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my city ISSN 1982-9922

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PORTELLA, Adriana Araújo. Oktha Centre Tower X Preservação: A Proposta de Construção de uma Torre de 396 metros de altura na Cidade Histórica de S. Minha Cidade, São Paulo, ano 09, n. 107.02, Vitruvius, jun. 2009 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/09.107/1849>.


Figura 1: Vista de um dos canais de São Petersburgo mostrando A Catedral da Ressurreição de Cristo construída entre 1883 e 1907 pelo arquiteto Alfred Parland [Wikipédia; autor, Alyoshin]


Figura 4: Maquete da Okhta Centre Tower [Wikipédia; autor, Evgeny Gerashchenko]

“Okhta Centre”. O projeto abrange 77 hectares e incluí prédios de escritórios, um museu, área esportiva, parques, áreas verdes, e um prédio com 396 metros de altura [Wikipédia; autor, Evgeny Gerashchenko]

Figura 2: Vista de um dos canais de São Petersburgo [Freecopyrights, Conor and Kellee Brennan]

 

A cidade de São Petersburgo, fundada pelo Czar Pedro, o Grande, em Maio de 1703, foi a capital do Império Russo por mais de 200 anos (1712- 1918). O centro histórico da cidade, datado do Século 18, sobreviveu ao período da industrialização, às Guerras Mundiais, e ao comunismo. Hoje, é considerado um dos mais preservados do mundo, razão pela qual em 1990 foi incluído na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. A cidade abriga, dentre outros tesouros arquitetônicos, o Museu Hermitage, o Palácio de Menshikov, e a Coluna de Alexandre. É construída sobre mais de 100 ilhas, possuindo atualmente 342 pontes em diferentes estilos arquitetônicos e períodos. Devido aos canais que caracterizam a cidade, São Petersburgo é conhecida como a “Veneza do Norte” (Figuras 1 e 2). Atualmente, a cidade tem uma população de 4.6 milhões de habitantes e é a quarta maior cidade na Europa, só ficando atrás de Moscou, Londres e Paris.

Em Dezembro de 2006, a Gazprom, empresa russa de energia, e as autoridades locais de São Petersburgo, anunciaram um projeto de construção da nova sede da estatal, batizada de “Okhta Centre”. O projeto abrange 77 hectares e incluí prédios de escritórios, um museu, área esportiva, parques, áreas verdes, e uma polêmica torre de vidro com 396 metros de altura – “Okhta Centre Tower” –, que serão construídos em uma área industrial desativada no Vale de Okhta nas margens do Rio Neva (Figuras 3 e 4). À época, o diretor do museu Hermitage, Mikhail Piotrovsky, assim como a União dos Arquitetos de São Petersburgo, manifestaram-se contráriamente à construção da torre devido a sua altura excessiva. No caso, importa observar que, com o objetivo de manter os prédios históricos como os pontos de destaque da silhueta de São Petersburgo, a legislação local admite a altura de 48 metros como a máxima permitida para novos prédios.

Também, quando da aprovação do projeto, três arquitetos de renome internacional (Norman Foster, Rafael Vinoly e Kisho Kurokawa) que faziam parte do júri que tinha incumbência avaliar a proposta apresentada, decidiram deixar o comitê de seleção, pois não concordavam com a altura proposta para a torre principal. Acredita-se que eles estavam sendo pressionados para aprovar a proposta apresentada pela firma britânica RMJM. Em Abril de 2007, o jornal russo “Kommersant” publicou o resultado de uma pesquisa de opinião que indicou que 40.4% dos entrevistados eram contra a construção da torre, enquanto apenas 18.5% eram a favor. Os respondentes não foram contrários a revitalização da área do Vale de Ohkta; eles apenas se opuseram a idéia de modificar a paisagem da cidade marcada por prédios de altura mediana.

Por fim, a própria UNESCO se manifestou sobre o caso: o diretor do Centro de Patrimônios Mundiais, Francesco Barandin¹, afirmou que “a Oktha Centre Tower é uma intrusão visual a paisagem de São Petersburgo. É uma interferência a paisagem história da cidade que é marcada por sua horizontalidade em termos de altura dos prédios”.  Em Agosto de 2007 a UNESCO deu um prazo as autoridades de São Petersburgo, de até Fevereiro de 2008, para apresentar uma análise detalhada sobre os impactos do “Okhta Centre Tower” na malha urbana existente. Até Agosto de 2008 não havia sido publicado nenhum progresso a este respeito no site da Glazprom (http://www.gazprom-neft.com/okhta-center/news/).

A estatal de energia Gazprom e a empresa responsável pelo projeto, “RMJM”, em face das críticas apresentadas à sua proposta, defenderam-se afirmando que a torre será a contribuição do Século 21 à paisagem da cidade; que a área onde o prédio será construído está fora do centro histórico protegido pela UNESCO; e que a torre não será vista por quem estiver no centro histórico. Entretanto, do outro lado da margem do rio Neva, em frente ao local onde será construída a torre, está localizada a Catedral de Smolny, projetada pelo arquiteto Bartolomeo Rastrelli, datada de 1748, em estilo Rococó. Esta catedral é caracterizada pelas curvas e pela profusão de elementos decorativos como conchas, laços, flôres e folhagens, em uma elegância requintada. Nesse contexto, cabe observar que, mesmo construída fora do centro histórico, um prédio de quase 400 metros de altura, com certeza, afetará a silhueta dos prédios históricos de São Petersburgo. De acordo com Mikhail Amosov, líder do grupo local de oposição à construção da torre e antigo coordenador do comitê de arquitetura e planejamento urbano da cidade, a altura da torre deveria ser reduzida para pelo menos 100 metros para não prejudicar o centro histórico.

As simulações computacionais feitas pela firma responsável pelo projeto, publicadas no panfleto de divulgação denominado “O Impossível é Possível” ², não estão convencendo a população local e tão pouco a UNESCO. Analisando essas simulações, as quais podem ser encontradas na pag. 39 do panfleto, o impacto não parece ser tão desastroso como o descrito pela mídia (tais como pelo jornal local “The St. Petersburg Times”). Entretanto, como arquiteta e planejadora urbana sei que simulações computacionais podem distorcer a realidade de propostas arquitetônicas, a fim de conseguir o apoio da comunidade local. O vídeo da simulação da torre disponível no site da Gazprom³ é interessante mas ao mesmo tempo questionável já que apresenta o Okhta Centre Tower como um objeto de um filme de ficção científica sem nenhuma conectividade com a parte histórica da cidade.

Ressalta-se que em matéria de inserção de novos prédios em altura em cidades históricas, existem exemplos positivos, como é o caso de Londres, onde a arquitetura antiga e contemporânea convivem de modo harmônico. A Catedral de São Paulo (que em 2008 completa 300 anos desde sua conclusão) foi a construção mais alta de Londres por muitos séculos, mas atualmente a paisagem londrina é marcada por diversos prédios em altura tais como o “Gherkin” (180 metros de altura), projetado por Norman Foster e localizado na rua St. Mary Axe. Desse modo, discordo com o afirmado pelo diretor do museu Hermitage em Dezembro de 2007, Mikhail Piotrovsky¹, de que “o centro histórico de Londres está completamente destruído, que as áreas ao redor da Catedral de São Paulo são o retrato de uma tragédia, e que Londres é o pior exemplo possível para São Petersburgo”. Do meu ponto de vista, Londres é o reflexo da evolução urbana e do positivo processo de preservação histórica de uma cidade. Assim, oportuno referir que as cidades devem ser tratadas como organismos dinâmicos e não como museus a céu aberto. As áreas históricas devem ser preservadas e a arquitetura contemporânea deve ser integrada à malha urbana existente de modo a respeitar as características históricas e, ao mesmo tempo, contribuir para a paisagem da cidade do século que vivemos.

Nesse sentido, considero positiva a proposta de revitalizar a área industrial do Vale de Ohkta em São Petersburgo através da inserção de um novo distrito econômico com prédios contemporâneos para as atividades de negócios (escritórios), cultura (museus) e lazer (áreas verdes). Também, acredito que a criação de um prédio contemporâneo baseado no design proposto (uma torre envidraçada projetada em espiral, o que possibilita que de acordo com a posição solar a cor do prédio mude devido ao reflexo da luz) é positiva a medida que integrasse a paisagem de São Petersburgo como um ponto focal representado pelo arquitetura contemporânea. Caso essa cidade fosse de pequeno porte, eu não avaliaria essa inclusão da mesma forma. Entretanto, São Petersburgo esta dentre as maiores cidades da Rússia e da Europa e sempre se destacou historicamente por sua importância governamental, econômica e cultural.

Por outro lado, me oponho a altura de 396 metros proposta para a nova sede da Gazprom. A criação de um prédio dessa altura afetará outras partes da cidade, notadamente, a que comporta o centro histórico. Reconhece-se que a construção de grandes arranha-céus trata-se de uma tendência em grandes capitais do mundo, como é o caso e Kuala Lampur, Hong Kong, dentre outras. No entanto, cada construção deve ser concebida de acordo com o contexto em que será inserida. Neste sentido, a altura de 396 metros proposta para a nova sede da estatal Gazprom parece estar mais vinculada a fatores simbólicos, como a representação do poder (variável já conhecida no meio arquitetônico) de uma empresa, gigante da energia, com mais de 500.000 mil funcionários, do que com a sua inserção e harmonia com a paisagem da cidade. A Gazprom quer que sua nova sede torne-se o maior símbolo contemporâneo da cidade de São Petersburgo, onde reside o atual presidente da Rússia, um dos diretores da estatal e o possível novo presidente da Rússia - Dmitry Medvedev, e o coordenador do Departamento de Manejamento da estatal - Alexei Miller.

Entretanto, apesar de toda a polêmica e das milhares de vozes contrárias à construção da torre de 396 metros de altura, o projeto foi aprovado pelas autoridades locais, com previsão de conclusão das obras em 2012. Assim, faz-se necessário a realização, nos moldes estabelecidos pela UNESCO, de uma detalhada análise acerca do impacto da construção da torre no centro histórico da cidade, sob pena de perda da harmonia e descaracterização de um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos do Mundo, Patrimônio Cultural da Humanidade.

As preocupações apontadas pela UNESCO em relação a altura da torre não podem ser ignoradas pela firma de arquitetura RMJM e pelo governo russo. Todos os países que assinam a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural e que possuem bens na Lista do Patrimônio Mundial comprometem-se em conservar os bens do Patrimônio Mundial localizados em seu território e proteger o seu próprio patrimônio nacional. Na sociedade do Século 21, o valor da arquitetura contemporânea como uma inclusão harmoniosa em cidades históricas não pode ser substituído por interesses diversos, tais como o da criação de símbolos de poder e ostentação. Uma detalhada re-análise da altura da torre da Gazprom, considerando o seu impacto no centro histórico da cidade é a resposta que os arquitetos, os planejadores urbanos e a sociedade como um todo espera da Gazprom e das autoridades russas antes de qualquer início das obras. Os bens que fazem parte da Lista do Patrimônio Mundial são de interesse mundial, e não apenas do país em que se localizam.

Colaboração

Este artigo contou com a colaboração de Roberto Padilha Guimarães, Auditor do Trabalho e ex-professor de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

sites consultados

www.independent.co.uk/news/europe/revolt-in-russia-765484.html
www.gazprom-neft.com/buklet-okhta-eng.pdf
www.gazprom-neft.com/okhta-center/

sobre o autor

Professora Adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas, Brasil (2008). Pós-Doutora em Urbanismo pela Bartlett School of Planning, University College London (UCL), Inglaterra (2007-2008). Doutora em Desenho Urbano pela Oxford Brookes University, Inglaterra (2003-2007). Mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil (2001-2003). Arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal de Pelotas, Brasil (1996-2000)

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