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drops ISSN 2175-6716

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Segundo Carlos Martins, na encruzilhada em que se encontra, a USP tem dois caminhos alternativos a seguir: a defesa da autonomia da universidade pública e ou se voltará a se ensimesmar na torre de marfim.

how to quote

MARTINS, Carlos A. Ferreira. O que está em jogo na eleição da USP – parte 1. Na encruzilhada entre a defesa da autonomia e o ensimesmamento na torre de marfim. Drops, São Paulo, ano 22, n. 170.01, Vitruvius, nov. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/22.170/8313>.


Torre de Babel, ilustração de Coenraet Decker para Turris Babel, de Athanasius Kircher, 1679
Domínio comum [Wikimedia Commons]


No dia 25 deste mês, um colégio eleitoral formado por pouco mais de 2000 pessoas elegerá a chapa de Reitor e Vice que dirigirá, nos próximos quatro anos, a mais importante instituição de ensino superior do Brasil.

Antes disso, será feita uma consulta à comunidade interna, composta por 5400 professores, 13500 mil funcionários e 97 mil alunos, de graduação e pós-graduação. Essa consulta não é deliberativa embora, obviamente, tenha um peso simbólico.

Se o leitor externo à Universidade estiver se perguntando por que isso é tema para esta coluna, começo por reconhecer que não é sua culpa. A USP tem muitos méritos, mas a capacidade de comunicar-se bem com a sociedade que a mantém não é um deles.

Apesar de oferecer 11 mil vagas de vestibular; de ter neste momento, 14 mil estudantes de mestrado e 15 mil de doutorado; de ter recebido no ano passado 3 milhões de visitantes nos quatro museus que mantém e de ter realizado 150 mil atendimentos apenas no Hospital Universitário, a USP ainda é desconhecida pela população, especialmente pelos seus setores mais pobres.

Pelas deformações características do sistema tributário brasileiro, exatamente aqueles que, proporcionalmente, mais pagam por ela e por suas coirmãs Unicamp e Unesp, que recebem quase 10% do ICMS arrecadado no Estado de São Paulo.

Essa distância entre a USP e a população que a mantém está, de certa forma, em seu DNA desde 1934, quando foi criada pela oligarquia paulista, depois da derrota na guerra civil de 1932, com o objetivo explícito de formar as elites dirigentes do país.

Sabemos que DNA determina algumas características, mas não decide o futuro, nem dos seres vivos nem das instituições.

Há alguns anos, placas tectônicas começaram a se mover. No ano passado, pela primeira vez em sua história, as matrículas na graduação tiveram 50% dos alunos oriundos da escola pública, com as proporções de pretos, pardos e indígenas correspondentes à população paulista.

Um programa chamado Vem para a USP estabelece convênios com escolas públicas para receber estudantes do ensino médio para estágios nos nossos laboratórios de pesquisa. 1500 destes estudantes entraram no vestibular no ano passado, sabendo exatamente o que queriam estudar.

Outro programa, o USP Municípios, oferece apoio técnico em políticas públicas a mais de 50 municípios que de outra forma dificilmente o obteriam.

Nada disso se dá em detrimento da excelência no ensino e na pesquisa. Ao contrário, trata-se de oferecer os resultados dessa excelência ao conjunto da população. Não só por justiça social, mas por saber que a população será a única capaz de defender a universidade pública e sua autonomia diante do recrudescimento das ameaças que ela vem sofrendo.

A decisão a ser tomada neste mês é se a USP continuará avançando nesse caminho ou se voltará a ficar satisfeita com a convivência intramuros, na reiteração da síndrome de torre de marfim.

Nesta disputa eu tenho lado. Fico com a chapa Hernandes e Cidinha, duas pessoas com trajetória científica e de gestão comprovadas, mas que não esquecem suas origens nem o sacrifício de suas famílias para que eles, filhos da escola pública, pudessem chegar à USP.

Duas pessoas que têm na inclusão social e na extroversão dos serviços da universidade as suas próprias histórias de vida. Duas pessoas que jamais diriam, como fez um membro da chapa oponente, numa reunião pública, que seu colega de chapa é uma pessoa “très finesse”.

Semanas atrás uma colega me perguntou se eu achava que a eleição da reitoria respondia a uma divisão entre esquerda e direita. Respondi que não, porque havia pessoas de esquerda, centro ou direta no apoio aos dois lados.

A esta altura da campanha cheguei à conclusão de que não há divisão entre esquerda e direita, mas há viés de classe.

Para um filho de camponeses como eu, isso não diz tudo. Mas diz muito.

nota

NE - Artigos da série:

MARTINS, Carlos A. Ferreira. O que está em jogo na eleição da USP – parte 1. Na encruzilhada entre a defesa da autonomia e o ensimesmamento na torre de marfim. Drops, São Paulo, ano 22, n. 170.01, Vitruvius, nov. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/22.170/8313>.

MARTINS, Carlos A. Ferreira. O que está em jogo na eleição da USP – parte 2. Cotas de pretos, pardos e indígenas não pioram a qualidade da universidade. Drops, São Paulo, ano 22, n. 170.03, Vitruvius, nov. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/22.170/8326>.

MARTINS, Carlos A. Ferreira. O que está em jogo na eleição da USP – parte 3. Excelência acadêmica e mensuração dos rankings internacionais. Drops, São Paulo, ano 22, n. 170.04, Vitruvius, nov. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/22.170/8327>.

sobre o autor

Carlos Ferreira Martins é professor titular do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos, filho da escola pública, mas também, e com muito orgulho, filho de camponeses que tudo fizeram para que pudesse ser o primeiro da família a chegar à universidade.

 

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