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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
A biomimética propõe uma abordagem de estudo da relação entre arquitetura e natureza que desafia a concepção tradicional do orgânico através da utilização de técnicas cientificas e tecnologias digitais

español
La biomimética propone una aproximación novedosa al estudio de la relación entre arquitectura y naturaleza que pone en duda la tradicional concepción de lo orgánico a través del uso de técnicas científicas y tecnologías digitales

how to quote

MASSAD, Fredy; GUERRERO YESTE, Alicia. A chamada da natureza. Drops, São Paulo, ano 13, n. 065.05, Vitruvius, mar. 2013 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/13.065/4680>.


Morfologia biomimética das 'Torres Filotaxicas'
Foto Saleh Masoumi [Wikimedia Commons]


O pensamento arquitetônico ocidental tem oscilado entre duas concepções básicas e opostas: a concepção racional, que tem sintetizado e geometrizado as formas naturais, transformando-as em representações abstratas, e a aproximação orgânica, que tende a mimetizar-se com a Natureza, recriando suas formas e traduzindo-as para a linguagem arquitetônica, revivendo-as de uma maneira expressiva.Ambas concepções convergem finalmente na Natureza como origem da arquitetura, como uma extensão do ambiente natural em evolução com o homem. Uma hipótese que pode ser argumentada a partir do fato de que, instintivamente, os animais selvagens sabem como acondicionar seu próprio hábitat. Da mesma forma, o homem primitivo teria conhecido como começar a construir usando, como os animais, os materiais naturais, estabelecendo uma ligação com o natural cuja marca não desapareceu de sua memória genética e que seria o motivo para a sobrevivência latente dessa relação em toda a história da arquitetura sob diferentes concepções e realizações.Ela nos incita“A nova sensibilização de nossa consciência diária da natureza chegou a ser uma tarefa que a própria natureza nos impele” diz o filósofo Jeremy Naydler para afirmar que nosso tempo é confrontado com a necessidade de evitar a degradação de nossa consciência da natureza. O progressivo crescimento da arquitetura como “máquina” e a fragmentação da especialização do conhecimento científico resultou num distanciamento da observação atenta e livre da sujeição às categorias estabelecidas de fenômenos naturais, que simultaneamente está em conflito com esse estado latente do desejo de regenerar nosso vínculo com ela e que possui suas manifestações próprias dentro do campo arquitetônico atual.A atenção acrescentada sob a utilização de técnicas e materiais ancestrais para a construção e o interesse em incorporar na experimentação arquitetônica os conhecimentos provenientes das disciplinas cientificas como a biologia, a química ou a genética através do uso das tecnologias digitais, são um reflexo desta busca de uma arquitetura cada vez mais vinculada intrinsecamente ao orgânico; uma arquitetura capaz de ser reativa e enfática como elemento natural e de gerar novos relacionamentos físicos e mentais de harmonia entre o construído, o meio ambiente e o individuo. E uma tentativa de ir um passo além para avançar sobre a relação tradicional entre os dois, já não produzindo metáforas que representam ou aludam ao natural, mas trabalhando através da investigação científica sobre a Natureza para gerar uma nova definição espacial, formal e funcional para a arquitetura, ativado por avanços nas tecnologias digitais.Neste campo enquadra-se o trabalho experimental que Dennis Dollens (www.tumbletruss.com) está desenvolvendo no domínio da biomimética: investiga como extrapolar certos processos do crescimento botânico – simulados digitalmente pelo software XFrog, que permite modelar e animar plantas e flores  (www.xfrog.com) – para o desenho arquitetônico, a fim de produzir novos materiais e estruturas com base em princípios biológicos.“A biomimética não consiste em conceber formas orgânicas de aproximação para arquitetura, ou em reinterpretar poeticamente a natureza: não é uma questão de desenvolver metáforas arquitetônicas da natureza. Não acho que os edifícios têm de se assemelhar as plantas ou outros organismos biológicos, mas sim podem funcionar como eles: eles podem mover-se transferir ar e umidade, filtrar polução, reorientar suas peles, modificar o calor e o frio, avisar os ocupantes para mudar as condições sociais e ambientais.” Aprofundando uma identificação intelectual com a observação e a análise da Natureza filosófico-científica da Ilustração, o estudo da metafisica de Leibniz e as teses de Louis H. Sullivan e Gottfried Semper, juntamente com a constante atenção à vida natural, Dollens prefere centrar o seu progresso na definição e desenvolvimento de processos, dos quais emergem novas formas de construção e de materiais que resultam em uma arquitetura capaz de contribuir para a sustentabilidade ecológica do ambiente.Integrar-seAo contrário de outras produções geradas a partir da referência às teorias científicas sobre a natureza – das quais a arquitetura apropria-se a fim de traduzi-las em para morfologias estruturais radicalmente inovadoras – a dimensão estética do prédio é irrelevante no âmbito da investigação de Dollens: sua aspiração não e gerar uma nova linguagem, mas conceber novas formas de integração entre a arquitetura e as estruturas e matérias da natureza que resultem na redefinição da função dos edifícios.“A experimentação com o programa XFrog permitiu-me conhecer estruturas entrecruzadas e ramificadas, além de investigar também o potencial de aumentar significativamente a escala de uma folha ou de volumes com forma de vagem para transformá-los em unidades e cachos que pudessem ser utilizados como protótipos para pisos, paredes ou quartos completos; mesmo que para prédios” explica Dollens, que argumenta sobre a necessidade da colaboração entre os arquitetos, biólogos, engenheiros e fabricantes para articular uma aproximação biomimética ao design. O pensamento e a obra de Dennis Dollens são um reflexo do estado de desenvolvimento de uma consciência que compreende a necessidade de consolidar o progresso através da relocalização da nossa posição na natureza.Linha evolutivaA ideia de gerar arquitetura que adapta às características de funcionamento dos organismos vivos, de maneira híbrida as potencialidades da tecnologia digital para a visualização e produção de protótipos com a recuperação de técnicas e usos da construção tradicional, propõe uma evolução em relação ao conceito da maquina de habitar, produto da visão cartesiana e maquinista. A era da tecnologia informacional conduz a uma fusão entre os conceitos racionais e orgânicos, propondo uma abordagem complexa que incentiva o desenvolvimento de novas formas, espaços e funções.Trata-se de repensar uma aprendizagem dos organismos vivos a partir da qual fundamenta-se uma reformulação dos prédios como metabolismos através deste redimensionamento biológico, surgindo um novo sentido da funcionalidade da arquitetura, que a transforma numa entidade eficaz e reativa positivamente em seu relacionamento com seu ambiente e com o individuo.nota1
Artigo originalmente publicado em ABCD las Artes y las Letras, n. 995, publicado em 09 de dezembro de 2006.
sobre os autoresFredy Massad e Alicia Guerrero Yeste, titulares do escritório ¿btbW, são autores do livro Enric Miralles: Metamorfosi do paesaggio, editora Testo & Immagine, 2004.

 

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