globo.com 21/06/2010: “Museu do Amanhã será feito com material reciclável, diz espanhol”.

27
Jornal El mundo, 21/06/2010: “Calatrava presenta el Museo del Mañana, la nueva cara de Río”

28
CAPEL, Horacio. Las ciudades, el consumo y el crecimiento de suma cero. Biblio 3W. Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales. [En línea]. Barcelona: Universidad de Barcelona, 5 de julio de 2011, Vol. XVI, nº 930.<http://www.ub.es/geocrit/b3w-930.htm>. [ISSN 1138-9796].  

29
Para uma reflexão sobre Arquitetura e Democracia, ver:
BOTTURA, Roberto. “Amizades perigosas… mas não tão sinceras”. In: Drops, São Paulo, 12.048, Vitruvius, set 2011. <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/12.048/4035>.

sobre o autor

Roberto Bottura é arquiteto e urbanista, formado pela Puc-Campinas e mestre em Teoria e História da Arquitetura pela Universitat Politècnica de Catalunya. Atualmente é investigador do Núcleo de Estudos das Espacialidades Contemporâneas – USP). Se interessa pelas relações entre Cidade, Poder e Arquitetura.

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