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interview ISSN 2175-6708

abstracts

português
Antônio Agenor Barbosa entrevista Jô Vasconcellos, arquiteta responsável por projetos institucionais como o Museu da Cachaça e o Espaço de Conhecimento UFMG.

english
Antônio Agenor Barbosa interviews Jô Vasconcellos, architect responsible for institutional projects such as the Cachaça Museum and the UFMG Knowledge Space.

español
Antônio Agenor Barbosa entrevista a Jô Vasconcellos, arquitecta responsable de proyectos institucionales como el Museo de la Cachaça y el Espacio del Conocimiento de la UFMG.

how to quote

BARBOSA, Antônio Agenor. Entrevista com a arquiteta Jô Vasconcellos. Entrevista, São Paulo, ano 22, n. 089.01, Vitruvius, jan. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/22.089/8424>.


Condomínio Tinguá, Belo Horizonte MG [Acervo Jô Vasconcellos]

Antônio Agenor Barbosa — Acho interessante, para iniciarmos esta conversa, você trazer elementos que informem ao leitor dessa entrevista quem é a pessoa antes dela se tornar uma arquiteta renomada. Onde você nasceu e como foi a sua infância e juventude? Sei, por exemplo, que o professor Sylvio de Vasconcellos era primo da sua mãe, certo? Vamos construindo essa conversa e seguindo dialogando a partir daí, pode ser?

Jô Vasconcellos — Está bom assim. Bom, vou ser breve, tá? [risos]. Eu nasci em Belo Horizonte, de uma família de origem de Minas mesmo. Minha mãe era mineira, de uma família politicamente importante certa época, pois o avô dela foi presidente do Senado quando a capital de Minas Gerais era Ouro Preto. Os tios foram figuras importantes em Minas. Tem um grande escritor e historiador que é o Salomão de Vasconcellos. Tem o Diogo Vasconcellos, que é meu bisavô, também escritor e político e era o nome de meu avô também, porque todo primeiro filho homem da família se chamava Diogo. Eram naturais de Ouro Preto e Mariana. Minha avó materna vem também de uma família tradicional que é a família Ferraz. Então, da parte de mãe, é mais ou menos por aí, é a tradicional família mineira [risos].

Meu pai é filho de uma italiana com um espanhol. Eles vieram para o Brasil fugindo da pobreza e das dificuldades em que se encontravam na época na Espanha e na Itália. Meu avô paterno era da província de Murcia, na Espanha, e minha avó de Pitigliano, Grosseto, na Toscana, Itália. Eles se encontraram aqui no Brasil e se casaram. Então nós temos descendência italiana e espanhola. A minha família de italianos é Dinelli e a minha família espanhola é Gosalber e na mudança para o Brasil transformaram em Gonçalves. Atualmente tenho cidadania italiana.

Somos uma família de seis filhos. Meu pai era funcionário público, assalariado e batalhava muito para sustentar todos nós. Mas ele conseguia sempre de uma forma ou de outra, fazendo alguns trabalhos extras, e nós estudamos em colégio particular, nos formamos na Universidade Federal de Minas Gerais — UFMG. Quando era adolescente comecei a fazer dança porque eu era muito magra e minha mãe queria que eu engrossasse minhas pernas. O que não aconteceu [risos]. Mas aí eu tomei amor pela dança e fiz alguns anos de aulas com o professor Klauss Vianna, que era um cara incrível que trabalhou em São Paulo e no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Depois de um tempo ele foi para a Bahia, e nós ficamos órfãos. Aí eu entrei para o ballet do Palácio das Artes e fiz parte do corpo de baile durante quase dezessete anos.

AAB — Então você praticamente se profissionalizou como bailarina?

JV — Sim. Eu me profissionalizei já que fui do corpo de baile do Palácio das Artes. E viajávamos muito dançando nas óperas e ballet clássico. Era só ballet clássico, na época em Belo Horizonte. No início tinha pouca iniciativa em Minas Gerais para uma coisa mais aproximada da dança moderna. Mas logo depois chegou. Iniciei um período curto de dança moderna, principalmente nos festivais de inverno de Ouro Preto.

Nos Festivais de Inverno de Ouro Preto vinham os professores de dança moderna, o americano Clyde Morgan e outros incríveis, e a gente começou a trabalhar também com um pouco de dança moderna. Daí eu fui para a Arquitetura. Mas, honestamente, teve uma época que eu não sabia muito bem o que eu queria. Mas havia um grande amigo dos meus pais que era o arquiteto Radamés Teixeira. Ele era urbanista e dava aula na federal. E ele além de ser nosso vizinho, era um grande amigo dos meus pais, éramos muito unidos. E por ele ser arquiteto eu fui me encantando com as conversas dele. Com tantas histórias que ele contava. Minha mãe contando as histórias do Sylvio de Vasconcellos, eu comecei a me encantar com isso e o Radamés me incentivou muito. Ele me falou: “Olha, se você quiser fazer Arquitetura, eu vou te dar todo apoio”. Então, eu fui fazer o Científico, na época, e fiz o vestibular para Arquitetura e aí estudei muito com ele. Ele me ensinou Geometria Descritiva, que eu não sabia nada [risos].

AAB — Você está falando do professor Radamés Teixeira, recentemente falecido, certo?

JV — Sim o Professor Radamés da UFMG. E aí eu passei na federal, aliás, era a única Escola de Arquitetura de Belo Horizonte, na época. Eu me formei em 1971. Entrei na faculdade em 1967. Em 1967 foi o ano que o Éolo (Maia) se formou, mas eu não o conheci na Escola de Arquitetura. Enquanto eu estava na Escola de Arquitetura, eu fui aluna da professora Suzy de Mello, que dava aulas de Arquitetura Brasileira e de Teoria da Arquitetura e ela também muito me incentivou.

Ela foi diretora da Escola e do curso de Restauro que eu fiz também em 1979, e ela me ajudou demais. Ela gostava muito de mim, não sei se foi por questão familiar, porque eu era parente do Sylvio de Vasconcellos, e ela era muito apaixonada pelo Sylvio, ou se foi porque ela viu em mim uma possibilidade de fazer uma Arquitetura assim mais legalzinha, porque naquela época a Arquitetura por aqui estava péssima, nos anos 1970, era uma coisa horrível. Eu me formei em 1971. Eu já tive escritório antes mesmo de me formar, no terceiro ano da Escola. Eu e mais cinco arquitetos, colegas e amigos, montamos um escritório de arquitetura chamado Yellow Submarine.

AAB — Quem eram esses parceiros?

JV — Os parceiros eram Altino Caldeira, Luiz Carlos Chiari que faleceu cedo, um grande arquiteto, seria genial, mas faleceu cedo. A Rachel Leite, o Carlos Fernando de Moura Delfim e o José Octavio Cavalcante. Nós fundamos o escritório Yellow porque não era obrigatório fazer estágio na nossa época, não tinha essa obrigação como tem hoje, e a gente queria aprender fora da Escola.

Lá eu aprendi muita coisa, mas lá eu desaprendi muitas também [risos]. E aí nós trabalhávamos para terceiros, fazíamos desenvolvimento de projetos, perspectivas e desenhos técnicos. E nós fazíamos estes trabalhos para equipes de muita gente boa, dentre eles o Éolo Maia, que foi quando eu o conheci. O Éolo, Humberto Serpa, o Márcio Pinto, Carlos Vinicius Meyer e outros. Eram arquitetos jovens da época e nos passavam desenvolvimento de projetos, desenhos técnicos e perspectivas. E nós trabalhávamos muito, a gente trabalhava tanto, que acho até que ganhávamos mais dinheiro do que os próprios arquitetos em algumas ocasiões.

Mas a gente era bastante doido. Fazíamos muita festa, rolava droga, claro, né. E aí fizemos uma festa que durou três dias seguidos. Aí a polícia foi lá e fechou nosso escritório por causa da bagunça naquela festa. Assim acabou o Yellow. Mas naquele momento também cada um já estava, digamos assim, tomando seus caminhos individuais.

AAB — Esse escritório, o Yellow Submarine, foi fechado pela polícia? [risos].

JV — É, porque a gente fez uma festa. E a festa durou três dias. Era numa área residencial. Hoje é a Savassi, em Belo Horizonte, e se converteu numa área bem comercial, mas na época tinha ainda aquelas casinhas do começo do século que era o bairro Funcionários. Havia muita reclamação do nosso escritório. O som sempre muito alto, os Beatles tocando no último talo, Rolling Stones etc e tal. Essa festa não parou, não acabou ela ficou, ficou, ficou. Aí chegou a polícia após muitas reclamações da vizinhança. A polícia chegou lá, fechou o escritório, expulsou a gente de lá, e a gente se reuniu depois dessa confusão e falou: “Agora acabou galera. Não vamos mais fazer o escritório, agora é cada um por si”.

AAB — A Escola de Arquitetura da UFMG era ali por perto, certo?

JV — Era pertinho, sim. A gente podia dormir na Escola de Arquitetura naquela época. Quando a gente cursava, a escola era muito aberta. Depois fecharam por causa da nossa turma, porque participamos de um concurso de um Campus Universitário para uma Bienal de São Paulo. Era concurso de estudante, estávamos no terceiro ano. Então, nós fizemos uma equipe. Chamamos o Veveco (Álvaro Hardy), que era um estudante mais avançado que a gente, e montamos uma equipe. E, por conta desse concurso, a Escola nos liberou de frequentar algumas aulas e as notas seriam dadas de acordo com o desenvolvimento do nosso projeto. Vê quem é que faz isso hoje? Mas naquela época não acontecia isso muito. Então, nós conseguimos conquistar essa abertura da Escola. Só que a gente praticamente mudou para lá, para poder trabalhar. Ficávamos até de madrugada trabalhando. O desenho era todo à mão, dava um trabalho danado, aí na última hora caia nanquim na prancha, aquelas coisas. Muitos acidentes de percurso.

AAB — E essa equipe não era a mesma da Yellow?

JV — Não foi. Eram outros parceiros. E nós fizemos o projeto. Mas acontece que a gente fazia muita bagunça, muito barulho. A Escola ficou aberta para nós. Aí quando acabou o concurso e saiu o resultado não ganhamos prêmio nenhum [risos]. Acho que fomos selecionados, mas não ganhamos. Nós fizemos uma maquete que era do tamanho de um fusca com os dois melhores maquetistas que existiam: o José Menezes e o Aristides Lourenço. Depois vieram algumas restrições e eles proibiram a gente de frequentar a Escola à noite, porque nem tinha curso noturno na época, era só curso da manhã. E aí a Escola fechou e pronto, ficou uma caretice horrorosa. Mas eu saí de lá em 1971 e casei com o Éolo em 1972. Comecei a trabalhar aos poucos com o Éolo. No começo eu não trabalhei diretamente com ele, mas ele já tinha um escritório há mais tempo. Ele teve um escritório com o Humberto Serpa, com o José Eduardo Ferolla, Paulo Laender, Sérgio Lerman e com o Roberto Vieira.

AAB — Vamos entrar nessa relação com o Éolo Maia mais adiante. Mas, antes, eu queria que você fizesse uma narração desse momento que foi você se formar numa Escola de Arquitetura extremamente politizada como a UFMG, naquele contexto do final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Era um período de governos militares, essa repressão contra as festas, contra vocês dormirem no campus da universidade contra o que eles chamavam, entre aspas, de “bagunça”. Queria te ouvir sobre isso.

JV — Quando o Éolo ainda estava na Escola havia mais repressão do que na minha época, porque foi mesmo na época da implantação da ditadura. Na nossa época, tinha muita passeata de estudantes no centro da cidade. E eu vou te falar a verdade, eu era muito alienada, sabe? Alienada politicamente, embora a minha família tenha sido muito ligada à política por parte da minha mãe. Então, eu saí de um colégio católico das irmãs dominicanas. Saí do Colégio Santa Maria e caí no Científico no Colégio de Aplicação da UFMG, que era uma escola muito politizada e eu não sabia nada do que se passava na política. Eu parecia uma menina boboca. Na Escola de Arquitetura mesmo, ao que me lembro, não aconteceu muita repressão. Talvez porque a Escola não ficasse no Campus.

AAB — O Campus da UFMG lá na Pampulha, certo?

JV — Na Pampulha, sim. Mas aqui a Escola de Arquitetura, era uma escola pequena, quase caseira, poucos alunos, acho que a escola inteira não tinha duzentos alunos. Então, existia essa politização, houve prisão dentro da Escola, mas não foi comigo lá, eu não cheguei a ver isso.

AAB — Mas sei que alguns professores foram perseguidos e cassados, certo? O caso mais emblemático é do professor Sylvio de Vasconcellos que foi preso, sem nenhuma acusação formalizada, quando era Diretor da Escola de Arquitetura da UFMG.

JV — O Sylvio, na verdade, eu não cheguei a conhecê-lo pessoalmente porque ele foi embora para os Estados Unidos. Mas você está certo, ele foi preso sim. Creio que ele se auto exilou, você entendeu? Porque depois ele foi solto e ele não era conivente com nada que estava acontecendo por aqui e ele foi embora para os Estados Unidos, e por lá ele ficou e lá ele morreu. Ele casou aqui, teve três filhas, até as conheço. Mas eu acho que ele separou desta esposa e foi para os Estados Unidos onde casou com a Muriel. Então assim, vou te falar que essa parte política de perseguição e tal, eu não ligava muito para isso, na época. Na verdade eu não estava tão envolvida porque eu era bailarina profissional e era estudante de Arquitetura.

AAB — Então você continuava no ballet?

JV — Sim, eu tinha que ensaiar e fazer aulas toda tarde. Então eu ficava a manhã inteira na Escola de Arquitetura, almoçava no bandejão, descia a Afonso Pena e entrava no Palácio das Artes e saia de noite, sabe? Eu ia trabalhar nos projetos de estudante e tudo era mesmo de madrugada. Eu não tinha muito tempo.

AAB — Mesmo já formada em Arquitetura e com duas filhas, você ainda continuou no ballet?

JV — Continuei, eu continuei. Nasceu Isadora, a minha primeira filha. Ela nasceu em 1974 e eu continuava no ballet. Na minha segunda gravidez, da Nina, eles me desligaram do grupo. Aí eu fui ainda para outro grupo de dança. Era um grupo de dança moderna. Fiquei um tempinho lá nesse grupo e depois não deu mais porque eu já tinha um escritório de Arquitetura, já tinha duas filhas, a minha filha mais velha com alguns problemas, porque ela é especial. Então tinha que trabalhar, tinha que ganhar dinheiro, era uma loucura. Aí eu larguei a dança. Porque a dança, a gente sabe que depois dos 35 anos é igual ao atleta. Você vai para a prateleira, simplesmente te jogam na prateleira após certa idade. E, financeiramente, não era muito satisfatório. Eram pequenos cachês, que ajudava quando eu ainda vivia na casa dos meus pais. Depois eu já estava vivendo com o Éolo, ele tinha muitos projetos, fui ajudar e assim fui jogando em todas as áreas [risos].

Condomínio Tinguá, Belo Horizonte MG [Acervo Jô Vasconcellos]

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