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A idéia de um abrigo fechado, uma casa coberta, coincide com as origens mais remotas da arquitetura. O teto é a sombra que protege do sol, mas também a proteção contra chuva

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KOGAN, Gabriel. A luta dos edifícios contra as águas. Drops, São Paulo, ano 11, n. 045.05, Vitruvius, jun. 2011 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/11.045/3874>.



Foto Rafael Craice [http://www.quadradonegro.com.br/craice/]


A idéia de um abrigo fechado, uma casa coberta, coincide com as origens mais remotas da arquitetura. O teto é a sombra que protege do sol, mas também a proteção contra chuva. Além do tradicional desafio técnico de vencer a força da gravidade, as construções humanas, desde suas origens, desafiam as leis da hidrologia. Se por uma lado é quase banal fazer uma cobertura que sombreie o espaço interno, é muito difícil e desafiador edificar uma cobertura estanque, que resista a água, que resista a umidade, que resista a chuva.

Durante milhares de anos, o Homem desenvolveu conhecimentos de proteção contra a água na cobertura e nas paredes de suas construções. São técnicas ainda hoje empreendidas como telhas de barro inclinadas para que as águas sejam drenadas rapidamente. O grande problema é que o conhecimento de estanqueidade praticado até o final do século XIX, pouco poderia ser aproveitado nos novos edifícios modernos, com grandes vãos e estrutura livre. O know-how de construção de coberturas teria que ser praticamente desenvolvido do zero e, mais importante, fazer parte da concepção da arquitetura. A conhecida ‘laje plana impermeabilizada’ se tornou ponto crítico do projeto.

Logo nas primeiras obras modernistas, os arquitetos descobriram que a luta contra as águas seria o maior desafio técnico da nova arquitetura. Três daqueles que seriam considerados os maiores do movimento moderno, Le Corbusier, Mies van der Rohe e Frank Lloyd Wright, enfrentaram terríveis problemas em relação a infiltrações de água em suas obras pioneiras e mais importantes. Problemas que persistiram, não só na história dessas construções, mas também em seus projetos seguintes.

A Villa Savoye, construída por Le Corbusier no final da década de 1920 tinha gravíssimos problemas de infiltração. A água entrava por todos os cantos da casa, paredes e lajes. Depois de longas discussões com o cliente, mais de uma década depois da conclusão do projeto, Le Corbusier assumiu a existência de problemas na obra. O desespero dos moradores fica latente nas cartas expostas hoje na própria casa.

A Farnsworth House de Mies van der Rohe enfrentou problemas similares. O arquiteto foi hábil em elevar a casa do solo, uma vez que o terreno sofria com inundações periódicas. O grande problema é que as infiltrações poderiam ocorrer pelos pilares que tocavam o solo (numa espécie de capilaridade) e também por cima, uma vez que a esbelta laje plana não poderia ser impermeabilizada adequadamente com a tecnologia da época.

As casas de Frank Lloyd Wright sofreram de problemas ainda muito mais graves, talvez por uma maior deficiência técnica do arquiteto. Praticamente todas as suas casas são consideradas inabitáveis por causa dos graves problemas de infiltrações. Pode parecer incrível, mas até hoje algumas construções não puderam ser recuperadas, permanecendo como um grande desafio técnico para os restauradores. Chove e entra água, é como o provérbio moderno: “cada casa tem sua goteira”.

No Brasil, uma casa contemporânea, de um grupo de jovens e excelentes arquitetos, enfrentou problemas similares, remontando as origens do movimento moderno e confirmando que o desafio técnico persiste. Essa casa poderia ser um estudo de caso da relação das águas no objeto construído. O partido arquitetônico da casa sugeria um vão praticamente igual ao balanço (digamos que o vão fosse 10 metros e o balanço da estrutura também de 10 metros). Apesar disso ser algo exeqüível e muito facilmente exeqüível hoje em dia do ponto de vista estrutural, os problemas com as infiltrações se originaram dessa decisão de projeto, aparentemente banal. O grande balanço em relação ao vão, que idealmente deveria ficar na proporção de 1 para 3 (ou seja o balanço, para cada lado, deve corresponder a 1/3 do vão totalizando uma fração de 1/5 do total da estrutura), quando projetado na proporção de 1 para 1 requer atenções redobradas. A casa em questão foi executada em concreto armado, muito suscetível a fissuras. O grande balanço com um vão pequeno, em estrutura metálica, seria algo, tecnicamente mais apropriado.

Estabelecido esses critérios e decisões iniciais, outros fatores intensificaram os futuros problemas que o morador e a casa enfrentaram. O calculista foi pouco hábil em definir coeficientes que poderiam amenizar o problema e, também, silenciou-se em comunicar o arquiteto sobre eventuais movimentações da estrutura. Os problemas se acentuaram com uma execução problemática, que não seguiu, entre outros, procedimentos padrões de impermeabilização e não utilizou uma fórmula apropriada para concretos arquitetônicos aparentes.

Todos esses casos da história da arquitetura mostram um desafio primário: a luta do homem contra as águas, mesmo dentro de casa, mesmo nos tempos atuais de incrível desenvolvimento técnico. Esses casos nos mostram que o projeto de arquitetura é quase sempre um protótipo, uma experimentação, suscetível a problemas. Arquitetos e clientes devem sempre considerar isso: cada novo projeto é um novo desafio técnico e possivelmente nem tudo sairá como se imaginou, se sonhou, se projetou. Podemos acordar durante a noite com uma goteira no meio do quarto.

nota

NE
Este artigo foi originalmente publicado no blog cosmopista em 11 de fevereiro de 2011.

Sobre o autor

Gabriel Kogan é arquiteto e urbanista formado pela FAU-USP. Trabalha atualmente no STUDIOMK27 e edita o blog cosmopolita. Desenvolve também pesquisa teórica sobre a arquitetura do território, com ênfase na relação dos rios com a cidade de São Paulo.


Foto Rafael Craice [http://www.quadradonegro.com.br/craice/]

 

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