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projects ISSN 2595-4245

abstracts

português
O Edifício Tico RV, projetado pelo Terra e Tuma, pode significar uma importante contribuição para o desenho urbano devido a suas principais características espaciais e construtivas, bem como a relação com a cidade e a interface com a legislação vigente.

english
The Tico RV Building, designed by Terra and Tuma, can make an important contribution to urban design due to its main spatial and constructive characteristics, as well as the relationship with the city and the interface with current legislation.

español
El Edificio Tico RV, diseñado por Terra y Tuma, puede hacer una importante contribución al diseño urbano por sus principales características espaciales y constructivas, así como por la relación con la ciudad y la interfaz con la legislación vigente.

how to quote

FERRATA, Carlos. Edifício Tico RV. Projetos, São Paulo, ano 22, n. 260.01, Vitruvius, ago. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/22.260/8560>.


Edifício Tico RV, São Paulo SP Brasil, 2020. Arquitetos Danilo Terra, Fernanda Sakano, Juliana Terra e Pedro Tuma (autores) / Terra e Tuma Arquitetos Associados
Foto Pedro Kok

Edifício, legislação e cidade

Primeiro edifício projetado pelo escritório Terra e Tuma para a incorporadora Tico (1). RV é abreviação de Ribeiro do Vale, rua em que o edifício está localizado, no bairro do Brooklin, em São Paulo SP. A edificação tem 565m² de área construída em um lote com pouco mais de 200m².

O projeto explora as condicionantes urbanísticas estabelecidas pelo novo Plano Diretor Estratégico da cidade (2) e a nova Lei de Zoneamento (3), que estabelece para a Zona Eixo de Transformação Urbana Previsto — Zeup, em que o lote está inserido, um coeficiente de aproveitamento máximo igual a duas vezes a área do terreno, uma taxa de ocupação de até 85% da área do terreno, o gabarito máximo de 28 metros de altura e, o que talvez seja aqui o mais importante, a possibilidade de prescindir dos recuos obrigatórios (frente, fundos e laterais) em uma construção que tenha até dez metros de altura medidos do perfil natural do terreno.

O edifício foi organizado em dois volumes paralelos, separados por um pátio, onde se encontra a escada aberta de conexão entre pisos. O bloco voltado para a rua tem três pavimentos e contém quatro das doze unidades habitacionais contidas na edificação, duas no primeiro pavimento e duas no segundo. Já o bloco posterior, de quatro pavimentos, abriga as outras oito unidades habitacionais, duas por pavimento.

Edifício Tico RV, croquis, São Paulo SP Brasil, 2020. Arquitetos Danilo Terra, Fernanda Sakano, Juliana Terra e Pedro Tuma (autores) / Terra e Tuma Arquitetos Associados
Elaboração Carlos Augusto Ferrata

Para que o bloco posterior pudesse contar com um pavimento a mais e, portanto, oferecer uma maior oferta de unidades, explorou-se ao máximo as diretrizes urbanísticas que determinava que o edifício pudesse ter até dez metros de altura em relação ao perfil natural do terreno sem a obrigatoriedade de recuos. Nesse sentido, optou-se pela escavação da parte posterior do lote em meio nível (1,44m) em relação ao nível de acesso e o uso do menor pé-direito possível em cada pavimento. Artifício que proporcionou o aparecimento do quarto pavimento do bloco posterior e mais, a possibilidade de conexão entre blocos com uma escada que permite o acesso a duas unidades em cada patamar, defasados em meios níveis.

Esse recurso de escavar uma das partes do terreno e a conexão em meios níveis entre blocos não pode mais ser utilizado. Isso porque, posteriormente à aprovação deste empreendimento, mudaram as normas de acessibilidade e passou-se a exigir acessibilidade universal a todas as unidades habitacionais. No momento em que esse projeto foi aprovado essa ainda não era uma exigência e só 10% das unidades precisavam ser acessíveis. No caso desta obra, as duas unidades acessíveis são as que se encontram na parte mais baixa do terreno, acessíveis por uma plataforma elevatória instalada entre o nível de acesso e o nível do pátio, meio nível mais baixo.

O volume anterior, aberto para a rua contém, no térreo, além das quatro unidades habitacionais, o acesso ao edifício, uma loja, um banheiro de serviço e uma pequena lavanderia coletiva e, na cobertura, um terraço jardim com horta e churrasqueira. O terraço na cobertura é o lugar do encontro, das festas e também serve como mirante, de onde se pode observar a paisagem da cidade. A cobertura do bloco posterior contém reservatórios e a maior parte das máquinas de ar condicionado, que também estão contidas no terraço jardim situado na porção frontal do edifício, misturadas à vegetação.

Todas as unidades têm praticamente as mesmas características, com trinta e três metros quadrados de área, um dormitório cada e dupla orientação. Têm suas principais aberturas voltadas para a rua e para o pátio interno, caso das quatro unidades contidas no bloco da frente e, no caso do bloco posterior, voltadas para o miolo de quadra e o pátio. As duas unidades acessíveis, situadas no térreo do bloco de trás são um pouco diferentes das demais, foram pensadas como um espaço único, sem paredes dividindo quarto e sala e contam com um pequeno quintal de três metros nos fundos do lote. Dessa forma, ao contrário do que acontece nas unidades dos pavimentos superiores, tanto no bloco anterior, como no posterior, que têm as salas abertas para o pátio e os dormitórios para a rua e o miolo de quadra, essas duas unidades têm os dormitórios abertos para dentro e a sala para o quintal.

Transições, conexões e continuidades

O acesso ao interior do edifício se dá no térreo por uma fresta na extremidade oposta à da loja, recuada em relação ao alinhamento do lote. Lugar de transição coberto pela laje do pavimento de cima, de onde pode-se ver o pátio interno, meio nível mais baixo. O pátio, além de ser um importe recurso espacial para iluminação e ventilação, é lugar de estar, com características de uma pequena praça ajardinada, de onde se pode perceber todo o espaço do edifício.

Além disso, o pátio interno também funciona como um espaço de continuidade e expansão de todas as unidades habitacionais. As janelas, dos quartos, no caso das duas unidades acessíveis e das salas, no caso das unidades situadas nos pavimentos superiores voltam-se para dentro, o que estimula, por sua vez, as relações de vizinhança.

A escada de conexão entre pisos é aberta e em seus patamares é que estão as portas de acesso às oito unidades dos pavimentos superiores, sempre duas por pavimento, uma de frente para a outra, o que acaba potencializando também as relações de vizinhança (bem como as janelas interiorizadas). O momento do acesso tem uma particularidade que é o fato de que da porta de madeira opaca, entra-se num espaço interno, mas que é também externo, uma vez que que dele pode-se ver fora através da janela da varanda contígua.

Dos últimos pavimentos do edifício, segundo do volume anterior e terceiro e quarto do posterior, pode-se, das escadas, patamares de acesso, varandas e janelas das unidades, vislumbrar também a cidade por cima das coberturas das edificações dos lotes vizinhos. Isso graças aos recortes previstos nas paredes de divisa. Além dos visuais, essas aberturas nas paredes de divisa melhoram também as condições de iluminação e ventilação natural do vazio central e por decorrência das unidades habitacionais.

O desenho dos espaços livres tem nesta obra grande importância, o que qualifica ainda mais a experiência arquitetônica e espacial. É o caso do desenho do piso do pátio interno, seus bancos em concreto e a vegetação, bem como do desenho do terraço de cobertura, com sua bancada em concreto com pia e churrasqueira, piso elevado e horta.

Edifício Tico RV, São Paulo SP Brasil, 2020. Arquitetos Danilo Terra, Fernanda Sakano, Juliana Terra e Pedro Tuma (autores) / Terra e Tuma Arquitetos Associados
Foto Pedro Kok

Estrutura e materialidade

O edifício foi feito em estrutura de concreto armado moldado in loco e explora essa característica construtiva como parte importante de sua linguagem e expressão. Lajes, vigas e escada em concreto armado foram deixadas aparentes. Os pilares estão embutidos nas paredes de divisa e também nas paredes entre unidades, situadas no eixo de simetria da edificação. As alvenarias externas são de bloco de concreto e as internas foram feitas em drywall, revestidas e pintadas de branco. As alvenarias das fachadas externas, voltadas para a rua e para o miolo de quadra, foram revestidas com ladrilho hidráulico colorido rosa, o que acontece também nas paredes das fachadas internas e nos patamares de acesso às unidades. Já as outras paredes externas, voltadas para o pátio, foram revestidas e pintadas de cinza. No acesso, uma das paredes recebeu o revestimento de um bonito painel de azulejos.

Os caixilhos, na maior parte dos casos de piso a teto e de parede a parede como nas salas e dormitórios foram feitos em alumínio e pintados de cinza escuro, assim como os guarda-corpos metálicos. Os caixilhos dos banheiros, para que não fossem vistos nas fachadas, foram acomodados lateralmente nos pequenos balanços das lajes.

Edifício Tico RV, São Paulo SP Brasil, 2020. Arquitetos Danilo Terra, Fernanda Sakano, Juliana Terra e Pedro Tuma (autores) / Terra e Tuma Arquitetos Associados
Foto Pedro Kok

Uma questão de escala

Apesar de seu baixo gabarito de três pavimentos, o edifício Tico RV se destaca na paisagem horizontal da quadra. Talvez pela ausência dos recuos, frontal e laterais, pelo uso comercial proposto no térreo e pelas janelas de grandes dimensões abertas para a rua.

A escala deste pequeno edifício é uma importante contribuição arquitetônica e urbanística. Jan Gehl, por exemplo, aponta que a partir do quinto pavimento, já não se pode perceber o ambiente urbano, a rua e os arredores, com tanta nitidez e que, portanto, essa deveria ser a altura máxima desejada quando se pensa em uma cidade mais humana, que estabeleça uma interface mais direta entre os seus habitantes, de quem está dentro da unidade para com o transeunte e vice-versa.

“A comunicação entre edifícios altos e seus arredores é excelente a partir dos dois andares inferiores e possível a partir do terceiro, quarto e quinto andares. Podemos, então, ver e acompanhar a vida da cidade; podemos perceber a fala, gritos e movimentos de braços. Estamos realmente participando da vida da cidade. Acima do quinto andar, a situação muda drasticamente. Os detalhes não podem mais ser vistos, as pessoas no nível do solo não podem ser reconhecidas nem contatadas” (4).

Outra característica importante desta obra é a delimitação clara entre o espaço público, da rua, e o espaço privado, do lote, alinhando-a aos conceitos preconizados por Jane Jacobs em Morte e vida de grandes cidades (5).

“Parece que temos algumas metas simples: tentar dar segurança às ruas em que o espaço público seja inequivocamente público, fisicamente distinto do espaço privado e daquilo que nem espaço é, de modo que a área que necessita de vigilância tenha limites claros e praticáveis; e assegurar que haja olhos atentos voltados para esses espaços públicos da rua o maior tempo possível” (6).

Esse é o caso deste pequeno edifício. Inserido em um pequeno lote, colado às paredes laterais de divisa, sem recuo frontal, abrindo diretamente para a rua e situado no alinhamento da calçada.

É possível que ao reaproximar a unidade habitacional das ruas estejamos experimentando certo resgate de qualidades inerentes à nossa cidade, que aparecem tanto nas casas de nossas vilas, térreas ou assobradadas, bem como nos edifícios habitacionais de baixa estatura, construídos em número considerável na cidade de São Paulo entre as décadas de 1920 e 1970.

Além desse prédio, há outros dois edifícios sendo executados no mesmo bairro, projetados também pelo escritório Terra e Tuma, o Tico Indiana e o Tico Manguatá, em ruas do mesmo nome.

Esses Ticos, como empreendimentos, se aproximam de algumas outras experiências realizadas recentemente em outras cidades brasileiras como Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro, bem como em outras cidades latino-americanas, especialmente em Buenos Aires, na Argentina, em que obras dessa mesma escala têm aparecido em grande número ao longo dos últimos vinte anos (7), em bairros com características semelhantes, predominantemente residenciais e horizontais.

Espera-se que essa escala de intervenção possa ecoar em outros cantos da nossa cidade como uma opção de transformação urbana, que entende a obra da arquitetura como parte indissociável do desenho da quadra e da cidade.

notas

1
Outras duas obras estão em execução atualmente no bairro, projetadas pelo escritório Terra e Tuma para a mesma incorporadora, são eles os edifícios Tico Indiana e Tico Manguatá.

2
PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO. Lei n. 16.050, de 31 de julho de 2014. Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo. São Paulo, Câmara Municipal, 2014.

3
PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO. Lei n. 16.402 de 22 de março de 2016. Disciplina o parcelamento, o uso e a ocupação do solo no município de São Paulo, de acordo com a Lei n. 16.050, de 31 de julho de 2014 – Plano Diretor Estratégico (PDE). São Paulo, Câmara Municipal, 2016.

4
GEHL, Jan. Cidades para pessoas. São Paulo, Perspectiva, 2015, p. 42.

5
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. 3ª edição, São Paulo, WMF Martins Fontes, 2011.

6
Idem, ibidem, p. 37.

7
FERRATA, Carlos Augusto. Habitação coletiva contemporânea em Buenos Aires. Edifícios baixos e médios realizados na cidade de 2001 a 2021. Tese de doutorado. São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2021.

sobre o autor

Carlos Augusto Ferrata é arquiteto e urbanista pela Universidade Anhembi Morumbi (1999), mestre pela Universidade de São Paulo (2008) e doutor pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Sócio administrador do Centro Arquitetura SS Ltda., professor da Escola da Cidade, da Universidade Paulista e do Senac.

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