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drops ISSN 2175-6716

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Adalberto da Silva Retto Júnior comenta a produção arquitetônica de Severiano Porto na Amazônia como uma necessidade do autor em remeter o projeto ao meio cultural onde se insere.

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RETTO JR., Adalberto. “Faz mormaço na floresta”. A obra de Severiano Mário Porto e o Amazonas como preexistência cultural. Drops, São Paulo, ano 21, n. 163.03, Vitruvius, abr. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/21.163/8079>.


Aldeia SOS Manaus, projeto para construção da sede, planta de estrutura da cobertura, Manaus, 1993. Arquiteto Severiano Mario Porto [Acervo Severiano Mario Porto / NPD FAU UFRJ]


É possível a arquitetura falar sobre uma especificidade, uma recorrência de temas ou fatores relativos a uma área em particular? Elementos importantes para esta reflexão talvez possam ser indagados a partir do conjunto de obras realizadas no estado do Amazonas pelo arquiteto Severiano Mário Porto (1930-2020), falecido no dia 10 de dezembro de 2020, como mais uma vítima da Covid-19.

Na inevitável parcialidade do itinerário reflexivo proposto por ser amazonense e também arquiteto, ressalto que seu traço mais fecundo, mas também o mais abstrato e, talvez precisamente por isso, o menos parcial em comparação com a totalidade do problema investigado a partir de sua obra, é a sua atividade criativa, em geral, e a do arquiteto, em particular, na articulação de duas tensões: a primeira, do movimento de conhecimento circular, transmitido durante sua formação como arquiteto – formado em 1954 na Faculdade Nacional de Arquitetura – FNA, da Universidade do Brasil – Rio de Janeiro, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro; a segunda tensão, vertical, a partir de sua trajetória, e enraizada nas contingências do meio ambiente, uma trajetória que investiga a fundo o significado do conceito de contexto ou preexistência cultural, já que é nascido em Minas Gerais e, nos anos de 1980, mantém viagens intermitentes entre o Rio de Janeiro e o Amazonas.

Severiano Mário Porto aterrissa no estado do poeta Thiago de Mello (1926), cuja casa em Barreirinha fora projetada pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998). Estado onde algumas obras modernas da capital exibiam e exibem murais do artista plástico Moacir de Andrade (1927-2016), assim descritos por João Guimarães Rosa:

“Moacir de Andrade submete, em disciplinados espaços de arte – galos de tapeçaria, cintilação de mosaicos e magia de presépios – os paroxismos de seu diluviano zoorama, feérico epos de fauna: peixes, leviatãs, dragões, harpias, perlados de fria espuma e ocelados de recordações oníricas, à luz de um amarelo a um tempo telúrico e transcendente, apanha assim em tensa ronda a vida do grande rio e grava nos olhos de xerimbabos abissais a desmesura e selva, a cósmica, calada essência da Amazônia” (1).

A experiência do arquiteto nesse imenso estado, envolvido no profundo silêncio da Amazônia, não indica apenas que o significado da construção no ambiente preexistente consistia na formação de uma sensibilidade para as sugestões do ambiente natural – característica já presente na cultura do Movimento Moderno como é observado na obra de arquitetos como Le Corbusier –, mas na necessidade de remeter o projeto ao meio cultural. A ideia de um ambiente cultural está relacionada à necessidade catártica que caracterizou o mundo intelectual a partir do pós-segunda guerra, onde a consciência cultural significava, de fato, a abertura do esquema moderno abstrato do homem ideal para a consideração de cada individualidade distinta; uma abertura que, por si só, permitiria alcançar o sentido de uma história humana.

Seus projetos e obras são a prova óbvia não da possibilidade de um discurso sobre uma região, ou de implicações relacionadas ao aspecto meramente geográfico daquele espaço singular, mas de uma imersão cultural. Os espaços e lugares por ele concebidos, na verdade, não respondem apenas a questões impostas pelo meio ambiente, mas são fatores de importância primordial para a construção do sentido de lugar, uma vez que, agindo nos níveis individual, social e cultural, corroboram, ao menos em parte, para a interpretação de uma possível identidade da região.

Progressivamente, seu pensamento teórico assumiu o caráter original que o tornou uma referência fundamental da cultura arquitetônica e, nos anos de 1980, é internacionalmente reconhecido, quando o conjunto de sua obra é premiado na Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires e quando, em 1987, é prestigiado com o título de arquiteto do ano pela revista francesa L'Architecture d'Aujourd'hui.

Falar em sentido local, em pertencimento e identidade significa, de certo modo, falar em termos de 'regionalismo' ou “regionalismo crítico”, termo cunhado em 1981 no ensaio The Grid and the Pathway, pelos teóricos de arquitetura Alexander Tzonis e Liane Lefaivre, ou ainda por Keneth Frampton, no livro Towards a Critical Regionalism: six points for an architecture of resistance, de 1983.

A ideia de regionalismo, porém, parece redutiva, folgada, obsoleta ou incongruente quando aludidos às obras do arquiteto na região em questão, pois seu trabalho levantou uma série de problemas, colocando-os dentro de um raciocínio crítico entre a arquitetura do Movimento Moderno e a arquitetura contemporânea, raciocínio esse que, na verdade, explora o potencial de flexibilidade e continuidade de redefinição do lugar. Por um lado, o aperfeiçoamento das ferramentas técnicas destinadas a traduzir a linguagem figurativa do projeto em construção física e, por outro, o aprofundamento dessa linguagem a partir do aprendizado de técnicas locais. Sua obra versa sobre a viabilidade técnica e funcional e a adaptação da forma ao meio físico, cultural e histórico em que está inserida. O objetivo final é a síntese dos dois problemas. Este último compromisso diz respeito mais especificamente às preexistências ambientais, pois não pode ser realizado sem que a linguagem da obra inclua os valores culturais – com os quais as novas formas dialogam – e absorva a priori os conteúdos particulares característicos, sugeridos pelo meio ambiente.

O interesse pela arquitetura espontânea como matriz, dentro da qual se busca a origem arquetípica da arquitetura, é uma ideia essencial e, do ponto de vista técnico, capaz de dar ao projeto a medida necessária de adesão à realidade concreta dos fenômenos, para além de qualquer abstração de princípios. A pesquisa sobre o ambiente e a relação entre arquitetura e natureza, construindo o conhecimento cíclico da tradição, explora a sedimentação de noções a ser construída a partir da comparação de diferentes respostas, no espaço e no tempo, com problemas semelhantes. A inclusão de elementos da cultura local em atenção à tradição teria sido, de fato, não apenas o sinal do amadurecimento de uma consciência política social, mas também da disposição de ampliar as possibilidades do projeto arquitetônico.

Nesse sentido, sua obra não se limitou a escolhas linguísticas folclóricas, um viés arriscado que levaria a um formalismo estilístico. Sua arquitetura coloca-se no encontro das duas necessidades: a de experimentar o conhecimento eterno da tradição arquitetônica e a de especificá-la a partir das necessidades contingentes do local onde esse conhecimento é aplicado.

Apesar de seu nome estar sempre associado à uma ideia datada de prexistência ambiental, hoje, mais do que nunca, seu legado pode ser reinterpretado à luz de questões relacionadas com a ecologia, a paisagem e a relação entre construção e energia, em um momento em que ecologia e arquitetura compartilham os resultados da chamada “crise do ambiente”.

notas

NA – O título do artigo faz referência ao livro “Faz escuro mas eu canto” (1965), do poeta amazonense e tradutor Thiago de Mello (1926), um dos poetas brasileiros mais conhecidos e ícone da literatura regional, com obras traduzidas em mais de trinta idiomas. O título remete à necessidade de lutar sempre pela vida, apesar das circunstâncias.

1
ROSA, João Guimarães. Apud KAWALL, Luiz Ernesto Machado. Artes reportagem. Prefácio de Luís Arrobas Martins. Apresentação de Francisco Luís de Almeida Salles. São Paulo: Centro de Artes Novo Mundo, 1972.

sobre o autor

Adalberto da Silva Retto Júnior atua como Professor na Universidade Estadual Paulista - Unesp. Coordenador do Curso Internacional de Especialização Lato Sensu em Planejamento Urbano e Políticas Públicas: Urbanismo, Paisagem, Território. Foi Professor-pesquisador Visitante no Master Erasmus Mundus TPTI (Techiniques, Patrimoine, Territoire de lIndustrie: Histoire, Valorisation, Didactique) da Universitè Panthéon Sorbonne Paris I(2011-2013). Possui Pós-doutorado no Istituto Universitario di Architettura di Venezia – Itália (2007); Doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo FAU USP e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Istituto Universitario di Architettura di Venezia (2003).

 

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