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Eduardo Barra comenta o livro Folhas em movimento: cartas de Burle Marx, de Guilherme Mazza Dourado, sobre a prática epistolar de Roberto Burle Marx.

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BARRA, Eduardo. Roberto Burle Marx por ele mesmo. Sobre o livro Folhas em movimento, de Guilherme Mazza Dourado. Resenhas Online, São Paulo, ano 21, n. 247.01, Vitruvius, jul. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/21.247/8547>.


Em uma época cada vez mais distanciada das práticas epistolares, chamam a atenção dois lançamentos editoriais separados por apenas 25 dias reunindo cartas de duas personagens brasileiras de grande importância política e cultural: Lula (1) e Roberto Burle Marx.

Cartas exigem concentração e rituais que em nada se assemelham ao cotidiano e desmedido disparo de e-mails ou ao irrefletido dedilhar de mensagens através de aplicativos, muitas vezes realizado enquanto se faz outra coisa. Como Guilherme Mazza Dourado detalha logo na introdução de Folhas em movimento. Cartas de Burle Marx, no passado havia que se escolher o papel e preocupar-se com a geração simultânea de cópia, bem como de seu respectivo arquivamento, além da necessidade de se organizar previamente o conteúdo e a forma de apresentá-lo, tendo em vista que a datilografia e o papel são pouco afeitos a indecisões e mudanças de rumo.

Roberto Burle Marx retratado por Francisco Bolonha, em 1944
Imagem divulgação

Não podemos esquecer que o documento inaugural dessa terra que veio a se chamar Brasil é exatamente uma longa carta endereçada por Pero Vaz de Caminha a El-Rey, que consta ter permanecido perdida nos arquivos reais por mais de trezentos anos. É claro que as cartas escritas por Burle Marx selecionadas pelo autor são bem mais recentes – a mais antiga tem “apenas” um pouco mais de setenta anos –, mas ainda assim parece difícil crer que mensagens transmitidas através dos atuais meios eletrônicos sejam capazes de sobreviver tanto tempo, o que nos leva a imaginar, com tristeza, que esse gênero literário e esse mecanismo de resgate da memória tendem a desaparecer em futuro próximo.

Em suas cartas, Burle Marx descreve a elaboração de vários projetos, como o terraço-jardim do Palácio Itamaraty, em Brasília, DF
Foto César Barreto

Como agravante, vale ressaltar que o multitarefas Roberto Burle Marx não mantinha o hábito da escrita, afora as cartas. Como declara em mensagem de janeiro de 1965, “para mim, é mais fácil pintar e desenhar jardins do que escrever”, informação que explica o fato de, hoje em dia, se encontrar muitos registros sobre o paisagista e sua produção, mas poucos oriundos de seu próprio punho, restando-nos a fundamental reunião de conferências organizadas e comentadas por José Tabacow no livro Arte e paisagem (2).

Paisagismo da residência Alfred Schulthess, nos arredores de Havana, em Cuba, desenhado por Burle Marx em 1957, a partir de um convite do arquiteto Richard Neutra, autor da moradia
Foto Leonardo Finotti

Tais constatações valorizam ainda mais a iniciativa de Dourado em trazer à tona documentos arquivados no escritório do artista-paisagista que poderiam, quem sabe, se perder com o tempo. Considerando ainda o detalhe de Burle Marx se relacionar com personagens de relevo nos campos da arquitetura e do paisagismo internacional, como Thomas Church, Garrett Eckbo, Walter Gropius, Josep Lluís Sert, Lawrence Halprin, Richard Neutra, Eero Saarinen, Susan Jellicoe e Ian McHarg, entre outros, dá para se ter ideia da importância desse material. Para nossa sorte, o autor dedicou-se ao longo de quatro anos à árdua tarefa de mergulhar nesse universo de milhares de folhas para separar aquelas que, reunidas, pudessem traçar a trajetória da emblemática personagem durante quarenta anos (de 1949 a 1990), trazendo como pano de fundo a própria história da arquitetura paisagística moderna no Brasil. Através da criteriosa seleta apresentada, descobrimos um Burle Marx humano, mais próximo de nós, desembarcado do pedestal mítico a que se costuma alçá-lo. Vemos um profissional lidando com a construção de sua imagem nos planos nacional e internacional ao mesmo tempo em que conquista e consolida suas muitas amizades, preocupado com a instabilidade da economia brasileira e com as fases de pouco trabalho em contraposição a outras muito assoberbadas – embora sem remuneração compatível –, sempre absorvido pelas dificuldades naturais da organização do Sítio Santo Antônio da Bica, “a fim de que seja uma das minhas melhores obras”, e como qualquer profissional contemporâneo, aborrecido com os jardins que não saem do papel e aqueles implantados em desacordo com os projetos, além dos clientes que demoram a pagar ou simplesmente dão calote. Em certa altura, revela que precisa “acabar com esse maldito medo de cobrar”, sentimento que provavelmente atormenta ou já atormentou o leitor que acompanha esse texto.

Jardins junto à residência do paisagista, no antigo Sítio Santo Antônio da Bica, RJ
Foto Guilherme Mazza Dourado

Nas missivas enviadas ao irmão Walter, que vivia nos EUA, explicita sua afeição pela família e seu envolvimento com o demorado processo de inventário do pai, comenta suas preferências musicais, reclama do estresse, das doenças e da monotonia das longas temporadas em Caracas, ao mesmo tempo em que o atualiza sobre suas frenéticas andanças profissionais pelo mundo, os convites que aceitou e os que foi obrigado a recusar e, apesar de tanta atividade, as dificuldades financeiras, uma vez que “a vida aqui, no Brasil, é cara e difícil”.  Essa declaração parece atual, mas é de 1959, e pode parecer mais atual ainda quando a cotejamos com uma explicação dos idos de 1955: “A situação política é confusa. Há um grupo que fala em golpe, outros afirmam que haverá eleições. [...] Dizem que Juarez [Távora] é muito honesto, mas pessoalmente tenho certo medo, pois se julga o messias, capaz de salvar o país desse caos e roubalheiras”. Entretanto, em momento posterior (1962), revela ao sócio John Stoddart e sua esposa Zélia que “apesar de tudo, de toda desordem política e bagunça, gosto daqui”.

Situado na cidade do Rio de Janeiro, o Parque do Flamengo ocupa uma faixa de terreno com mais de 1 milhão de metros quadros conquistados sobre o mar na Baia de Guanabara e apresenta um elenco botânico com 240 espécies, sobretudo árvores e palmeiras
Foto Nelson Kon

Ao fim de cada carta publicada, merece destaque o cuidado de Dourado em contextualizá-la e em descrever o papel das pessoas ou instituições mencionadas. Também é patente seu esmero ao reproduzir artigos da imprensa citados pelo paisagista, que somados à iconografia inédita ou pouco conhecida comparece de forma precisa para dar forma visual aos temas que estão sendo tratados. Assim descobrimos os bastidores de cada trabalho, os obstáculos transpostos e a grande satisfação quando o resultado final é bem sucedido. Mas há também o lado das dificuldades e angústias, como no complicado relacionamento com Lota de Macedo Soares – “mulher perigosa e prepotente” – ao longo do desenvolvimento de uma de suas obras mais notáveis, o Parque do Flamengo.

Burle Marx e equipe em expedição botânica ao Pantanal, em Mato Grosso, em 1978
Foto Koiti Mori

Aos poucos, os assuntos ligados à arte ou à correria dos dias vão sendo mesclados com preocupações ambientais, na medida em que o paisagista se aproxima dos botânicos e se tornam mais frequentes as expedições para coleta de plantas, atividade de grande importância para a assimilação de paisagens diversas e das potencialidades ecológicas e estéticas das associações vegetais, assim como para a ampliação do repertório florístico de seus projetos: “Cada viagem é para mim um ensinamento e, sobretudo, quando se faz uma excursão em companhia de um botânico como o Aparício Pereira”.

Região de Morro do Chapéu, na Bahia, onde faleceu o arquiteto Rino Levi, durante expedição botânica em 1965
Foto Adriano Gambarini

Soam pungentes as três correspondências de 1965 em que Burle Marx descreve o traumático desaparecimento do amigo Rino Levi, ocorrido em meio a uma expedição ao Morro do Chapéu, Bahia. Porém, o fato não o faz esmorecer, pois é chegada a hora de investir mais nas viagens científicas, contando com o Sítio como abrigo da coleção botânica que cresce a olhos vistos, incluindo espécies desconhecidas pelo paisagista e algumas até mesmo pela ciência – “é uma sensação toda especial a descoberta de uma planta nova”. Com o conhecimento ampliado pela vivência no interior brasileiro, ganha mais força ainda seu discurso preservacionista: “A flora nas regiões que percorremos está sendo dizimada e destruída brutalmente. [...] Às vezes penso estar vivendo num país de pesadelos, pois a incompreensão é quase geral. Aceitam esse flagelo como fato consumado [...]”. Em determinado momento, acrescenta com esperança: “Se pudesse viajar pelo Brasil durante dois ou três anos, poderia salvar um grande número de espécies da extinção”. E ao alertar os colegas de ofício – “a flora brasileira está para ser descoberta pelo paisagista” –, arremata com pesar: “Os jardins são feitos convencional e imbecilmente; com a utilização de meia dúzia de plantas exóticas, pensa-se que se fez um jardim”.

Em diversas de suas correspondências, Burle Marx se insurge contra a inescrupulosa derrubada florestal na Amazônia Brasileira, que infelizmente se agravou ainda mais na última década
Foto Adriano Gambarini

Tal engajamento o leva a conceder muitas entrevistas em que enfatiza a grave crise ambiental que ameaça o País, assim como faz uso do cargo de membro do Conselho Federal de Cultura (de 1966 a 1974) para se manifestar com insistência a favor da preservação da natureza, culminando com o incisivo e apaixonado depoimento prestado ao Senado Federal em 1976. Curiosamente, constatamos toda essa garra em um homem que, vinte anos antes, já denotava preocupação com a idade. Aos 45 anos, por exemplo, comenta que “nós todos estamos precisando pintar os cabelos”, e quatro anos depois, com menos de 50 anos, declara “espero ser um defunto enxuto”. Tão cedo, o gênio de múltiplas artes avesso à “cantilena de louvores” por achar que “elogios em demasia cansam”, sentia o peso da idade sem saber que ainda viveria por muito tempo. Mas, em paralelo, também sonhava com outros projetos: “Quem sabe no decorrer dos anos que ainda me restam me revele um bom escritor?”. Depois desse conjunto de textos agora divulgados, Roberto, sinta-se revelado. Faltava apenas ser publicado.

notas

1
CHIRIO, Maud; BOHOSLAVSKY, Ernesto (Org.). Querido Lula: cartas a um presidente na prisão/. São Paulo, Boitempo, 2022. Uma difícil seleção das 25 mil cartas e postais recebidos durante 580 dias de cativeiro, lançada em 31 de maio de 2022.

2
MARX, Roberto Burle. Arte e paisagem: conferências escolhidas. Organização e comentários de José Tabacow. 2ª edição revista e ampliada. São Paulo, Studio Nobel, 2004.

sobre o autor

Eduardo Barra é arquiteto pela FAU-UFRJ em 1976, envolvido com projetos de arquitetura da paisagem desde os tempos de estagiário no escritório de Fernando Chacel. Depois de ajudar a fundar o escritório Fábrica Arquitetura, onde permaneceu por 15 anos, mantém escritório próprio desde 1997, o Studio Eduardo Barra, desenvolvendo projetos paisagísticos de escalas variadas, de residências a parques, de empreendimentos comerciais a áreas de regeneração ambiental. É ex-presidente da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (2005-2008), autor do livro Paisagens úteis: escritos sobre paisagismo (Editoras Senac São Paulo/ Mandarim, 2006) e um dos organizadores do livro A vegetação nativa no planejamento e no projeto paisagístico (Rio Books, 2015).

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resenha do livro

Folhas em movimento

Folhas em movimento

Cartas de Burle Marx

Guilherme Mazza Dourado (Org.)

2022

247.01 livro
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