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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
O fogo abriga, reúne e aquece a casa. É sempre fundamental o retorno às raízes para a compreensão de termos arquitetônicos que são contemporaneamente adotados e incorporados à prática arquitetônica sem os devidos contextos históricos.

english
The fire shelters, gathers and heats the house. It is always essential to return to the roots to understand architectural terms that are currently adopted and incorporated into architectural practice without the proper historical contexts.

español
El fuego abriga, reúne y calienta la casa. Siempre es esencial volver a las raíces para comprender los términos arquitectónicos que actualmente se adoptan e incorporan a la práctica arquitectónica sin los contextos históricos adecuados.

how to quote

LIMA, Daniela Batista. O fogo e a casa. Drops, São Paulo, ano 21, n. 157.08, Vitruvius, out. 2020 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/21.157/7938>.


O fogo na casa rural em Minas Gerais, 2011
Foto Daniela Batista Lima


O fogo é unidade de medida, forja equipamentos e mobiliários, manipula os alimentos. Como unidade fiscal, designa a família ou o domicílio, sendo aplicado desde os censos franceses no final da idade média até os censos brasileiros do século 19. Philippe Contamine assevera que chaminés e os condutos são utilizados nos censos: “Dez condutos ou casas, cada conduto ou casa guarnecida de três pessoas” (1). No Dicionário da Língua Portuguesa de Antônio de Moraes Silva, publicado em 1830, o fogo significa casa ou família: “povoar uma terra de fogo morto” corresponde “de todo, não havendo antes nem uma só casa, ou fogo nessa terra” (2). Assim aparecem nas listas nominativas de Minas Gerais do século 19 para cada “fogo” indica-se os nomes, idade, estado civil, ocupação e condição de seus ocupantes (3).

Na casa romana antiga, ao deus fogo pede-se por saúde, riqueza, felicidade e boa morte que devora com gosto as flores, os frutos, o incenso e o vinho ofertados (4). Mario D’Agostino (5) ensina que na Grécia antiga, o fogo, centro e símbolo da casa, ao abrigar as colunas do altar doméstico recebem o nome da lareira da deusa Héstia (6) e ganham uma cobertura que permite a dispersão da fumaça. Esses elementos, colunas e cobertura “guardiãs do fogo sagrado que une e conserva aceso todo lar, mantendo os laços familiares tão estáveis e firmes quanto os esteios da casa (7). A lareira é o elemento que alia o simbolismo do fogo primitivo e a experiência do conforto da casa, que aquece, cozinha e ilumina. No transcorrer do tempo, esse local do fogo se perpetua nas casas e recebe distintas designações hall, halle, sala, aula, ressonâncias das casas romanas.

Na casa experimental de Muuratsalo do finlandês Alvar Aalto, em Portugal, datada da década de 1950, o fogo está colocado no centro do pátio. Nas palavras de Aalto: “O conjunto é dominado pelo fogo que arde no centro do pátio, do ponto de vista prático e do conforto, tem o mesmo papel que a fogueira em um acampamento de inverno” (8). O arquiteto Yago Bonet Correa empenha-se à arquitetura da fumaça (9) na serra de Ancares, no Cebrero, região da Galícia e em Portugal. O arquiteto assevera que o espaço dedicado ao fogo, que tem em seu centro a lareira, sacraliza o espaço privado da família e se constitui como precedente tipológico da Rotonda de Palladio, na Itália e do Pazo del Marqués de Sargadelos, na Espanha (10). Também o arquiteto espanhol César Portela se dedica o “espaço da fumaça” na Casa Juan Pía, localizada em Montouto, Portugal, projeto da década de 1980. O autor revela que sua arquitetura está ligada “por laços secretos com a História e a Geografia procurando o encontro com a Cultura e a vida, além do tempo e do lugar onde é produzido” (11).

No Brasil, Lúcio Costa assevera que cada mestre, cada aprendiz – pedreiro, taipeiro, carpinteiro, alvanéu – traz consigo a lembrança da sua província e a experiência do seu ofício, tendo no fogo o elemento de conexão da casa do transmontano e do indígena que contam com a mesma maneira de manter por meio do fogo da cozinha e da defumadeira a casa aquecida, com a fumaça escapando pela telha vã ou por engenhoso dispositivo na cumeeira das ocas, sendo o “embrião da casa brasileira” (12). Na contemporaneidade, as casas de fazenda permanecem com suas áreas de fogo localizadas aos fundos da casa ou junto à edificação principal abrigada por telheiros. Basta uma viagem pelo interior das Minas Gerais para se constatar o fogo aceso em pleno exercício de apoio às atividades domésticas.

notas

1
CONTAMINE, Philippe. Os arranjos do espaço privado. In DUBY, Georges (Org.). História da vida privada: da Europa feudal à Renascença. Tradução Maria Lúcia Machado. São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p. 421-501.

2
SILVA, Antônio de Moraes. Diccionario da lingua portugueza recopilado de todos os impressos até o presente. 2 volumes. Lisboa, Typographia de M.P. de Lacerda, 1823 <https://bit.ly/3oK163G>.

3
Mapa dos habitantes do distrito de São Bartolomeu, Termo da cidade de Ouro Preto, 1831. Arquivo Público Mineiro.

4
COULANGES, Numa-Denys Fustel de. A cidade antiga. São Paulo, Editora das Américas S.A.,1961.

5
D’AGOSTINO, Mário Henrique Simão. A coluna e o vulto: reflexões sobre a casa e o habitar na história antiga e moderna. São Paulo, Annablume Clássica, 2016.

6
ἑστία (Hestia): lar, casa, morada, sepulcro, tumba. Cf. ISIDRO PEREIRA, S.J. Dicionário grego-português e português-grego. Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1969, p. 232.

7
D’AGOSTINO, Mário Henrique Simão. Op. cit., p. 26.

8
Tradução livre nossa do texto de Alvar Aalto: “el conjunto está dominado por el fuego que arde en el centro del patio y que desde el punto de vista práctico y del confort, tiene el mismo papel que la hoguera en un campamento invernal, donde el resplandor y los reflejos en los montones de nieve circundantes crean un placentero, casi místico sentimiento de calor”. Apud: ARMESTO, Antonio. La materia y la conciencia: la casa de Aalto en Muuratsalo. Revista DPA, n. 13, Barcelona, 2001, p. 28-35. <https://bit.ly/3nqjSv8>.

9
Arquitectura del humo.

10
CORREA, Yago Bonet. As casas de pedra de César Portela: seis variacións dunha idea. Obradoiro, n. 20. Coruna, fev. 1992, p. 32. Tradução livre nossa: “o espacio do fume, no seu centro a ‘Iareira’ sacraliza o espacio privado da família […] Esta casa, cuns precedentes tipolóxicos na Rotonda de Palladio e no noso país no pazo do Marqués de Sargadelos”.

11
Tradução livre nossa: “ligada por secretos lazos a la Historia y a la Geografía buscando el encuentro com la Cultura y com la vida, más allá del tempo y del lugar em que se produce.” Cf. Cesar Portela, arquitecto. Dossiê de la exposicion, 2004 <https://bit.ly/35tcOb0>.

12
COSTA, Lucio. Arquitetura. Rio de Janeiro, Jose Olympio, 2002, p. 40.

sobre a autora

Daniela Batista Lima é arquiteta urbanista, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

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