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architexts ISSN 1809-6298


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português
Neste artigo as autoras discutem a modernidade e o processo de modernização em São Paulo, entre os anos 1900 e 1940, no contexto das reflexões críticas da Arquitetura e do Urbanismo no século XX


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ABASCAL, Eunice Sguizzardi; BRUNA, Gilda Collet; ALVIM, Angélica Benatti. Modernização e modernidade. Algumas considerações sobre as influências na arquitetura e no urbanismo de São Paulo no início do século XX. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 085.05, Vitruvius, jun. 2007 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.085/240>.

Este artigo discute a modernidade e o processo de modernização em São Paulo, entre 1900 e 1940, no contexto das reflexões críticas da Arquitetura e do Urbanismo no século XX (2).

Neste sentido, tem por objetivo evidenciar os principais aspectos da arquitetura e do urbanismo identificados nesse caso específico. Finalmente, enfatiza o importante papel da reflexão crítica para análise e formulação de políticas urbanas, capazes de enfrentar os problemas conseqüentes do desenvolvimento das metrópoles latino-americanas. Defende-se que essas políticas devem se fundamentar na compreensão de sua problemática atual que envolve aspectos históricos relativos às transformações econômicas e sociais. Para tanto, o presente artigo recua à primeira metade do século XX, período este em que ocorrem expressivas mudanças espaciais e socioeconômicas na cidade de São Paulo, o que permite definir os efeitos da modernidade e da modernização sobre o território. O conhecimento desse processo de transformação (a modernização) constitui um patamar consistente capaz de proporcionar visão crítica e a partir de onde é possível formular propostas de ação visando a promoção do desenvolvimento com base em reflexões e práticas de natureza urbana e regional.

Modernidade e Modernização: uma discussão crítica e metodológica

A elaboração de uma resposta consistente à indagação do que é a modernidade, no campo da arquitetura e do urbanismo é, sem dúvida, instigante e desafiadora tarefa para os historiadores e os críticos. Indicar caminhos para solucioná-las parece se tornar ainda mais árduo, quando esse objeto conceitual e genérico (a modernidade) se refere àquela dos países latino-americanos, em processo de desenvolvimento socioeconômico e cultural.

À primeira vista, a generalidade do termo constitui obstáculo a construção conceitual, e essa universalidade, enquanto idealização requer o confronto sistemático com a contingência, com os eventos que permitem compreender o fenômeno moderno em contextos específicos (processo de modernização). A corrente identificação do movimento moderno a um núcleo crítico representado pelo racionalismo europeu não parece satisfazer os espíritos inclinados a respeitar as diferenças, as tensões históricas e situações nas quais a modernidade floresceu.

A posição crítica de que o moderno se identifica ao modelo do racionalismo eurocêntrico parece não se sustentar, apesar de que estruturas cognitivas capazes de explicitar e dar coerência interna a várias disciplinas tal como a arquitetura e o urbanismo podem determinar um método, embora discutível.

Goldhagen (3) assinala a redução representada por tais modelos, padrões que efetuam uma restrição do campo de visão, à luz do qual um fenômeno toma forma. Para os historiadores cuja perspectiva eurocêntrica determina o enfoque historiográfico, as manifestações que não se encaixam nos padrões de análise são vistas como interessantes desvios, anomalias, ou permanecem ignoradas, à margem da crítica. Quando um parâmetro rígido se impõe como fio condutor da narrativa histórica, as experiências paralelas e distintas se submetem a uma visão hierárquica, e a modernidade dependente surge como manifestação subserviente, conformada por uma abordagem idealizada.

O propósito de enfocar os antecedentes da modernidade, partindo da situação histórica encontrada no ambiente europeu e dos Estados Unidos, não significa submissão reducionista, uma vez partindo do pressuposto da aceitação da complexidade do curso histórico, de sua não-linearidade e de sua feição específica, no Brasil e na América Latina. É importante observar, do ponto de vista metodológico, que a importância conferida a determinados arquitetos e obras, no discurso histórico é instrumental, e não é sinônimo apenas de uma vontade manifesta. A seleção de exemplos não se fundamenta em conferir a um ou a outro a epígrafe de autor indispensável, mas de tornar explícito em que cada contribui para a modernidade. Assim, em sua dinâmica esse processo evidencia racionalismos, expressionismos e organicismos, cidades planejadas conforme uns e outros conceitos, revisões historicistas e enfáticas das identidades, preocupações com o ambiente sustentável, com o espaço público coletivo e com o espaço percebido, evitando-se qualquer forma de homogeneização e compreendendo os fenômenos em seu contexto, tempo-espacial.

É preciso enfatizar que a modernidade, do ponto de vista de quem elabora seus princípios, é um discurso, que unifica em superfície muitos movimentos ou processos. Jencks (4) denuncia a predominância desse centro racionalista, ao denominar Movimentos modernos em Arquitetura sua obra, na qual apontou distintas categorias de análise passíveis de aplicação à arquitetura moderna. Essa complexidade aceita demole o caráter monolítico da unidade discursiva, corrói o caráter de ideologia única e expõe o conjunto das múltiplas proposições e dos distintos processos que é necessário enunciar, para caracterizar o movimento moderno, sobretudo se o que se deseja são os seus contornos da perspectiva brasileira. A necessidade metodológica de abordar não somente a pluralidade de manifestações e de respostas, mas as transformações do ambiente construído, dos significados sociais, econômicos e políticos que acompanham a aparência estética e as expressões da arquitetura, mostra-se indispensável.

Para Campos, o conceito de modernização surge no pensamento sociológico para descrever processos de transformações resumidos na passagem para a sociedade industrializada. Este autor assinala que

“Na acepção leiga, modernizar significa atualizar os elementos da vida social, cultural, política e material no sentido sinalizado pelos países “adiantados”. Na acepção sociológica, a modernização resumiria as múltiplas transformações sociais, econômicas, demográficas, culturais, comportamentais, institucionais e políticas que acompanha o processo de produção capitalista e as novas realidades e relações resultantes” (5).

Entender a modernização urge demarcar e contextualizar os antecedentes modernos e desvendar o discurso de modernidade, dessa forma pluralista e relacional. Requer compreender obras e projetos arquitetônicos frente às transformações territoriais e urbanas, que determinaram propostas e ações urbanísticas, indissociáveis do contexto e do devir histórico. O ponto de partida que se determina para a modernidade é também um parâmetro metodológico, ao consistir em suporte para poder compreender a pós-modernidade e a situação contemporânea.

Partindo da definição do produto ou do objeto arquitetônico e urbanístico como construção do espaço e da matéria, em que forma e conteúdo se relacionam de maneira intrincada (conforme entende Montaner) (6) define-se uma metodologia na qual se abandona a visão unidimensional das formas como apenas contorno ou aparência estética, substituindo-a por outra em que o significado se expande e avança, adquirindo conotações progressistas.

A visão reacionária de que a análise das formas da arquitetura e o urbanismo podem gerar tão somente o formalismo pode então ser substituída por uma posição dinâmica, superando a antinomia entre matéria e forma. Dessa maneira, arquitetura e urbanismo são expressão de mundos distintos e complexos, diluindo as fronteiras das disciplinas e permitindo a relação da arquitetura com as artes e demais manifestações culturais e sociais. Este pensamento interdisciplinar e multidimensional se opõe à universalização cartesiana e simplificações racionalistas.

Os mecanismos e mundos criativos, determinantes da expressão arquitetônica e urbanística, se explicam com o conhecimento da constelação de eventos que os cercam, sendo que há

“um repertório [...] de mundos formais; em cada um destes mundos é possível detectar as raízes e as leis que os regem; existem implicações entre as lógicas e as éticas, existem teorias científicas, filosóficas, estéticas e políticas que, interligadas a tais repertórios de formas, os legitimam” (7).

Para cada um destes mundos de formas, relativos a um sistema de implicações que os regem, é possível remeter às técnicas, aos materiais, às concepções de estrutura, ao comportamento em um dado ambiente e contexto urbano, revelando as lógicas e as metodologias que materializam o objeto arquitetônico devidamente inserido na dinâmica histórica e urbano-territorial, construindo essa dialética inevitável e necessária da arquitetura e da cidade.

Modernidade: a lógica dos antecedentes

A cidade é a grande síntese da sociedade, assinala Ianni (8), ao enunciar que é nas grandes cidades que se desenvolvem e refinam as sociedades, ao emergirem processos e estruturas próprias à sociabilidade. É a cidade o pólo atrativo de energias, concentrando-as, fazendo germinar idéias, movimentos artísticos e culturais, ideologias ou revoluções. A cidade se constituiu, para a sociedade em transformação de meados do século XIX, o grande palco e lugar de mudanças, da efervescência da produção, do impasse, das grandes rupturas, bem como de desigualdades e diversidades de todas as ordens.

A cidade investe também no grande centro decisório, no que diz respeito às opções políticas e econômicas, à escolha por rumos capazes de orientar as formas e amparar as conseqüências do desenvolvimento. Constitui o espaço do planejamento e de políticas urbanas e territoriais. Naturalmente a cidade se faz o palco da modernidade, assim como de uma enunciada pós-modernidade, com a urbanização, a circulação de bens e mercadorias, os fluxos de capitais, da produção e de mão-de-obra. Assiste à separação entre o Estado e a Igreja, seculariza a vida, tornando-a ao mesmo tempo individual e coletiva. Nela florescem as artes de vanguarda, a arquitetura, o cientificismo com as suas marcas inevitáveis enraizadas na ânsia de progresso material e técnico, o urbanismo que se estabelece como ciência e o planejamento conduzindo o caos decorrente de sua existência.

Na cidade moderna nascem as distinções entre o público e o privado, o cidadão e a sociedade e o Estado, assim como a natureza fluida e de experimentação próprias ao espaço urbano. É na cidade moderna, coletiva e anônima a um só tempo, em que os valores de transitoriedade e fugacidade assentam, expressos no espaço como laboratório (9) ambiente de exercício da modernidade vanguardista.

No plano mundial e visto de uma perspectiva eurocêntrica, as transformações culturais de que a cidade moderna é o epicentro emergiram desde muito antes, no marco entre 1750 a 1900, seguindo os limites determinados por Kenneth Frampton (10). Este autor reconhece com base em uma demarcação recuada (o Século XVIII e a Ilustração) o advento da cidade moderna que nasce com a organização da capacidade humana de controlar a natureza, acompanhada da ampliação da consciência das grandes transformações assistidas pela sociedade ocidental européia, em face de um novo estágio de formação cultural da burguesia ascendente. As mudanças de natureza tecnológica assistem à realização de infra-estruturas e à ampliação da capacidade produtiva calcada na industrialização. A expansão da consciência promove a elaboração de categorias e conjuntos organizados de saberes associados ao modo historicista de compreensão.

Assumir o escopo científico de investigação afirma a racionalidade emergente, a qual se configura no território com as obras rodoviárias e hidroviárias dos séculos XVII e XVIII, bem como faz nascer instituições como a École dês Ponts et Chaussées (1747), as disciplinas humanistas da Ilustração, a Sociologia, a Estética, a Ciência da História e a Arqueologia modernas. A elaboração da linguagem arquitetônica manifesta os efeitos desse ambiente, eliminando de forma paulatina os excessos decorativos do Rococó, abrindo-se à busca de expressões condignas ao momento.

A arquitetura deixa então de enfatizar a cópia dos monumentos de um passado glorioso, lançando-se à procura dos princípios em que se basearam os projetos dos arquitetos que deixaram lastro significativo, abandonando os códigos estilísticos e procurando a racionalidade metodológica. A razão presente nos princípios estruturais e construtivos e não apenas a harmonia de padrões estéticos se impõe como a contribuição do Neoclássico à elaboração dos princípios modernos. Schinkel procura essa verdade estrutural que para ele o gótico representa nas catedrais, da mesma forma como Viollet-Le-Dûc observa essa mesma arquitetura em França (11) assinalando-lhe a dignidade e significado cultural.

Ao mesmo tempo em que essa nova consciência de natureza cientificista se constrói, concentrando-se no Racionalismo e nos princípios arquitetônicos fundamentados no conceito de verdade, o território urbano ganha sua feição inovadora, negando o espaço finito da cidade murada de outros tempos.

Sistemas de comunicação e infra-estruturas, aperfeiçoados ao longo de todo o século XIX, permitem mobilidade e fluidez de trânsito no território, dinamizando a informação e acelerando o ritmo de percepção da vida cotidiana e do devir histórico. O advento dos meios de comunicação e inovações relativas à industrialização nascente possibilita liberdade e mobilidade à população. A ferrovia, a imprensa diária e o telégrafo, os trilhos e a metalurgia proporcionam invenções como a longarina, a estrutura da viga metálica e a forja do ferro, modificando as condições dos assentamentos e deslocamentos no território.

A cidade finita sofre expressiva transformação e o espaço urbano é remodelado à luz do ritmo intenso do processo produtivo industrial. Tais movimentos propiciam a vinda de contingentes camponeses para as cidades, enraizando-os no ambiente urbano que amadurece com a industrialização e com a localização das instalações industriais junto às fontes de energia e de escoamento, representadas pelos rios. A concentração humana e a necessidade de investimentos em infra-estruturas de saneamento se fazem acompanhar da melhoria dos padrões de vida, assim como do declínio da mortalidade, favorecendo o adensamento populacional e a explosão demográfica.

No entanto, ao mesmo tempo em que processos culturais e discursos emergem, há elaboração de teorias e de propostas arquitetônicas e urbanísticas. Na prática a cidade moderna apresenta-se então como realidade complexa e desigual. A partir de meados do XIX, áreas centrais em processo de degradação e antigos bairros se transformam em lugares insalubres e miseráveis, favorecendo a especulação imobiliária e a elevação dos preços da terra urbana e dos imóveis, devido à escassez da oferta em áreas próximas aos centros de produção e de trabalho. Moradias exíguas e em péssimo estado de conservação e cortiços proliferaram, desprovidas de condições mínimas de habitação, ventilação e iluminação, carentes de relação com espaços públicos e abertos, instalações sanitárias e sistemas de coleta e destino dos detritos.

A cidade confronta a modernidade com o efetivo processo de modernização, fazendo o processo histórico fluir com a dinâmica entre a teoria e a práxis.

Os efeitos da modernização das cidades e a busca de um novo modelo urbano

Na última década do século XIX, as grandes cidades européias experimentaram um expressivo crescimento urbano decorrente da modernização intensa dos modos de produção. Londres, por exemplo, passou de 2,3 milhões de habitantes para 5,6 milhões em 1891, concentrando cerca de 4,2 milhões de habitantes na área urbana (12). Com a consolidação da sociedade urbano-industrial e do progresso técnico-científico, encontra-se, por um lado, a produção e a reprodução do sistema sócio-econômico predominante. Por outro lado, os efeitos advindos desse modelo geram e multiplicam os problemas enfrentados nas grandes cidades, entre eles, o crescimento demográfico, a degradação das condições de habitação da população operária, o aumento do setor de serviços, transformações ambientais e estéticas, entre outros.

Para Campos potencializa-se naquela ocasião a ação transformadora do capital, onde a modernização das cidades constitui a principal referência da transformação urbanística. “Remodelada e equipada a grande cidade poderia emergir como sede e símbolo do avanço modernizador” (13). A cidade de Paris, assinala o autor, torna-se o primeiro grande exemplo dessa transformação, o principal paradigma, onde Haussmann resumiria através de ações urbanizadoras nessa metrópole “os ideais urbanos do capitalismo em ascensão.” (14).

Nesse contexto, marcos legais acompanham a modernização das cidades visando dirimir e controlar efeitos perversos no território, provocados pelo crescimento do contingente de população urbana. Reformas sanitárias e a aplicação de algumas leis geram a regulamentação da construção, acarretando a criação de órgãos e entidades tais como a Comissão Real sobre o Estado das Grandes Cidades e dos Bairros Populosos, em 1844, ou o Public Health Act em 1848, ambos na Inglaterra.

Por essa ocasião, emergem importantes críticos do modelo urbano vigente (15), entre eles Ebenezer Howard, que ao publicar o livro Tomorrow: A Peaceful Path to Real Reform” – Garden Cities of Tomorrow, lançado em 1902 (16), constitui uma das mais importantes referências da modernidade. Howard defende como modelo de cidade a incorporação da natureza ao meio urbano.

“Sua intenção não era criar um subúrbio jardim, mas uma entidade cidade-campo em combinação permanente com dimensões controladas de 2.400 hectares para 32.000 pessoas, sendo 2.000 hectares para a área rural de 2000 habitantes e 400 hectares para a parte urbana de 30000 habitantes dividas em 6 partes ou bairros com 5.000 habitantes. A zona agrícola agiria como um amortecedor contra o crescimento incontrolável do centro populacional” (17).

Cumpre destacar que a concretização das idéias de Howard ocorre ainda no início do século XX com a existência de Letchworth. Situada a 56 km de Londres e construída pela Companhia The Garden City Pioneer ltd., essa cidade foi idealizada pelos arquitetos Raymond Unwin e Barry Parker. A partir de então, diversas cidades são construídas na Inglaterra incorporando essa concepção e influenciando outros países, incluindo o Brasil.

Tony Garnier também se destaca ao criticar duramente o modelo de cidade vigente, propondo o conceito de Cidade Industrial. Com uma população de 35 mil habitantes e crescimento previsto através do zoneamento, Garnier defende a separação das zonas industriais (junto ao rio e ferrovia) e hospitalares do restante da cidade. Em sua proposta o centro da cidade deve abrigar a parte administrativa e as quadras do setor residencial estar dispostas linearmente no sentido norte – sul, com 130 metros e no sentido leste – oeste com 30 metros, significando a melhor orientação solar e arborização das vias (18).

Embora as idéias de Garnier nunca tenham sido concretizadas na íntegra, sendo-o apenas de maneira pontual e restrita (como, por exemplo, no bairro Étans – Unis em 1924 e em Lyon em 1935), apresentam-se, segundo Frampton (19), no pensamento de um dos mais expressivos representantes do Movimento Moderno – Le Corbusier (Charles-Édouard Jeanneret-Gris), com a publicação de matéria do fólio da Cité na revista “L’ Esprit Nouveau”, manifesto do movimento Purista.

Entre as diversas correntes que caracterizam o movimento moderno, pode-se dizer que a principal delas é a progressista (20). Seus arquitetos mais representativos elaboraram em 1933, no III Congresso Internacional de Arquitetura Moderna – CIAM (a principal referência do movimento), a então denominada Carta de Atenas, em que enunciam suas idéias de forma doutrinária. No mencionado documento prega-se a oposição entre a cidade tradicional, caracterizada pela mescla e indiferenciação dos usos do espaço urbano e por seus problemas de salubridade, higiene, altas densidades, fábricas e habitações competindo no mesmo espaço, e a cidade moderna, compreendida como racional e funcional, devendo se reger pela separação de usos e funções.

Reunindo os princípios urbanísticos básicos do Movimento Moderno, a Carta de Atenas destaca-se pela sistematização dos quatro pontos estruturadores de um traçado racional para a cidade: habitação, trabalho, lazer e circulação.

O urbanismo moderno preconiza planejar e construir as cidades através dos diferentes usos, das distintas funções urbanas, localizadas em espaços setorizados. Le Corbusier, o mais significativo arquiteto moderno da corrente progressista, afirma que cada função urbana deve corresponder a um espaço distinto, defendendo a cidade segregada segundo seus usos e funções urbanas, caracterizada pela estrita separação entre habitar e trabalhar conectados pela função circular. As idéias de Le Corbusier visam a um único propósito: resolver a iminente crise habitacional e de circulação nas grandes cidades. Em seu entender o arquiteto deve priorizar um modo de alojar as pessoas de maneira decente e humana, e isso só seria possível mediante a produção industrial, a padronização e o urbanismo racional (21).

Nesse sentido, o Modernismo prega uma visão de sistema coerente, que na prática reúne um número de procedimentos e idéias para melhorar as condições de vida urbana da ocasião.

“planejamento da cidade foi concebido como meio de oferecer grandes soluções a todos os problemas urbanos, ou pela reconstrução radical para embelezamento da cidade ou pela construção de cidade-jardins completamente novas” (22).

Busca-se uma profunda transformação cultural capaz de contestar a divisão do trabalho, suas instituições, hábitos e interesses consolidados. Na verdade, a questão em foco não é apenas o melhor funcionamento urbano, mas uma cidade que seja capaz de prover a todos e reparta com eqüidade os benefícios dos possíveis melhoramentos.

Nesse sentido, o urbanismo moderno aparece como um instrumento que oferece uma solução formal ou figurativa à organização espacial da cidade e que incide em sua estruturação social, propondo – do ponto de vista puramente teórico, formas de convivência que tratam de evitar os males da sociedade industrial (23).

No Brasil, um país essencialmente agrário, o urbanismo não surge essencialmente como resposta à cidade industrial, uma vez que ainda no inicio do século XX a indústria não surtia quase nenhum efeito. Idéias vinculadas à urbanização nascem relacionadas a outras, de modernização da cidade como locus da classe dominante da ocasião. “Nascidas sobre a égide do modelo agro-exportador, muitas das propostas modernizadoras não traziam um componente industrialista” (24), mas o consideravam como foco principal a afirmar o papel do centro urbano como local das elites ligadas ao próprio sistema agrário.

Em São Paulo, a modernização articula-se aos ideais da nascente burguesia, que define a cidade como principal centro agro-exportador no início do século XX. A política de transformação urbana, empreendida nas primeiras décadas do século XX, propaga a modernização da cidade, importando e ao mesmo tempo adequando valores europeus e definindo espaços de prestígios na área central, bairros de elite vinculados à implantação das redes de infra-estruturas. Ainda que de forma tardia, a industrialização contribui significativamente para estimular o crescimento populacional e um contínuo processo de expansão da cidade na direção centro – periferia, onde as políticas modernizadoras não são implementadas.

O Modernismo está presente em São Paulo de distintas e várias maneiras, em especial contribuindo para a formação de seu patrimônio urbano construído na área central e nos bairros da alta renda.

Modernidade e modernização: reflexos no território paulista

No Brasil, a dialética entre princípios teóricos e práxis se consubstancia nos centros urbanos através da elaboração de projetos e da prática de renovação das áreas centrais, ocorridos a partir do início do século XX, período que corresponde aos primórdios da modernidade.

A renovação das áreas centrais e a implementação de novos sistemas de transporte público e viário substituem os antigos padrões arquitetônicos coloniais por modelos que remetem àqueles estilísticos europeus, afirmando assim a intenção de transformação modernizadora. Essas transformações representam não apenas a consolidação de um espaço modernizado, mas a afirmação de uma intencionalidade política e discursiva, de ingresso do país na história, ao perseguir o desenvolvimento progressista com a crença do poder transformador ilimitado da técnica e das ações controladas e racionalmente conduzidas.

Em São Paulo, a modernização se relaciona a instalação de um nó ferroviário estratégico, afirmando a posição de importância no estado e no país a partir de 1867, articulado a um processo intenso de crescimento populacional. Em 1876, São Paulo não tinha mais do que 26 mil habitantes sendo que em 1900 atinge 240 mil (Censo de 1900), a maioria de estrangeiros que vinham em busca de novas oportunidades (25).

No início do século XX, através da articulação entre as obras de infra-estrutura – energia, pavimentação, bondes e retificação dos rios – a modernização da cidade passa a ser de fato concretizada. A idéia de modernização é, naquela ocasião, essencialmente representada pelas obras de embelezamento do centro da cidade, pela implantação das redes de infra-estruturas para geração e transmissão de energia e bondes elétricos, ambos monopólio da Cia Light & Power, e pelos loteamentos de alta renda. Cumpre lembrar que a “Cia Light & Power associada à Cia City, em empreendimentos imobiliários e loteamentos, tornou-se o elemento chave para a produção de infra-estrutura que vai dar apoio ao desenvolvimento industrial e urbano que se anunciava” (26).

Pode-se afirmar que a modernização se consolidou com a elaboração de planos urbanísticos no início dos anos de 1900, entre estes o de melhorias na região do Vale do Anhangabaú (27). Considerado “os ‘fundos’ da área central” (28), o Vale do Anhangabaú se transforma no alvo do processo modernizador. Este fato ocorre a partir da valorização da terra urbana do lado oeste da cidade, fruto da implantação das ferrovias e do sistema de bondes eletrificados. Tais melhorias urbanas visam atender aos empreendimentos imobiliários de alto padrão realizados em Campos Elíseos e Higienópolis, resultando na construção do Viaduto do Chá e do Teatro Municipal (1902- 1911).

Essas realizações arquitetônicas estão imbricadas com o plano elaborado por Joseph Bouvard, cujo desenho de expressão clássica estabelece a relação entre o anseio modernizador, a elaboração do plano urbanístico e a linguagem arquitetônica adotada. Como assinala ainda Simões Jr. (29), o Parque Anhangabaú com seu requintado desenho e refinamento expressivo passa a exercer o papel de o espaço mais emblemático da cidade, em processo de modernização.

A partir da década de 1910, o processo de transformação do ambiente construído de São Paulo intensifica-se e, conseqüentemente, a paisagem urbana, decorrente dos melhoramentos na área central e da instalação de loteamentos de alto padrão. A construção do Viaduto do Chá permite a expansão do centro da cidade em direção à Rua Barão de Itapetininga, configurando o denominado Centro Novo. Bairros idealizados com base no modelo da Cidade Jardim (Jardim América, Jardim Europa, Pacaembu, Alto de Pinheiros, etc.) foram sendo construídos pela Companhia City (empresa de capital estrangeiro) contribuindo de forma expressiva para a valorização e embelezamento de parte da cidade, abrigando a crescente burguesia paulistana que vê na cidade a oportunidade de diversificação de seus investimentos.

Nos antecedentes do processo de verticalização da cidade destaca-se, em 1912, o Edifício Guinle a Rua Direita, de Hippolyto Pujol construído em estrutura de concreto armado, contando com oito andares. Em 1924 Christiano Stockler das Neves presenteia a cidade com o Ed. Sampaio Moreira, dotado de 14 pavimentos. Os palacetes paulistanos (nome dado aos edifícios naquela ocasião), tais como o Edifício Caldeira na Av. São João e o Martinelli se mostram significativos para o adensamento inicial da área central bastante despreparada para esse salto, à época (30).

Em 1918, a população do município de São Paulo atinge 528 mil habitantes, passando a cerca de 1,1 milhão, em 1935, e 1,3 milhão de habitantes em 1940. Esse rápido crescimento populacional da cidade impõe necessidades de soluções relativas à infra-estrutura de diversas ordens: energia, saneamento e principalmente, circulação (31).

Para solucionar a problemática da circulação, em 1930, o engenheiro Francisco Prestes Maia elabora o Plano de Avenidas, que objetiva orientar futuros empreendimentos previstos em conseqüência do desenvolvimento espetacular da cidade, nas duas décadas seguintes (32).Com base no modelo “haussmanniano”, Prestes Maia propunha um sistema viário capaz de remodelar a totalidade urbana, traçado a partir de uma estrutura radial perimetral – o perímetro de irradiação – modelo formal que deve ser adaptado às condições topográficas da cidade. Este articula centro e periferia, modificando substancialmente a estrutura urbana da cidade e prepara-a para o expressivo desenvolvimento econômico que sobrevém nos anos de 1950, com a implantação da indústria pesada e o uso intensivo do automóvel.

Na gestão municipal de Prestes Maia em 1938 o Plano é colocado em prática e atualizado em 1945, retomando-se o perímetro de irradiação e com ele implantando ações bastante significativas para a cidade, tais como a canalização do Rio Tamanduateí, o alargamento da Av. Rangel Pestana, a extensão da Av. Rebouças, o prolongamento das Avenidas Pacaembu até o rio Tietê e Nove de Julho com a implantação de um túnel que passava sob a Avenida Paulista, sendo os dois últimos melhoramentos urbanísticos relacionados aos novos loteamentos da Cia City (33). Estas obras são responsáveis pela construção de ligações inéditas entre os bairros e o centro da cidade.

Por um lado, o Plano de Avenidas é um instrumento de viabilização da modernização de São Paulo e por outro, um dos responsáveis por sua expansão. Conseqüentemente, a periferização da cidade sobrevém ao definir-se como princípio de desenho um perímetro de irradiação que deveria articular a partir da área central um sistema de vias que inicialmente atingem as áreas de várzeas, com as avenidas marginais. Assim, a cidade se expande através do sistema de vias e artérias preconizadas pelo Plano de Avenidas, associadas à intensa mobilidade dos modos transportes sobre pneus – individual e coletivo – que, naquele momento, passam a desempenhar importante papel na expansão urbana “ilimitada”.

A concretização das idéias previstas pelo Plano de Avenidas proporciona à área central da cidade a modernização infra-estrutural e viária e, conseqüentemente, a possibilidade de valorização imobiliária e fundiária. A concentração de capital na área central assume também a forma de um desenvolvimento arquitetônico que deve estar à altura dos melhoramentos urbanos realizados.

Os melhoramentos viários acarretam a remodelação de praças, ganhando-se em áreas calçadas. Obras arquitetônicas são erigidas como marcos do movimento de modernização da cidade entre elas o Estádio Municipal do Pacaembu (1940), a Biblioteca Mario de Andrade (1942), entre outras.

Acompanhando o desenvolvimento e o crescimento contínuo da cidade, inicia-se o processo de verticalização da cidade de São Paulo. Os arranha-céus assumem a posição de símbolos da modernidade. Inicialmente, a construção de edifícios para uso comercial na área central ocorre já nas décadas de 1910, 1920 e 1930. Porém, é a partir de 1933, principalmente, que surgem os primeiros edifícios residenciais. Segundo Gagetti e Righi (34) estes buscam misturar o comércio no térreo e residências nos pavimentos superiores, com destaque desta tipologia presente no bairro de Higienópolis.

O modernismo em São Paulo

Embora a cidade tenha passado por uma profunda transformação e modernização nas primeiras décadas do século XX, pode-se afirmar que até a década de 1940, o Movimento Moderno não constitui influência significativa na arquitetura paulista, marcando presença principalmente através da arte, da crítica e de artigos publicados em jornais da capital.

A modernização se manifesta na prática do Art Déco, de influência norte-americana, eliminando os ornamentos e os efeitos decorativos, embora os estilizando, como é possível observar no Edifício Saldanha Marinho (1929) de autoria do carioca Elisiário Antonio da Cunha Bahiana (35). Pode-se notar que Elisiário Bahiana influencia de forma bastante significativa, a partir de 1930, a modernização da cidade quando inicia sua mais produtiva fase ao se mudar para São Paulo. Em 1935 ganhou o concurso público para o Viaduto do Chá também em estilo Art Déco (concretizado na gestão de Prestes Maia), projetando também as galerias que fazem a ligação entre as praças do Patriarca e Ramos de Azevedo. O Edifício para Mappin Store e o Hotel Esplanada integram parte do conjunto que marcou o lugar como símbolo da modernidade da cidade.

Eventos pontuais de extrema importância, tais como o projeto e construção do Edifício Esther (1934-38) localizado a Praça da República, de autoria de Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho se destacam nessa ocasião, ficando os empreendimentos a cargo ou dos proprietários ou de empresas imobiliárias privadas – construtoras, imobiliárias ou grupos econômicos associados (36). O Edifício Esther inaugura não somente uma nova forma de realizar a arquitetura, mas implementa também formas inovadoras de uso e de programa (uso misto), diversificando as plantas e maximizando espaços.

Nas décadas de 1940 e 1950, perseguindo o ideal de modernidade e se inspirando na arquitetura moderna em desenvolvimento em São Paulo, arquitetos buscam linhas sóbrias e aplicação de novas tecnologias (o concreto armado e a instalação de elevadores).

É destacável o fato de que nessa mesma época, profissionais estrangeiros que dominam os princípios da arquitetura moderna iniciam atuação em São Paulo, como Lucjan Korngold, Gregori Warchavchik e Victor Reif, este último com expressiva produção arquitetônica residencial moderna.

Em 1947 a chegada de Adolf Franz Heep (discípulo de Le Corbusier, com quem trabalhou) marca a aquisição paulistana de um profissional de excelente formação e aptidões modernas. Este arquiteto diplomado em Frankfurt conheceu a prática profissional de Hans Meyer e Robert Mallet Stevens, vindo a trabalhar no estúdio de Le Corbusier entre 1928 e 1932. A presença desse profissional em São Paulo permite que sejam idealizados e construídos importantes edifícios que a partir da década de 1950 acompanham o impulso conferido à cidade através das obras previstas no Plano de Prestes Maia.

A abertura de novas avenidas (Nove de Julho, Rebouças, São Luiz) e a consolidação de um sistema viário que se dispunha a corrigir o anterior descolamento entre urbanização, verticalização e a arquitetura moderna conferem à paisagem construída sua carga simbólica modernizadora. Torres com funções terciárias construídas na região servida por esse sistema viário podem ser consideradas obras arquitetônicas que representam não somente a modernização da cidade, mas a aplicação efetiva de técnicas construtivas avançadas, como no edifício que abrigou a sede do jornal O Estado de São Paulo, em 1950, do Escritório Jacques Pilon e de Franz Heep (projeto então assumido por Giancarlo Gasperini, com a saída de Heep do escritório de Pilon).

No período entre 1930 e 1950, a cidade assiste ao desenvolvimento de áreas e bairros residenciais, gerando mudanças nos padrões de uso e ocupação do solo. Bairros como os Jardins, Higienópolis, Cerqueira César e Pinheiros são objeto de crescente valorização, pois se apresentam como interligações naturais com o centro novo e a região da Avenida Paulista (37). A construção de edifícios residenciais, em Higienópolis, por exemplo, inicia-se no entorno da Praça Buenos Aires e Av. Angélica, eixo de ligação com a Av. Dr. Arnaldo. A intensificação deste processo se dá a partir dos anos de 1940, em lotes antes ocupados pelas antigas residências de grande porte. Maria Cecília Naclerio Homem (38) assinala que a imagem deste bairro de portador de sólida tradição histórica assim como o fato de que dispõe de amplos lotes servem de incentivo ao mercado imobiliário para a construção de edifícios residenciais. Na periferia, bairros operários emergem longe de padrões considerados modernos onde “impunha-se a segregação das moradias populares e usos desprestigiados para as áreas menos valorizadas” (39).

Assiste-se assim, por um lado à crescente expansão imobiliária, incorporando as novas possibilidades da técnica da arquitetura e da construção daquele período e, por outro lado, o fortalecimento do Estado que passa a ser o organizador e promotor do desenvolvimento urbano e de seu arcabouço institucional. Sem dúvida, é um período de grande centralização de decisões nas mãos do poder público que se fez acompanhar de intensa valorização da terra urbana nas áreas privilegiadas pelos investimentos públicos e privados. Esse fato vem contribuir, de certo modo, para a intensificar a ocupação da periferia pela população de baixa renda, em áreas com características bastante distintas do que pode ser considerado moderno.

Considerações finais

O artigo procura estabelecer parâmetros metodológicos para elucidar os conceitos de modernidade e modernização no contexto brasileiro, entre 1900 e 1950, considerando o caso de São Paulo.

Partindo do pressuposto de que a modernidade é um conceito universal e que a perspectiva eurocêntrica como seu fundamento se esvazia de significado se apartada da compreensão desse fenômeno em contextos específicos, busca-se aqui percorrer o caminho de uma discussão crítica entendendo a modernização como processo. Para tanto, adota-se a análise do siginificado das intervenções urbanísticas e da arquitetura produzida relacionando-a com o desenvolvimento de São Paulo no período assinalado.

Evitando a aplicação linear e mecanicista de categorias de pensamento deslocados de situações reais e próprias perfaz a construção conceitual de um movimento moderno que não se espelha no modelo racionalista europeu. No entanto, o intuito é compreendê-lo observando as formas através das quais princípios e teorias encontram florescimento próprio frente às contingências e características do desenvolvimento brasileiro e paulistano à época considerada.

As categorias formuladas no plano genérico da teoria funcionam tão somente como balizadoras da procura da modernidade aqui manifesta e o lembrete de que não são modelos de encaixe evita reducionismos considerando especificidades e evitando desvios ou impasses da crítica ou menção histórica.

Adota-se, portanto, a perspectiva de uma relação mais complexa entre a arquitetura e o urbanismo e seus efeitos transformadores do território como método, entendendo que é preciso superar o obstáculo de que uma análise das formas arquitetônicas e urbanísticas gera necessariamente formalismo. Assim assinala-se a necessidade de superar antinomias tais como matéria e forma, entre arquitetura e urbanismo ou entre ambos e a dinâmica de natureza sócio – cultural.

É importante afirmar o papel desempenhado pela cidade e pelo ambiente urbano como manifestações fundamentais da relação entre arquitetura, urbanismo e desenvolvimento, enunciando a cidade como pólo essencial de atração de energias (fruto do trabalho, dos deslocamentos e da vida humana), e lembrando sua decisiva contribuição para as transformações que originaram o processo moderno.

Encarando a cidade como o locus por excelência dos fluxos e da secularização da vida, destaca-se o caráter vanguardista e concentrador dos inevitáveis sinais da modernidade. Na cidade moderna – européia ou brasileira – transformações culturais, tecnológicas, territoriais e sociais se fazem sentir, instigadas pelo espírito de superação de antigas e reacionárias formas de vida, afirmando-se a ideologia da racionalidade emergente.

Aspectos tais como meio de comunicação e transporte de massas, fluidez territorial e a transformação produtiva trazida pela indústria se mostram presentes em ambas as realidades, em proporções distintas. Embora os centros urbanos se alimentem deste ideário e o promovam, o processo de modernização efetivo é o resultado não apenas de idéias, mas da confluência entre teoria e práxis, princípios e forças de distintas ordens.

No caso paulistano esta dialética entre teoria e práxis se fez sentir na prática da renovação da área central, ou nos bairros jardins, ocorridos a partir do século XX, quando se destaca também a substituição de padrões arquitetônicos coloniais por outros, de feição européia, atestando assim o vínculo ideológico modernizador à matriz.

No entanto, tais ações transformadoras são fundamentais para a instalação em São Paulo de padrões inovadores, bem como de um desenvolvimento progressista, com a crença no poder ilimitado da técnica e de implementação de políticas racionalmente “controladoras”.

O período enfocado, por apresentar-se como fruto da elaboração de princípios modernos de urbanismo e de arquitetura apresenta-se como uma época de renovação e mudanças que busca modernizar a cidade e inseri-la no contexto mundial. Entretanto, tais princípios não serão propagados por toda a cidade, principalmente quando a partir da década de 1950 a moderna indústria automobilística irá aqui se instalar imprimindo novamente um padrão ligado ao desenvolvimento dos países centrais, o qual irá influenciar decisivamente o processo de crescimento populacional e a conseqüentemente a metropolização.

notas

1
O presente texto é fruto da disciplina "Tópicos Especiais em Arquitetura e Urbanismo", ministrada pelas autoras no curso de pós-graduação em arquitetura e urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

2
Tais reflexões pertencem ao escopo da disciplina Tópicos Especiais em Arquitetura e Urbanismo do Programa de Pós – Graduação – Stricto Sensu – da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de responsabilidade da Prof Dra. Gilda Collet Bruna com participação das demais autoras no período de fevereiro a junho de 2006.

3
GOLDHAGEN, Sarah Williams. “Something to talk about. Modernism discourse, style”. In Journal of the Society of Architectural Historians, vol. 64, nº 2, abr./jun., 2005.

4
JENCKS, Charles. Movimentos modernos em arquitetura. Lisboa, Edições 70, 1973.

5
CAMPOS, Candido Malta. Os rumos da cidade. Urbanização e Modernização em São Paulo. São Paulo, SENAC, 2002, p. 24.

6
MONTANER, Josep Maria. As formas do século XX. Barcelona, Gustavo Gili, 2003.

7
Idem, ibidem, p. 12.

8
IANNI, Octavio. “Cidade e Modernidade”, in SOUZA, Maria Adélia A. et al. (orgs). Metrópole e Globalização. São Paulo, Cedesp, 1999.

9
Idem, ibidem.

10
FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. São Paulo, Martins Fontes, 1997.

11
SUMMERSON, John. A linguagem clássica da arquitetura. São Paulo, Martins Fontes, 1999, 5ª edição.

12
HALL, Peter. Cidades do amanhã. São Paulo, Perspectiva, 2002.

13
CAMPOS, op.cit., p. 26.

14
Idem, ibidem.

15
Robert Owen (1771 – 1858) propôs em 1817, na Inglaterra, um modelo de cidade onde a harmonia e a cooperação produziriam uma comunidade auto-suficiente de 1.200 habitantes, com área industrial, área agrícola e centro de serviços e administrativo. Como fundamento desse modelo se evidenciam ideais de cooperativismo e socialismo, em que o ” excedente produzido pelo trabalho da comunidade, após atendidas as necessidades básicas, poderia ser livremente negociado, usando-se o trabalho empregado como termo de cooperação monetária”. Na França, Charles Fourier (1772 – 1837), propõe, em 1822, os falanstérios, unidades habitacionais para 1.600 pessoas, uma espécie de “Palácio Social” com dormitórios, refeitório, biblioteca e alas incluindo a igreja, bolsa de valores, teatro, torre de controle e telégrafo, com uma área de aproximadamente 400 acres para cultivo e pastagens. Dando continuidade a esta mesma idéia, Jean-Batiste Godin (1817 – 1879) abole o sistema comunal, alojando as famílias em apartamentos isolados em três edifícios habitacionais atendidos por serviços coletivos (educação, desde a creche ao ensino profissionalizante).

16
HOWARD, Ebenezer. Cidades-Jardins de amanhã. Tradução: Marco Aurélio Lagonego, Introdução: Dácio Araújo Benedito Otoni. São Paulo, Estudos Urbanos, Série Arte e Vida Urbana, Hucitec, 1996.

17
Idem, ibidem, p. 116.

18
ANDRADE, Lisa M. de Souza. “O conceito de Cidades-Jardins: uma adaptação para as cidades sustentáveis”, em São Paulo, Arquitextos 042, 2003. Disponível em http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq042/arq042_02.asp. Acesso em mar./2005.

19
FRAMPTON, K., op. cit.

20
Idem, ibidem.

21
FRAMPTON, K. (op. cit).; HALL, P., (Idem, ibidem)

22
HALL, op. cit.

23
Conforme Relph (1987, p.55-56, apud COSTA, op. cit.) o primeiro plano diretor elaborado para uma cidade foi o Plano para Chicago de Daniel Burnham (1909). Embora apenas parcialmente posto em prática, definiu detalhadamente como seria essa cidade em determinado momento do futuro, estabelecendo objetivos para que o seu desenvolvimento pudesse caminhar e, assim, constituiu uma prática que se tornou, a partir de então, generalizada para todas as cidades.

24
FRAMPTON, K. op. cit.

25
COSTA, op. cit.

26
CAMPOS, op. cit., p. 33.

27
ACKEL, Luís Gonzaga M.; CAMPOS, C.M. Neto, 2002, p. 14.

28
SIMÕES Jr., José Geraldo “Melhoramentos da área central de São Paulo: o caso da renovação da rua Líbero Badaró (1911 – 1918)”. In LEME, M. C. S. (org). Urbanismo no Brasil: 1895 a 1965. São Paulo, FUPAM / NOBEL, 1999.

29
Idem, ibidem, p. 205.

30
Idem, ibidem.

31
ALVIM, Angélica A. Tannus Benatti. A Contribuição do Comitê do Alto Tietê à Gestão da Bacia Metropolitana, 1994 – 2001. São Paulo, Tese (Doutorado). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, FAUUSP, 2003.

32
GALESI, R.; CAMPOS, C. M. “Modernismo e Moradia Vertical em São Paulo na década de 1930”, in Cadernos de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Vol. 1, nº 1, 2001.

33
SIMÕES Jr., op. cit.

34
GAGETTI, L. F.; RIGHI, R. “Verticalização e Produção de Edifícios Residenciais no Bairro de Higienópolis de 1933 a 1964”, in Cadernos de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Vol. 1, nº 1, 2001.

35
Embora o projeto do Edifício Saldanha Marinho tenha sido concebido em 1929, as obras ficaram paradas até o início dos anos de 1930. Foi inaugurado em 1933, depois de as obras terem sido assumidas pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que contratou Dácio de Moraes para terminá-lo e fazer as adaptações necessárias.

36
GAGGETTI, L. F. & RIGHI, R., op. cit..

37
MACEDO, Silvio Soares de. Higienópolis e arredores – processo de mutação urbana. São Paulo, Pini / EDUSP, 1987.

38
HOMEM, M. C. N. “Higienópolis: grandeza e decadência de um bairro paulistano”, In História dos Bairros de São Paulo, vol. 1. São Paulo, PMSP, 1980.

39
CAMPOS, op. cit., p. 95.

bibliografia complementar

ALVIM, A. T. B; ABASCAL, E. H. S.; FELIPETI, P. B.; STUERMER. M. M. A Modernidade e os conflitos sócio-ambientais em São Paulo: um olhar sobre o Plano Diretor Estratégico. III Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade. Brasília, ANPPAS, 2006 (Cd-rom).

BRUNA, Gilda Collet e ABASCAL, Eunice H. S. “Tópicos especiais em arquitetura e urbanismo: responsabilidade na formação do pós-graduando e no ensino frente aos desafios do novo contexto mundial”, in Conferência Latinoamericana de Escuelas y Facultades de Arquitectura. El rol de las escuelas y facultades de arquitectura en el contexto regional. Loja, 21-25 de Noviembre, 2005, p. 466-471.

LANGENBÜCH. Juergen Richard. A estruturação da Grande São Paulo – Estudo de Geografia Urbana. Rio de Janeiro, Fundação IBGE, 1971.

ROLNIK, R.; SOMEKH, N.; KOWARICK, L.(orgs.) São Paulo: Crise e Mudança. São Paulo, Brasiliense, 1990.

SOMEKH, Nadia. A Cidade Vertical e o Urbanismo Modernizador. 1. ed. São Paulo, Stidio Nobel/ EDUSP/FAPESP, 1997.

sobre os autores

Eunice Helena Sguizzardi Abascal, Gilda Collet Bruna e Angélica A. Tanus Benatti Alvim são professoras da FAU Mackenzie e do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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