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reviews online ISSN 2175-6694

abstracts

português
Ao lançar um olhar curioso sobre a cidade, Georges Perec distende o tempo e as coisas banais do nosso dia a dia e traz à tona o cotidiano e uma possibilidade de fazer a cidade quando não se faz nada.

english
By launching a curious glance at the city, Georges Perec stretches time and mundane things of our day by day and brings out the everyday life and a chance to make the city when nothing is done.

español
Al lanzar una mirada curiosa a la ciudad, Georges Perec estira el tiempo y las cosas banales de nuestra vida diaria y saca lo cotidiano y la oportunidad de hacer la ciudad, cuando no se hace nada.

how to quote

SILVA, Ricardo Luis. Catálogo de nada. Ou o que acontece entre pessoas, carros, ônibus e pombos. Resenhas Online, São Paulo, ano 14, n. 165.02, Vitruvius, set. 2015 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/14.165/5681>.


Vista da janela do café de la Mairie, ilustração do livro Tentativa de agotamiento de un lugar parisino, de Georges Perec

O livro Tentativa de agotamiento de un lugar parisino é um elogio à grande cidade e a seu cotidiano. É um convite a observação dos fluxos visíveis e invisíveis que marcam os espaços da cidade. É um sutil convite ao habitante da cidade a enxergar o espaço que atravessa todos os dias, sem filtros ou outros aparatos. Uma provocação que atravessa o tempo, as gerações, e se aproxima das nossas relações atuais com o espaço urbano.

Georges Perec (1936-1982), escritor francês, foi arquivista em um laboratório médico e começou a escrever tardiamente. Em 1965 escreve seu primeiro romance Les Choses (As coisas), narrando o cotidiano de Sylvie e Jérôme, um jovem casal de 20 e poucos anos vivendo os anos 1960 impregnados pela sociedade do consumo, alienados totalmente dos movimentos revolucionários estudantis e se relacionando com o mundo, e até um com o outro, a partir e por meio dos objetos que possuem e que desejam possuir. Com esse livro recebe o prêmio Renaudot e o convite para integrar o grupo literário parisiense OuLiPo (Centro de Literatura Experimental), do qual também era membro Italo Calvino. Perec é também reconhecido pelos livros A Vida modo de usar, O homem que dorme, A coleção particular.

Toda produção literária de Perec está no cotidiano, no comum. Um realismo puro, mas com acentuado olhar irônico e sem censuras, muitas vezes confundindo o leitor para uma prosa fantástica e surreal.

Para o amigo Italo Calvino, as palavras de Perec são

“O compêndio de uma tradição narrativa e a suma enciclopédica de saberes que dão forma a uma imagem do mundo; o sentido do hoje que é igualmente feito com acumulações do passado e com a vertigem do vácuo; a contínua simultaneidade de ironia e angústia”.

Palavras preocupadas com o tempo presente e a realidade crua de uma sociedade e uma cidade que começam a se perceber realmente, e definitivamente, modernas.

É com esse espírito e um olhar interessado que Perec, acompanhado de um caderno de anotações, sai de casa numa sexta-feira de um final de outono parisiense do ano de 1974, caminha até a Place Saint-Sulpice, no 6º Arrondissement, e procura um lugar para se acomodar e observar. Durante três dias seguidos (18, 19 e 20 de outubro) Perec se instala em cafés, tabacarias e bancos no entorno da praça para observar e registrar em seu caderno tudo o que acontecia a seu redor.

Mas o olhar do observador é interessado, nem tudo vale a pena ser visto, registrado: os edifícios históricos, os grandes monumentos, as lojas e estabelecimentos comercias não lhe interessam. Para ele “Boa parte dessas coisas, senão a maioria, já foram descritas, inventariadas, fotografadas, explicadas ou registradas” (p. 9). Seu propósito “consiste exatamente em descrever o restante: [...] o que acontece quando não acontece nada” (p. 9).

Sua tarefa: tentar esgotar o lugar, tirar tudo o que fosse possível dali. Ele vai anotando, em distintos momentos do dia, tudo o que estava ao alcance do seu olhar: os acontecimentos cotidianos da rua, a circulação de veículos, pessoas, animais, nuvens, a passagem do tempo. Seu caderno vira uma lista de todos aqueles fatos mais insignificantes da vida cotidiana. No domingo, após quase 60 páginas de notas e registros, Perec tem uma coleção de imagens, instantes, gestos; nas suas mãos um texto composto por fotografias escritas, um catálogo de ações, momentos de mais ou menos luz, pessoas caminhando e carregando coisas, carros estacionando ou partindo, turistas, ônibus de turistas, voos de pombos, objetos e jeitos.

A documentação não tem regra nem cadência, as coisas são registradas de acordo com a afetação dos sentidos do autor, sem ordem, hierarquia ou periodicidade. É impossível saber quanto tempo passa entre um registro e outro; eles podem ter acontecido simultaneamente, com segundos de intervalo ou até mesmo longos minutos. Apenas alguns elementos, registrados repetidamente, fazem as vezes de um metrônomo poético: os ônibus de transporte coletivo de linha são transformados em seus números de registro – 63, 87, 96 etc. – e um automóvel Citroën “dois cavalos” de cor maçã verde transformam-se em ritmo narrativo e marcador da passagem do tempo. Em um momento Perec inclusive se pergunta “Porque conto os ônibus que passam? Sem dúvida, porque são reconhecíveis e regulares: marcam o tempo, dão ritmo ao ruído de fundo. Em última instância, são previsíveis” (p. 32).

Perec assume um papel de iniciação de um etnógrafo, estabelece a presença contemporânea do vouyer urbano; um contemplador e narrador da cidade. Dá continuidade à estirpe genealógica de E. T. A. Hoffmann, Edgar Alan Poe, Charles Baudelaire, André Breton e Louis Aragon (1). Narra, assim como seus antecessores, a realidade que nos escapa. Lança-se no vazio, minusculariza a realidade, dá valor ao ordinário e ao inútil. Para Perec o nada é infinitamente rico que nada pode esgotá-lo, nem mesmo sua ação indiciária narrada no livro.

Retoma também, na própria atitude, o personagem convalescente de Poe, assistindo o movimento da multidão através da vitrine de um café, e marca poeticamente a passagem da cidade industrial com sua multidão homogênea de uma sociedade do trabalho, utilitária e higienista do final do século 19, para uma cidade pós-industrial com sua multidão multicultural de uma sociedade do bem-estar, consumista e turística do final do século 20.

E nessa tentativa de esgotamento daquele lugar, Perec joga e manipula uma discussão sobre a presença do Tempo na cidade contemporânea. E não é a primeira vez que o Tempo se torna uma questão nos seus textos: em “O homem que dorme” o autor faz várias tentativas de parar o tempo, reduzi-lo ao máximo. Já aqui, sua narrativa tenta exprimir, descrever e espacializar o Tempo na cidade.

“O 63. São cinco para as duas. Os pombos estão pousados no patamar central da praça. Voam todos de uma vez. Quatro meninos. Um cachorro. Um fugaz raio de sol. O 96. São duas” (p. 60).

Do começo ao fim do livro vemos um flâneur preguiçoso nos fazendo um convite derradeiro: ir à cidade e estar nela, estar quieto e contemplá-la. Talvez assumir esse lugar e esse tempo desconfortáveis, assumir a pausa nessa cidade que não para e estar nessa cidade que não é nossa.

Páginas do livro Tentativa de agotamiento de un lugar parisino, de Georges Perec

notas

NE – traduções das citações de responsabilidade do autor.

1
De Hoffmann, ver “A janela de esquina do meu primo”; de Poe, ver “O homem da multidão”; de Baudelaire, ver “O pintor da Vida moderna”; de Breton, ver “Nadja”; e de Aragon, ver “O camponês de Paris”.

sobre o autor

Ricardo Luis Silva, professor de Teoria e Estética da Cidade no curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Senac SP, é arquiteto formado pela Universidade Federal de Santa Catariana, mestre e doutorando em arquitetura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pesquisa as leituras urbanas, suas representações, seus personagens e suas possibilidades de incorporação do espaço urbano.

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resenha do livro

Tentativa de agotamiento de un lugar parisino

Tentativa de agotamiento de un lugar parisino

Georges Perec

2014

165.02
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original: português

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165

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