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drops ISSN 2175-6716

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O crítico e historiador Guilherme Mazza Dourado comenta a trajetória de Haruyoshi Ono, recém-falecido, que ao longo da vida foi estagiário, colaborador, sócio e herdeiro do paisagista Roberto Burle Marx.

como citar

DOURADO, Guilherme Mazza. Haruyoshi Ono, uma bela árvore. Drops, São Paulo, ano 17, n. 113.03, Vitruvius, fev. 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.113/6409>.



Em carta ao irmão Walter e à cunhada Fannie, de 31 de janeiro de 1968, Roberto Burle Marx resolveu divagar sobre qual seria seu destino final: “Já escolhi o lugar da minha sepultura: no sítio, debaixo de uma árvore frondosa. Quero me transformar em árvore, na qual cada dedo terá uma floração violenta e sentirei o vento, a tempestade e os relâmpagos a me iluminar. Assim minha perpetuação se fará”. Estas palavras vieram à minha mente após receber a triste notícia do desparecimento de seu discípulo e sócio Haruyoshi Ono (1943-2017), em 22 de janeiro de 2017, vitimado por uma queda acidental dentro de seu apartamento no Rio de Janeiro, que lhe acarretou danos cerebrais irreversíveis. Desde então não parei de imaginar que Haru, como era conhecido pelos mais íntimos, metamorfoseou-se também em vigorosa e bela árvore, prosseguindo assim, com outra essência, a determinação que norteou boa parte de sua vida neste mundo – qualificar os ambientes da existência humana por meio da presença de jardins e plantas.

Mas qual seria a árvore que Haruyoshi se converteu? Há tantas opções, porque ele amou e disseminou milhares delas nas obras paisagísticas que empreendeu ao longo de mais de meio século de atividade ininterrupta, em diversas regiões brasileiras e outros países. Tudo começou em 1965. Aos vinte e dois anos de idade, o então estudante do segundo ano da Faculdade Nacional de Arquitetura bateu às portas do ateliê de projetos de Burle Marx em busca de estágio e, após certa persistência na solicitação, conseguiu-o. Naquele momento, selava-se complemente o futuro profissional do jovem, sem que ele suspeitasse que dedicaria àquele escritório a maior e melhor parte de sua trajetória e jamais se afastaria do representante central do paisagismo moderno brasileiro.

Entre todos os sócios e colaboradores de projeto que Burle Marx teve em suas empresas, foi com Haruyoshi que estabeleceu a mais próxima, intensa e duradoura parceria de trabalho, construída no decorrer de praticamente três décadas consecutivas e apenas dissolvida com o falecimento do grande paisagista, em 1994. Ao longo dos anos, Haru não somente ganhou a plena confiança e admiração de seu mestre, como se tornou seu braço-direito, herdeiro intelectual e legatário em testamento. A simbiose e a cumplicidade profissional atingiram a tal ponto que Burle Marx passou a dividir com ele as responsabilidades da etapa inicial de criação e não apenas o detalhamento das propostas, em várias e importantes obras de paisagismo tanto no Brasil quanto no exterior. Embora desconhecida pela historiografia oficial até bem pouco tempo, esta questão dos bastidores do trabalho autoral a várias mãos começou a ser devidamente investigada nos estudos de Alda de Azevedo Ferreira, a partir de 2012.

De temperamento low profile, Haruyoshi preferia o trabalho na prancheta aos holofotes de qualquer tipo. Não se sentia confortável enquanto personalidade pública, evitando qualquer visibilidade desnecessária, mas não se furtando a dar entrevistas para estudantes, pesquisadores e mídias impressas, televisivas e internet, especialmente quando se tratava de rememorar seus intensos anos de convívio e aprendizado ao lado de Burle Marx. Foi o caso de seu último depoimento ao seriado Casa Brasileira Férias, do canal GNT, levado ao ar em 8 de janeiro passado, um dia após seu grave acidente. Sempre discreto, fala serena e pausada, metódico em sua rotina profissional e com muita energia e disposição para o trabalho, Haru possuía diversos talentos além da vocação paisagística. Foi sensível fotógrafo que documentou largamente os projetos feitos pelo escritório, as expedições botânicas, as pinturas, as esculturas, os murais, as tapeçarias, enfim todo o cotidiano ao redor de Burle Marx, formando por iniciativa própria um dos mais significativos acervos iconográficos relacionados ao paisagismo moderno brasileiro. Mas a principal contribuição dele foi, sem dúvida, no campo da arte dos jardins durante e após a partida de seu mentor.

A extensão da produção paisagística de Haruyoshi é impressionante, mas pela brevidade deste artigo lembrarei somente de dois exemplos cruciais de sua carreira que passaram a figurar na história internacional dos jardins e das paisagens de todos os tempos. Recordo o calçadão de Copacabana que, numa operação de desenho urbano ao longo de 4 km da avenida Atlântica, requalificou um dos mais emblemáticos lugares da cidade do Rio de Janeiro, debruçado sobre paisagens naturais mundialmente conhecidas, num projeto de 1970 elaborado por Roberto Burle Marx, Haruyoshi Ono e José Tabacow. O trio foi igualmente responsável por uma das maiores joias paisagísticas do século 20 – os jardins da Fazenda Vargem Grande, em Areais, cuja composição desenvolve-se a partir do tema das águas e das plantas aquáticas em meio a uma centenária fazenda de café, num trabalho de longa implementação, entre 1979 e 1990, por encomenda de Clemente Fagundes Gomes e hoje zelosamente mantidos pelas três filhas e genros do empresário e mecenas.

Por vontade expressa e documentada de Burle Marx, Haruyoshi recebeu o escritório em herança, em 1994. A transição foi um momento difícil, com diversos problemas, mas que ele soube enfrentar com sabedoria e tenacidade. Reestruturou a firma com a ajuda da esposa e paisagista Fátima Gomes, instalando-a em novo endereço no bairro de Laranjeiras, e seguiu adiante produzindo, nessa nova fase, uma folha de serviços com mais de três centenas de projetos e chegando em 2017 sem planos de aposentadora no horizonte, mesmo aos 73 anos. Como seu mestre, estimulou a formação de profissionais no próprio escritório, abrindo espaço para que novos talentos participassem ativamente da criação dos projetos ao seu lado. Assim fez sociedade com os jovens paisagistas Isabela de Carvalho Ono e Júlio de Carvalho Ono, seus filhos, e Gustavo Leivas. Hoje é esta terceira geração, constituída por um grupo de projetistas-sócios muito competentes e afinados entre si, que levará para frente o nome e a produção respeitada do escritório, conservando pulsante uma das mais importantes e antigas estruturas empresariais do ramo no Brasil e nas Américas, sob o abrigo e a inspiração das grandes árvores Burle Marx e Haruyoshi Ono.

sobre o autor

Guilherme Mazza Dourado é arquiteto, historiador de paisagismo e autor do livro Modernidade verde – jardins de Burle Marx (São Paulo, Senac/Edusp, 2009).

Jardins da Fazenda Vargem Grande (detalhe). Paisagistas Roberto Burle Marx, Haruyoshi Ono e José Tabacow
Foto Guilherme Mazza Dourado, 2016

Jardins da Fazenda Vargem Grande (detalhe). Paisagistas Roberto Burle Marx, Haruyoshi Ono e José Tabacow
Foto Guilherme Mazza Dourado, 2016

Jardins da Fazenda Vargem Grande (detalhe). Paisagistas Roberto Burle Marx, Haruyoshi Ono e José Tabacow
Foto Guilherme Mazza Dourado, 2016

Jardins da Fazenda Vargem Grande (detalhe). Paisagistas Roberto Burle Marx, Haruyoshi Ono e José Tabacow
Foto Guilherme Mazza Dourado, 2016

 

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