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architexts ISSN 1809-6298


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Neste texto, Adriana G. Carvalho da Silva procura apontar algumas diferenças entre as moradias alemãs e brasileiras, considerando-as reflexos das diferenças culturais entre as duas sociedades


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GONDRAN CARVALHO DA SILVA, Adriana. A moradia na Alemanha e no Brasil: os exemplos de Freiburg i.B. e Florianópolis/SC. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 085.06, Vitruvius, jun. 2007 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.085/241>.

Moradia, habitação, casa, domicílio ou espaço doméstico são os nomes dados ao lugar onde o ser humano vive. Este espaço não serve apenas como proteção, por exemplo, contra as turbulências da natureza, do clima, e de animais selvagens, mas também contra o próprio homem.

Estilos de vida, gostos e personalidades moldam as formas, funções e estética das habitações – mas os modos e cultura do morar correspondem também às normas da sociedade, aos materiais à disposição e às fontes culturais (1).

As transformações das moradias e das edificações remetem assim a transformações da sociedade, dos casais e das famílias, da divisão social do trabalho e relações de dominação, comportamentos sexuais e características de personalidade. Deste modo, Häuβermann e Siebel afirmam que: “através das transformações das plantas baixas das moradias pode-se decifrar as transformações no morar” (2).

O objetivo desta pesquisa é apontar para algumas das diferenças entre as moradias alemãs e brasileiras, considerando-as como reflexos das diferenças culturais entre as duas sociedades. Para tanto, primeiramente investigou-se a história da casa na Alemanha e no Brasil e o significado de seus ambientes, agrupados em três categorias: o setor social, o setor íntimo e o setor de serviços. Em seguida foram analisadas duas plantas baixas de moradias, localizadas nas cidades de Freiburg i.B. e Florianópolis/SC. Estas cidades foram escolhidas porque apresentam imagens em nível nacional semelhantes, consideradas ícones de qualidade de vida e que atraem anualmente milhares de novos habitantes.

As plantas baixas estudadas correspondem a apartamentos com área interna de aproximadamente 110 m2, destinados a famílias compostas por 4 a 5 pessoas (casal e 2 ou 3 filhos) com perfis econômicos análogos. A seleção dos apartamentos foi feita através de buscas em sites da internet, de maneira a aproximar este trabalho à realidade do mercado imobiliário, que não apenas responde a questões econômicas, como também a sociais e culturais.

É necessário ainda salientar que fatores demais condicionantes, tais como fatores climáticos, técnicas e materiais de construção, implantação no sítio, orientação solar, volumetria e fachadas das edificações não foram considerados neste trabalho. Trata-se de um estudo comparativo empírico e bidimensional, baseado em observações cotidianas.

1. A moradia na Alemanha

1.1. Resgate histórico

A moradia na Alemanha, assim como a européia, até o começo da Idade Média, era espacialmente ligada ao trabalho, isto é, não havia separação entre as funções morar e trabalhar. Somente com o desenvolvimento do trabalho assalariado fora de casa  foi rompida com essa relação de convivência, passando para locais especiais organizados. Paralelamente surge o tempo livre e neste processo de rompimento espacial e temporal de partes do trabalho produtivo, nasce também a moradia no sentido atual como espaço, tempo e conteúdo em contraposição ao trabalho profissional em funcionamento.

Na organização da planta baixa da casa pré-burguesa todos os cômodos eram passagens, isto é, sem uma circulação fisicamente delimitada. Ainda no século XVII encontram-se nas grandes casas aristocrática se burguesas ambientes sem objetivos determinados, que se sobrepunham (3).

A partir de meados do século XIX, concentram-se os postos de trabalho na indústria em expansão e crescem as habitações do proletariado industrial nas grandes cidades. Ao mesmo tempo, este processo de urbanização (4), é também um processo de alívio dos domicílios de múltiplos trabalhos e obrigações, consolidando-os cada vez mais como espaços privados.

As grandes distâncias e a crescente regulamentação do transporte social induzem a um aumento da intimidade da vida familiar e, conseqüentemente, as plantas baixas das moradias se tornam especializadas e hierarquizadas.

A moradia moderna, cujas quatro marcas são: a família de duas gerações como união social, a separação entre morar e trabalhar, a polaridade entre privacidade e publicidade e a apropriação privada através de compra ou aluguel, levou a um processo de nivelamento das diferenças entre diversos grupos sociais, culturais, e entre cidade e campo (5).

Na Alemanha, este processo de nivelamento das moradias estimulado pela profunda normalização da construção civil. As normas DIN (6) 18011 e 18022 são as bases para o dimensionamento das habitações e seus ambientes. A norma DIN 18011 regulamenta o tamanho do mobiliário, a largura dos espaços de circulação entre móveis, assim como móveis e paredes e aberturas. A norma DIN 18022 regulamenta os espaços e mobiliário de cozinhas, banheiros e áreas de serviço residenciais (7).

Paralelamente, o Baugesetzbuch (BauGB) é a legislação alemã mais importante sobre direito de construir. Suas determinações têm grande influência sobre o desenho, estrutura e desenvolvimento das áreas de ocupação das cidades e aldeias. Ele define os principais instrumentos urbanísticos, e é dividido em quatro partes: o direito de construir geral e o específico, prescrições comuns e instruções para instalações técnicas.

As normas e leis da política alemã de construção de habitações sociais objetivam a família em sua essência. Habitações para solteiros são consideradas como formas especiais assim como para deficientes físicos, mentais e idosos. O isolamento da moradia em relação ao exterior, a separação entre o morar e o trabalho profissional, a satisfação das funções vitais (dormitório, banheiro), a gerência de um domicílio (cozinha) são, desta maneira, igualmente  concebidas de acordo com medidas mínimas e separação de funções e pessoas (8). A técnica excessiva e a busca pela eficiência estabeleceram critérios quantitativos para a definição do espaço habitacional na Alemanha, o que muitas vezes é desfavorável à qualidade dos seus ambientes.

1.2. A função e o significado dos ambientes

A sacada:

Na Alemanha, a sacada (der Balkon) é um ambiente muito desejado em todos os tipos de moradia, como um prolongamento do espaço aberto. Além da função de contemplação e do contato com o exterior, é comum a sacada localizar-se próximo à cozinha, como uma extensão do setor de serviços (9).

O setor social:

O ideal de moradia alemã se materializa em “três-cômodos-cozinha-banheiro-aquecimento central”, da qual o melhor decorado e maior ambiente é a sala (das Wohnzimmer), centro da família, oportunamente também sala de visitas. Acima de tudo, a sala é um espaço para o tempo livre.

A sala sinaliza a hierarquia das pessoas e dos usos na moradia moderna. Para a norma DIN 18011, a área mínima para quatro pessoas deve ser de 18,0 a 20,0 m2. A sala de jantar (das Esszimmer) ganha importância desde a década de 50, e localiza-se comumente entre a sala de estar e a cozinha.

Em contraposição à sala estão os demais ambientes: dormitórios, cozinha, quartos das crianças e banheiro, que por suas dimensões, decoração e localização dentro da moradia só podem ser usados de modo monofuncional.

O setor íntimo:

Somente a partir de meados do século XVIII surgem, nas moradias alemãs, quartos que finalmente consideram o dormir como restabelecimento corporal (das Schalfzimmer). Concomitantemente, a adoção da palavra Família, que se tornou moda, demonstra através da língua as transformações da realidade social da época (10).

Para efeito da norma, o dormitório do casal é deve ter espaço para duas camas, dois criados-mudos, um guarda-roupa e uma peça mobiliária adicional, por exemplo, uma penteadeira ou máquina de costura. Se na residência não existe um quarto para o bebê, é permitida também a colocação de um bercinho (11). A norma DIN 18011 recomenda, para este ambiente, dimensões mínimas de 3,50m x 3,50m.

O dormitório dos filhos (das Kinderzimmer) deve ter dimensões suficientes para uma grande variação na disposição dos móveis, assim como para múltiplos usos. Desta maneira, este ambiente poderá acompanhar as diversas fases do crescimento das crianças e jovens. As medidas mínimas recomendadas pela norma DIN 18011 são 3,50 x 3,25m ou 3,0m x 4,0m (entre 11,0 e 12,0m2). Na realidade, este dormitório, segundo Häuβermann e Siebel (12) é na maior parte dos casos apenas um pequeno quarto para duas crianças.

O banheiro (das Badezimmer) geralmente contém uma banheira, uma pia e um vaso sanitário. Em alguns casos, pode conter ainda um espaço para ducha e máquina de lavar-roupa, numa área mínima recomendada varia entre 4,8 e 5,0m2.

O setor de serviços:

Na moradia alemã em geral, a cozinha (die Küche) é puramente um espaço de trabalho, da qual a planta baixa e a orientação são sempre racionalizadas, de maneira a facilitar o trabalho de casa. A quota da área da cozinha, em relação à total da casa, tem sido muito reduzida com o desenvolvimento dos eletrodomésticos (13). Suas dimensões devem variar, segundo a DIN 18022, de acordo com o número de usuários da moradia, com valores mínimos de 2,50m x 3,50m.

O armário ou depósito (der Abstellraum) é um pequeno ambiente destinado à colocação de eletrodomésticos e materiais de limpeza. Sua área perfaz normalmente cerca de 1,0 a 1,5 m2.

1.3. O exemplo alemão

O primeiro apartamento localiza-se na cidade de Freiburg im Breisgau, situada no sudoeste da Alemanha, entre a Floresta Negra, a Suíça e a Alsácia. É também a maior e mais ensolarada cidade da região e atrai anualmente um grande número de turistas e de estudantes internacionais. É famosa por sua qualidade de vida e equipamentos urbanos. (14).

Freiburg i.B. é também conhecida como a capital ecológica e “Solar-City” da Alemanha e do mundo (ilustração 01). Estar no meio da natureza, foi e é o objetivo dos seus cidadãos, protegendo o meio ambiente para assim assegurar o futuro. Os objetivos da política ambiental da cidade correspondem a esta atitude, que é a base para o seu eficaz e persistente desenvolvimento (15).

O bairro em que se situa este apartamento (16) é uma área residencial com boa infra-estrutura, onde jardins-de-infância, escolas e lojas são facilmente alcançados a pé. Com os equipamentos de lazer do Lago Dietenbach, tem-se à disposição um verdadeiro parque para relaxamento e bem-estar.

A planta baixa do exemplo alemão (ilustração 02) é basicamente composta pelos seguintes ambientes e circulação, perfazendo aproximadamente 110m2:

  • Setor Social: hall, sala de estar/jantar;
  • Setor Íntimo: três dormitórios, duas sacadas e banheiro compartimentado;
  • Setor de Serviços: armário e cozinha.

 

O quadro de áreas (ilustração 03) indica as áreas de cada setor e em relação à área total do apartamento.

Uma das características mais significativas do apartamento de Freiburg i.B. é a superposição entre seus setores social e íntimo, observada nos usos comuns da sacada 1 – pelos dormitórios e sala – e no banheiro compartimentado. Outra é clara definição espacial da circulação, que permite a ligação entre todos os ambientes, sem criar zonas de transição ou hierarquias.

A falta de hierarquização é também visível entre os dormitórios: não há grandes variações nas dimensões, formas, ou acessos. A própria sala de estar/jantar, considerada como o ambiente maior e melhor decorado pela Norma DIN 18011, não tem possui qualidades arquitetônicas que o diferenciem, sendo tratado como mais um quarto (ein Zimmer).

2. A moradia no Brasil

2.1. Resgate histórico

De acordo com Veríssimo & Bittar (18), a casa no Brasil começou a estabelecer sua forma definitiva em meados do século XVII, a partir do modelo agrícola monocultor da cana-de-açúcar, em torno de vários núcleos urbanos, espalhados por toda a costa leste do litoral do país. Assim, ainda segundo estes autores, “a família brasileira, contingente básico desta habitação, é um produto da miscigenação branca, índia e africana, e local de realização de toda sorte de atividades: abrigo, alimentação, educação, trabalho, repouso, religião e lazer. Essas atividades podem estar agrupadas em espaços restritos, em modelos mais antigos e simples, ou inteiramente compartimentadas, em programas mais recentes ou destinados a camadas mais abastadas” (19).

Com a abolição da escravatura, os ambientes residenciais foram diminuídos e compactados, devido à falta do escravo para as tarefas domésticas, que passaram para a responsabilidade direta ou indireta da mulher (20).

Nesta mesma época observa-se uma aceleração no processo de urbanização, que por sua vez implicou num adensamento demográfico. Desta maneira, surgiram também os cortiços, as primeiras favelas e as vilas operárias para abrigar as camadas mais pobres da população (21).

As casas construídas para esta parcela da população deveriam, obviamente, ser baratas, mas apropriadas às suas necessidades básicas. Já a classe média, segundo Veríssimo & Bittar, “a pequena burguesia urbana, ocupava casas de aluguel, com seus porões altos habitáveis, banheiro no fundo dos quintais e janelas voltadas para as ruas, que serviam para a observação dos fluxos de pedestres no espaço público” (22).

Ainda de acordo com os dois autores (23), a classe alta continuou a ocupar seus palacetes imitando formas européias, e cujas plantas eram um reflexo do ecletismo, com uma grande variedade de salas, cada qual com uma linguagem estilística e para uma finalidade específica.

Na década de 20, surgem os edifícios de apartamentos, ou seja, edificações multifamiliares de vários pavimentos. Já as residências térreas deste período sofreram poucas modificações em relação às plantas do início do século. Receberam apenas uma varanda e um pequeno jardim à habitação, como fronteira entre o público e o privado (24).

Na década de 70, Veríssimo & Bittar afirmam que “o mercado imobiliário aproveitou-se das condições precárias das grandes cidades e investiu em novos programas de habitação: os condomínios fechados, que agregavam uma diversidade de facilidades aos seus usuários, oferecendo segurança, conforto, lazer e isolando-os do contato com o resto da cidade” (25).

Atualmente, construção civil brasileira está muito vinculada ao regime de condomínios, sejam eles de apartamentos (multifamiliares) ou de casas (unifamiliares). A explicação para este fenômeno, além das questões de segurança e lazer já citados, advém da privatização deste setor econômico. Assim, se observadas as especificações da legislação brasileira sobre o parcelamento do solo para fins urbanos, o condomínio consolida-se, para a iniciativa privada, como uma alternativa muito mais lucrativa do que o loteamento (26).

Paralelamente às Normas DIN alemãs, no Brasil a construção civil é regulamentada no âmbito municipal, através dos Códigos de Obras. O Código de Obras (27) do município de Florianópolis tem por objetivos orientar os projetos e as execuções das obras e edificações, visando o progressivo aperfeiçoamento da construção e o aprimoramento da arquitetura; e assegurar a observância e promover a melhoria dos padrões mínimos de segurança, higiene, salubridade e conforto das edificações de interesse para a comunidade (28).

A mesma analogia pode ser feita entre o Baugesetzbuch alemão e os Planos Diretores brasileiros. O Plano Diretor de Uso e Ocupação do Solo do município de Florianópolis define os parâmetros urbanísticos do desenho da cidade, sendo dividido em macro e micro zoneamento e as leis organizadas em normas gerais, normas específicas, normas transitórias e finais, e anexos (29).

2.2. A função e o significado dos ambientes

A varanda:

Além da sua importância para o conforto ambiental, muito relevante em regiões de clima tropical como o Brasil, a varanda é o principal elemento de transição o exterior e o interior da moradia brasileira, conferindo-lhe uma área de transição entre o público e o privado.

A partir da década de 70, de acordo com Veríssimo & Bittar (30), em função do surgimento dos discursos ecológicos, as varandas ganharam também a função de estabelecer o contato com a natureza.

Atualmente, pode-se dizer que “o significado deste espaço não foi alterado, acrescido apenas da produção de status tanto para residências unifamiliares como para os edifícios de apartamentos. Entretanto, este ambiente é pouco utilizado durante a maior parte do tempo, ocupado apenas em recepções ou ocasiões especiais, para demonstrar o conforto da habitação ao convidado, propiciando, às vezes, um belo panorama de pavimentos elevados” (31).

A garagem:

O carro, além de símbolo de status, tornou-se um meio fundamental de transportes para as grandes distâncias, principalmente nas cidades brasileiras, que têm sérios problemas relacionados aos seus sistemas de transportes públicos. Assim, de acordo com Veríssimo & Bittar, “o seu alojamento, inicialmente, é o mesmo concedido à carruagem, na parte de trás do pátio. Somente na década de 50, foi vencido o preconceito contra o automóvel no Brasil, ocorrendo a libertação do veículo e da garagem, especialmente em relação à casa” (32).

Atualmente, pode-se dizer que em alguns casos, a garagem chega a dominar partido arquitetônico residencial, concedendo, até mesmo, o acesso principal às moradias.

O setor social:

De acordo com Veríssimo & Bittar, “desde os primeiros exemplares de arquitetura residencial construídos no Brasil, ainda no século XVI, este setor é tratado com rigoroso ritual formal” (33). É esta a área que, atualmente e na ausência das varandas, faz a transição entre o exterior e o interior, ou entre o público e o privado, e é pensado de modo a demonstrar ao visitante os valores e os recursos da família.

O Código de Obras de Florianópolis especifica uma área mínima de 12,0m2 para este ambiente, sem recomendar, entretanto, suas dimensões mínimas ou forma.

O setor íntimo:

Segundo Veríssimo & Bittar (34), a área íntima da casa tradicional brasileira sempre foi muito rigorosa, “afirmando o conceito isolacionista e privativo do íntimo”. Por esta razão, este autor faz distinção entre a alcova que era um aposento dotado de uma porta voltada ocasionalmente para a circulação principal e completamente sem janelas, e o quarto, que apresentava janelas, e que não se modifica significativamente nos três primeiros séculos da colonização brasileira.

De acordo com estes mesmos autores, as principais alterações nos quartos não ocorreram nas suas dimensões, mas sim nas suas funções: “Além das atividades tradicionais, adotaram a função de sala de estar particular para o ocupante deste espaço, na tentativa de criar uma área social própria. Esse fato se torna muito mais marcante em habitações menores e principalmente nos apartamentos, em que a superposição de funções dos compartimentos, diante da exigüidade de espaço disponível, se faz cada vez mais presente” (35).

O Código de Obras de Florianópolis especifica uma área mínima de 11,0m2 para o dormitório do casal, e 9,0m2 para o primeiro quarto e 7,0m2 para o segundo.

O banheiro, mesmo quando localizado fora do corpo da edificação, manteve-se como ambiente íntimo, sendo até mesmo falta de educação solicitar para usá-lo nas casas visitadas (36).

Mas, na década de 70, com a valorização do corpo e da higiene íntima, os banheiros ganharam importância: “começa assim o hábito de que a quantidade de banheiros numa residência possa conferir-lhe status, tanto quanto o bairro onde está localizada ou seu projeto arquitetônico” (37).

O setor de serviços:

O setor de serviços da casa brasileira pode ser talvez, considerado como o mais importante, principalmente para as classes média e baixa, pois é onde freqüentemente se encontra uma grande superposição de funções nos seus diversos compartimentos (38).

Veríssimo & Bittar (39) assinalam que a cozinha, no período colonial, costumava localizar-se fora do corpo da residência, o que foi modificado nos início da colonização, tornando-se mais central, próxima à sala, gerando problemas causados pelo excesso de calor e fumaça produzidos. Por esta razão, “no século XX, ela fica próxima dos quintais, no fundo da casa, porém dentro dela, com acesso fácil à sala de jantar ou à copa.” (40)

Já nos edifícios de apartamentos da década de 40, a tendência era torná-las cada vez menores, atingindo, por outro lado, máxima eficiência.
A partir da década de 70, surgem novas técnica e materiais para as cozinhas, mobiliário adequado, iluminação apropriada, sistemas de exaustão – ou seja, uma grande quantidade de inovações, associadas também ao desenvolvimento de produtos congelados, fornos de microondas e freezers (41). Atualmente, pode-se dizer que, além das funções de serviços, as cozinhas assumem também um papel social, servindo como espaços para encontros.

E finalmente, a dependência de empregada brasileira, segundo Veríssimo & Bittar (42), é uma herança das edículas, nos fundos dos compridos lotes, ocupados pelos escravos. Após a abolição, este ambiente da moradia sofreu significativas transformações, já que a mão-de-obra doméstica assalariada exigiu melhores acomodações. Atualmente, mesmo com a diminuição do número de empregados domésticos, esta herança continua presente na maior parte das plantas baixas das moradias brasileiras.

2.3. O exemplo brasileiro

O segundo apartamento localiza-se na cidade de Florianópolis/SC, situada na região Sul do Brasil (27° de latitude), parcialmente no continente, parcialmente na Ilha de Santa Catarina (ilustração 04). Desde 1950, o município tem como base econômica a atividade turística. Sua imagem de “capital com a melhor qualidade de vida do país” tem atraído, todos os anos, uma grande quantidade de novos habitantes, impulsionando assim o mercado imobiliário.

O bairro em que se situa este apartamento fica nas proximidades da Universidade Federal de Santa Catarina e da Lagoa da Conceição. Devido ao seu caráter exclusivamente residencial, não possui estabelecimentos comerciais ou de serviços, e o perfil econômico dos seus moradores é de classe média e alta.

A planta baixa do exemplo brasileiro (ilustração 05) é composta pelos seguintes ambientes e circulação, perfazendo aproximadamente 110m2:

  • Setor Social: hall, sala de estar/jantar e sacada;
  • Setor Íntimo: dois dormitórios, um banheiro, uma suíte com closet e sacada;
  • Setor de Serviços: cozinha; área de serviço, banheiro de serviço e quarto reversível/dependência de empregada.

 

O quadro de áreas (ilustração 06) indica as áreas de cada setor e em relação à área total do apartamento.

A principal característica da planta baixa do apartamento de Florianópolis é a superposição de usos entre os todos os seus setores: o banheiro íntimo é também social e o quarto reversível pode servir como dependência de empregada, mais um dormitório ou como escritório (Home Office).

A circulação é bem definida no setor íntimo, entretanto é dependente dos demais ambientes para acessar o exterior, o que produz zonas de transição e dificulta a disposição do mobiliário (lay-out).

Outro aspecto importante é a hierarquia fortemente visível entre os quartos: dois dormitórios de dimensões e formas parecidas e uma suíte, reservada ao casal, composta por banheiro exclusivo, closet e sacada. A sala de estar/jantar coloca-se à frente dos demais ambientes e funciona como filtro entre o interior e o exterior.

Considerações Finais

O quadro (ilustração 06) indica as áreas de cada setor e em relação à área total dos respectivos apartamentos, e a diferença, em módulo, entre elas.

Percebe-se através deste quadro comparativo, que no exemplo brasileiro os setores sociais e de serviço são maiores que no caso alemão, assim como neste segundo são maiores os valores para o setor íntimo e para a circulação.

Examinando estes dados, chegamos às seguintes informações:

  • O setor social brasileiro é maior principalmente porque a sala de estar/jantar contém uma circulação que lhe é implícita; já na Alemanha a área da circulação é maior, mas ela está fisicamente separada e bem definida;
  • O setor íntimo alemão é maior porque os dormitórios têm áreas maiores, entretanto, no Brasil encontramos a suíte, a quantidade de banheiros é maior e o seu uso diferenciado, isto é, um social e outro íntimo;
  • O setor de serviços brasileiro também é maior em função da área de serviço e da dependência de empregada.

 

Voltando à proposição de que os modos e cultura do morar correspondem também às normas da sociedade, e às informações adquiridas através do estudo comparativo entre as plantas baixas dos apartamentos de Freiburg i.B. e de Florianópolis/SC, presume-se que a sociedade brasileira é mais hierarquizada e formal do que a alemã, resultado de uma estrutura familiar patriarcal tradicional e de origem latina.

Os resultados desta estrutura patriarcal são percebidos, por exemplo, na localização e acesso do setor íntimo, ficando normalmente o quarto do casal em posição mais reservada. Ainda por este motivo, o papel desempenhado pela mulher também se mostra elucidativo e visível nas diferenças entre as áreas dos setores de serviço, assim como nas escalas de transição entre as áreas públicas e privadas da moradia e do exterior.

Outro ponto que merece destaque é a crescente vinculação da moradia brasileira aos sistemas de condomínios, em conseqüência da violência e (causa) da falta de espaços públicos das cidades, que induzem aos encontros dentro do espaço privado da casa.

As diferenças apontadas nesta pesquisa podem ser facilmente verificadas no cotidiano das relações sociais e familiares de ambos os países: resultados de suas histórias e seus ideais de produção e reprodução sociais, isto é, das formas de legitimação de cada sociedade.

notas

1
HÄUßERMANN, Hartmut & SIEBEL, Walter. Soziologie des Wohnens: eine Enführung in Wandel und Ausdiffrenzierung des Wohnens. München: Juventa Verlag, 1996, p. 44.

2
Id., Ibid., p. 11.

3
Id., Ibid., p. 33.

4
Id., Ibid., p. 28.

5
Id., Ibid., p. 19.

6
O Deutsches Institut für Normung (seu nome comercial é DIN), com sede em Berlim, é o órgão nacional de normalização da Alemanha. Elabora, em cooperação com o comércio, a indústria, a ciência, os consumidores e instituições públicas, padrões técnicos (normas) para a racionalização e a garantia da qualidade. O DIN representa os interesses dos alemães nas organizações internacionais de normalização (ISO, CEI, etc.).

7
KRÄNTZER, Karl Richard. Grundgrißbeispiele für Geschoßwohnungen und Einfamilienhäuser: nach DIN 18011 Stellflächen. 5. Auflage. Wiesbaden, Berlin: Bauverlag, 1978.

8
HÄUßERMANN & SIEBEL, Op.Cit., p. 24.

9
KRÄNTZER, Op. Cit.

10
HÄUßERMANN & SIEBEL, Op.Cit., p. 37.

11
Id., Ibid., p.16.

12
Id., Ibid., p.17.

13
Id., Ibid., p.16.

14
Freiburg im Breisgau. Stadt Freiburg. Disponível em <www.freiburg.de> Acessado em 22/02/2005.

15
Id., Ibid.

16
ImmobilienScout24. Disponível em <www.scout24.de> Acessado em 05/06/2006.

17
VERÍSSIMO, Francisco S. & BITTAR, Willian S. 500 anos da casa no Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

18
Id., Ibid.

19
Id., Ibid.

20
Id., Ibid.

21
Id., Ibid.

22
Id., Ibid.

23
Id., Ibid.

24
Id., Ibid.

25
Id., Ibid.

26
Segundo a Lei Federal n° 6766, de 19 de dezembro de 1979, sobre o parcelamento do solo para fins urbanos, diferencia o loteamento do regime de condomínio. No loteamento, 35% da área total da gleba devem ser convertidos em espaço público, o que não se aplica aos condomínios.

27
O Código de Obras do município de Florianópolis define os procedimentos administrativos e executivos e as regras gerais e específicas a serem obedecidas no projeto, licenciamento, execução, manutenção e utilização de obras, edificações e equipamentos. Este código aplica-se também às edificações existentes, quando os proprietários pretendem reformá-las, mudar seus usos ou ampliá-las.

28
Câmara Municipal de Florianópolis. Código de Obras e Edificações. Lei Complementar 060/2000. Disponível em <http://www.pmf.sc.gov.br/.> Acesso em 22/10/2005.

29
Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis, IPUF. O Plano Diretor do Distrito Sede do Município de Florianópolis. Disponível em <http://www.ipuf.sc.gov.br> Acessado em 16/07/2005.

30
VERÍSSIMO & BITTAR, Op.Cit.

31
Id., Ibid.

32
Id., Ibid.

33
Id., Ibid.

34
Id., Ibid.

35
Id., Ibid.

36
Id., Ibid.

37
Id., Ibid.

38
Id., Ibid.

39
Id., Ibid.

40
Id., Ibid.

41
Id., Ibid.

42
Id., Ibid.

referências complementares

Baugesetzbuch. 38. Edição. München: Beck Text im Deutscher Tascehnbuch Verlag, 2005.

Deutsches Institut für Normung – DIN. Disponível em <www2.din.de/index.php?lang=en> Acessado em 19/06/2006.

Guia Floripa. Informações turísticas e geográficas de Florianópolis. Disponível em <www.guiafloripa.com.br/cidade/dadosgeo.php3> Acesso em 23/02/2005.

Hantei Engenharia. Disponível em <www.hantei.com.br> Acessado em 05/06/2006.

Presidência da República Federativa do Brasil. Lei Federal n° 6766. Disponível em <www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6766.htm> Acessado em 12/06/2006.

sobre o autor

Adriana Gondran Carvalho da Silva é arquiteta e urbanista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, 2002), mestre em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI, 2005),  doutoranda do IPP em Urbanismo Europeu na Bauhaus – Universität Weimar (BUW, 2006) e bolsista do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico).

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