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architectourism ISSN 1982-9930


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Em uma época em que o turismo de massa é predominante nas cidades turísticas, ainda é possível conhecê-las de forma mais íntima e pessoal. Em Ravalejar em Barcelona o autor Marcio Cotrim, mergulha na vida de um dos bairros mais efervescentes de Barcelona


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COTRIM, Marcio. Ravalejar em Barcelona. Arquiteturismo, São Paulo, ano 03, n. 027.02, Vitruvius, maio 2009 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/03.027/1519>.


Ao olharmos o mapa de Barcelona deixando o Mar Mediterrâneo na parte inferior e a Serra de Collserola na superior – e como conseqüência o rio Besòs à direita e o rio Llobregat à esquerda – pode-se nitidamente perceber os limites do seu núcleo histórico, el casco antiguo. Com algumas exceções como Paris ou Londres, isso ocorre em praticamente todas as cidades de médio e grande porte européias, sobretudo, aquelas que foram ampliadas radicalmente no século XIX. Entretanto, no caso de Barcelona isso é ainda mais evidente devido ao radical contraste entre seu casco antiguo e o Eixample projetado pelo engenheiro Ildefons Cerdà i Sunyer em meados do século XIX.

Dividindo ao meio o núcleo histórico Barcelonês destacam-se as Ramblas, já cantadas no Brasil por Caetano Veloso. O “corte” deixa ao seu lado direito o austero Bairro Gótico e do lado esquerdo o inusitado Bairro do Raval. Apesar de administrativamente os dois lados comporem o distrito n.01 de Barcelona, a ciutat vella, e desde cima desenharem uma aparentemente unitária trama de ruas estreitas e desconexas, conformam atualmente a bairros simetricamente opostos, marcados por episódios, mitologias e formas de ocupação urbanas radicalmente diferentes.

O bairro gótico é o núcleo aonde nasceu a cidade romana de Barcino e onde ao longo dos séculos foram se sobrepondo as cidades medieval, burguesa, e atualmente, a turística Barcelona. Apesar das inúmeras lojas de souvenirs, das muitas lojas de marca – encontradas em qualquer dos grandes centros comerciais espalhados nos cinco continentes – e das franquias de fast-food, um passeio pelo bairro deixa em evidencia a sobreposição das camadas arquitetônicas do seu passado histórico. Ao atravessar as Ramblas em direção ao Raval a transição entre os dois bairros é sutil nos primeiros quarteirões, entretanto, na medida em que se adentra ficam evidentes os contrastes entre os dois lados da “ciutat vella”. O Raval é um dos bairros mais polêmicos de Barcelona, onde, à margem do turismo selvagem induzido pela municipalidade, desenvolveu uma inusitada sobreposição de extratos sociais. Até pouco tempo era conhecido como Bairro Chino, alcunha substituída popularmente por outras tantas, sendo talvez a mais conhecida e divertida, Ravalkistán, devido à enorme quantidade de moradores oriundos de países com a mesma terminação em castelhano: Pakistán, Afeganistán e tantos outros postos sob o mesmo manto.

O Raval constitui atualmente um dos bairros mais interessantes, complexos e divertidos da cidade. Numa deriva por suas ruas, o caráter violento que muitas vezes lhe é atribuído é rapidamente desfeito, manifestando um racismo encoberto que quando sobressaltado converte um passeio noturno ou diurno por suas ruelas, provavelmente, em uma das experiências mais ricas na cidade condal. Não foi sem motivos que nos últimos anos se criou o verbo em catalão Ravalejar, para descrever o ato de caminhar dentro dos seus limites e a experiência visual, olfativa, etílica e gastronômica que compreende.

O termo é uma espécie de versão local e contemporânea do verbo em francês flâner e da criação de Baudelaire de flaneur, ambos tão deselegantemente adaptada ao português como flanar. No caso catalão, se refere ao ato de caminhar por ruas tão densamente marcadas por contrastes de pessoas de tão diversas procedências: turistas loiros, altos de olhos claros e ébrios, provavelmente de passeio aproveitando as quase simbólicas tarifas aéreas; estudantes Erasmus de todos os países da Europa, os moradores temporários do bairro; comerciantes oriundo do Paquistão, Irã, Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Marrocos entre inúmeros outros países.

Também temos numerosas famílias de chineses e filipinos; Catalães já idosos, que caminham resignados ou assombrados com a transformação do bairro onde nasceram; jovens espanhóis modernos de carteirinhas; diretores de cinema, artistas plásticos e arquitetos que escolheram o bairro como sede dos seus estúdios e ateliers; e prostitutas, muitas, dos países do leste europeu e África subsaariana.

Como cenário dessa multidão de personagens urbanos que formam um caleidoscópio de etnias, religiões, idiomas, cores e cheiros, alçam-se cabeleireiros que funcionam 24 horas –apesar da proibição legal –; lojas de celulares onde até o último lançamento táctil pode ser desbloqueado; restaurantes de comida árabe, turca, libanesa, indiana; muitas lojas alternativas de roupas usadas, discos de vinil, galerias de artes e bares, bares e mais bares. Entre eles alguns míticos como o bar Marsella, famoso pelo absinto que servem e onde – dizem – Dalí e Picasso freqüentaram, justo ao lado de uma tradicional rua de senhoras, na sua maioria, do leste europeu e África subsaariana. É importante insistir que nesse pandemônio a violência parece ser mais um mito que realidade.

Pode-se, apesar do cheiro e sujeira, ravalejar por aí sem grandes preocupações. Mesmo a violência não sendo um agravante, a degradação da área frente a outros bairros de Barcelona é um fato evidente há ao menos 50 anos. Na esteira das renovações urbanas promovidas pelas Olimpíadas, se construiu nos anos 1990 a tríade cultural: o Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MACBA) e o Fomento e Apoio ao Desenho (FAD), que hoje é completada com a Universidade de Geografia, Filosofia e História (UGFH).

Essas intervenções, polêmicas no seu momento, compõem atualmente um inusitado espaço público rodeado de equipamentos culturais, vastamente usados, e uma complexa trama de eixos de circulação de pedestres que facilita e qualifica a mobilidade dentro do bairro. Porém, desequilibraram a atenção oficial, deixando o setor sul, mais próximo ao mar, abandonado e em contínuo processo de degradação. O poder público, em tentativa de compensação, inaugurou em setembro de 2000 a também polêmica Rambla do Raval, um calçadão limitado por duas pequenas rotatórias numa das áreas mais problemáticas do bairro, na tentativa de oxigenar o comercio e melhorar a vivenda.

Para sua construção foi necessária a demolição de cinco quarteirões; segundo o Martí Abella, um dos arquitetos da prefeitura, 90% dos moradores foram realocados em apartamentos de interesse social de melhor qualidade dentro do próprio bairro, enquanto apenas 10% foram transferidos para outros. A proposta pretendia – e em certo modo conseguiu – fomentar o interesse de outras classes sociais de moradores e comerciantes e como conseqüência interromper o processo de degradação.

Contudo, provocou o mobbing, fenômeno em que proprietários e imobiliárias exercem pressão sobre os antigos inquilinos na tentativa de expulsá-los dos apartamentos, abrindo a possibilidade de novos contratos de aluguel ajustados à nova realidade. No último ano foi nítido o aumento do número de mendigos que transformaram os espaços públicos do bairro em suas residências temporárias, deixando claro que a preocupação do poder público com a imagem da cidade usando em momentos de crise a mesma estratégia dos anteriores anos de pujança econômica é totalmente ineficaz.

À parte estas questões relacionadas com a especulação imobiliária, outras críticas também afiançaram a polêmica: a irreversibilidade do patrimônio ou a destruição da trama urbana original.

Enquanto isso, à margem das decisões tomadas por técnicos, o Raval continua se reinventando a cada nova polêmica. A última foi criada por uma intervenção urbana em vias de conclusão, a Illa Robador, uma quadra aberta, projetada pelo importante escritório catalão, MBM (Martorell, Bohigas, Mackay). A Illa completará a abertura da Rambla do Raval ampliando-a no seu ponto central. O projeto é composto basicamente por edifícios residências, a futura filmoteca da Catalunya (em construção) e o hotel Barceló, um quatro estrelas com aspecto de luminária situado na linha da Rambla e ao lado de uma nova praça. Com esse heterogêneo conjunto o poder público assumiu definitivamente sua postura de levar ao bairro distintas camadas sócias, no caso do Hotel, de turistas com alto poder aquisitivo e, acredita-se assim, frear o processo de degradação.

Ainda é muito cedo para julgar os resultados desta última transformação, entretanto, num superficial passeio pela nova área já é visível como foi rapidamente incorporada à dinâmica do bairro. A Illa, ainda inacabada, qualificou a área com luz natural, mobiliários e equipamentos e, pese aos enlouquecidos turistas que dançam freneticamente no bar do novo hotel, parece não ter expulsado seus antigos ocupantes, que continuam dividindo democraticamente seus espaços públicos.

Nota final

A idéia deste pequeno texto não é de maneira alguma discutir a estratégia de revitalização usada pela prefeitura, e o tom otimista – e por não dizer acrítico – é conseqüência inevitável do fato de quem o escreve ser um recente morador do Bairro e há tempos, um ravalejador convicto.

sobre o autor

Marcio Cotrim Cunha, arquiteto e urbanista, doutor pela UPC Barcelona

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