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architexts ISSN 1809-6298


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SCHARLACH, Cecília. As Olimpíadas de 2008 em Paris e a participação de Paulo Mendes da Rocha. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 015.01, Vitruvius, ago. 2001 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.015/854>.

"Convocamos arquitetos do mundo inteiro, oferecemos um quadro que pode parecer rígido, que é o fruto de anos de negociações e no entanto, eles chegam todos a transcender essas contingências. Pontos de vista emanando de fontes também diversas não podem ser reduzidos a uma dimensão cultural" (1).

Paris se candidatou à sede dos Jogos Olímpicos em 2008 e convidou 12 arquitetos do mundo inteiro para aportarem sua contribuição em um concurso internacional de idéias. Os temas a serem atendidos eram: O Olimpismo e a cidade / Habitar esportivamente / O Bulevar dos Esportes.

Os projetos apresentados foram analisados e discutidos por uma equipe de urbanistas e arquitetos franceses, além do Comitê de Candidatura para a Organização dos Jogos Olímpicos, GIP Paris 2008. Embora Paris tenha perdido para Pequim a condição de sediar as Olimpíadas de 2008, muitos dos projetos apresentados serão apropriados e farão parte do destino e do desenho da cidade.

As Olimpíadas de 2008, além de traduzirem um anseio de Paris, foram também um pretexto para que o olhar do parisiense e dos que se ocupam administrativamente da cidade, se voltassem com detida atenção para a região da Plaine de Saint Denis, Aubervilliers, Pantin – região periférica com grande potencial de reurbanização, aguardando sua vez e sua hora.

Esse concurso de idéias é muito importante em um momento que, pelo menos entre nós, a influência dos arquitetos no urbanismo da cidade é quase marginal, onde cada vez mais influem menos, e o resultado é o desastre em que passamos a viver até com certa naturalidade.

Os projetos convocados foram expostos e debatidos na Grande Place de La Villette em janeiro deste ano e, a seguir inaugurada uma exposição sob a chancela do Ministério da Cultura e Comunicação da França, no IFA – Instituto Francês de Arquitetura, onde permaneceram no período de 27 de fevereiro a 13 de maio último. Acompanhando a exposição, foi publicado o livro "Paris Olympiques", France, Le Moniteur, février 2001, 256 páginas.

Além das bases do programa que tinha como meta as Olimpíadas de 2008, tais projetos poderiam subsidiar um plano sobre o qual trabalha há algum tempo o Grupo Hippodamos, conduzido pelo arquiteto e urbanista Yves Lion, visando recuperar, revitalizar e reurbanizar as regiões de La Plaine de Saint-Denis e Aubervilliers.

Trata-se da banlieue que se desenvolve a partir do grande anel periférico de Paris junto à Porte de la Chapelle, Porte d'Aubervilliers, Porte de la Villette, destacando-se o Boulevard MacDonald, a Avenida Pdt. Wilson – o eixo norte-sul maior da região, ligando-a diretamente com Paris e o Canal de Saint-Denis, e seguindo até o imponente estádio onde se realizaram as finais da Copa do Mundo de 98, o Stade de France [ver planta geral].

Os projetos dos 12 arquitetos deveriam se ocupar de uma visão e ocupação temporárias atendendo aos Jogos Olímpicos. Mas deveriam deter-se, também, em um projeto prospectivo, de permanência – posterior aos jogos – atuando na transformação daquela região como uma extensão da cidade de Paris.

Essa convocação internacional derivou em três encontros dos 12 arquitetos convidados, alguns de seus colaboradores, os representantes da área técnica e de suporte do GIP Paris 2008, o arquiteto Jean Louis Cohen (diretor do Instituto Francês de Arquitetura, do Museu dos Monumentos Franceses e encarregado da instalação da Cité de l'Architecture et du Patrimoine no Palais de Chaillot), o arquiteto e urbanista Yves Lion, e outros membros do IFA, técnicos da Prefeitura de Paris, SNCF, RATP.

O último encontro destinou-se à apresentação dos projetos de cada equipe, classificados por seus temas, na sede do GIP Paris 2008, Paris, rue des Archives. Os projetos foram comentados pelos especialistas franceses presentes ao encontro.

A tradição francesa em receber seus convidados com alta gastronomia resultou em almoços no Musée de la Chasse, um notável monumento histórico da cidade, e no Le Dôme du Marais, onde a descontração levou os arquitetos participantes a antecipar e descobrir tantas visões e pontos em comum, embora vindos de partes tão díspares do mundo.

Os arquitetos convocados são nomes premiados e de projeção internacional, tendo participado de concursos públicos internacionais, com obras no exterior, com reconhecimento em seu país pelo que têm de promissores, alguns tendo realizado estádios e obras de caráter esportivo.

Foram chamados para uma contribuição que visava, sobretudo, somar esforços, estabelecer entendimentos e cooperações, enriquecendo com essa conversação diversificada, a candidatura francesa e a imagem urbana de Paris no Terceiro Milênio.

Agrupados nos temas do concurso, por países, os arquitetos participantes foram os seguintes:

Tema 1: O olimpismo e a cidade

Japão – Toyo Ito
França – Jean Nouvel
França – Patrick Berger
Marrocos – Elie Mouyal

Tema 2: Habitar esportivamente

Alemanha – Otto Steidle
Índia – Raj Rewal
Estados Unidos – Steven Holl
Espanha – Eduardo Arroyo

Tema 3: O Bulevar dos Esportes

Holanda – Ben Van Berkel
França – Alexandre Chemetoff
Brasil – Paulo Mendes da Rocha
França – Christian de Portzamparc

La Plaine-Sainte Denis. Uma área chave no projeto urbano

Antes, uma breve descrição da região sobre a qual o conjunto dos arquitetos e os projetos se ocuparam.

Saint-Denis e Aubervilliers são cidades-irmãs, tradicionalmente administradas por partidos de esquerda, notadamente comunistas. No limite comunal das duas cidades, que é ao mesmo tempo um limite simbólico e o eixo norte-sul, prevê-se o traçado de um tramway visto como instrumento de transformação urbana, privilegiando o transporte público e possibilitando simultaneamente a interiorização e a exteriorização da região.

No local de encontro desse eixo com os Entrepôts et Magasins Généraux de la Ville de Paris (EMGP) se localizaria o anel olímpico, local provável da abertura das Olimpíadas.

O conjunto dos Entrepôts et Magasins Généraux é um complexo de galpões industriais geridos pela iniciativa privada, ao sul de La Plaine Saint-Denis, mas também pertencente ao 19º arrondissement de Paris. A maioria de seus edifícios, do século XIX, foram reabilitados.

Tornou-se um lugar da moda, no duplo sentido da palavra, por ser muito e bem freqüentado e por abrigar também estilistas famosos como Jean-Paul Gauthier, Thierry Mugler, Kookaï, La City e outros show-rooms diversos ligados ao mundo da moda, além de estúdios de gravação de rádio, televisão e publicidade. Funcionando em todos os dias úteis com essa mixagem muito grande de ofícios, surpreendentemente, levou nova vida à Plaine de Saint-Denis.

Outro projeto e principal investimento de reabilitação daquela região é o Centro de Pesquisas da Saint-Gobain, que investiu cerca de 30 milhões de francos em sua renovação. Com forte presença na área, o projeto manteve as treliças industriais do edifício original, os muros e as paredes briques, sendo as fachadas voltadas para o interior do terreno todas em cristal.

Ainda na área próxima ao entroncamento do que deveria ser o anel olímpico existem obras de Guimard e de G. Eiffel, hoje quase escondidas, e que serão oportunamente reveladas.

É importante destacar os parcos elementos de referência da paisagem da área . Uma ponte nova, uma antiga passarela de pedra da estrada de ferro, o bairro Cristino-Garcia e a rue de Landy, como única referência histórica das duas cidades.

Neste bairro, originalmente formado por comunidades espanholas e portuguesas, habitado durante a Guerra Civil Espanhola basicamente por espanhóis, encontram-se conjuntos habitacionais revelando uma arquitetura típica do que se constitui um panorama do saber popular.

É uma área com bastante dificuldades para a sua reativação urbana – a Porte de La Chapelle é um local inatíngivel no sentido Saint-Denis – Paris. A área que se pretende cobrir é uma das raras situações parisienses onde se encontram no mesmo nível a auto-estrada e a banlieue. Há um entroncamento e um complexo ferroviário com as linhas vindas da Porte de La Chapelle com fortes resistências à sua alteração ou parcial desativação.

Existe na região, como estado geral, uma densa imagem de abandono. A intervenção nos espaços públicos é fundamental e indispensável para a reversão dessa imagem.

Para essa reversão há que se levar em conta a importância da Porte de La Villette e da Porte de la Chapelle, ao norte do anel periférico, bem como o Parc du Millénaire e do conjunto de escritórios engajados com os Magasins Généraux.

Sublinhamos os elementos mais marcantes para essa revitalização – o primeiro deles, a antevisão da importância das Olimpíadas, como movimento e ação cosmopolita, que levaria o mundo a olhar e a viver a cidade onde se realizam os jogos.

Com os projetos, já em curso, para a área, destacaríamos o relevo particular que tomará a trama viária e a vegetação – as paisagens previstas no projeto urbano para aquele território. O redimensionamento e traçado das vias, não mais em função somente das atividades industriais. A importância e o papel que terão os canais, já existentes na cidade de Paris, reiterados na Plaine de Saint-Denis com o Canal Saint-Denis e suas darses (2). Finalmente, o plano geral de reurbanização dessa região, entrevisto como um grande parque habitável e com a possível implantação de uma universidade tecnológica.

Os temas do concurso internacional de idéias:

O Olimpismo e a cidade / Habitar esportivamente / O Bulevar dos Esportes

"Esses projetos nos convidam a uma verdadeira refundação da região parisiense" (3).

Dos três temas invocados para o concurso internacional de idéias, nos pareceu que o único que não dispunha de elementos anteriores de projeto ou mesmo de um pré-programa já discutidos, mesmo pelo Grupo Hippodamos, era o tema "O Bulevar dos Esportes".

Este tema era o único que extravasava os limites da Plaine Saint-Denis, não apenas do ponto de vista de projeto, mas sobretudo de seu conceito. Era um tema que interessaria a cidade de Paris. O Bulevar dos Esportes seria um equipamento também da cidade de Paris, de caráter cosmopolita e metropolitano.

"A respeito do trabalho sobre o Bulevar dos esportes, na orla de Paris: a demonstração foi feita nessa consulta, mostrando que para intervenções territoriais conseqüentes, não é preciso sistematicamente recorrer aos grandes gestos, e nós teríamos interesse em conduzir uma reflexão de síntese sobre as proposições suscitadas por esse tema, principalmente" (4).

No debate final, nas conversas informais durante os almoços, alguns técnicos e arquitetos franceses comentaram que o conjunto dos projetos apresentados, de fato, os surpreenderam. Extrapolava-se o plano das idéias ao qual a convocação se reservara e se preparara. Surpreendentemente, haviam verdadeiros projetos.

Quanto ao Bulevar dos Esportes, que seria – até então – uma grande incógnita, confessavam possuir, agora, pontos de partida, projetos que interessariam a cidade e contariam – efetivamente – como uma importante contribuição em seu desenho futuro.

A maioria dos arquitetos participantes levou em conta uma visão prospectiva mais larga, não se restringindo a uma reflexão apenas até 2008, não pensando apenas em termos da Vila Olímpica, dos Equipamentos Olímpicos, do Bulevar do Esporte e no momento dos Jogos Olímpicos.

Pensando, desenhando e sonhando o futuro

Quase todos os arquitetos participantes avançaram no futuro – onde a energia econômica daquela região certamente será outra, e os Jogos Olímpicos a possibilitar também esse grande pretexto de correções, avanço e desenvolvimento urbanos.

Todos consideraram os planos de urbanismo e de remodelação, já em vias de realizar-se naquela região, como algo concreto, sabendo que a região que visitaram e conheceram em 2000, já será outra em 2008, a despeito da realização ou não dos Jogos Olímpicos, porém melhor e mais alavancados se estes ali se realizarem. Todos pensaram, também, na herança pós-olímpica.

Quase todos os arquitetos se envolveram com o plano das águas que poderia ser traçado e assim usufruído pelos moradores da região de La Plaine de Saint-Denis e pelos parisienses.

O Sena, os canais de Paris, e na seqüência o Canal de Saint-Denis e suas darses foram objeto de observação e de estudos, alguns expressando a tradução de sonhos, não faltando a citação de Veneza, Bruges e outros canais flamengos.

Muitos projetos partiram de uma reflexão sobre Paris, sobre o lirismo e a impressão que a cidade deixa em quem a conhece, visita e convive.

Muitos buscaram as referências de Paris em iconografias longínquas, em imagens que se perpetuam na retina da geografia e da história.

Gostaríamos de destacar, no arco dos projetos apresentados, alguns que – a nosso ver – tocaram mais fundo as proposições possíveis para o futuro. Ressaltando que essas impressões são resultantes, sobretudo, do debate que presenciamos no último dia de apresentação dos projetos por seus autores. Muito nos pode e deve ter escapado e não tivemos a oportunidade de nos debruçar sobre cada projeto para um exame e fruição mais tranqüila, ou para abarcar todos.

Alexandre Chemetoff, paisagista e arquiteto, pertencente ao grupo que trabalhou sobre o tema do "Bulevar dos Esportes", pensou na criação de um novo "Grand Boulevard". Na tradição dos grandes bulevares que fazem parte do cotidiano parisiense.

Analisou todos os eixos de circulação importantes da cidade. O que essas ligações geram ou permitem revelar precariedades. E riscando, arriscou. Propôs a extensão do Bulevar dos Esportes de maneira que ele se transforme em eixo de desenvolvimento, na escala da cidade como um todo. Tornando-se, assim, um grande articulador da cidade, permitindo diversidade de formas e usos. Com uma extensão de cerca de 8 km., uma distância como a existente entre La Grande Arche de la Défense e o Museu do Louvre, estabeleceu uma disposição que permitiria distribuir os principais programas esportivos.

Propôs uma ligação entre Paris e a banlieue, um dos objetivos que até hoje o Parque de La Villette não conseguiu na vida urbana da cidade.

Seu projeto, até pela escala que o concebeu, permite uma conversação com outros projetos apresentados, uma possibilidade de cooperação mais imediata, o intercâmbio que a convocação previa.

Raj Rewal, o arquiteto hindu, já nas sessões iniciais de discussões, manifestava sua rêverie sobre o plano das águas, os canais, as darses. Dizia ele: "eu gostaria de pensar em pequenos barcos nas darses. Quais são suas reais dimensões? Pode ser que eu seja levado pela água, conduzido pela água, eu penso um pouco o romantismo, mas o saber somente tributário da água estagnada, isso me decepciona também. Penso nos canais flamengos e em Veneza"...

Rewal, que trabalhou sobre o tema "Habitar esportivamente", pensou o morar e o viver, a partir das águas, junto às águas.

Como princípio, inspirou-o o que já lhe oferecia a cidade de Paris com sua magia, organizada em torno do Sena e de seus cais e canais. As praças e pátios internos. Cafés e bistrôs próximos do trabalho e da habitação. Propõe edifícios de 4 a 6 andares, mantém a escala dos pátios internos, cria uma variedade na escala da tradição francesa, sugere praças pequenas, passeios de pedestres, a habitação cercada de pequenos restaurantes e terraços nas bordas de canais e darses, dos quais busca tirar o melhor proveito para os futuros habitantes ou participantes dos jogos olímpicos. Estabelece três tipologias para as unidades de habitação, estuda e propõe sua transformação pós-olímpica. Usa a pedra como matéria de superfície e de estrutura, apresentando seus desenhos com a delicadeza do lápis de cor.

Eduardo Arroyo, um dos mais jovens participantes, estudou o mesmo tema de projeto de Raj Rewal. Apresentou um dos projetos mais arrojados, pela capacidade de mostrar até onde pode caminhar a abstração e um certo método de raciocínio. E de onde a abstração e o tal método podem nascer também.

Conversávamos ao final de sua apresentação, associei-o a certas imagens de Magritte, a um plano de tangência no surreal. Ele, sem se surpreender, afirmou que sempre se sentiu muito próximo dos surrealistas, quase como um militante surrealista.

Em seu projeto, a partir de imagens que seleciona, todas absolutamente parisienses – Arco da Défense, Torre Eiffel, Basílica de Saint-Denis, Le Bourget, Sacre Coeur, Stade de France, La Villette, a Grande Salle e o Estádio Náutico ( estes dois últimos já pertencentes ao projeto olímpico, no Bulevar do Esporte), Arroyo faz uma decupagem num exercício de abstrata geometria. Cria séries.

São essas imagens, que por reflexo ou por sua forma mesma, definirão seus edifícios e o que eles poderão proporcionar ao olhar furtivo.

Fragmenta horizontes com seus edifícios espelhados, posicionados para refletir segundo relevos e distâncias. Quase um manifesto seu memorial descritivo: "Nós não propomos uma desesperante acumulação de objetos, nem uma qualquer e ilusória promessa de crescimento econômico, mas a conquista de um novo senso".

Toyo Ito, no tema "Olimpismo e a vila", aborda o cerimonial, os cultos, quase os bastidores, os momentos onde os atletas não fazem a cena principal. Mescla de espaço público com o privado. Local onde o atleta repousa e se concentra.

A água está também no centro de seu projeto. Não a água do canal e das darses. Não a água ativa, que corre, sobe, desce, transborda, água de marés. Trata-se de água plácida, água reflexo e água para refletir. Água-zen se assim podemos defini-la.

Um magnetismo tranqüilizante na zona dos restaurantes, na área coletiva dos atletas. A ser aproveitada para a cidade do futuro, no futuro.

Patrick Berger, arquiteto francês, como seus demais conterrâneos, tem uma vivência e conhecimento de Paris e de seus problemas, levando-os a detalhes singulares em suas propostas.

Berger, desdobra Paris inteira, iluminando- a. A maquete de seu projeto foi desdobrada da mesma maneira, uma esteira seqüencial, onde se destacam os monumentos e referências indispensáveis de Paris.

Conjugando centro e banlieue, propõe dar fim a essa separação, forçando para que a periphérique deixe de ser uma barreira.

Propõe o entrelaçamento de dois anéis: o periférico – já conhecido, e o hidrográfico, que existe, mas nunca configurado como tal – o Sena e o Canal Saint-Denis afivelados.

Um curso de água único, religando em seu traçado os grandes edifícios da história e de impulso da capital francesa.

E imagina e propõe uma Maratona Olímpica em 2008, confirmando a re-invenção dessa nova geografia urbana. O esporte a se implantar como um modo de vida.

O aproveitamento de todas as darses e a Vila Olímpica como um arquipélago construído.

Christian de Portzamparc, exalta a periphérique. Ele a considera tão importante como o Sena. Ele a compara a um rio, que distribui, que é visível. Ao longo desse anel ele vê a cidade desfilar: entradas, saídas, portas. Ele acredita que ela não deva separar, mas irrigar. E sobretudo não cobri-la, como foi feito com a auto-estrada A1. O edifício Calberson funcionando como Centro de Mídia seria reconvertido para atividades de ocupação como ocorreu recentemente em Auberviliers. Os equipamentos esportivos se transformariam em ilhas de habitação ligando-se aos imóveis antigos, atenuando o isolamento do Boulevard MacDonald.

Penso que equivoca-se, no entanto, ao prever uma série contínua de edifícios, uma fragmentação desnecessária do espaço, e o Estádio Náutico – inscrito no parque e dando vista sobre o canal – é coberto por uma cobertura ligeira. A nova Porte de La Villette como um longo parque ondulado, porém bastante entrecortado.

Jean Nouvel, imagina uma plataforma sobre-elevada a altura de 20 metros, re-agrupando nela todas as funções de "coração da cidade", afim de criar na Vila Olímpica uma espécie de belvedere de onde se poderá avistar Montmartre, a Torre Eiffel, o Estádio da França.

Uma praça ladeada de cinco jardins permitiria os cinco locais de culto diferenciados, permanecendo tais locais após os jogos, como os demais equipamentos.

Me fez lembrar um caminho pelo qual a arquitetura anda enveredando, se perdendo um pouco entre as possibilidades tecnológicas e a produção de imagens como se fosse um painel publicitário.

O projeto de Paulo Mendes da Rocha

"O convite a um arquiteto como Paulo Mendes da Rocha me pareceu pertinente na medida em que este arquiteto é o autor, em São Paulo, de projetos que fazem resistência à arquitetura vernacular. Mesmo se hoje, em nosso país, rejeitam-se as grandes estruturas que geraram catástrofes urbanas conhecidas, ele dá ao Bulevar dos Esportes um sopro que muito surpreendeu. Sua proposição de construir a Sala de Esportes sobre o depósito da RATP parece uma idéia evidente" (5).

Paulo Mendes da Rocha se identificou com o tema do Bulevar dos Esportes desde a primeira mirada, quando divisou o marcante, rascante Canal Saint-Denis, traçado vincado em toda a área do projeto, com as darses – suas derivações já existentes, e mais todas aquelas que se poderia inventar.

Vem de longe, no tempo, esse interesse pelas águas, em país tão fluvial como o nosso. Não só a ciência, mas também a poética das águas. Primeiro, foi Vitória, a cidade, capital do Espírito Santo, onde cresceu junto ao mar.

E crescendo, mais tarde, aqui em São Paulo, acompanhou os trabalhos pioneiros que tratavam da Bacia do Paraná-Uruguai, elaborados por seu pai, professor e mestre desse tema na Escola Politécnica.

Em seu histórico de projetos, vale destacar os que se congraçam com as águas:

  • O Plano Urbanístico das margens do rio Jaú.
  • O Plano de urbanização das margens do Rio Cuiabá.
  • Um Plano de cidade nas margens do Rio Tietê, em São Paulo.
  • O Plano Urbanístico para a Baía de Vitória, Espírito Santo.
  • Na Plaine de Saint-Denis estava outra vez diante das águas.

Agora com os canais que interligam o continente europeu através de um sistema de trinta mil quilômetros de extensão.

A possibilidade de refletir sobre uma cidade fluvial como Paris, em um momento de obrigatório cosmopolitismo, onde se entrelaçariam todos os países do mundo, através de seus atletas, esportistas e seus povos, parte também do espetáculo.

No dia da apresentação dos projetos, o tema Bulevar dos Esportes, previsto anteriormente para o período da tarde, foi transferido de improviso para o período da manhã. O projeto de Paulo Mendes da Rocha escalado para a primeira apresentação naquela manhã fria, úmida, brumosa. Primeira performance, como diria Raj Rewal. Uma situação como esta encontra todos os participantes muito ativos, uma grande curiosidade em todos os pares, há a surpresa do primeiro pronunciamento. Uma atenção e até uma certa tensão muito grande.

Paulo, em poucas palavras, mas com aquele entusiasmo vivo que é uma de suas características, falou sobre as linhas gerais e dominantes do projeto. Insistiu sobre a nova visão indispensável diante do urbanismo e das cidades na era pós-industrial.

Lembrou – tanto quanto o seu projeto – que as cidades só passam a contar na história quanto mais cosmopolitas sejam. E com os processos culturais nela intrincados, a partir delas, desatados e desabridos.

A partir das vias navegáveis identificadas na cidade de Paris, com sua seqüência na Plaine Saint-Denis, propôs a criação de um Museu das Vias Navegáveis Francesas. Reafirmava, com esse gesto, sua relação com as águas, não apenas projetivas, geográficas, paisagísticas, mas também históricas.

O projeto foi exposto com suas 4 pranchas obrigatórias, que apenas poderiam ser consultadas e lidas de perto, devido às condições e dimensões do edital. Não foi apresentada maquete e sim utilizado um sistema de projeção em DVD, um filme de duração de 5 minutos, que foi projetado em seguida.

No filme, muito claro, o projeto podia ser visitado com os recursos de 3ª dimensão, e tornava visível e quase tátil aos assistentes o extenso pórtico se desenvolvendo ao longo do Bv. MacDonald, envolvendo o Canal Saint-Denis, estendendo-se até a Av. Jean-Jaurès.

O pórtico de concreto protendido ancoraria sistemas de estruturas leves de aço, compostas de asas móveis com comando eletrônico, sensíveis às mudanças das estações do ano, tão diferenciadas na Europa. Estruturas e paisagens. Estruturas e climas.

Todos os equipamentos esportivos aquáticos exigidos no programa emergindo do solo, foram alinhados em boa e correta geometria, com as arquibancadas retilíneas e suspensas sobre eles.

Uma negação enérgica à idéia de um conjunto de edifícios dispostos contínuos, porém separados uns dos outros, isolados. Optou pela proposta de uma esplanada onde lazer e atividades esportivas se mesclam, tendo a água como paisagem dominante. Onde o espaço conta mais que a construção.

Pensou uma estrutura tal em seu extenso pórtico, com 1 km. de extensão, para que após as Olimpíadas, ela possa abrigar as transformações que a região de La Plaine exige para renovar-se. Nele suspenderia blocos de habitações, deixando a área do térreo livre de apoios. Nos terrenos de cotas rebaixadas, construiria escolas e creches. As grandes praças de lazer e jogos que deveriam existir acopladas a elas já estariam todas previstas no projeto.

Corajoso, não acatou um ponto do edital – transferindo a Grande Salle – um grande ginásio desportivo – para a área de um entroncamento ferroviário extenso e carregado, mas pouco ativo, da RATP. Manteve um ramal do Metrô em serviço e propôs um edifício sólido, quadrado, guardando em si um círculo – de dimensões generosas, com pilares notáveis e cujas placas de concreto de fechamento nem tocam o piso e nem mesmo se tocam nas quatro arestas.

Fez arestas de luz.

Junto à Grande Salle, na área coberta que circunda o estádio, dispôs restaurantes e áreas de entretenimento se abrindo para a esplanada, junto a um novo cais, onde barcos permitiriam o lazer e os passeios nos canais. Os hóspedes do hotel se beneficiariam dessa mesma área, e pelas águas, se quisessem, sairiam navegando até Paris.

Mantendo o edifício Calberson, um excelente imóvel a ser restaurado, como previa o programa, o enriqueceu com um teto-jardim e uma ponte suspensa que conduz ao interior da esplanada coberta com o pórtico, ligando uma grande passarela que atravessa longitudinalmente o conjunto aquático, como quem o sobrevoa – passarela técnica de serviços, filmagens e transmissões.

Há que se registrar dois momentos em que a assistência nos surpreendeu com sua própria reação de surpresa, durante a projeção do DVD.

No filme que substitui a maquete, do ponto de vista de um visitante, de um passeante, o projeto inteiro é percorrido em seus interiores e circundado pelo exterior.

No momento em que se focaliza o Canal Saint-Denis, cruzando a área náutica por sob o pórtico, surge muito lentamente um bateau-mouche. O sol ali também está cumprindo o seu trajeto diário.

O silêncio é quebrado, então, com murmúrios de surpresa, que se renovam quando o filme se encerra, revelando as arestas de luz da Grande Sala. E ao contorná-la – com a lua crescente, arábica, postada no céu – começa a se destacar, bem ao fundo, a silhueta da Torre Eiffel. Todo o filme está coberto de azul, grises e prata.

Passada a faina, é gratificante saber, pela entrevista de Yves Lion, que a interdição inicial – a transferência da Grande Salle – prevista em edital e mantida nas discussões dos encontros prévios do GIP 2008 com os arquitetos, deveria ter sido uma evidência não acatá-la e sim, transferi-la para a área ocupada hoje pelos depósitos da RATP.

O memorial descritivo do projeto de Paulo Mendes da Rocha, transcrito em sua íntegra, a seguir, com as ilustrações indispensáveis, croquis, perspectivas, plantas e cortes, nos parece a maneira ideal de proporcionar uma leitura de uma visão de urbanismo futuro.

notas

1
Paris Olympiques, France, Le Moniteur, fev. 2001, p. 77, entrevista Yves Lion. Yves Lion – Arquiteto e Urbanista, dirige a Escola da Cidade e dos Territórios de Marne-la-Vallée, Coordenador do Grupo Hippodamos, um dos responsáveis pela reflexão urbana sobre La Plaine Saint-Denis (1990-1994), onde participa desde o início; atuante no IFA-Instituto Francês de Arquitetura e no GIP Paris 2008 – Grupo de Interesse Público Paris 2008

2
Darse – a palavra é um termo da marinha denominando uma bacia abrigada no interior de um porto, onde se pode efetuar com segurança o reparo de algumas pequenas construções; bacia de retenção de águas pluviais ou de dejetos industriais; hoje elas são apenas cais de desembarque, contribuindo para o eco-sistema.

3
Paris Olympiques
, op. cit, p. 77.

4
Idem, ibidem, p. 77.

5
Idem, ibidem, p. 70-73.

6
Planta geral de Paris e da região / Planta ampliada da região do projeto; nela estão marcadas a rue de Landy, os Magasins Généraux, o traçado do limite de Saint-Denis e Aubervilliers, o Parc du Millénaire, as Portes de La Chapelle e de La Villette, a Periférica, O Canal de Saint-Denis, as darses do canal, o Bv. Mac Donald.

[Veja mais sobre o projeto de Paulo Mendes da Rocha para Olimpíadas de 2008 em Paris]

sobre o autor

Cecília Scharlach é arquiteta e produtora cultural. Foi um dos diretores da "Palavra e Imagem Editora" nos anos 80, tendo publicado obras de Sérgio Ferro, Ferreira Gullar e Paulo Vanzolini, Chico Buarque, Ignácio de Loyola Brandão, em parcerias com Aldemir Martins e Vallandro Keating. Trabalhou com Oscar Niemeyer e fez parte da equipe de Paulo Mendes da Rocha no Concurso Internacional de Idéias para as Olimpíadas 2008 / GIP 2008 Paris. Foi curadora das exposições "Oscar Niemeyer 90 anos" (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília ), "Oscar Niemeyer" (Museo Nacional de Bellas Artes e Universidade de Buenos Aires) e "Oscar Niemeyer 2001" (Pavilhão de Portugal, Lisboa). É sócia da empresa Mello Escarlate Arquitetos Associados S/C Ltda.

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