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architexts ISSN 1809-6298


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Maria de Fátima Duarte Tavares nos fala sobre os projetos de intervenções urbanas realizados no Rio de Janeiro durante o século XIX, em que o olhar sobre o espaço urbano parte da negação da cidade existente e cuja vontade era ordenar uma totalidade urbana


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TAVARES, Maria de Fátima Duarte. A paisagem do Rio de Janeiro e o pensamento técnico:. Ordem urbana e natureza no século XIX. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 096.05, Vitruvius, maio 2008 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.096/143>.

Proposições de uma nova ordem urbana para o Rio de Janeiro do século XIX foram elaboradas por representantes do pensamento técnico. Nestas, novas relações entre o domínio público e privado são constituídas como alternativas às formas dominantes da cidade existente. Os princípios fundadores da nova ordem geralmente estão vinculados aos preceitos da higiene, ao ideário progressista e às experiências européias de renovação urbana. Cabe observar o modo de sua apropriação para a construção das proposições de transformação. Mesmo que admitida uma certa uniformidade nas concepções formais, a análise não pode prescindir da dimensão da significação atribuída ao conjunto urbano renovado e suas possíveis hierarquias, aos seus elementos de referência simbólica, às prioridades no atendimento às questões de caráter público ou privado.

A cidade do Rio de Janeiro ao constituir-se em objeto do olhar técnico nos projetos globais ou parciais de intervenção é apreendida como lugar privilegiado do processo civilizatório, desde que seja renovada material e simbolicamente a antiga estrutura. Portanto, o olhar sobre o espaço urbano parte da negação da cidade existente, que é um dos traços comuns às proposições aqui discutidas.

Rio de Janeiro – distintas visões da totalidade urbana

O Rio de Janeiro como cidade-capital foi, no século XIX, o centro referencial, cultural e político, para a realização do debate sobre a cidade, a ordem territorial e os problemas do desenvolvimento do país.

Os engenheiros ao postularem a ação racionalizadora sobre a ordem urbana historicamente construída estabelecem um rompimento com o passado e sua carga simbólica de significação. A imagem criada para a cidade futura apresenta-se múltipla e capaz de traduzir projetos políticos e sociais distintos. Na avaliação destas proposições técnicas importa-nos apreender a constituição de um pensamento urbano no Brasil.

A cidade do Rio de Janeiro foi, desde o século XVIII, alvo de projetos de reordenamento caracterizados pela busca de qualificação monumental. O que confere uma especificidade aos projetos aqui apresentados é a vontade de ordenar uma totalidade urbana.

No entanto, a cidade, ao constituir-se num dos objetos primordiais da atenção destes homens dedicados às ações de transformação da natureza, persiste como o espaço de representações da sociedade agrária e lugar das transações internacionais de comércio. Nesta concepção não se explicita um conflito entre cidade e campo. Seja na ótica que consideramos modernizante ou na reformista, o campo continua sendo considerado o espaço privilegiado para o desenvolvimento produtivo.

A cidade, representada em sua totalidade, constitui-se no lugar simbólico de sustentação e difusão da racionalidade. Embora, nas diferentes proposições de ordenamento espacial, esta totalidade possa remeter a distintas formas de entendimento do sistema urbano, este é sempre construído sobre a representação racionalizada das condições naturais, do papel do Estado e da ordem social.

Em outros termos, estas representações urbanas vinculam-se ao projeto civilizatório do Império e posteriormente da República, mesmo que aparentemente distantes quanto às políticas e ações efetivas. A construção da noção de totalidade está estreitamente ligada ao processo instaurado, no domínio do Estado, de um reconhecimento da ordem urbana, notadamente, através da produção cartográfica e do discurso institucional médico-higienista. Ao mesmo tempo, pode-se, ainda, estabelecer paralelismos com outros sistemas de representação da cidade submetidos a uma visão de totalidade, como a extensa produção de imagens panorâmicas do Rio de Janeiro desenvolvidas ao longo do século XIX.

A totalidade, nas representações urbanas dos engenheiros, ganha forma através de relações constitutivas fundamentais: a estruturação da ordem interna, sustentada em concepções de dimensão pública e de dimensão privada; a relação entre cidade e natureza, em que se acham subjacentes valores positivos ou negativos atribuídos à paisagem (o litoral marítimo, as margens de lagoas, a planície pantanosa, as montanhas envolventes com suas florestas e os morros assimilados à estrutura urbana desde a fundação colonial); e a relação entre cidade e território, em que se define o papel do urbano na reformulação da paisagem rural.

Nos sistemas de representação, em que se articulam estas relações, prevalecem duas séries de significações: a que se traduz na visão hierárquica da ordem urbana e a que pretende instaurar um espaço de eqüidade. A cidade é, deste modo, a representação espacializada de concepções sociais, que não colocam em questão a prevalência da sociedade agrária, porém, manifestam o interesse por sua definição futura.

As proposições urbanas com seus diferentes esquemas formais e suas atribuições sociais de significação pretendem, assim, conduzir a distintos objetivos. Reconhece-se nos esquemas relativamente centralizados a representação nitidamente legitimadora da ordem existente. Já a visão reformista está associada aos esquemas formais homogeneizantes. Esta divisão corresponde à constituição de duas visões de cidade, que são fundamentadas em princípios de cientificidade comuns, porém com lógicas sociais distintas. O pensamento urbano, no Brasil do século XIX, parece, portanto, estruturar-se paralelamente em duas vertentes: na reafirmação de um domínio social e cultural da ordem privada e na afirmação da possibilidade de uma outra cultura urbana pautada pela dimensão pública.

As representações que envolvem a cidade, na segunda metade do século XIX, e suas dimensões do público e do privado são, de modo paradigmático, constituídas por duas elaborações: a de Henrique Beaurepaire Rohan, em 1843, e a da Comissão de Melhoramentos da Cidade, de 1874. O olhar técnico sobre a cidade no Império não pode deixar de vincular-se à dinâmica dos debates políticos sobre a estrutura fundiária e sobre o problema social da escravidão. A proposição de Beaurepaire Rohan de 1843 pode ser comparada ao projeto modernizador de interesse dos cafeicultores fluminenses, também de 1843, que serviu de base à formulação da Lei de Terras de 1850 (2). A proposição de Beaurepaire Rohan, que abrange a área do município, estabelece sólidas perspectivas de intervenção no domínio territorial privado, seja no campo ou na cidade, para a constituição do que ele define como interesse público.

A proposição da Comissão de Melhoramentos de 1874, embora rejeitada pelo governo, situa-se no quadro temporal dos debates que se seguem à lei do Ventre Livre e da política modernizadora do Império após os anos 70. O projeto articulava enfaticamente uma redefinição valorativa da ordem privada urbana, associada a uma nova rede viária cortando a densidade da ocupação existente, mas, diante da perspectiva de mudanças no domínio social sustentado pela escravidão, pouco interferia na área ocupada pelos trapiches (porto), principais utilizadores de mão-de-obra escrava.

Na primeira elaboração constrói-se um projeto de cidade em que os interesses privados deveriam estar sujeitos ao interesse geral da sociedade. Diversamente no projeto da Comissão de Melhoramentos a constituição de uma outra ordem urbana tem por objetivo criar alternativas de apropriação e valorização do solo para o interesse privado e facilitar as relações que já neste domínio se desenvolvem no âmbito da cidade. As diversas representações que relacionam a técnica e a indústria à cidade transformada confirmam este entendimento. Uma ética do trabalho e a condenação do primado agrícola, em Beaurepaire Rohan, divergem da visão modernizante do campo brasileiro que defendem os autores da Comissão de Melhoramentos.

A natureza, nestes projetos, apresenta-se sob uma mesma concepção. A negação do meio natural envolvente, vista em sua parcialidade, é o traço comum às duas proposições. Os fundamentos higiênicos dão suporte às considerações de insalubridade que desqualificam estes lugares periféricos à ordem urbana; reconhecem-se negativamente a formação física dos morros, as áreas alagadas e os limites indefinidos da baía. São exceções as referências positivas à paisagem que cerca o Rio de Janeiro. O ambiente reconhecido como natural, objeto do mesmo olhar que observa a cidade, deverá ser racionalmente transformado. O que significa extinguir o que o define como parte do mundo da natureza, para tornar-se parte integrante da ordem urbana projetada.

As duas primeiras visões da cidade apresentadas, distanciadas temporalmente entre si (1ª – 1843; 2ª - 1875, 1876), pretendem constituir a racionalidade da cidade futura. É importante salientar que até o fim do século XIX observa-se a permanência do debate entre os esquemas formais que caracterizam estas duas proposições. Ou seja, entre as formas regulares e as que se podem definir como sistemas totalizantes.

Em 1843, o diretor das Obras Municipais, Henrique Beaurepaire Rohan, apresenta um relatório à Câmara Municipal, no qual traça uma perspectiva do trabalho por ele realizado e do que propõe, para a cidade, como diretrizes de transformação (3). Este relatório apresenta-nos uma concepção da dimensão urbana que o aproxima do pensamento sobre a cidade européia, tal como este se manifesta desde o final do século XVIII. A ênfase em uma análise quantitativa dos elementos urbanos, suas instituições, medição e levantamento das partes componentes da cidade e do território que a envolve, notadamente a atenção aos elementos que estabelecem as relações das partes entre si, as vias de comunicação (4).

Quando a racionalização a ser implementada dirige-se para o que seria a criação de uma nova cidade, estabelece, ao mesmo tempo, uma precisa redefinição dos espaços imediatos não urbanos. As formas de intervenção prescritas para estes limites configuram-se pela intolerância diante do irregular. Uma distinção é claramente estabelecida entre obra humana e o ambiente natural. A exemplo da idéia de um cais geral que assume o caráter de um elemento uniforme, propondo o limite entre a cidade e a baía.

A visão idealizada da cidade regular manifesta-se através das normas que devem guiar a ocupação do solo privado e daquelas que configuram a ordem pública. Estas normas, associadas ao fundamento constantemente afirmado do traçado retilíneo das vias públicas de comunicação, demonstram que o autor propõe um ordenamento uniforme, cuja caracterização promove a reformulação das relações que determinavam a forma urbana constituída. A esfera privada de domínio passa a ter seu papel subordinado à estrutura pública que deverá fundamentar as relações urbanas.

Outros parâmetros podem ser avaliados na proposição da Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro. O projeto, elaborado por Francisco Pereira Passos, Jerônimo Rodrigues de Moraes Jardim e Marcellino Ramos da Silva, foi apresentado ao governo imperial em dois relatórios de 1875 e 1876. Nestes as experiências européias de renovação urbana são explicitamente citadas como referências (5).

A proposta de intervenção identifica problemas e elege prioridades para as áreas que dentro dos limites urbanos devem ser objeto de mudança. A estrutura de relações, que deveria prevalecer entre as partes da cidade, é fundamentada por uma visão de totalidade, que não inclui os domínios rurais. O que significa submeter a uma sistematização geral todos os setores considerados como urbanos e, somente, estes.

Há, contudo, neste sistema, o caráter de preservar o sentido de centralidade urbana. A área comercial, renovada, mantém-se como o núcleo em torno do qual gravitam as propostas de transformação. O novo traçado estabelece uma relação de continuidade entre as áreas de baixa densidade de ocupação e aquela definida como central (área comercial). A proposta geral de renovação justifica-se sob as perspectivas conjugadas de maior circulação e do incremento da ventilação urbana. Por outro lado, a visão de uma cidade geometricamente regular e uniforme é explicitamente negada pela Comissão de Melhoramentos a qual considera que o ideal de uma forma urbana pré-concebida desprezaria “vantagens reais que se prendem ao estado das coisas existentes” (6).

A oposição veemente à uniformidade, seja do traçado urbano, seja da arquitetura, remete-nos diretamente à concepção primordial da cidade em projeto. Os autores preconizam, através do caráter formal da representação social (ou da representação das necessidades) da arquitetura e da ênfase na necessária diferenciação de atendimento à circulação, a constituição hierárquica da cidade (7).

A dimensão pública, nesta concepção de totalidade urbana, está sustentada na natureza complementar e, portanto, diferenciada de áreas urbanas, através da proposição de espaços qualificados material e simbolicamente com fins distintos. Duas questões são basicamente exploradas: a representação do poder público e aquela referente ao domínio da natureza. A primeira reinterpreta a configuração do espaço simbólico do poder colonial. A segunda aborda as zonas de expansão norte e sul. Destacam-se as áreas negativamente associadas à insalubridade da zona marítima e dos terrenos pantanosos. Na direção sul, o traçado dá ênfase à proposição do cais geral até Botafogo, cujo caráter de continuidade define o limite entre a baía e a cidade e promove o apagamento das irregularidades da orla marítima. Na direção norte, a constituição dos principais espaços públicos, vias de circulação e parques, vincula-se à idéia de difundir práticas agrícolas inovadoras, para inclusão das máquinas na transformação da natureza. Uma outra dimensão de significação resultaria da presença de novos elementos na estrutura de expansão que se desdobra na direção da planície de São Cristóvão, Andaraí e Engenho Velho. Essa região, que se situa além da Cidade Nova, assumiria um traçado de grandes avenidas arborizadas, situadas sobre áreas pantanosas.

A cidade, sujeita ao processo de racionalização de sua estrutura material, tornar-se-ia, assim, o lugar promotor da racionalidade técnica do mundo agrário e exemplo de qualificação das paisagens naturais antes associadas à insalubridade.

A cidade reformista de André Rebouças

A visão de cidade de André Rebouças é construída a partir dos princípios fundamentais do higienismo: ventilação e insolação. Incorpora, também, um dos preceitos básicos das renovações urbanas do século XIX – a circulação. Admite, diferentemente das proposições discutidas anteriormente, uma tipologia edificatória, com referências classicistas à casa com “átrio pompeiano” e paralelismos declarados sobre esta questão às cidades de Montevidéu e Buenos Aires. A valorização de uma edificação privada que remete ao ordenamento clássico simboliza nas imagens urbanas de Rebouças a identificação com uma determinada racionalidade e estética urbanas.

Em André Rebouças, a cidade ideal é uma formulação posterior às suas proposições de democracia rural e temporalmente vinculada à intensificação da campanha abolicionista. A apreensão da cidade como objeto capaz de sintetizar simbolicamente objetivos de reformas sociais é desenvolvida plenamente nos anos de 1888 e 1889 (8). As proposições urbanas desse engenheiro distanciam-se das anteriormente referidas (Rohan, Comissão de Melhoramentos) em pontos fundamentais: na estrutura formal, na adequação da cidade ao meio geográfico e na nítida qualificação / separação das atividades urbanas. Uma outra imagem de cidade é elaborada a partir da articulação destas novas relações.

Na configuração urbana imaginada por Rebouças reconhecem-se, porém, traços de uma visão anti-urbana. A sua crítica à cidade existente (Rio de Janeiro) é constituída pela idéia da superação total dos elementos construídos e das práticas instituídas da vida urbana.

Suas propostas definem-se pelo caráter extensivo das formas construídas, com prevalência dos espaços públicos, vias de circulação, parques e florestas. Estabelece com estes elementos uma relação regularizadora de ocupação dos sítios escolhidos, que pretende, ao mesmo tempo, conservar e recriar ao máximo uma dimensão urbana vinculada à natureza. A valorização da ordem regular, baseada em um sistema reticulado, é exposta na proposta de Rebouças de uma lei provincial, publicada na Revista dos Construtores em maio de 1889. Dispõe sobre a proteção das florestas, trata da criação de parques e da localização de diversas funções, entre elas a indústria (9).

O reformismo do pensamento de Rebouças orienta-se para a atenção da dimensão pública urbana, que prevalece nas definições de ordenamento espacial, na manutenção de serviços que dessem sustentação a uma cidade higiênica e na criação de instituições capazes de elevar a qualidade de vida dos habitantes pobres. Assim, neste projeto de legislação urbana, Rebouças postula a universalização territorial de uma forma urbana e a universalização de serviços e instituições públicas que deveriam dar suporte à integração social nas cidades (10).

Os parâmetros utilizados por Rebouças para estruturar sua proposição de ordem urbana advêm da justaposição de diferentes experiências: a inglesa de parques urbanos e a do movimento americano pela preservação e criação dos parques nacionais. Porém, a noção de transformação da natureza em um lugar próprio à dimensão social da vida urbana parece traduzir também a justaposição de traços iluministas do pensamento sobre a cidade; Voltaire e Rousseau são autores referenciais de Rebouças na argumentação em defesa das reformas urbanas, na qual a questão de higiene é colocada como problema político-social (11).

Rebouças pretende conciliar natureza e ordem regular urbana. Concepção que diverge da criação de parques em Nova York (Central Park) e Buenos Aires (Palermo); estes foram pensados em oposição ao sistema regular que estas cidades apresentavam, porém tendo em vista instituir uma outra dimensão de urbanidade (12). Nesta proposição de Rebouças, os parques não são experiências de recriação artificial da natureza no meio urbano, ou em oposição a este, tal como nas cidades citadas. O que ele propõe é a apropriação das florestas nativas e das áreas de mananciais como coisa pública, associada à vida urbana.

Na adequação ao sítio geográfico a cidade homogênea, extensiva e sem limites de Rebouças apresenta-se como objeto racional, resultado da vontade humana e diferenciado da ordem da natureza. No entanto, há também o reconhecimento de que a ação de intervenção sobre a paisagem deve obedecer a determinadas restrições, que garantam a duração da relação entre cidade e mundo natural. Há nesta adequação ao sítio geográfico, portanto, uma inteligibilidade da construção da ordem urbana, que não é a da busca de superação dos domínios da natureza pela razão, mas a pretensão de demarcar espacialmente a reforma da ordem social.

A cidade é, assim, no interior do território municipal, considerada o lugar privilegiado de uma nova sociabilidade, que parece estar sujeita aos princípios, constantemente repetidos por Rebouças, da equidade, liberdade e fraternidade. Estes valores, que deveriam marcar as relações entre os homens, estão simbolizados na estrutura formal homogênea. A ordem hierárquica e a monumentalidade pública, indicações simbólicas das instituições sociais urbanas, são substituídas pela eleição de um novo objeto de memória – as montanhas, suas florestas e mananciais:

“Art. 5º - Serão considerados próprios municipais as florestas situadas na zona do município. Ficarão a cargo das municipalidades a guarda e a conservação dessas florestas; sendo absolutamente proibido o corte das árvores das montanhas desde seu vértice até 50 metros abaixo da linha cumiada; As cascatas e as nascentes d’água, potável ou medicinal, serão tratadas com o maior desvelo e as florestas circunvizinhas cotadas e ajardinadas para servirem de parques e passeios públicos” (13).

Podem-se reconhecer três áreas específicas no sistema urbano de Rebouças: a residencial, a comercial, destinada ao comércio inter-regional ou internacional, e, segregada, a de produção. Deste modo, promove uma racionalização territorial de áreas urbanas, que se torna inteligível quando comparada aos seus projetos de intervenção na paisagem do Rio de Janeiro.

Estas indicações normativas para a fundação ou reforma de cidades foram baseadas em formulações anteriores do autor sobre o Rio de Janeiro. Seu reformismo urbano pretende dar conta de construir uma outra configuração espacial, que elimine todos os traços deixados pelo sistema escravocrata. Sua concepção recria na totalidade o panorama do Rio de Janeiro, através da inserção do urbano no “meio biológico”. Este ideal reformista configura-se na imagem da cidade ocupando as montanhas e morros, tendo abaixo de si a planície transformada em extenso parque urbano.

As questões sanitárias do Rio de Janeiro estão novamente em debate ao fim dos anos 80. Esta, proposição, deste modo, dialoga publicamente com outras visões que defendem o deslocamento da capital para zonas do interior do país. Em Rebouças o problema sanitário pertence ao conjunto de princípios que deve regular a relação entre cidade e natureza.

Neste enfoque a baía inscreve-se na mesma forma de apreciação desenvolvida para as florestas. Do ponto de vista técnico todos os resíduos produzidos pela presença massiva do homem sobre o meio deveriam ser tratados e direcionados para o oceano.

A visão de totalidade urbana de Rebouças reintroduz sob outra percepção a antiga relação entre a cidade e a baía. A orla marítima é valorizada como área urbana, e, como tal, deve ser demarcada, com clareza, sua diferenciação em relação à natureza marítima. Esta definição de limite está bem difundida, entre os engenheiros, na idéia de cais geral. Antonio Rebouças havia proposto, nos anos 70, este contorno da orla, abrangendo toda a extensão da cidade até a enseada de Botafogo; tratava-se de um cais geral paisagisticamente ornamentado com espécies florestais brasileiras.

Porém, esta noção ganha um caráter e uma escala diferentes nos termos em que André Rebouças recria a paisagem destinada à principal função econômica do Rio de Janeiro. A região da planície admitiria uma única atividade: o comércio internacional e seu aparato construtivo de armazenagem e serviços portuários. Um parque ocuparia o lugar da antiga cidade. Sua finalidade seria o lazer urbano, porém representava a ressignificação da região marcada pelo comércio escravocrata.

Além deste sentido social, a planície, área historicamente conquistada pela cidade aos pântanos e lagoas, deixa, na concepção higienista de Rebouças, de ser apropriada à ocupação humana permanente. A contaminação por sucessivos aterros e a dificuldade de coibir tecnicamente as inundações destas terras abaixo do nível do mar justificam a sua opção por uma cidade de altitude. Deste modo, contraria a visão dominante, também higienista, de arrasamento de morros e da conquista à planície de mais áreas pantanosas para expansão urbana.

Esta cidade de altitude, destinada privilegiadamente à habitação, é imaginada em termos futuristas, com diferentes sistemas técnicos e maquinário moderno para facilitar a acessibilidade. A inovação técnica apresenta-se conjuntamente à noção da cidade como objeto da intervenção racional, desde que isto não corresponda à inserção de espaços de produção na ordem urbana.

O Clube de Engenharia e a cidade do fim do século XIX

O Clube de Engenharia, um órgão de representação coletiva, caracteriza-se como um espaço público para a difusão das ações racionalizadoras a que se propõem os engenheiros.

O enfoque sobre a cidade nas manifestações do Clube de Engenharia é construído, também, sobre aquela divisão fundamental, entre uma nova ótica que qualifica a vida urbana por sua dimensão pública e a que pretende reorganizar a imagem da cidade hierárquica.

A dimensão da historicidade, na construção do pensamento sobre a cidade, revela claramente que as escolhas efetuadas, entre diferentes modelos externos de ordem urbana, estão previamente condicionadas a opções localmente definidas. Estas denotam a percepção (não homogênea) dos engenheiros brasileiros diante do processo pelo qual deveriam ser conduzidas inovações e reformas de caráter técnico.

A relação entre ordem urbana e domínio da natureza foi, mais do que o problema da forma, ou da renovação material do construído, o enfoque privilegiado dos engenheiros para pensar a cidade. Pode-se, mesmo, afirmar que foi o entendimento dominante do urbano até o Congresso de Engenharia e Indústria, realizado em comemoração ao IV centenário do descobrimento do Brasil entre dezembro de 1900 e janeiro de 1901. O privilégio aos serviços públicos e o tema do saneamento do litoral através da construção de um cais geral continuam sendo as referências dominantes nas conclusões coletivas (14).

A cidade é apreendida pelos engenheiros, como um objeto da técnica, mas não independente da natureza. O pensamento higienista foi um dos suportes principais para o desenvolvimento de uma compreensão racional do urbano e contribuiu para as discussões que envolveram a relação cidade e natureza, desde o fim do século XVIII. A apropriação das questões de higiene pelos engenheiros brasileiros dá-se através de tratados de origem predominantemente francesa. No entanto, as proposições reformadoras locais não estão totalmente subjugadas aos pressupostos científicos ditados por essas obras. Nas formulações técnicas do Congresso de Engenharia, esta questão obedece a escalas e formas de ordenamento distintas, que correspondem às diferentes atribuições imaginadas para a cidade como espaço público ou privado.

A dimensão da recriação artificial da natureza, no meio urbano, insere-se nos sistemas ordenadores idealizados, que deveriam dar corpo e organicidade à cidade como criação humana. A analogia com as funções e elementos necessários à vida orgânica, que é dada pelos princípios de ventilação, circulação e insolação, reporta à noção dominante de cidade como organismo. O conjunto sistêmico de ações objetivava transformar uma estrutura considerada amorfa e irracional, a cidade histórica, num organismo técnico, controlado e identificado em todas as suas relações fundamentais.

Uma outra dimensão surge quando a cidade, em sua globalidade, é inserida na natureza. Os preceitos higiênicos podem estar qualificando positiva ou negativamente a paisagem natural, mas a apreensão daquela inserção remete a outro conjunto de idéias.

Um olhar poético sobrepõe-se ao discurso cientificista para interpretar os elementos da natureza e orientar a definição dos limites urbanos. Não há contradição nesta forma de assimilação de dois sistemas de pensamento, eles estão integrados por uma visão de totalidade. No congresso de engenharia esta noção está presente nas formulações sobre o Rio de Janeiro e na perspectiva de criação de novas cidades. A mesma concepção domina a pretensão de uma ocupação territorial, com cidades disseminadas nos planaltos do interior do país, e a que pretende definir como urbanos os limites naturais do Rio de Janeiro, suas florestas e o litoral. Trata-se da noção de que a civilização e a natureza deveriam pertencer a uma totalidade integrada.

A valorização da natureza envolvente da baía do Rio de Janeiro, exaltada em sua singularidade, é incorporada nesta concepção, que é urbana. As florestas e o litoral já são elementos compreendidos como pertencendo à cidade. Não deveriam estar vinculados à apropriação privada da natureza.

 A demarcação estética da paisagem do Rio de Janeiro recai sobre a composição do litoral. O sentido recorrente da idéia de uma avenida que abrangesse toda a extensão urbana, da ponte do Cajú à praia da Saudade, é o de promover uma homogeneização, capaz de ressignificar a relação histórica entre a cidade e a baía. Esta redefinição da orla marítima enfatiza e pressupõe o olhar sobre um perfil urbano, imagem de exterioridade sobre a qual a cidade será observada. Ao mesmo tempo, é um elemento que por sua uniformidade e continuidade assumiria o caráter unificador da ordem urbana.

A apreensão positiva das montanhas e florestas corresponde também à valorização dos sítios geográficos elevados como lugares de observação; pontos referenciais para o reconhecimento de uma totalidade, que abrangeria a obra humana e a natureza. Observa-se a tendência das formulações técnicas de se desviarem da visualização negativa da paisagem, que era centrada nas planícies pantanosas e nas montanhas que impediam a ventilação urbana, para a noção de valorização estética e de conservação de elementos naturais (15).

Parece significativo que seja em torno destes elementos da natureza que os engenheiros, ao final do século XIX, constituam uma unidade de pensamento. Esta dominância de significação dada à natureza expressa o desdobramento de um projeto civilizatório, em princípio ligado à formação do Estado no Brasil, que pode ser reconhecido, neste período, como cultura urbana (16).

Enquanto vertentes de proposição urbana com maior ênfase na dimensão pública foram ignoradas, prevaleceram nas reformas urbanísticas efetuadas no Rio de Janeiro, nas décadas de 1900 e 1920, a centralidade formal e seus pressupostos hierárquicos. A orla marítima, recriada nos governos do presidente Rodrigues Alves e do prefeito Pereira Passos, e, posteriormente, na administração do prefeito Carlos Sampaio, é um elemento de unificação do traçado proposto pelas reformas e, como tal, é enfaticamente difundido em imagens panorâmicas. Essa relação emblemática com o litoral urbano do Rio de Janeiro se afirmou sobre os traços de uma natureza apreendida como primitiva. Porém, o caráter unitário entre ordem urbana e a praia foi instaurado em um contexto de crescente segregação social e expansão da zona urbanizada.

notas

1
Este trabalho é um desdobramento parcial da tese de doutorado intitulada Um deserto a atravessar: paisagem e racionalidade industrial, Rio de Janeiro: 1870-1913, defendida no PPGHIS – IFCS / UFRJ, em 2002, orientada pelo Prof. Dr. Afonso Carlos Marques dos Santos. Contou para sua elaboração, à época, com recursos da Capes.

2
CARVALHO, José Murilo de. A política de terras: o veto dos barões. In: A construção da ordem: a elite política imperial; Teatro das sombras: a política imperial. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, Relume-Dumará, 1996. p. 303 e seguintes.

3
ROHAN, Henrique Beaurepaire. Relatório apresentado a Ilma. Câmara Municipal do Rio de Janeiro (publicado originalmente em 1843). I.H.G.B., separata do vol. 275 – abril/junho de 1967. Deptº Imprensa Nacional, 1968.

4
FORTIER, Bruno. Storia e pianificazione urbana: gli anni 1800. In: MORACHIELLO, P. e TEYSSOT, G. Le macchine imperfette: architettura, programma, istituzioni, nel xix secole. Roma, Officine Edizioni, 1980. p. 27 – 45.

5
1º Relatório da Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1875; 2º Relatório da Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1876.

6
2º Relatório da Comissão
(...). op. cit. p. 11.

7
1º Relatório da Comissão
(...). op. cit. p. 18.

8
Sobre o pensamento político e social de André Rebouças ver: CARVALHO, Maria Alice Rezende de. O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil. Rio de Janeiro, Revan: IUPERJ-UCAM, 1998.

9
REBOUÇAS, André. Projeto de lei provincial – para saneamento, construção e reconstrução das suas cidades de 12/02/1889. Revista dos Construtores, maio de 1889. p. 68, 69.

10
REBOUÇAS. André. Higiene. Revista de Engenharia, nº 182 (28/03/1888). p. 62.

11
REBOUÇAS, André. Higiene. op. cit. p. 65.

12
GORELIK, Adrián. La grilla y el parque. Espacio público y cultura urbana en Buenos Aires, 1887-1936. Buenos Aires, Universidad Nacional de Quilmes, 1998

13
REBOUÇAS, André. Projeto de lei (...). Op. cit. p. 68.

14
Esses temas estão presentes desde a origem da revista em 1887. Nos anais do Congresso de Engenharia e Indústria esse debate é difundido em diferentes tópicos. Ver: Revista do Clube de Engenharia, IV série, número 1, 1900; e números 2, 3, 5 de 1901.

15
A construção desse olhar dominante sobre o litoral marítimo permite estabelecer paralelismos com a análise de Alain Corbin em o Território do vazio: a praia e o imaginário ocidental. São Paulo, Cia das Letras, 1989. O olhar poético pode estar incorporando traços do romantismo brasileiro, mas as referências podem ser múltiplas ao fim do século XIX. No limite deste trabalho, pode-se salientar que a estética neoclássica teve um peso singular na formação desses engenheiros, note-se o exemplo de André Rebouças.

16
Ver sobre projeto civilizatório do Império e a cidade: SANTOS, Afonso Carlos Marques dos. A cidade do Rio de Janeiro: de laboratório da civilização à cidade símbolo da nacionalidade. In: A visão do outro: seminário Brasil – Argentina. Brasília, FUNAG, 2000, p. 149 – 174. Sobre a dimensão institucional ver: GUIMARÃES, Manoel Luis Salgado. Nação e civilização nos trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico e o projeto de uma história nacional. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, nº 1, 1988.

sobre o autor

Maria de Fátima Duarte Tavares é arquiteta e doutora em historia social pelo PPGHIS / IFCS da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

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