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architexts ISSN 1809-6298

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português
Este artigo tem como objetivo descrever o Modelo Performativo. A descrição é desenvolvida a partir de definições teóricas e estudos de casos. Procura-se fornecer pistas para compreender a prática emergente deste modelo de processo de projeto

english
This paper aims to describe Performative Model based. The description is developed based on theoretical definitions and case studies. Clues are provided to understand the practice emerging from this design model

español
Este artículo tiene como objetivo descibir el modelo performativo. Con el apoyo de las definiciones teoricas en el modelo performativo busca, a partir de algunos estudios de casos, proporcionar pistas para entender la practica del diseño basada en el perf


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ANDRADE, Max; RUSCHEL, Regina Coeli. Projeto performativo na prática arquitetônica recente. Categorias e características. Arquitextos, São Paulo, ano 13, n. 150.07, Vitruvius, nov. 2012 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/13.150/4587>.

1. Introdução

Com o emprego do Computer Aided Design (CAD) na prática de projeto arquitetônico foi possível introduzir processos computacionais auxiliando na geração das soluções arquitetônicas, por meio de variados métodos de projeto digital. Oxman (1), (2), (3)destaca-se nos últimos anos em pesquisas que buscam caracterizar esses métodos em classes de modelos de projeto digital, resultados dos diversos processos computacionais realizados em experiências de projetos. Estes modelos fornecem um meio para compreender as estruturas e os mapeamentos dos modelos de projeto digital de acordo como as várias relações entre os projetistas, seu conteúdo conceitual, os processos de projetos e as soluções de projeto. Muitos desses modelos digitais exploram os processos computacionais em arquitetura, sem fazer uso significativo das tecnologias da informação, como um instrumento de contribuição à melhoria do desempenho do edifício. A maioria dos modelos é caracterizada por métodos de projeto digital que quando utilizados no processo de geração da forma arquitetônica, ainda é implementado em um nível de práticas formalistas e de representação de uma idéia pré-concebida na mente do projetista. Estes nem sempre usam ferramentas de informação e integração e são métodos que permanecem como exercícios abstratos de exploração e representação formal.

Ao mesmo tempo, diversos experimentos têm empregado técnicas como modelagem paramétrica e utilizado do recurso da interoperabilidade como meios de permitir uma melhoria no fluxo da informação do projeto e facilitar mudanças nas alternativas de soluções de projeto, visando melhorar o desempenho da solução. Muitas dessas pesquisas (em geral relacionadas ao Building Information Modeling - BIM), nem sempre interferem diretamente no processo de geração da forma arquitetônica, e sim atuam em outros domínios, como o controle da informação da construção para avaliação das soluções (4). Estas estão tradicionalmente associadas à exploração de processos de avaliação da síntese arquitetônica, para posterior modificação. Embora sejam caracterizados por práticas de projeto baseadas no desempenho, não resulta em transformações significativas nos processos de projetos tradicionais, além do mais, estão apoiadas em uma "abordagem homocêntrica" (2).

Por outro lado, a emergência de um novo modelo de projeto baseado no desempenho denominado de Performance Model (Modelos Performativos) (1) aparece como uma possibilidade para a exploração das novas tecnologias de modo eficiente e muitas vezes ambientalmente sustentável. Neste domínio, os fatores de desempenho do edifício tornam-se os princípios guias de projeto, podendo contribuir decisivamente para a geração da forma (form-making). Nesta abordagem, o desempenho aparece como instrumento que contribui para a revisão da estrutura tradicional de concepção do ambiente construído, resultando em processos inovadores e criativos (2).

A prática de processos de projeto digitais concebidas sob o paradigma do Modelo Performativo, por ter como motor da forma o desempenho, implica em melhoria do projeto em termos desses desempenhos desejados (5). Quando utiliza a eficiência energética, a redução do consumo de materiais e outras forças (desempenhos) relacionadas à sustentabilidade, como instrumentos propulsores da geração da forma, essas práticas digitais implicam em projetos mais conscientes e sustentáveis.

A ênfase no desenvolvimento de projeto baseado no desempenho volta-se para estratégias de desempenho de projeto que estejam apoiadas em questões mais amplas e gerais. Questões qualitativas e quantitativas de desempenho devem ser colocadas como princípios tecnológicos que irão orientar as abordagens de projeto (6). Neste contexto, a simulação aparece com uma força que guia as operações de transformação e geração. As atuais ferramentas de avaliação transformam-se em instrumentos de “avaliação e síntese”, utilizando-se de técnicas de otimização e geração (3).

Se, de um lado, diversos autores têm abordado experiências em Modelos Performativos, por outro, ainda não existe um corpo teórico para caracterizar as implicações desse modelo de projeto digital no processo de projeto arquitetônico. É com base nesta questão que o presente artigo trata. Tem como objetivo caracterizar o Modelo Performativo a partir de métodos de projeto digital concebidos sob esse modelo.

O ponto de partida são estudos de casos de processos de projetos digitais baseados no desempenho. Estes estudos de casos foram feitos em alguns dos mais recentes e emblemáticos projetos arquitetônicas da atualidade, concebidos sobre a égide do desempenho como propulsor da geração/ transformação da forma arquitetônica. A partir da caracterização de métodos, técnicas e ferramentas digitais empregadas foi possível classificar processo de projeto digital baseado no desempenho correspondente. O produto final deste artigo é uma sucinta caracterização do Modelo Performativo e de suas implicações para o processo de projeto arquitetônico.

1.1 Estudos de casos

Com base em uma exaustiva revisão bibliográfica na produção contemporânea em projeto digital baseada em desempenho - (7), (8), (9), (10), (11), (14), (15), (12), (13), (6), entre outros -, discussões com a Pesquisadora Rivka Oxman e visitas a alguns dos mais emblemáticos escritórios de projeto que tem desenvolvido práticas de projeto baseadas no Modelo Performativo (Foster + Partners, Bollinger + Grohmann, LAVA, RFR, Buro Happold) se chegou a uma lista de seis unidades-casos a serem estudados (Quadro 1 - Identificação e descrição dos estudos de casos). Esses representam experiências pioneiras de arquitetos e engenheiros no uso dos modelos performativos. Essas unidades-casos representam exemplos de projetos realizados nos últimos sete anos e desenvolvidos por escritórios de projeto lideres na Europa e Ásia. São Projetos que mostram um amadurecimento do uso do meio digital como potencializador das qualidades do edifício, expressos nos critérios de desempenho.

Quadro 1 - Identificação e descrição dos estudos de casos
Elaboração dos autores

2. As Classes dos Modelos Performativos

Com base nas investigações apresentadas nos estudos de casos foi possível estabelecer uma série de conjeturas sobre o processo de projeto baseados no Modelo Performativo. Essas foram realizadas com base em protocolos analisados. Por meio desse procedimento foi possível classificar tipos de projetos digitais baseados no desempenho e compreender as classes de projetos performativos. As principais categorias utilizadas nas análises comparativas foram: geometria, forças usadas na geração da forma, técnicas, ferramentas, interoperabilidade, colaboração e nível de automação. Após a realização das análises comparativas é feita uma classificação das principais categorias de projeto performativo, por meio do agrupamento de métodos com características semelhantes ou não. Em seguida são realizadas reflexões sobre o modelo performativo.

2.1 Geometria

Neste item apresenta-se um quadro comparativo das categorias geométricas usadas na geração da forma dos edifícios estudados neste trabalho. O que se pode observar no Quadro 2 (Comparativo das categorias geométricas usadas na geração da forma) é que dos seis estudos de caso, 3 deles utilizaram como forma inicial a “geometria básica” e três utilizaram o “partido arquitetônico”. Esses dados mostram que, em todos os casos, a forma inicial já apresentava certo grau de amadurecimento. Aquelas que partem de uma geometria básica ainda não têm uma identidade formal capaz de associá-la diretamente à forma resultante, porém já mostravam algumas diretrizes que estavam presentes na forma final. Já as formas iniciais baseadas no partido arquitetônico, têm grande similaridade com a forma final, o que mostra, nesses casos, um processo essencialmente de otimização da forma.

Quadro 2 - Comparativo das categorias geométricas usadas na geração da forma
Elaboração dos autores

O que se pode concluir com a análise das categorias geométricas utilizadas é que o Modelo Performativo parte de um espaço de soluções. Este pode ser mais ou menos limitado, dependendo da categoria geométrica utilizada. Se se iniciar com um partido arquitetônico, o espaço de soluções é reduzido, e a forma otimizada apresenta semelhanças formais com a forma de origem (partido arquitetônico). Se for inicial de uma geometria básica, a forma que resulta pode apresentar uma morfologia diferente. Porém ainda mantém um "padrão genético" comum.

2.2 Forças

Neste item foram identificas as principais forças utilizadas na geração da forma (Quadro 3 - Principais forças usadas na geração da forma). A carga estrutural, por ser empregada em todas as unidades-caso estudadas, mostrou-se ser o principal fator de desempenho para a geração da forma utilizando processos digitais.

Quadro 3 - Principais forças usadas na geração da forma
Elaboração dos autores

Das forças empregadas como desempenho no processo de otimização e geração da forma, aquelas consideradas como quantificáveis (carga estrutural, luz natural, acústica, térmica) por poderem ser transformadas em dados numéricos, foram utilizadas diretamente nos programas computacionais, como dados de entrada. Forças como, por exemplo, o programa e a perspectiva do lugar, por serem não quantificáveis, foram consideradas como regras, restrições ou condicionantes nos programas computacionais de geração e otimização da forma. As regras, restrições ou condicionantes, reduziam o espaço de soluções que possivelmente poderiam ser geradas ou otimizadas.

2.3 Técnicas

O Quadro 4 (Principais técnicas usadas no processo de geração da forma digital) mostra as principais técnicas de geração da forma utilizadas nos estudos de caso. Quatro técnicas aparecem em todos os estudos de caso: modelagem paramétrica, prototipagem, scripting e análise de elemento finito. A modelagem paramétrica utilizou-se principalmente nos estágios de representação e geração da forma, e estava ligado aos mecanismos de otimização e geração. A prototipagem, que era utilizada exclusivamente na representação, serviu para avaliações das soluções durante os diversos estágios de amadurecimento da forma.

Quadro 4 - Principais técnicas usadas no processo de geração da forma digital
Elaboração dos autores

Embora o scripting não esteja associado a uma técnica específica, mas sim a uma habilidade, em diversas situações de projeto, empregaram-se scripts associados a programas computacionais para geração, avaliação (simulação), otimização/desempenho e mesmo representação da forma. O script foi considerado como uma técnica essencial. A Análise de Elemento Finito (FEA) foi utilizada nos estágios de avaliação (com análise e simulação) e serviu como dado de entrada na otimização/desempenho. O algoritmo genético também foi comum nos estudos de caso. No desenvolvimento do projeto do Sidra Tree, utilizou-se uma técnica baseada num algoritmo evolucionário, denominada BESO.

2.4 Ferramentas Computacionais

O Quadro 5 (Relação de softwares mais utilizados no processo de geração da forma) apresenta as principais ferramentas computacionais empregadas na geração da forma das unidades-caso.

Os softwares utilizados no momento inicial de concepção para a realização de esboços foram: Rhino 3D, AutoCAD e 3D Max. Para a geração da forma o software mais utilizado foi o Rhino 3D + Grasshoper associado a um programa de geração da forma. No projeto do Smithsonian Courtyard Enclosure, utilizou-se o Generative Components associado a um programa em VBA, em todos os estágios do projeto. Para a modelagem digital, utilizou-se o Vectorworks  e o Digital Projects.

Quadro 5 - Relação de softwares mais utilizados no processo de geração da forma
Elaboração dos autores

Nos estágios de Avaliação/Simulação e Otimização/ Desempenho, utilizou-se uma variedade grande de softwares. A principal solução utilizada em quatro unidades-caso foi o Rhino + Grasshoper associado a um programa desenvolvido especialmente para os projetos. Várias soluções próprias de software foram desenvolvidas pelos escritórios para a resolução de problemas sofisticados de projeto.

Para todas as unidades-caso foram usadas soluções computacionais que exigiram do profissional capacidade avançada em programação computacional, seja na customização de softwares disponíveis no mercado, seja no desenvolvimento de novas ferramentas computacionais. Em muitas situações a solução gerada só foi possível graças ao uso de novos softwares desenvolvidos dentro do escritório (ou em parceria com universidades) para resolução de projetos vinculados à otimização da forma.

2.5 Interoperabilidade

Observou-se que um dos principais problemas em termos de interoperabilidade ocorreu na passagem do modelo, do software utilizado na geração da forma para o software de modelagem digital da informação do edifício. Dos estudos de caso, apenas um deles, o projeto do Smithsonian Courtyard Enclosure, utilizou programa único (Quadro 6 - Perfil da interoperabilidade nos estudos de caso). Nesse caso, todo o modelo digital desenvolveu-se em um único programa em VBA dentro Generative Components, durante todo o processo de projeto. Os demais projetos utilizaram mais de uma plataforma para geração da forma e desenvolvimento do modelo. Na maioria dos casos, o fluxo de informações durante o processo de projeto ocorreu de modo liso, com poucas perdas de informação.

Quadro 6 - Perfil da interoperabilidade nos estudos de caso
Elaboração dos autores

Um problema comum de interoperabilidade ocorria entre as etapas de projeto e construção, o que exigia retrabalhos na construção do modelo digital. Nessa situação o projeto do Smithsonian Courtyard Enclosure levou vantagem pelo fato de estar trabalhando em uma plataforma única integrada com a produção por meio de um software desenvolvido no escritório de Foster + Partners, denominado de Geometry Method Statement com Mechanical Desktop associado a um programa em AutoLISP. Dessa forma, foi possível transferir as informações diretamente do modelo digital para um modelo utilizado na confecção das peças do edifício.

Com o uso de softwares como o Rhino + Grasshopper, por exemplo, foi possível substituir a tarefa de reconstrução de modelos para a de desenvolvimento de algoritmos que pudesse servir para transformar o modelo num formato utilizado na produção. Nesses casos, conforme afirma (16), o que ocorreu não foi uma supressão de trabalho, e sim uma mudança para um alto nível de abstração, com a substituição da tarefa de modelagem do modelo para a de programação.

O que se observou nos estudos de caso é que o principal meio utilizado para tornar eficiente a troca de informações do modelo era pela utilização de uma mesma plataforma entre os diferentes profissionais. A automatização de sequências de decisões, em certas etapas do processo de projeto, só foi possível graças à existência de um fluxo contínuo de informações, sem interrupção, entre dois ou mais softwares.

O escritório Buro Happold, por exemplo, tem desenvolvido, nos últimos anos, aplicativos que permitem a integração de otimização ambiental, projeto (arquitetônico, estrutura e ambiental) e fabricação, de modo a tornar as soluções completamente integradas e desenvolvidas sob uma plataforma BIM. Essas soluções foram usados no desenvolvimento dos projetos do Louvre Abu Dhabe e do Sidra Trees.

Os principais formatos utilizados na troca de informação entre os modelos e na documentação foram: 3DS, 3DM, DWG, DXF, DOJ, PDF, XLS, STL e IFC.

2.6 Colaboração

Em todos os estudos de caso, a colaboração foi algo que ocorreu de modo sistêmico no processo de projeto, contribuindo decisivamente com a geração da forma. Em alguns projetos, a colaboração entre equipes de engenharia e arquitetura eram iniciadas ainda na etapa conceitual (Quadro 7 - Perfil da colaboração), em fase anterior às discussões sobre forma. Nos outros, a colaboração ocorreu no estágio de concepção arquitetônica, quando as intenções formais começam a aparecer.

Quadro 7 - Perfil da colaboração
Elaboração dos autores

A colaboração intensa entre projetistas durante o processo de geração da forma indica uma nova relação de autoria da forma. A forma arquitetônica nessa realidade deixa de ser de propriedade do arquiteto para ser resultado de um processo colaborativo entre projetistas, que, com base nos seus conhecimentos (de várias especialidades), e buscando a otimização de certos desempenhos, geram a forma. Mesmo assim, o arquiteto ainda tem um papel primordial na definição conceitual dos elementos que vão definir o projeto e interferir diretamente na forma. Nessa realidade o arquiteto passa a dar prioridade à topológica em vez da tipologia; e ao conceito em vez da forma.

2.7 Automação

Tendo como base a representação simbólica de esquema básico de modelo de projeto digital proposto por (1), fez-se um mapeamento das características gerais dos modelos de projeto digital utilizados no processo de geração da forma das unidades-caso, de acordo com as várias relações entre os projetistas, os componentes do projeto digital (geração, representação, avaliação, otimização/desempenho), suas propriedades (implícitas e explícitas) e suas relações (fluxo de informação e perfil da interação). O Quadro 8 (Modelos de projetos digital identificados nos estudos de caso) mostra os modelos de projeto digital utilizados no processo de geração da forma identificados nos estudos de caso e relaciona sua ocorrência em cada uma das unidades-caso.

Quadro 8 - Modelos de projetos digital identificados nos estudos de caso
Elaboração dos autores

Nas situações em que existe uma ligação explícita com um fluxo de informação automático, entre todos os componentes do projeto digital, o processo torna-se automatizado e a interação do projetista deixa de ser com um meio não digital, com um esboço digital, com um desenho digital (projeto baseado no CAD) ou com um modelo digital (projeto baseado num modelo de informação da construção, usando um software de autoria BIM), e passa a ser com uma representação digital gerada por um mecanismo (nesse caso o projetista interage com uma estrutura digital gerada por um mecanismo de acordo com um grupo de regras ou relações predefinidas), ou por um ambiente digital que gera um mecanismo digital (nesse caso o projetista interage com um mecanismo computacional que gera uma representação digital). Esse caso é representado pelo modelo número 7 do Quadro 8.

Nos modelos 3, 4, 5 e 6 do Quadro 8 a sequência de decisões ocorreu de modo semiautomatizada, pois o fluxo da informação entre os componentes, durante uma sequência de decisões, não era completamente automatizado e a interação do projetista com um componente (modelo 4, 5 e 6) ou dois componentes (modelo 3) se deu de modo manual, por meio de uma interação implícita, baseado num conhecimento não formalizado.

Nos modelos 1 e 2, a sequência de decisões ocorreu de modo manual, pois não existiu nenhum tipo de ligação explícita entre dois ou mais componentes do projeto digital. No modelo 1, a sequência de decisões baseou-se num conhecimento implícito por meio de uma interação direta do projetista com as quatro classes de componentes das atividades de projeto tradicionais. No modelo 2, a interação do projetista com a representação se deu por meio de esboço digital, desenho digital ou modelo digital.

Observou-se que em todos os projetos estudados foram encontradas sequências semiautomatizadas e manuais. Em alguns estudos de casos estavam presentes sequências de decisões automatizadas. Diante dessas observações, conclui-se que os processos de geração da forma são essencialmente semiautomatizados, com sequências de decisões automatizadas (em alguns casos), sequências manuais e sequências semiautomatizadas. Observou-se, também, que essas sequências não ocorrem de modo sistematizado, mas sempre se iniciam com uma sequência manual; em seguida, podem ocorrer sequências manuais, semiautomatizadas ou automatizadas, sem uma ordem preestabelecida.

Essa complexidade identificada nos ciclos de decisão dos projetos performativos, foi o modo encontrado pelos projetistas de contemplar a resolução de diferentes problemas de projeto e níveis de conhecimento em um sistema capaz de gerar soluções inéditas e inovadoras, por meio da programação computacional. Ao mesmo tempo, sem deixar de lado a sensibilidade e a capacidade humana em resolver intuitivamente problemas da mais alta complexidade, de uma maneira implícita, ainda pouco conhecida, mas que é base do saber arquitetônico que se tem até hoje.

3. Classificação dos modelos performativos

Os processos de geração das formas dos edifícios apresentados nos estudos de caso desenvolveram-se guiados por desempenhos desejados, que serviam como motores da formação da geometria do edifício. Por esse motivo, são exemplos reais do modelo de projeto digital denominado por (2) como Performativo. O que se observou nos estudos de caso é que diferentes métodos de geração da forma foram utilizados sob a égide do Modelo Performativo. Esses métodos caracterizavam-se pelo uso de certas técnicas e ferramentas, de certos tipos de forças e eram iniciados tendo como base uma forma inicial definida por um partido arquitetônico (ainda preliminar) ou uma forma básica, que inspirava a geração da forma do edifício.

Por esses métodos apresentarem uma variedade de características, buscou-se agrupá-los em subclasses do Modelo Performativo. Iniciou-se com a seleção das categorias mais importantes e o agrupamento delas de acordo com certas similaridades (Quadro 9 - Classificação dos modelos performativos por meio das características dos métodos). Com relação ao desempenho desejado, observou-se que em todos os métodos a carga estrutural (CE) estava entre as principais forças que conduziam o processo de formação. Outro desempenho desejado era o programa arquitetônico (PR). Em todos os casos, observa-se que o desempenho desejado era o condutor do processo de formação, que ocorria com ciclos automatizados (em alguns métodos), semiautomatizados e manuais.

Quadro 9 - Classificação dos modelos performativos por meio das características dos métodos
Elaboração dos autores

Visando estabelecer uma divisão mais precisa das duas subclasses apresentadas no Quadro 9, fez-se uma nova classificação delas com base nas similaridades e diferenças, apresentado no Quadro 10 (Classificação dos modelos performativos proposta por este trabalho). O que se observou foi que os métodos 3, 4 e 5 são métodos de otimização (transformação, mudança) de uma forma preestabelecida num partido arquitetônico. Os métodos 1, 2 e 6 são essencialmente métodos generativos. Por meio de diretrizes formais, expressas por certas formas básicas, mecanismos guiam o processo de geração da forma visando um desempenho desejado.

Quadro 10 - Classificação dos modelos performativos proposta por este trabalho
Elaboração dos autores

Com base nessa classificação, é possível definir claramente as duas subclasses de Modelo de Projeto Performativo, que neste trabalho se denominaram Modelo Performativo Baseado na Otimização e Modelo Performativo Baseado na Geração. No primeiro, o Modelo Performativo pode ser considerado como um modelo de otimização. A forma final do edifício é resultado de requisitos de desempenho em vez de preferências formais predefinidas. Estas se encontram otimizadas, modificadas, transformadas, mediante requisitos de desempenho. No Modelo Performativo Baseado na Geração, dados de simulação de desempenho guiam os processos de formação do objeto de modo a gerar uma nova forma por meio de uma forma previamente estabelecida. Nesse caso, durante sequências de decisão, o projetista vai interagir com mecanismos digitais que vão definir a forma (geração, com base em uma forma de referência), representá-la digitalmente, avaliá-la e otimizá-la, por meio dos módulos geração, representação, avaliação e otimização/desempenho. É um processo que inclui ciclos completamente automatizados.

No Modelo Performativo, ocorre uma mudança na estrutura de projeto que passa de um processo de Geração > Avaliação > Otimização/ Desempenho para um processo que antecipa a otimização (Figura 1 - Modelos de projeto digital). Em vez de avaliar uma forma gerada e modificá-la de acordo com os resultados da avaliação (Figura 1a), no Modelo Performativo o desempenho interfere diretamente na formação do projeto, seja modificando/ transformando uma forma previamente definida, no Modelo Performativo Baseado na Otimização (Figura 1b), seja gerando uma forma nova, com uma geometria básica, no Modelo Performativo Baseado na Geração (Figura 1c).

Figura 1 - Modelos de projeto digital
Elaboração dos autores

4. Reflexões sobre as práticas de Modelo Performativo

O que se observou das subclasses de modelos performativos é que ambas implicam em profundas mudanças no modo de agir dos projetistas. Eles precisam abdicar, em algumas situações, de preconceitos e atitudes criacionistas em favor do uso do desempenho como guia na geração e otimização da forma e do espaço da arquitetura. Ao mesmo tempo, precisam mudar suas estruturas cognitivas e incorporar novas competências, novos comportamentos e novos conhecimentos como maneira de possibilitar a transformação da prática tradicional de projeto em favor de uma que seja dialética e mais colaborativa.

Os estudos de casos mostram que o processo de geração da forma caracteriza-se pelo uso simultâneo de diversas técnicas, sejam manuais ou digitais. O processo de geração da forma, nesse tipo de projeto, é uma atividade essencialmente colaborativa entre arquitetos e engenheiros estruturais, cada um dos quais contribuindo mais ou menos no uso de uma técnica ou outra. Embora não seja regra, em geral, o que se observou é que a participação dos arquitetos estava mais associada ao manuseio de técnicas manuais e a dos engenheiros à técnicas mais automatizadas. Esse vínculo está em função da natureza do problema visto pelo arquiteto e pelo engenheiro e do perfil do pensamento. Enquanto que os arquitetos usam um pensamento mais subjetivo, com um julgamento pessoal, com base numa subjetividade e num conhecimento empírico, os engenheiros baseiam seus pensamentos em conhecimentos formais, com uma prática de projeto baseada apenas naquilo que pode ser calculado (10).

5. Discussão Final

A partir das reflexões sobre processo de projeto digital performativo foi possível demonstrar que esse modelo digital caracteriza-se por atividades essencialmente colaborativas, interdisciplinares, complexas, multiprocessuais e que abarcam diferentes habilidades, níveis de conhecimento e tecnologias computacionais. Por meio de uma revisão conceitual nos modelos paradigmáticos apresentados por (1), (2), (3), (17) embasada na observação da prática de projeto foi possível estabelecer um novo paradigma de processo de projeto baseado no desempenho. Esse paradigma se apóia na revisão dos métodos digitais, no conhecimento das tecnologias e ferramentas computacionais que têm permitido esse progresso e numa concepção de forma arquitetônica essencialmente colaborativa, baseada no uso de algoritmos computacionais.

Entre as principais conclusões sobre o Modelo de Projeto Digital Performativo estão:

  • ser essencialmente colaborativo entre arquitetos e engenheiros estruturais, durante a etapa de síntese arquitetônica;
  • uso simultâneo de técnicas de projeto manuais, técnicas semiautomatizadas e automatizadas;
  • ter as técnicas manuais, muitas vezes, associadas à ação do arquiteto e as técnicas automatizadas à atuação do engenheiro;
  • iniciar-se por ciclos de decisão manuais e, ao longo do processo de projeto serem caracterizados por ciclos semi-automatizados e automatizados.

A prática de processos de projeto digitais que utilizam Modelos Performativos resulta na melhoria do desempenho do edifício, pois esse passa a ser um objetivo primário do projeto. Dada essa importância da prática de Projeto Performativo ver-se a necessidade em mudança significativa na práxis de projeto, com a expansão da relação colaborativa entre arquitetos e engenheiros e a redefinição dos papeis do projetista durante o processo de projeto. Acredita-se que dentro dessa nova realidade a geração da forma deixa de ser responsabilidade do arquiteto e passa a ser resultado de um processo colaborativo, apoiado em tecnologias computacionais.

notas

1
OXMAN, R. 2006. “Theory and Design in the First Age”. In: Design Studies, [S.I.], v. 27, n. 3, p. 229-265.

2
OXMAN, R. 2007. “A Performance-based Model in Digital Design: PER-FORMATIVE-design Beyond Aesthetic”. In: Architectural Engineering and Design Management, [S.I.], v. 3, p. 169-180.

3
OXMAN, R. 2008. “Performance-based Design: Current Practices and Research Issues”. In: International Journal of Architectural Computing, Issue 1, v. 6, n. 3, p. 1-17.

4
EASTMAN, C.; TEICHOLZ, P.; SACKS, R.; LISTON, K. BIM handbook: a guide to building information modeling for owners, managers, designers, engineers, and contractors. 2. ed. New Jersey: John Wiley & Sons, 2011.

5
KALAY, Y. “Performance-based design”. In: Automation in Construction, n. 8, p. 395-409, 1999.

6
KOLAREVIC, B.; MALKAWI, A. 2005. Performative architecture: beyond instrumentality. New York: Spon Press.

7
OXMAN, R.; OXMAN, R. (Editores Convidados) 2010. “The New Structuralism: design, engineering and Architectural Technologies”. In: Architectural Design. Wiley, London, Jul./Aug. 2010.

8
HUANG, X.; XIE, M. 2010. Evolutionary Topology Optimization of Continuum Structures: Methods and Applications. Wiley, London.

9
SASAKI, M. 2005. Flux Structure. Toto Publishers, Tokio.

10
TESSMANN, O. 2008. Collaborative Design Procedures: for Architects and Engineers. Books on Demand GmbH, Noderstedt.

11
HENSEL, M.; MENGES, A. (Editores Convidados) 2008. “Versatility and Vicissitude: Performance in Morpho-Ecological Design”. In: Architectural Design. Wiley, London, Mar./Apr., 2008.

12
IWAMOTO, L. 2009. Digital Fabrications: Architectural and Material Techniques. Princenton Architectural Press, New York.

13
KOLAREVIC, B. 2003. Architecture in the digital age: design and manufacturing. New York: Spon Press.

14
SPUYBROEK, L. (Editor) 2009. The Architecture of Variation. Thames & Hudson. London.

15
MEREDITH, M; SAKAMOTO, T.; FERRÉ, A. (Eds.) From Control to Design: Parametric/ Algorithmic Architecture. Barcelona: Actar, p.68-115.

16
SCHEURER, F. “Materialising complexity”. In: OXMAN, R.; OXMAN, R. (Ed.). “The new structuralism: design, engineering and architectural technologies”. Architectural Design, p. 86-93, Jul.-Aug. 2010.

17
OXMAN, R. 2009. “Digital Tectonics as a Morphogenetic Process”. In: International Association for Shell and Spatial Structures Symposium, 2009, Valencia. Proceeding...Valencia, p. 938-948.

sobre os autores

Max Lira Veras Xavier de Andrade é Arquiteto e Urbanista pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1995. Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília em 2000. Professor Assistente IV com dedicação exclusiva na Universidade Federal de Alagoas. Atualmente desenvolve doutorado na UNICAMP (2008). Investiga a aplicação de BIM em modelos de projeto arquitetônicos digitais com ênfase em desempenho e projeto computacional. Tem experiência em projeto arquitetônico e ensino de projeto nas áreas de: representação digital, BIM, coordenação modular e projeto para construção.

Regina Coeli Ruschel é Livre docente na área de Projeto Auxiliado por Computador pela Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da UNICAMP (2009), Doutor em Engenharia Elétrica na área de Automação pela Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da UNICAMP (1996), Mestre em Ciência em Engenharia Civil pela University Of Arkansa (1984) e Engenheira Civil pela Escola de Engenharia de Piracicaba (1981). É professor associado em Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa na FEC-UNICAMP. Investiga o uso da Tecnologia da Informação e Comunicação no apoio ao ensino de projeto digital colaborativo para Arquitetura, Engenharia e Construção. Desenvolve pesquisa no tema de Building Information Modeling abordando o desenvolvimento de projeto baseado em multi-desempenho e também na integração de projeto.

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