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architexts ISSN 1809-6298


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A notícia sobre o primeiro ser humano monitorado por satélite em tempo integral, como já se faz com veículos e cargas, motiva reflexões sobre o destino da humanidade


how to quote

GONÇALVES, Adilson Luiz. Admirável mundo novo (editorial). Arquitextos, São Paulo, ano 03, n. 034.00, Vitruvius, mar. 2003 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.034/697>.

A notícia sobre o primeiro ser humano monitorado por satélite em tempo integral, como já se faz com veículos e cargas, motiva reflexões.

A informática e as tecnologias de materiais e telecomunicações evoluíram a tal ponto que permitem a implantação de dispositivos artificiais em organismos vivos com mínimo risco de rejeição ou contaminação por radiações provenientes de fontes energéticas, substituindo e, até, aprimorando funções naturais.

Isto nos permite considerar como bastante viáveis as abstrações dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos. Aliás, o termo ficção científica está perdendo, cada vez mais, seu sentido, pois os prazos para realização de nossas abstrações estão sendo reduzidos em escala exponencial.

Imaginem que um processador similar fosse implantado num ser humano com algumas funções interativas com o organismo, tais como: monitorar as funções orgânicas, avisando quando alguma anomalia ocorresse ou corrigindo-a automaticamente mediante estímulo de glândulas, do sistema imunológico ou nervoso, ou pela injeção controlada de substâncias químicas também armazenadas no corpo humano; programar sonhos ou estímulos prazerosos; controlar, regredir ou eliminar os efeitos de moléstias degenerativas, como o Mal de Alzheimer, o Mal de Parkinson, esclerose, ou, quem sabe, distúrbios psiquiátricos e comportamentais, e o próprio processo de envelhecimento; estimular o cérebro, aumentando nossa capacidade cognitiva e nossas habilidades artísticas, científicas e esportivas; adaptar nosso organismo ao meio ambiente, permitindo nossa sobrevivência em ambientes inóspitos ou situações de risco; evitar seqüestros ou localizar cativeiros por rastreamento; punir ou, de preferência, evitar a prática de crimes de qualquer espécie, corrupção, taras sexuais mediante a operação de um simples e microscópico "chip" comportamental.

Poderíamos ser quase eternos, sempre sadios, sempre felizes e sem dor! A seleção natural de Darwin seria considerada artigo de museu! As discriminações de todos os tipos desapareceriam, pois todos seriam perfeitos e auto-suficientes! Que mundo maravilhoso... e artificialmente manipulável!

O ser humano seria transformado num ente híbrido... num terminal de uma rede informatizada!

Imaginem, agora, que em vez de atividades autônomas esse sistema permitisse a interferência de terceiros em nossas funções vitais, motoras ou comportamentais, e que indivíduos inescrupulosos tivessem as "cordas" para nos dirigir ou condicionar segundo seus interesses, assumindo uma condição quase divina. E se os microprocessadores tivessem qualidades variadas, custos abusivos, cópias adulteradas, materiais de qualidade inferior, sistema de abastecimento de energia com isolamento inadequado? E se eles fossem usados para induzir ao crime, transformando cidadãos "comuns" em assassinos frios com amnésia posterior induzida? E se fossem usados para controle de natalidade, inibindo ou adulterando funções reprodutivas? E se fosse criada a figura do “doping intelectual”, gerando indivíduos dotados de inteligência, efetivamente, artificial, independentemente de sua capacidade real? E se permitissem o controle demográfico em larga escala? E se fossem usados para criar exércitos invencíveis e insensíveis, ou transformar os seres humanos em escravos controlados pela dor ou pelo risco de "desligamento"? E se alguns desses "escolhidos", que estariam livres desse monitoramento e controlando o sistema, decidissem quem deve viver ou morrer segundo sua lógica ou moral?

A principal característica do ser humano: o livre-arbítrio, seria neutralizada transformando o "homo sapiens" numa máquina orgânica sujeita ao mesmo processo de controle de qualidade, de obsolescência, de longevidade (ou será que também poderemos fazer "up grade?”). O individualismo seria substituído por uma "consciência coletiva", padronizada, asséptica e reprogramável; nossas idéias geniais seriam apropriadas pelos "controladores"; seríamos reféns de nossos pensamentos, que deixariam de ser íntimos; nossos destinos seriam determinados à revelia; seríamos reduzidos, definitivamente, à condição de gado... de massa de manobra!

E quem estipularia esses "valores"? Os poderosos? E eles se sujeitariam ao mesmo sistema?

Seguramente, não!

Uma ferramenta tão poderosa poderia diminuir a discriminação entre indivíduos, mas, mal empregada, também poderia aumentar o abismo social em que nos encontramos, regredindo a abomináveis sistemas de castas ou justificando a adoção, pelos “controladores”, de medidas de seleção artificial baseadas em fatores de mercado.

Os cientistas não cessam de descobrir maravilhas, como instrumentos da evolução humana que são. Mas seus financiadores nem sempre estão imbuídos dos mesmos nobres ideais, ou interessados na evolução da Humanidade. Preferem, sim, obter e assegurar seu controle. Alguns, seguramente, devem considerar a Humanidade como um grande laboratório para suas experiências de poder, e os seres humanos como suas cobaias.

Por esses motivos, a discussão ética tem que estar sempre presente questionando a evolução científica, embora saibamos que a reprovação generalizada não implique em eliminação de riscos ou supressão de pesquisas consideradas preocupantes. Aliás, só temos conhecimento das pesquisas polêmicas que os financiadores permitem a divulgação. Nossa imaginação, mesmo para os mais abstratos e radicais, sequer conseguiria entender os estudos que os poderosos mantêm sob sigilo absoluto!

A discussão sobre a implantação de "chips" de identificação em seres humanos deve ser, portanto, muito mais profunda. A miniaturização, a cada vez maior capacidade de armazenar informações nesses dispositivos, e o desconhecimento patológico que a maioria da população têm de seu potencial e operação, tornam inevitável o temor de que não se trata de uma simples mudança burocrática no processo de identificação e localização de pessoas, como seus defensores querem fazer crer, mas de uma dramática revolução nos parâmetros de liberdade e relacionamento humanos.

Trata-se de considerável risco de submissão da massa a um processo que, travestido de modernidade, pode estar visando, na verdade, a segurança e perpetuação das classes dominantes atuais, suprimindo a possibilidade de evolução natural das relações sociais, como ocorre desde o início da civilização.

Muitos, seguramente, já viram esses filmes e leram esses livros. Devem, portanto, estar considerando a potencialidade de consumação desses fatos.

Não se trata de uma visão apocalíptica, ideológica ou paranóica – exagerando riscos ou buscando desígnios ocultos –, mas de uma questão filosófica baseada, simplesmente, em aspectos na natureza humana.

As inovações científicas são bem-vindas e necessárias, mas exemplos históricos similares já provocaram mais danos irreversíveis que benefícios efetivos.

É inadmissível, portanto, que seja estabelecida ou, sequer, cogitada, como obrigatória, a implantação de dispositivos de identificação artificiais, por métodos invasivos ou de remoção complexa, em seres humanos. Também não poderá ser gerado qualquer tipo de discriminação ou constrangimento aos que se negarem a utiliza-los. Afinal, não deve haver outra condição para ser reconhecido como ser humano que a de ser, pensar e, portanto, existir!

sobre o autor

Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro civil da Secretaria de Obras e Serviços Públicos da Prefeitura Municipal de Santos – SP, pós-graduado em Construções e Obras Públicas, pelo ISBA – “Institut Supérieur du Béton Armé”, de Marselha, França; e Avaliações e Perícias em Engenharia, pelo IBAPE – SP, professor-assistente na Faculdade de Engenharia da UNISANTOS e professor titular da Faculdade de Arquitetura da UNISANTA

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