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my city ISSN 1982-9922

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MENEGUELLO, Cristina; FONTES, Paulo; SILVA, Leonardo. Patrimônio industrial e especulação imobiliária: o caso da Lapa, São Paulo. Minha Cidade, São Paulo, ano 09, n. 107.04, Vitruvius, jun. 2009 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/09.107/1847>.


Pátios ferroviários da Lapa, foto da década de 1950 [RFFSA/RJ]


Galpão Industrial à Rua Félix Guilhem - Rua Félix Guilhem, 900, 926, 932, com Rua Engenheiro Fox, 453, Lapa de Baixo
Foto Paulo Cauhy

Galpão industrial da Metalúrgica Martins Ferreira, Rua William Speers, junto à Estação de trem da Lapa
Foto Paulo Cauhy

Galpão industrial da Metalúrgica Martins Ferreira, Rua William Speers, junto à Estação de trem da Lapa
Foto Paulo Cauhy

Prédio administrativo da Cia Melhoramentos, Vila Romana
Foto Siney Scarazzati de Oliveira, out. 2007

Fachada de fábrica na Vila Romana, com relógio retirado inexplicavelmente
Foto Siney Scarazzati de Oliveira, out. 2007

Pátios ferroviários da Lapa, foto da década de 1950
RFFSA/RJ

 

Recebemos com decepção e pesar a notícia de que o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp) terminou por excluir do processo de tombamento da Lapa, região oeste da capital, 23 imóveis antes listados para preservação. Tratam-se de oito conjuntos de casas e sete conjuntos de galpões industriais, que haviam sido incluídos em pauta por indicação popular em audiências públicas nas 31 subprefeituras, durante a elaboração dos Planos.

Regionais Estratégicos, em 2004, como Zona Especial de Preservação Cultural (Zepecs), e boa parte deles localiza-se na assim conhecida como "Lapa de baixo", nos arredores da linha férrea usada pela empresa de cargas MRS e pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

A decisão do Conselho não apenas ignora a reivindicação popular como o faz em benefício de uma operação urbana que pontilhará de edifícios residenciais as proximidades da linha férrea da Lapa. Mais além, o faz em nome de uma suposta ausência de valor histórico ou arquitetônico, ou do estado avançado de deterioração de alguns bens.

Para nós, a decisão do Conselho revela que a Lapa histórica dos trens e dos operários é uma memória que não se quer guardar. O tombamento, conservador, aposta na unanimidade e beneficia outros bens (também importantes) como igrejas, colégios e o Mercado da Lapa, mas ignora claramente aquilo que caracteriza e define o bairro em si.

Entre os imóveis excluídos estão reivindicações antigas de moradores do bairro, como a vidraria Santa Marina - atual Saint Gobain Vidros -, fundada em 1896 na Avenida Santa Marina, e o galpão industrial da Fábrica de Tecidos e Bordados da Lapa, na Rua Engenheiro Fox.

Numa tentativa de minorar os impactos da equivocada decisão tomada, o Conpresp mantém em estudo onze imóveis no eixo entre a ferrovia e o Rio Tietê. Urgimos o Conpresp a realizar o tombamento destes imóveis em estudo, que representam a parte baixa da Lapa, bem como a rever a sua decisão anterior de diminuição da lista original.

Acreditamos que esse Conselho está ciente de que o patrimônio não é um dado estático, muito menos uma convenção aprendida em manuais de estilo nas universidades. Argumentar, como fez recentemente o DPH, que o patrimônio industrial é desprovido de “valor arquitetônico”, ao mesmo tempo em que envergonha nossos bons arquitetos e urbanistas que compreendem a natureza dos processos de registro e permanência da memória, implica desconhecer em profundidade os processos produtivos e os valores estéticos da produção industrial – em escala, planejada e dentro de um saber comum de especialistas não necessariamente renomados. Em suma, implica desconhecer o que seja valor arquitetônico. Qual será a opinião arquitetônica destes mesmos especialistas sobre os monstros neoclássicos (sic) que a especulação imobiliária semeia nessas áreas? Ademais, felizmente aqueles que nos antecederam na história não se serviam de argumentos tão simples como o do “estado de ruína” para condenar os edifícios, caso contrário, provavelmente, as cidades de Roma e Berlim, para ficarmos apenas em dois exemplos óbvios, teriam sido há muito consideradas “irrecuperáveis”.

A cada época seu patrimônio, a cada tempo a sua arte. A Lapa histórica possui importância arquitetônica, urbanística e registra uma memória do trabalho que, uma vez apagada, não poderá ser recriada. Os grupos organizados e a população de São Paulo não serão convencidos de que não se deva preservar tais locais de profunda importância histórica, cultural e ambiental (as palavras que compõem o título do Conpresp), seja pelo passado industrial, seja como marcos de referência afetiva das comunidades locais.

Conhecemos a força da especulação imobiliária, e o caráter atraente que os leitos ferroviários e galpões têm para essa forma de construir a cidade. Conhecemos também a tática de esperar que os locais de importância histórica se deteriorem para depois taxá-los de irrecuperáveis. Confiamos que o Conpresp compreenderá a quem de fato representa.

sobre os autores

Cristina Meneguello é doutora em história e docente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Paulo Roberto Ribeiro Fontes é doutor em história e docente da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro.

Leonardo Gomes Mello e Silva é doutor em sociologia e docente da FFLCH, Universidade de São Paulo (USP)

Os três autores são membros fundadores do Comitê Brasileiro de Preservação do Patrimônio Industrial – TICCIH-Brasil

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