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architexts ISSN 1809-6298


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Arquiteto e crítico apresenta o projeto do escritório projeto de ARX Portugal para a cidade de Ílhavo


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FIGUEIRA, Jorge. Uma arquitetura intacta. Museu Marítimo de Ílhavo, projeto de ARX Portugal. Arquitextos, São Paulo, ano 05, n. 051.03, Vitruvius, set. 2004 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.051/555>.

1

Talvez, em última análise, não interesse exatamente o quê (ou a razão), mas como e em que condições, e com que alegria. Este pode ser o mote pragmático de alguns ateliês de arquitetura, como os ARX Portugal, que praticam aquilo que poderíamos chamar um novo otimismo ibérico.

Mansilla e Tuñón convocam John Cage, mais interessado nos movimentos geométricos das peças de xadrez do que em ganhar (ou perder) a Marcel Duchamp. Os movimentos das peças substituiriam a necessidade de um objetivo final, permitindo uma pragmática condição de felicidade: enquanto jogarmos, seremos felizes.

Nesse sentido, a arquitetura seria um tabuleiro de realizações e ao arquiteto caberia compreender todas as "peças" e procurar os melhores movimentos, a "melhor" solução sempre provisória.

O que nos envia para um pragmatismo rortyano; não aquele tecnocrático que decide em favor de alguns elementos, mas um outro que evidencia o reconhecimento de possibilidades, que alberga a diversidade, que escolhe tentativamente.

Esta deriva pragmática, se é permitida a antítese, toma o rosto humano do otimismo, inspira-se no esplendor das idéias e realizações civilizacionais. E reconhece-se na História; escavando; relendo; acrescentando.

Os ARX Portugal inscrevem-se neste plano. A sua abordagem é persuasiva e cativante e não aparenta ressentimentos (modernos, ideológicos ou temperamentais). Partindo muitas vezes de pretextos "conceituais", a sua aposta reside claramente na construção do edifício. Remetendo muitas vezes para uma visão "experimental", mantêm em perspectiva o país onde trabalham. Querem construir com o cliente; dentro dos prazos previstos; dentro do orçamento. Dão como adquiridas questões centrais da arquitetura do século XX: o edifício tem que "funcionar"; tem que ser "bem construído"; tem que corresponder a uma avaliação singular do "programa" em determinado "sítio".

Estes adquiridos permitem concentrar o projeto no movimento das "peças" sobre os diferentes "tabuleiros", o que dá à arquitetura dos ARX um caráter experimental mas nunca totalmente afastado do "senso comum". Dir-se-ia que opera dentro de um espaço progressivo que resulta da conquista de muitas batalhas – e da perca de muitas ilusões – anteriores.

É por isso que apesar do tempo – e da História – esta é uma arquitetura que redescobre uma intencionalidade intacta; que deixa antever um otimismo inato; que sugere a possibilidade de "começar de novo".

É também uma arquitetura intacta no sentido de que não se assistem a clivagens entre a "prática" e a "teoria"; entre a maquete e o pormenor construtivo; entre o diagrama e a obra.

Todas as partes do processo – incluindo necessariamente a "mediatização" do projeto – conduzem à eficácia final do edifício.

2

A entrada em cena dos ARX Portugal, no início dos anos 90, é um dos mais significativos acontecimentos do panorama recente da arquitetura portuguesa. Nuno Mateus e José Mateus introduziram na prática profissional alguns dos pressupostos mais relevantes da cultura arquitetônica dos últimos anos. Este aggiornamento deve-se à passagem de Nuno Mateus pelos ateliês de Peter Eisenman e Daniel Libeskind, mas o que importa sublinhar é o modo operativo como essas experiências vão ser recriadas. Pegando no exemplo de Eisenman, um dos autores mais intensamente polêmicos e criativos das últimas décadas, podemos dizer que os ARX saberão testar algumas das suas idéias mais eminentemente projetuais. O conceito de "between", por exemplo: a idéia de uma arquitetura de "deslocamento", que expressa transitoriedade e atopia quando tradicionalmente tem como função fixar um topos.

Este é um dos pressupostos de Eisenman que explicitamente os ARX vão experimentar. E, embora já tenham percorrido muitas etapas, está ainda presente no Museu enquanto motivação e matriz projetual: uma lógica seqüencial na construção da forma que pretende "deslocar", mais do que instituir fixamente.

Partindo da modulação estrutural do edifício preexistente – que permanece como "pegada", sinal ou rastro – desenvolve-se um conjunto de adições volumétricas que permitem localizar o Museu. Mas não é a adição destes novos volumes, nem a permanência da estrutura do antigo pavilhão, que o define. O que define o Museu é o movimento seqüencial, que será depois a própria razão e tema do percurso museográfico.

No entanto, aquilo que gostaria de sublinhar é a comovente convergência entre estes temas, que são a principal referência instrumental dos ARX, com um mais sereno, tangível e material entendimento da arquitetura, que podemos localizar nas próprias raízes da tradição moderna portuguesa.

Ou seja, no Museu Marítimo de Ílhavo, a exploração de seqüencialidades, de corpos fragmentados, diagramáticos, converge numa espécie de gravidade local: o som seco dos volumes, a textura do reboco e da ardósia, e as suaves alusões náuticas permitem-nos ouvir o vento na planície.

3

O Museu Marítimo de Ílhavo resulta da prática de projeto, a que fiz referência – que tende a "descentrar" as formas e a acentuar as "falhas" – e da consideração de uma "firmitas" mais prosaica, mais convencional. Dir-se-ia que as ressonâncias conceptuais eisenmanianas se cruzam com o silêncio e o intimismo da experiência moderna portuguesa. A singularidade do Museu decorre dessa convergência: a reverberação de uma metodologia de projeto no sentido de um apuramento construtivo que confere aos materiais e aos jogos de luz uma expressão quase mediterrânica (a luz a que Le Corbusier aspirava…).

A manutenção da estrutura preexistente simultaneamente fixa o edifício à sua raiz e permite o deslocamento seqüencial. Apesar de obedecer a razões de ordem prática, envia-nos para uma espécie de apelo realista, sugere uma fixação do novo edifício à banalidade anterior, não o deixa escapar totalmente. É um pequeno fantasma estrutural que situa o edifício nas suas fundações primitivas. É o seu passado obscuro.

O projeto é resultado desta operação como eficazmente se pode verificar nos diagramas anexos. Dir-se-ia, aliás, que os diagramas desempenham aqui a função tradicional do "esquiço", demonstrando o processo de operações consecutivas que levam ao projeto. Não se trata do percurso de adivinhação intuitiva do "esquiço", mas antes da ponderação seqüencial do esquema programático com que o projeto de arquitetura é demonstrável.

Esta "troca" é muito clara sobre o tipo de método projetual e os processos de comunicação com que os ARX estão comprometidos, re-centrando o trabalho de arquitetura em algo diagramatizável ao mesmo tempo que paradoxalmente ganha uma intensa complexidade construtiva.

Porque, evidentemente, ao diagrama pertence a lógica do edifício mas não a sua sensualidade e a sua texturalidade.

Talvez o mais impressionante no Museu seja esta espécie de deslizamento de uma lógica intelectual, processual, apertada, para uma expressão mais livre, experimentando a "autenticidade" dos materiais, a suave libertação em "lanternins", o tratamento "pragmático" da relação com a envolvente, que se revelará determinante. Há um certo virtuosismo arquitetônico geralmente associado às referências fundamentais dos ARX, que aqui aparece mais filtrado, mais seco, mais circunstanciado.

4

Numa primeira impressão, o Museu dá-se a ver como uma longa fachada retilínea que preserva o alinhamento preexistente e oferece uma área aberta que João Gomes da Silva eficazmente trata como sinalização e espaço de acesso. A partir desta linha-limite, as estruturas do edifício desenvolvem-se para o interior do lote. Um pátio murado estabelece a fronteira interior, fixando plasticamente as linhas dos beirais e os motivos dos azulejos das moradias envolventes. É a relação entre os volumes acrescentados e este pátio que permite criar a interioridade onde sentimos a institucionalização do Museu.

Para lá desta extensão horizontal, que o pátio projeta e que um espelho de água, numa alusão ao programa, acrescenta, o edifício tem também insuspeitadas dimensões verticais.

A verticalidade elegante da "torre negra", a cobertura orgânica da "grande sala da ria" e a sucessão de lanternins sobre a estrutura preexistente, remetem-nos para uma espécie de fuga para o céu, criando uma pequena porção de skyline na planura da Ria de Aveiro.

A volumetria recortada do edifício, e o trabalho com a luminosidade, que ela deixa antever, correspondem ao programa "museu" enquanto espaço moldado pela presença ou ausência da luz.

O pequeno troço deste skyline náutico assim adequadamente forjado é simultaneamente desconcertante mas também verossímil porque se refere a uma atividade local, familiar.

A longa parede exterior anuncia melancolicamente o programa que depois se desdobra em espaços verticalizados como "velas", albergando os conteúdos do Museu. Completa-se assim uma relação suavemente alusiva entre a arquitetura e o próprio destino do edifício.

5

No início do texto comecei por falar, talvez inesperadamente, de pragmatismo. O Museu Marítimo de Ílhavo não corresponde a uma superação do "capitalismo" previsível das moradias envolventes, com a sua lógica individualista, "pequeno-burguesa". É apenas uma idéia melhor.

É por isso que o edifício se implanta sem considerações de maior, mas também sem sobranceria, envolvendo as casas com suaves erupções de formas.

A sul, podemos observar o topo da "torre negra central" entre as gradeadas e barrocas constelações preexistentes. Na fachada principal, o volume da garagem do Museu abraça uma moradia, elevando necessariamente a sua futura avaliação.

Não se trata de um "diálogo", muito menos de um esforço contextual. O Museu é uma constatação intacta. Não é uma arquitetura do "sítio", porque isso pressuporia muito provavelmente estar "contra" aquele sítio.

Se seguirmos o travelling inicial do documentário Paisagens Invertidas, o edifício começa numa moradia que pontua uma rua inacabada. O Museu Marítimo de Ílhavo significa a implantação de uma melhor disciplina construtiva e formal; a continuação dessa rua está obrigada a seguir essa ordem e encantamento.

ficha técnica

Obra
Ampliação e Remodelação do Museu Marítimo de Ílhavo

Dono de Obra
Câmara Municipal de Ílhavo

Localização
Rua Dr. Gilberto Madaíl, Ílhavo

Concurso Público
Junho 1997 – 1º Prémio

Projeto
Set 1997 a Fev 1998

Obra
Ago 1999 a Jan 2002

Área total
3.850 m2

Valor de Obra
3.500.000

Arquitetura
ARX Portugal

Arquitetos
Nuno Mateus e José Mateus

Colaboradores
Paulo Rocha, Stefano Riva, Marco Roque  Antunes, Ricardo França, João Alves, Sara Amado, Gabriel Santos, Susana Ferreira

Estruturas
TAL Projecto / Tiago Braga Abecassis e João Francisco Cima Gomes

Instalações de Águas e Esgotos
AQUADOMUS / Carlos Braga e João Rodrigues

Instalações Elétricas, Telefônicas, Informáticas e Segurança
AT / António Trindade

Instalações de AVAC
PEN / Luís Andrade

Paisagismo
GLOBAL / João Gomes da Silva

Fotografia
Daniel Malhão e Fernando Guerra

notas

1
Publicação original: "Museu Marítimo de Ílhavo - ARX Portugal". Lisboa, Edição Caleidoscópio - edição e artes gráficas, SA.

sobre o autor

Jorge Figueira, arquiteto, professor assistente de História da Arquitetura Contemporânea na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. É coordenador editorial da eIdIarq, serviço de edições do Departamento de Arquitetura da FCTUC. Como arquiteto do ateliê de Paulo Ferreira, atualmente participa do projeto do Novo Campus de Angra do Heroísmo, Açores. Foi co-programador de Coimbra Capital Nacional da Cultura, 2003. Foi co-comissário de "Paisagens Invertidas", filme-instalação (XXI Congresso da UIA em Berlim, 2002; V Bienal da Arquitetura de São Paulo, 2003. É membro do Conselho Editorial do Jornal Arquitetos, da Ordem dos Arquitetos. É autor do livro "A Escola do Porto: um Mapa Crítico" (2002).

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