A leitura sempre me fez companhia, e continua me acompanhando durante este período de quarentena. Isolado socialmente em casa, impedido de me relacionar com a cidade – algo frustrante para um arquiteto e urbanista – a leitura, sem dúvidas, tem colaborado numa aproximação com outras experiências vividas na cidade.
Dentre as minhas leituras recentes, está uma coletânea de prosas poéticas da escritora Virginia Woolf, intitulada como O sol e o peixe, selecionada e traduzida por Tomaz Tadeu. Refiro-me a uma prosa específica: Flanando por Londres. Nesta prosa, Woolf enaltece uma circunstancial caminhada por Londres num final de tarde no inverno (1). Diante do flanar de Woolf, recordei-me de outra das minhas leituras (ou talvez de outra caminhada circunstancial): Caminhadas pela cidade, de Michel de Certeau. Certeau faz uma analogia sobre o caminhar pela cidade à enunciação.
“O ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação (o speech act) está para a língua ou para os enunciados proferido. Vendo as coisas no nível mais elementar, ele tem com efeito uma tríplice função ‘enunciativa’: é um processo de apropriação do sistema topográfico pelo pedestre (assim como o locutor se apropria e assume a língua); é uma realização espacial do lugar (assim como o ato de palavra é uma realização sonora da língua); enfim, implica relações entre posições diferenciadas, ou seja, ‘contratos’ pragmáticos sob a forma de movimentos (assim como a enunciação verbal é ‘alocução’, ‘coloca o outro em face’ do locutor e põe em jogo contratos entre colocutores). O ato de caminhar parece portanto encontrar uma primeira definição como espaço de enunciação” (2).
Sendo, então, a caminhada no espaço urbano uma enunciação, resolvo, por isso, flanar por Santa Bárbara d’Oeste SP, a partir de uma prosa, enunciando.
Coloco os pés na calçada e me defronto com os vizinhos – os mesmos desde que me entendo por gente. Cumprimento-os e sou retribuído. Subo a rua de casa e, na primeira esquina, a vitrine com bolos confeitados se tornam o foco da minha atenção. Continuo. Na próxima esquina, uma casa que desde criança chamou minha atenção: as fachadas revestidas em mármore remetem a um luxo de outrora, que nunca consegui ver, pois desde que a conheci, o mármore se encontra carcomido. Atravesso a rua, ando, e estou em frente à loja que fora o meu paraíso quando criança. Quantos presentes de aniversário e Natal não foram comprados ali!? Sem contar as inúmeras lembranças com as quais presenteamos os amigos. Prossigo. À esquerda, um feioso caixote quadrado me causa lamentação: sua construção não poupou uma agradável residência que se erguia no alinhamento da calçada, com janelas em venezianas em madeira. Numa cidade bicentenária, são poucos os testemunhos da sua trajetória. Caminho, agora, por entre um colorido corredor formado por flores cuidadosamente expostas na calçada em frente à floricultura. Dobro à direita. Cumprimento uma amiga da família. À esquerda, adentro à charmosa galeria que corta o quarteirão. Não posso passar por ela sem saber como vão os amigos da joalheria. Desço as escadas e saio pela outra rua.
À distância, observo: onde hoje é um estacionamento, vem à lembrança uma residência com um pequeno alpendre, em que ficava disposto um jogo de cadeiras de ferro com os assentos revestidos num couro sintético vermelho. Gostava de enxergar, através da porta entreaberta, o piano na sala. Viro-me e caminho até a praça. A pipoqueira está presente, como em todos os dias do ano. Os taxistas, no aguardo de uma corrida, lustram seus automóveis. Moços e moças, senhores e senhoras, cruzam o espaço, entram e saem das lojas com as suas sacolas. As crianças se divertem no palco. Passo pelo busto da fundadora. Resolvo sentar no balcão do café mais popular da cidade. Tomo um expresso. É hora de voltar.
Ainda na praça, deparo-me com o ipê-amarelo. Sei que em poucos dias, transformar-se-á num tapete amarelo. Desço pela rua do meio. Um apelido da rua que, originalmente, cortava a praça ao meio. Deslumbro-me – como arquiteto – com as empenas em concreto armado da agência bancária. Descendo, progressivamente, os comércios cessam e as residências se tornam maioria. Uma, em especial, chama atenção: a decoração da sua fachada, já consumida pelas intempéries, em que se destacam os vidros verdes das bandeiras das janelas, parece um trabalho de uma fina tapeçaria. É final da tarde e posso escutar os assovios das panelas de pressão. Seria sopa? Feijão? Independentemente, o aroma é convidativo. Mas como não conheço o cozinheiro, fico somente na vontade.
Para chegar em casa, viro à direita. Um barulho incômodo de automóveis e motocicletas. Motoristas e motociclistas ansiosos para chegar aos seus destinos. Pelo horário, os destinos devem ser as suas casas. Dobro à esquerda. Entro pelo portão. Converso com o porteiro, está tudo bem com ele. Recolho-me no meu lar. Virgínia Woolf encerraria aqui.
“É verdade: fugir é o maior dos prazeres; flanar pelas ruas no inverno, a maior das aventuras. Ainda assim, enquanto nos aproximamos, de novo, dos degraus de nossa própria casa, é confortador nos sentirmos envolvidos pelas velhas posses, pelos velhos preconceitos; e sentirmos o eu – que foi jogado de um lado para o outro em tantas esquinas, que foi golpeado como uma mariposa na chama de tantas e inacessíveis luzes – abrigado e protegido” (3).
Mas eu, urbano que sou, tenho a cidade como extensão da minha casa. Ou seja, meu abrigo não se encerra na minha casa. Meu abrigo é a minha cidade. E ao longo da vida, cultivei um abrigo para o meu olhar sobre a minha cidade. Talvez por fazer parte da minha trajetória sociocultural, talvez pela localização geográfica privilegiada – uma elevação entre vales –, mas fato é que a torre da Igreja Matriz sempre foi abrigo do meu olhar durante o flanar pela cidade. Parafraseando Woolf, talvez a torre seja uma das minhas velhas posses na minha cidade. Onde quer que eu esteja na cidade, meus olhos procuram no horizonte aquele marco vertical em direção ao céu. E quando eu o encontro, estou seguro. Estou abrigado, protegido, na minha cidade.
Certeu tem razão. Termino a minha enunciação com o sentimento de que caminhei pela cidade. Pela minha cidade. Woolf também tem razão sobre o prazer que é flanar pela cidade. E está certa sobre a sensação de nos sentirmos envolvidos pelas nossas velhas posses, onde nos abrigamos e nos protegemos. Sorte tenho eu em, da minha sacada, conseguir visualizar a torre da Igreja Matriz. E, assim, isolado socialmente durante a quarentena, posso eu, abrigado, protegido, estar em contato permanente com a minha velha posse na escala urbana, permitindo-me flanar – ainda que fazendo uso de enunciações – pela minha cidade, por Santa Bárbara d’Oeste.
notas
1
WOOLF, Virginia. Flanando por Londres. In O sol e o peixe: prosas poéticas. 1ª edição. Belo Horizonte, Autêntica, 2017, p. 43-60.
2
CERTEAU, Michel de. Caminhadas pela cidade. In A invenção do cotidiano. 3ª edição. Petrópolis, Vozes, 1998, p. 177.
3
WOOLF, Virginia. Flanando por Londres (op. cit.), p. 60.
sobre o autor
André Frota Contreras Faraco é arquiteto e urbanista graduado pela Unimep e aluno do PPGAU IAU USP. No mestrado, investiga qual é o papel da educação patrimonial como abordagem nos processos educativos em Santa Bárbara d’Oeste e qual é a sua contribuição social. Arquiteto e Urbanista.