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interview ISSN 2175-6708

abstracts

português
Antônio Agenor Barbosa entrevista Jô Vasconcellos, arquiteta responsável por projetos institucionais como o Museu da Cachaça e o Espaço de Conhecimento UFMG.

english
Antônio Agenor Barbosa interviews Jô Vasconcellos, architect responsible for institutional projects such as the Cachaça Museum and the UFMG Knowledge Space.

español
Antônio Agenor Barbosa entrevista a Jô Vasconcellos, arquitecta responsable de proyectos institucionales como el Museo de la Cachaça y el Espacio del Conocimiento de la UFMG.

how to quote

BARBOSA, Antônio Agenor. Entrevista com a arquiteta Jô Vasconcellos. Entrevista, São Paulo, ano 22, n. 089.01, Vitruvius, jan. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/22.089/8424>.


Edifício Raja Gabaglia, Belo Horizonte MG [Acervo Jô Vasconcellos]

Antônio Agenor Barbosa — A gente conversou muito sobre uma série de aspectos da sua formação e da sua inserção no campo da Arquitetura. Mas têm dois pontos que eu queria conversar com você. O primeiro é que eu queria que você narrasse um pouco, da forma como você se sentir à vontade, da sua experiência em canteiro de obras. Sendo você uma arquiteta e sendo o canteiro um lugar de homens. Como foram as tuas experiências?

Jô Vasconcellos — Olha, eu já fiz muita obra, sim. Eu dou assistência à obra até o último momento. Eu sou uma “peoa” de obra. Uma “peoa” [risos]. Durante a construção, você entendeu? Eu tenho afinidade com o pessoal de obra. Sempre tive. Na minha primeira obra fiquei um pouco desanimada, eu estava formando, eu fui ao canteiro de obras e era o projeto do viaduto que Éolo tinha feito. Eu estava no Yellow e fui à obra e dei instruções de como fazer a parte que eu queria que fizesse, e saí de lá. Aí quando o Éolo chegou o mestre falou assim pra ele: “Olha, veio aqui uma hippie e já nos deu as instruções. Ela falou, falou, falou, aí entrou por aqui e saiu por ali.” Nisso o Éolo respondeu: “Ela é a pessoa que vai gerenciar essa obra. Então, vocês vão ter que ouvi-la o tempo inteiro”. Bom, foi essa a minha primeira experiência em obra.

Foi divertida, porque eu sempre levo para o lado do humor. E depois eu toquei várias obras. Eu frequentava muito as obras e me dou bem, muito bem, com os engenheiros e operários. Eu não sou daquela arquiteta que briga com o engenheiro não. Eu vou ouvir, eu vou escutar, eu vou discutir, eu não vou impor aquilo que eu quero, vamos ver, dá para fazer isso ou não dá para fazer, se só Deus puder segurar, então, vamos por um pilar aqui. Ah, vamos lá, eu faço compatibilização dos projetos todos, então, normalmente, as obras não dão tanto problema, porque já estão compatibilizados com todos os projetos complementares. Assim de obra, foi realmente a da Orquestra Filarmônica, desde o começo, antes de começar o movimento de terra, de escavação, eu já estava na obra. Tinha uma casa no terreno, tombada pelo patrimônio histórico que usamos para ser nosso escritório. Depois restauramos para receber um restaurante. Então, eu ficava oito, dez horas direto na obra.

AAB — Você está falando da Filarmônica?

JV — É, estou falando da Filarmônica, porque foi a experiência mais importante para mim em termos de obra. Chegou um momento que nós tínhamos mais de mil operários na obra, eram turnos de manhã, de tarde e de noite. Então, eu ficava de manhã e de tarde, às vezes, eu ia até à noite. Ficava até à noite e eu não tive nenhum problema, por incrível que pareça, eu não posso reclamar da minha vida como mulher na obra. Não tive problema com ninguém dentro da obra. Problemas, nós tivemos com as compatibilizações, porque foi aquele projeto que foi licitado ainda sem desenvolver.

AAB — O Rafael Yanni é seu parceiro neste projeto?

JV — Sim o Rafael Yanni é meu parceiro no projeto. Ele e o José Augusto Nepomuceno, que fez realmente toda a parte da sala, e da acústica. É um projeto que nós pegamos as orientações dele e fizemos todo o arcabouço a partir dali.

AAB — Então o canteiro de obras é um lugar que você sempre se sentiu confortável, que você nunca se sentiu desvalorizada pelo fato de ser mulher?

JV — Não. É que também eu sou uma pessoa flexível, bem flexível, sabe? Eu ouço muito, eu ouço as pessoas que sabem mais do que eu. Num canteiro de obras, o mestre de obras sabe muito mais que eu. Então, às vezes eu ouvia, eu atendia, eu verificava todos os projetos, eram sempre muitas pranchas, mais de mil pranchas, entendeu? Eu ficava o dia inteiro, íamos para a reunião com a construtora, todos nós ficamos lá, nós ficamos internados lá dentro para cumprir a meta e os prazos. Eu tinha uma meta a cumprir, pois trabalhava para o governo na época. Fazíamos reuniões técnicas, fizemos festa de cumeeira, todo mundo trabalhando com muito afinco naquela obra. Todos achando a obra muito interessante, era a primeira obra que se fazia daquela forma, totalmente diferente das obras convencionais, a obra de uma grande orquestra, né? Então assim, para você saber, foi um período feliz da minha vida, naquela obra. Eu fiquei na obra do comecinho dela até o final.

AAB — Isso durou quanto tempo?

JV — Foram dois anos. E eu fiquei até o último dia, mesmo sem receber centavos no final por conta da mudança de governo. Eu ficava na obra direto. Fiz muita visita guiada com estudante, com aluno, com arquiteto, com o pessoal do governo, com as autoridades à frente da obra.

AAB — Agora você traz um ponto instigante. Como é que era feita essa mediação entre agentes do estado, do mercado, governantes, eventualmente governadores, prefeitos, políticos, as grandes empresas?

JV — Levamos a obra até o último acabamento, fechamos a obra completamente, entendeu? Não houve nenhum problema financeiro, não houve desvio, não houve nada de errado porque nós ficávamos ali em cima, eu e o pessoal da Fiscalização, o pessoal da CODEMIG. Como eu tinha carta branca total do governador, ele confiava muito em mim, eu tinha uma liberdade total dentro da obra.

AAB — Esse foi um projeto do governo do Estado de Minas Gerais? Quem era o Governador?

JV — Sim, do Governo do Estado na época do Governador Antonio Anastasia. A Prefeitura não participou. O professor Anastasia tinha muita confiança em mim. Ele nos deu carta branca para o projeto da Filarmônica. Claro que teve que passar pelo crivo do maestro, da Associação dos Músicos, pela Prefeitura, que eu tive que aprovar dentro das leis da Prefeitura, do Conselho do Patrimônio Histórico, porque tinha uma casa tombada. Então, eu aprovei todas as exigências, nos Bombeiros que foi complicadíssimo. Foi a aprovação mais complexa a de Bombeiros. Acompanhei com tenente, com coronel, íamos a reuniões, mas eu sou uma pessoa jeitosa, sabe? Eu tenho um bom jeito assim para lidar com as pessoas, na hora tensa, eu faço graça, eu relaxo e enfim consigo tudo [risos].

AAB — E você credita, de certa forma, a esse seu “temperamento”, ao seu “carisma” e à sua “flexibilidade” essa capacidade que você teve de fazer mediações entre esses agentes diferentes?

JV — É, você tem razão. Eu fiz mesmo mediações inacreditáveis. Mas todas foram bem sucedidas. É claro que a obra não saiu 100% como eu queria porque foi uma obra que tinha que ter sido feita em três/quatro anos e foi feita em muito menos tempo, porque era um projeto político. Tinha que inaugurar antes da saída do governador e ele inaugurou inacabada. Tive que fazer uma maquiagem nos andaimes para que houvesse um concerto inaugural, mas deu tudo certo e eu não tive problema nenhum na obra, zero problema. E eu gosto muito de obra, eu gosto de ver as coisas acontecerem, eu gosto de ver os espaços se conformando. E eu tinha uma capacidade boa de entendimento da obra como um todo e acho que foi muito bem. Então, eu realmente não tenho do que me queixar muito. Assim, eu sou uma pessoa de obra, eu não era tão técnica como eu fiquei depois, porque eu aprendi demais, foi a obra que eu aprendi mais na minha vida foi essa, porque eu nunca tinha feito um projeto tão complexo na vida.

Edifício Raja Gabaglia, Belo Horizonte MG [Acervo Jô Vasconcellos]

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