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drops ISSN 2175-6716

sinopses

português
Até que ponto vemos em nossas cidades o reflexo de nossa sociedade? Este texto estabelece um paralelo com o conto “Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, em um esforço para explicitar quão pouco nos referenciamos na realidade de nosso espaço urbano.

english
Do we really understand our cities as a reflex of our society? This essay establishes a link with Oscar Wilde´s The Picture of Dorian Gray, in an effort to enlighten how little we reference ourselves in the reality of our urban spaces.

español
¿Hasta qué punto miramos en nuestras ciudades el reflejo de nuestra sociedad? Este texto establece un paralelo entre el Retrato de Dorian Gray, de Wilde, en un esfuerzo por explicitar cuán poco nos referenciamos en la realidad de nuestro espacio urbano.

como citar

MARTINS, Marcio. A cidade dos Dorian Grays. Drops, São Paulo, ano 17, n. 118.03, Vitruvius, jul. 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.118/6599>.



Dorian Gray possuía um retrato de si mesmo. Era um retrato de como, de fato, era sua alma. Guardava esse assustador reflexo de sua realidade, de suas escolhas, no sótão de sua magnífica casa, bem longe de sua vista e das visitas. Vivia do abuso do luxo, da beleza, corrupção e prazeres.

À medida que Gray prosseguia em sua vida decrépita, o quadro se tornava mais odioso. Gray, entretanto, olhava-se no espelho e ainda se via belo.

Sempre soube de sua real condição humana. De tempos em tempos, estava de frente para o detestável quadro.

De alguma forma, todos temos algo de Dorian Gray. Escolhemos nosso estilo de vida. Ignoramos o que, trazido à luz, nos obrigaria a mudar, a ser menos egocêntricos. Abraçamos o que nos oferece conforto e escolhemos seguir com a nossa realidade.

Se nossas cidades são o retrato de nossa sociedade, são também nosso retrato de Dorian Gray. Podemos buscar ver nelas apenas aquilo que nos agrada. Escolhemos que quadros olhar, que partes da casa frequentar.

Podemos fechar os olhos à nossa realidade quanto quisermos. Mas a realidade, ainda que longe dos nossos olhos, estará lá, presente em nossa alma.

Iludimo-nos e nos ocupamos com a cidade da beira do mar, de antes do túnel, a cidade dos portos olímpicos. Escondemos em nossos subúrbios e acima dos sopés dos morros – nossos sótãos – o que de fato somos.

Atemos-nos aos andares nobres, aos shoppings e condomínios fechados e nos deslocamos entre eles em nossos carros com as janelas fechadas, nossos coches opacos, para que não tenhamos que descortinar a realidade de nossa alma e, de alguma forma, nos reinventar.

Basil Howard, seu grande amigo e pintor do retrato, ao ver ali os horrores da alma de Dorian o indaga: – É isso que você fez de sua vida? Você deve ser ainda pior do que as pessoas dizem. Gray não aceita ser interpelado por sua realidade e o mata.

Tentamos esconder, retirar do caminho e enviar para cada vez mais longe o que nos envergonha em nossas cidades. Defendemos a retirada truculenta de favelas e o assassinato diário de sua população, nos justificando com discursos obtusos e individualistas.

Dorian Gray também resolveu destruir o retrato que lhe desagradava, ao invés de mudar a sua realidade. Foi encontrado morto em seu sótão. Havia destruído a si mesmo

nota

NA – Texto baseado em The picture of Dorian Gray, de Oscar Wilde. publicado pela primeira vez como uma história periódica em julho de 1890 na revista mensal Lippincott’s Monthly Magazine.

sobre o autor

Marcio Martins é arquiteto e urbanista na Subsecretaria de Urbanismo da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, consultor em gestão e projetos urbanos, graduado e mestrando da Universidade Federal Fluminense com pesquisa no tema autoexclusão no espaço urbano.

 

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118.03 urbanidade
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