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drops ISSN 2175-6716

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Abilio Guerra comenta a situação política do país, em especial sobre as manifestações públicas feitas movidas pelo ódio irracional.

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GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 16, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.



Prometi silenciar, mas não consegui cumprir a promessa. Foi uma promessa íntima, então sou o único ofendido pela quebra contratual. Lembranças são o tema de hoje, ou a falta delas. Quando ainda adolescente me interessei pela política nacional e pela história do país, me deparei com um vídeo onde aparecia um inacreditável e histriônico Jânio Quadros. Foi eleito prefeito, governador e presidente da República, mesmo sendo aquele ridículo que o vídeo não permitia esquecer. Perguntei a familiares e vários adultos e, para minha surpresa, ninguém tinha votado nele! A exceção era uma tia, que se orgulhava do fato e muitos anos depois renovaria seu voto chancelando seu nome para prefeito. Jânio, mais velho e um pouco menos ridículo, foi reeleito alcaide de São Paulo apenas com o voto da minha tia...

Fato similar ocorreu com Fernando Collor de Mello: como podemos verificar nos depoimentos cotidianos, ninguém votou nele, então fica a impressão que foi conduzido ao cargo maior da República graças a alguma falcatrua na apuração, caso contrário estamos diante de alguma variação da Zica, onde o efeito da picada do transmissor é a amnésia seletiva. Se o pior ocorrer nas próximas semanas – o que é muito difícil –, podemos imaginar situações análogas num futuro que se esconde talvez a vinte anos pra frente dos dias de hoje.

Como não sou daqueles que preferem que o desastre ocorra para ter razão, considerem apenas um exercício de escrita, uma fábula imaginada no meio de um dia cheio de afazeres a cumprir. Nesse futuro próximo, quando os mais jovens festejarem a reconquista da democracia, perguntarão aos mais velhos, seus pais e avôs (a nós!), como se permitiu que o pior acontecesse e a maioria responderá que fez o possível para evitá-lo. A maioria terá se esquecido que carregou bandeiras e gritou palavras de ordem na passeata da família contra a corrupção, fato decisivo para o que pior ocorresse. Melhor então falar hoje, pois tenho filhos, tenho alunos, não se pode ficar omisso num momento tão crucial.

Antes dos argumentos, uma declaração forte: como muitos, sou contra a corrupção; quando José Genuíno foi preso fiquei muito triste pois tinha (e tenho) certeza que ele não meteu a mão na cumbuca e colocou as notas no bolso. Mas se esse era o preço a ser pago pela moralização dos hábitos políticos (que são divididos harmoniosamente por praticamente todos os partidos), que assim fosse feito. Ingenuidade indesculpável, afinal o combate à corrupção jamais foi a questão central do jogo político atual.

Se fosse, não teríamos Aécio Neves como um dos principais líderes do processo; não seria imaginável a demarcação das ocupações das ruas durante as manifestações em nossas grandes cidades por grupos de extrema-direita, liderados por energúmenos analfabetos bancados por dinheiro norte-americano de origem ultraconservadora; não seria tolerável a suspensão dos direitos políticos individuais, o pré-julgamento e a execração pública de quem quer que fosse; não seriam admissíveis os vazamentos de processos judiciários sigilosos, sempre seletivos, em um conluio assustador entre Procuradoria Geral da República, Poder Judiciário de primeira instância e as grandes corporações da imprensa; não seriam levados a sério os argumentos que estamos diante do maior caso de corrupção da história do país, como se soubéssemos quanto custou a construção de Brasília (ninguém sabe...); como se não tivesse existido a turma do primeiro escalão do governo militar cujos membros eram, ou se tornaram, contrabandistas de diamantes e presidentes de multinacionais; como sequer tivessem nascido aqueles que venderam a preço de banana centenas de empresas estatais com empréstimo subsidiado pelo BNDES; como se um ex-presidente não tivesse sacado, graças a informações privilegiadas, todos seus milhões horas antes do fechamento do falido Banco Santos; como se o desvio escandaloso de recursos no sistema metroviário paulista fosse um roteiro ficcional premiado no festival de Sundance. Para que esse embotamento da memória ocorra é necessário doses cavalares de ignorância, ingenuidade ou hipocrisia.

Certamente dentre as milhares ou milhões de pessoas que se encaminham agora para as manifestações temos gente bem intencionada, mas onde está a simples curiosidade diante do que não está sendo dito ou a desconfiança diante do que é repetido à exaustão?! Não estão surpresos que em uma economia complexa como a nossa apenas as grandes empreiteiras são lideradas por corruptos? Seria apenas coincidência que é uma das poucas áreas que temos expertise e força econômica para atuar no exterior em pé de igualdade com os norte-americanos? Não consideram estranho, esquisito, suspeito, que apenas uma parte restrita das denúncias sobre corrupção sejam investigadas pela polícia e pela imprensa – coincidentemente sempre aquelas relacionadas a um determinado partido – enquanto infindáveis denúncias e provas contundentes contra outros políticos e partidos sejam negligenciadas, minimizadas, esquecidas?

Ora, uma luta seletiva contra corruptos não é uma luta contra a corrupção; na verdade, estamos diante de uma clara defesa seletiva da corrupção, autorizando que aqueles que sempre nos saquearam continuem seu trabalho, pois há completa imunidade para certas classes de ladrões. A luta contra a corrupção foi desde o início a nuvem de fumaça para acobertar o verdadeiro objetivo de todo esse processamento histórico: colocar um “The End” no processo de inclusão social, arrancando do Palácio do Planalto um governo eleito democraticamente pela maioria da população.

O que está na mira são as políticas sociais, que foram tão ridicularizadas e combatidas por amplos contingentes conservadores e reacionários, que sempre se recusaram a aceitar que é obrigatório pagarmos uma dívida social histórica, uma necessária retratação econômica-ética-moral pelo que aconteceu anteontem. Essa gente está hoje nas ruas comemorando a iminência do fim das “bolsas para preguiçosos” e “cotas para acomodados”. A maioria dos manifestantes de hoje se envergonhará no futuro por ter compartilhado as ruas com essa corja, mas será tarde. Restará apenas o esquecimento, a amnésia seletiva.

Como alguns, quero o combate severo da corrupção, mas que seja a sério ao ponto de colocar os grandes ladrões no xilindró (e que eles parem de dar risada em nossa cara), não uma retórica vazia e descomprometida com o futuro democrático do país. Ou os ignorantes e ingênuos ainda não se deram conta que estamos diante de um golpe, coisa que os hipócritas já sabem há muito? Acabo meu posicionamento abrindo espaço para as lúcidas palavras de Luis Nassif, com sua interpretação do processo histórico que estamos vivendo:

“A velha ordem passou a se resumir a empreiteiras corruptas, cooptando o sistema político e judiciário, e um governo populista que cooptou a população com políticas sociais paternalistas. E não a lenta reconstrução democrática, os avanços civilizatórios (dos quais o próprio MPF foi agente importante), os avanços tecnológicos nas áreas do pré-sal e da defesa, o feito histórico de tirar milhões de pessoas da miséria e reduzir graus históricos de desigualdade. A corrupção foi o álibi para apagar a história recente do país, até a luta pela redemocratização” (1).

notas

NA – texto originalmente publicado no álbum do Facebook "Crônica de andarilho”, texto 51, em 13 de março de 2016.

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 1. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 2. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho 3. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho 4. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183.01, Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.

GUERRA, Abilio. Do sadomasoquismo. Crônicas de andarilho 15. Drops, São Paulo, ano 18, n. 124.01, Vitruvius, jan. 2018 < www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.124/6820>.

GUERRA, Abilio. Do cordão de isolamento: ano novo, realidade arcaica. Crônicas de andarilho 16. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.06, Vitruvius, dez. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6822>.

GUERRA, Abilio. Do choro – entre lágrimas e música. Crônicas de andarilho 17. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 212.04, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.212/6923>.

GUERRA, Abilio. Da cavalaria de hoje e de antigamente. Crônicas de andarilho 18. Drops, São Paulo, ano 18, n. 126.06, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.126/6926>.

GUERRA, Abilio. Da inveja infame: a trajetória histórica de Lula e a viagem pela metrópole de um casal qualquer. Crônicas de andarilho 19. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 133.03, Vitruvius, abr. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.133/6953>.

GUERRA, Abilio. Do andaime. Crônicas de andarilho 20. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 134.04, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.134/6984>.

GUERRA, Abilio. Da dobradura. Crônicas de andarilho 21. Drops, São Paulo, ano 18, n. 129.05, Vitruvius, jun. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.129/7033>.

GUERRA, Abilio. Das estradas da vida. Crônicas de andarilho 22. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 136.05, Vitruvius, jul. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.136/7049>.

GUERRA, Abilio. Da ilha longínqua. Crônicas de andarilho 23. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 137.05, Vitruvius, ago. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.137/7079>.

GUERRA, Abilio. Dos sem teto. Crônicas de andarilho 24. Drops, São Paulo, ano 19, n. 134.02, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.134/7164>.

GUERRA, Abilio. Da casa prototípica. Crônicas de andarilho 25. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 140.05, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.140/7165>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

 

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