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CASTELLO, Lineu. Dona Fifina é pós-moderna (e nem sabia). Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 015.04, Vitruvius, ago. 2001 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.015/857>.

O mausoléu de dona Serafina Corrêa – encimado por uma peça de estatuária encomendada especialmente – à entrada da cidade de mesmo nome, já deixa perceber claramente que se está ingressando num ambiente urbano que tenta se diferenciar da mesmice que prevalece nas pequenas comunidades riograndenses no que concerne à comunicação com seus eventuais visitantes. As idéias de criação de marca para a cidade de Serafina Corrêa (2), aliás, não se esgotam por aí. Em 1994, antecipando o que hoje está sendo conhecido como um ‘brandismo’ (3) em arquitetura urbana, a cidade já teria tumultuado a cena urbana regional ao abraçar um projeto arquitetônico-urbanístico desafiadoramente polêmico: uma obra de desenho urbano denominada ‘Via Gênova’, constituída basicamente pela construção de réplicas de monumentos históricos da Itália, alinhadas ao longo de um eixo central.

Enfim, um diferencial de peso para Da Fifina

Com ponderável justeza os serafinenses se acreditam habilitados a disputar o título de ‘centro da cultura italiana’, se não do Estado, pelo menos, da região da Serra Gaúcha. Como indicador de sua capacidade para tal ostentam o sucesso da realização de seu "Festitália", que já está em sua segunda década. Trata-se de um evento que celebra as origens étnicas dos moradores através de concursos de cantos e de danças, do consumo de pantagruélicas quantidades de pasta e de um festival de teatro com peças encenadas exclusivamente em italiano. Além disso, qual um panegírico a coroar toda a italianidade da celebração, durante os sete dias os habitantes só se comunicam em "talian", como é conhecido o dialeto local. Justo, então, que um dos passos seguintes unisse a população na construção de um monumento aos arrojados imigrantes que povoaram a região, nela inculcando sua tradição, cultura e trabalho. Foi, então, novamente convocado o escultor que já havia brindado a cidade com o mausoléu para, agora, lhe atribuir a incumbência de erigir "La Nave degli Imigranti" [imagem 1], monumento localizado sobre as obras de canalização a céu aberto de um arroio (que participa do cenário representando o ausente mar de Gênova, o porto de embarque dos emigrantes). Mas a fervilhante imaginação local não deixou passar despercebida a irresistível oportunidade de aliar a "La Nave" algumas outras associações nostálgicas evocativas das longínquas raízes. O raciocínio foi bem articulado: já que haveria uma intenção de reforçar a marca da cidade no mercado turístico, por que, então, além de um monumento comemorativo, não trazer igualmente a memória viva da terra dos ancestrais para o centro da cidade?

E foi assim que aconteceu um projeto realmente de peso, o Projeto Via Gênova, que acabaria marcando para sempre o diferencial que Dona Fifina buscava com tanta determinação [imagem 2]. Repentinamente, unindo o inesperado ao improvável, começaram a espocar réplicas de consagrados monumentos da arquitetura italiana, por iniciativa conjunta dos setores público e privado. As edificações iniciaram-se por ‘Il Castello Inferiore di Marostica’, abrigando um café colonial, o Marosticaffè [imagem 3], e a ‘Casa di Romeo’, destinada a uma sorveteria, a Gelateria Genova [imagem 5]. Mas não tardou muito para que Serafina se visse acrescida de uma ‘Casa di Giuletta’, com sua correspondente danceteria, a Giuletta Envenenada; seguida pela abertura de um comércio de artesanatos e artigos para presentes, a Loja La Rotonda, construção fortemente calcada nos aspectos formais clássicos encontrados na Villa Almerico, de Andrea Palladio, em Vicenza [imagem 4]. Para desgosto dos promotores da extravagância, o ‘Colosseo’ de Roma nunca chegou a ser concluído [imagem 6]; e a Torre de Pisa não saiu do papel, embora importante na composição do conjunto.

O pós-moderno da serra

O projeto Via Gênova antecipa na região, ainda que talvez inadvertidamente, a implantação de uma iniciativa muito próxima dos edulcorados ‘maneirismos’ pós-modernistas que se vêm praticando mundialmente no urbanismo contemporâneo. Se, por um lado, esta prática se associa a intervenções urbanas mais correntes em grandes centros metropolitanos, sua presença em um pequeno centro como Serafina Corrêa (4), permite denotar que se está frente tanto a uma desinibida disseminação de uma das manifestações características do que Jameson (1998) identifica como expressão de uma nova lógica cultural do capitalismo tardio, como das fusões que Ellin (1999:19) acredita estarem diluindo cada vez mais as fronteiras entre alta cultura, cultura de massa e cultura popular, e agregando o que é ficção ao que é não-ficção na sociedade urbanizada da virada do século. Na verdade, está-se frente à inserção em um determinado ambiente de imagens alheias ao que é predominante em seu contexto, ao que é efetivamente real e concreto em sua construção social: foge-se, então, na direção de representações mais próprias de uma meta-realidade. Os projetistas estão criando uma marca para vender um produto. Para materializá-la, precisam produzir um lugar, e inseri-lo numa trama articulada de tal forma que permita estimular percepções que ajudem a vender a marca designada. Obviamente há explicações que tentam interpretar esse tipo de evasão – e algumas já foram discutidas mais detidamente (Castello 1998; Castello 2000); contudo, uma demonstração assim tão pungente do fenômeno, numa realidade tão próxima quanto a do minúsculo aglomerado de Dona Fifina, chama irresistivelmente a atenção. Que se inicia, necessariamente, por uma revisão das teorizações que envolvem o conceito de lugar no contexto da cidade contemporânea.

Com efeito, do exame sobre o estado da arte do lugar urbano na literatura ressaltam duas importantes constatações. Uma delas, de natureza intrinsecamente sócio-psicológica, traz à reflexão que o ‘constructo’ de lugar pode ser de substancial utilidade na análise urbana e na prática do projeto, já que a inserção de uma bem planejada articulação de lugares públicos na estrutura de uma cidade tem papel fundamental na urbanidade. A outra, fruto do acompanhamento de correntes urbanísticas do último lustro do século 20, e de compleição marcadamente econômico-comunicacional, faz refletir sobre a extraordinária importância do papel desempenhado por lugar e projetação de lugar no ‘marketing’ urbanístico e na gestão da cidade contemporânea. Dentro deste pressuposto resulta bastante aceitável que se vá situar em casos como o de Serafina, a abordagem que poderá contribuir para o entendimento de um tipo de urbanismo cuja gênese de lugares transpõe a realidade do cotidiano. Lugar, nesse urbanismo, não é mais uma realidade: é uma fantasia materializada, onde a ação projetual tende a obliquamente gerar lugares mais próprios de uma meta-realidade, oferecendo imagens que transcendem a realidade enfadonha do cotidiano das cidades. Ou seja, tende a um ‘meta-urbanismo’.

O lugar não-real já é uma realidade

Foi Disney quem ensinou: urdir uma trama entre o desenho urbano e entretecê-la com fantasias próprias de desenho animado é ótimo para os negócios urbanos e traz, de inhapa, uma maciça aceitação popular (Castello 1999). Além disso, conta normalmente com o endosso de conservacionistas agradecidos, já que é comum que o cenário onde se desenrolam as historinhas fantasiosas seja o de áreas impregnadas de historicismo. Tudo isso, velozmente transportado pelas tramas da globalização, foi ciosamente adaptado pelo Brasil. De Beto Carrero a Serafina Corrêa, a guerra dos temas já recobre, hoje, a extensão total do território brasileiro.

Na verdade, o fenômeno nem é tão recente assim. Mesmo que seu grande gatilho tenha sido disparado nos projetos das imagens fantasiosas criadas por Walt Disney para as main streets de seus primeiros parques (Castello 1998), muito de meta-realidade sempre esteve presente na história urbana deste século, seja em projetos de grandes Feiras Mundiais, seja em grandes Parques de Diversões (5). De fato, a humanidade sempre reservou um lugar carinhoso para a fantasia. O que parece inquietador, no entanto, é que essa fantasia tenha se insinuado através de campos tão díspares do urbanismo a ponto de hoje abranger um espectro amplamente diversificado, que recobre de condomínios residenciais a cidades temáticas inteiras, como a cidade de Celebration, nos Estados Unidos, construída por Disney (6). Hoje, nas grandes cidades brasileiras, é difícil deixar de encontrar exemplares desses lugares urbanos, representados seja por mega-empreendimentos de lazer até conjuntos residenciais inteiramente tematizados (quando, não, envolvendo cidades inteiras – no que, as famosas cidades da serra gaúcha Gramado e Canela são modelares em suas intenções de reproduzir um pot-pourri de paisagens urbanas dos Alpes europeus). E eis que desponta a Via Gênova da Dona Fifina, ombreando desafiadoramente, em seu conteúdo temático, com meta-realidades portentosas do tipo do Forum Shops, a via romana que também Las Vegas ostenta, e onde a cenografia hoje suplanta a iconografia, como re-aprenderam Venturi e Scott Brown (1996:12) ao revisitarem a cidade.

A produção do lugar hoje: new urbanism ou meta-urbanismo?

É uma cruel surpresa constatar que sociedades altamente urbanizadas e modernas, como a norte-americana, tentem enfrentar o início deste novo século ainda tateando na busca de soluções inovadoras para combater as anomalias de seus meios urbanos. Lá, independentemente do projeto dos grandes lugares temáticos e da doutrinação progressivamente emitida pela arquitetura dos edifícios consagrados ao brandismo, a atual vertente auto-denominada de new urbanism é a que parece vir concentrando o maior número de adesões, seguindo com fidelidade as normas ditadas por uma "Charter of The New Urbanism" (7). Prova disto é a aplicação dos princípios postulados por essa vertente na cidade-nova de Celebration e na de Seaside, esta última, desenhada por seus maiores expoentes, Elizabeth Plater-Zyberk e Andres Duany. Desanimadoramente, os eventuais progressos do "New Urbanism" parecem encontrar-se ainda aquém de qualquer expectativa: a grosso modo, a corrente busca no urbanismo da primeira metade do século 20 sua inspiração para a cidade do início do século 21. Ou seja, tenta repetir muitos anos depois os mesmos moldes daquilo que os ‘urbanitas’ consagraram como sendo de qualidade no ambiente urbano. O emprego da cidade real de Seaside como o cenário da cidade irreal do filme "The Truman Show", de Peter Weir, aponta para um dos paradoxos mais criticados da nova corrente urbanística: o caráter enganador fornecido por uma percepção criada como evasão da realidade atual. Ora, em última análise, a tentativa embutida nos projetos do new urbanism de fugir para o passado, defasada do jeito que é, termina por se tornar apenas uma variação a revolver em torno de um mesmo tema: a promoção de um desenho que favorece a fuga da realidade cotidiana assim como ela se apresenta, mesmo que, para isto, seja necessário reproduzir nostalgicamente o que era percebido como o bom antigamente. Em outras palavras, cumprir os desígnios de um urbanismo que não corresponde fielmente à realidade da sociedade atual, desviando-o para obras mais atinentes a um meta-urbanismo.

Não deixa de ser intrigante, por outro lado, encontrar na cidade brasileira – na cidade de tantas contradições – as manifestações in totum dessas novas tendências urbanísticas, seja brotando no intra-muros dos modernos condomínios residenciais cercados, seja compondo as surpreendentes cenografias visualizadas (e materialmente penetráveis) dos parques temáticos propriamente ditos. Ora, isto só vem a tornar um caso como o de Serafina sintomaticamente adequado para investigar como está se procedendo a manifestação do fenômeno no Brasil, agora, dentro de uma escala micro-urbana.

A percepção ambiental na análise urbana

Há metodologias apropriadas para analisar a fenomenologia manifesta no meta-urbanismo?

Evidentemente, uma pesquisa urbana que se dirija para esse propósito deve contar com uma séria conjunção de propostas disciplinares, atraindo a colaboração das noções contidas nas disciplinas localizadas nas interfaces das Ciências Sociais Aplicadas com as das Ciências Humanas e, ainda, com as das Ciências Ambientais. Entretanto, transpassando todos esses campos, destaca-se uma área comum a todos e (hoje, pelo menos) não localizada exclusivamente em nenhum deles. É a Percepção Ambiental, que vem abrindo perspectivas extremamente úteis para a compreensão dos fenômenos urbanos e para a detecção das interações que se processam entre as pessoas e o ambiente construído. Ou seja, das relações comportamento humano-ambiente urbano.

Os estímulos percebidos

A percepção das formas urbanas oferece um número considerável de abordagens, algumas delas desenvolvidas no próprio bojo da disciplina de Arquitetura e Urbanismo. Alguns dos referenciais analíticos da área têm oferecido metodologias que buscam operacionalizar uma "leitura" dos ambientes urbanos segundo os padrões de um determinado léxico, de modo a viabilizar o registro dos elementos mais legíveis nesses ambientes. Algumas delas adquiriram tão elevado nível de aceitação, que se tornaram verdadeiramente consagradas, como a de Kevin Lynch, nos anos 1960s, e que ainda hoje fornecem material rico em registrar com razoável presteza as imagens que mais estimulam a percepção dos usuários dos territórios urbanos. De forma análoga, também metodologias nas quais a preocupação se volta para a presença dos recursos naturais no território antropizado acabaram constituindo verdadeiros paradigmas na história da análise urbana, como o trabalho de Ian McHarg, também nos 1960s. Ambos oferecem metodologias para registrar os estímulos percebidos no ambiente, só que o fazem com a ênfase recaindo sobre os estímulos cuja percepção se dá de forma espontânea.

A percepção estimulada

Com toda a grande reviravolta trazida pela corrente pós-modernista do último lustro do século 20 tornou-se patente a carência de metodologias que ajudem a teorizar sobre o que vem sendo produzido, principalmente quanto ao papel que está sendo desempenhado pela arquitetura urbana no sentido de ela mesma criar estímulos desenhados para influenciar artificialmente a percepção das pessoas. Ora, assim como é válido admitir que, em sua evolução, o ambiente construído deixa marcas que estimulam intensamente os mecanismos perceptivos de seus usuários, é igualmente admissível reconhecer que a arquitetura é potencialmente capaz de criar "percepções estimuladas intencionalmente". Mesmo que o reconhecimento desse potencial traga um desconforto até certo ponto atemorizador (e a História é pródiga em relembrar o que o mau uso da Arquitetura já causou), é inegável que essas novas práticas estão proliferando nas atuais concentrações urbanas mundiais. E que isto agora está acontecendo não só com extrema velocidade como em grandes números, embora não acompanhado por suficientes interpretações teórico-filosóficas. Algumas contribuições avulsas, entretanto, já começam a despontar. Uma dessas, por exemplo, levantada por M. Christine Boyer (1997), permitiu isolar o place-marketing como categoria importante para a nova análise urbana, retratando-o em suas dimensões mais relevantes para o entendimento do papel que exerce na construção de percepções artificializadas. Ada Louise Huxtable (1997) categoriza o placemaking como uma política de promoções urbanas cuja participação na formação dos novos lugares é igualmente indispensável para o entendimento dos novos tempos do desenho urbano. Da mesma forma, poucas vezes a identidade sócio-espacial e a criação de valor econômico real, que caracterizam o perfil típico das paisagens pós-modernas, foram palco de reflexões tão claras para o entendimento do vertiginoso processo de construção urbana que está ocorrendo nas pegadas da globalização, quanto as enunciadas por Sharon Zukin (1996; 1997). Por outro lado, o rigoroso revisionismo a que se submeteu recentemente David Harvey (2000), em relação a alguns de seus últimos títulos, abre perspectivas de esperança no desenho urbano que virá no novo século e que será marcado pelo que ele chama de "dialectical utopianism", incluindo-se nessas utopias, lugares públicos que colaboram, mesmo que utopicamente, para o desenvolvimento da cidadania. Enfim, já há algo sendo larvado na aproximação entre categorias teóricas sendo (lentamente) construídas, e que buscam explicar as relações e as alianças que se estabelecem entre placemaking, place-marketing, a brand-cidade das corporações pluricontinentais, e o incessante tecer da globalização.

Um papel duplo na percepção da arquitetura urbana

Existe, então, um papel duplo exercido pela arquitetura na percepção que os usuários fazem do ambiente: a arquitetura tanto pode fornecer meios para catalogar os estímulos percebidos mais claramente no uso do ambiente urbano, como estimular mais fortemente determinadas percepções. Reconhecer que existem lugares que criam percepções conforme a intenção de seus desenhadores é, até certo ponto, fácil. Difícil é entender os processos sociais de que estão impregnadas as práticas que lhes dão origem. Este é verdadeiramente um dos dilemas a desafiar a argúcia dos pensadores urbanos de hoje. Parece que nunca a Filosofia, como disciplina, se fez tão necessária ao desenvolvimento da pesquisa em desenho urbano, principalmente agora, quando este passa às populações urbanas uma percepção de segurança e felicidade que nem de perto correspondem à crueza da realidade que as cerca, estimulando-as a refugiar-se em estruturas artificiais tentadoramente atrativas.

Aprendendo com Dona Serafina

Mesmo pequenina do jeito que é, Dª Serafina sempre encontra algum modo de oferecer lições aos estudiosos das cidades. Ensina, por exemplo, que prefeituras de cidades brasileiras, por menores que sejam as sedes urbanas de seus municípios, e por mais precipitadas que sejam suas experimentações, valem-se de táticas pós-modernas, como a criação de marca, para colherem os benefícios disso decorrentes. Isto eqüivale a dizer que engajam-se numa franca política de place-marketing urbano. E que, igualmente, valem-se dos efeitos oferecidos pelo meta-urbanismo para concretizarem o brandismo e o correspondente place-marketing, adotando o placemaking na criação dos lugares que estabelecerão o ambicionado city-marketing.

Em outras palavras: são pós-modernas em suas maneiras de conduzir a gestão local.

Mesmo que as táticas que estejam empregando para este fim ainda não tenham sequer suas expressões traduzidas para o Português, de modo a poder explicar com maior fluidez o real teor das categorizações contidas nos termos anglo-saxônicos originais. De fato, a audácia da Via Gênova fez o nome de Serafina Corrêa ingressar na área dos estudos urbanos, por mais criticável que possa ser sua proposta. Há, certamente, algo a aprender aí. E há pelo menos dois bons argumentos a "imparare da Serafina":

Um desses argumentos desaprova o projeto. Percebe-o como equivocado e depreciador dos níveis culturais locais e apresenta resistências ao que está expresso no pastiche introduzido pelo projeto. Vale assinalar, contudo, que muito das resistências decorrem pura e simplesmente das rivalidades predominantes na política-partidária local – e os conflitos intestinos são realmente de porte considerável – mas é igualmente correto que a Via Gênova experimenta um considerável desprestígio por parte da comunidade técnica. Presentemente ocorre uma paralisação bastante acentuada em seu funcionamento. Tanto a Gelateria Genova como a Giuletta Envenenada encontram-se temporariamente fechadas. Mas, neste sentido, é necessário observar que as visitas de campo ao município ocorreram antes e depois das eleições municipais de outubro de 2000 revelando, sintomaticamente, perfis diferenciados no uso dos equipamentos oferecidos. No segundo momento, derrotado o partido que estava no poder, predominou um cenário onde as instalações se encontravam com baixa freqüência popular. O apoio do setor público a um projeto dessa natureza é, portanto, importante para seu bom funcionamento e eficácia. É verdade que talvez isto esteja sucedendo somente em função da pequena escala urbana a que se está frente, passível de refletir quase instantaneamente pequenas idiossincrasias político-partidárias. Mas, mesmo assim, é provável que o projeto, sem valer-se de um aporte do município, não conseguirá seguir um rumo normal por seus próprios meios, mesmo que tal apoio se dê apenas em níveis do prestígio e da publicidade conferidos por uma aproximação mais fraterna com os meios oficiais.

O outro argumento aprova o projeto. A percepção da população demonstra ter havido boa receptividade para a Via Gênova. O conflito entre a percepção dos técnicos e a percepção popular, assim como a defasagem entre a linguagem normalmente empregada na arquitetura e sua comunicação com a população, são temas freqüentemente debatidos nos foros mais preocupados com os rumos que vem tomando a criação de espaços públicos nas cidades. Projetos-âncora, como bem poderia ser considerado o da Via Gênova, teriam a capacidade de exercer um papel positivo no reforço da auto-estima dos cidadãos em relação à arquitetura de suas cidades, corrigindo a queixa de que a arquitetura, muitas vezes, adota uma linguagem erudita e elitista que permanece incompreendida pelo grande público (8). Evidentemente que, nesta condição, o mérito "arquitetônico" em si dos fac-símiles apresentados na Via Gênova de Serafina não estaria em questão: seriam meros veículos de uma mensagem de forte apelo popular. E, certamente, validatórios de algumas correntes que defendem que a arquitetura popular é a que efetivamente se identifica e pode se aproximar da população. A defesa que Robert Venturi faz do gosto popular na arquitetura, por exemplo, teria grandes probabilidades de encontrar nos fac-símiles da Via Gênova, farta matéria para estímulo.

E que interpretações podem decorrer dessas constatações?

Que as relações entre o meta-urbanismo e o mercado são congeniais, parece não restar dúvida. Para isso, basta rememorar que os argumentos invocados remontam invariavelmente a recortes como o marketing do lugar e o placemaking. Certamente, num período da humanidade onde as corporações pluri-continentais estão assumindo a urbanização do que seriam os espaços públicos da cidade de antigamente, nem poderia ser mesmo diferente. Na constituição da Berlim-capital-federal de hoje, Potsdamer-Platz, desenho urbano dirigido por Renzo Piano compreendendo um conjunto de edifícios polarizados por uma praça pública, a Praça Marlene Dietrich; e a Área da Sony, espaço desenhado por Helmut Jahn no entorno de grande praça pública coberta; seriam exemplares suficientemente expressivos para atentar-se ao papel que corporações como a Daimler-Chrysler e a Sony detêm na organização dos espaços "públicos" da cidade pós-moderna. O triunfo do consumismo na sociedade contemporânea parece estar moldando a cidade à sua imagem.

Vem se tornando comum invocar a metáfora à caverna platônica na tentativa de explicar/entender os espaços construídos pela Arquitetura Urbana. Nestes termos, Da Fifina construiu uma espécie de Bat-caverna ao receber a Via Gênova em seu centro comercial. A fuga à realidade e o ingresso na ficção remetem mesmo ao mito da caverna. Não deixa de ser curioso registrar, por exemplo, que enquanto a Literatura recorre ao platonismo e vai buscar na caverna sua interpretação para o indiscutível sucesso dos shopping-centers como espaços de convívio da sociedade pós-moderna, este mesmo mito é também invocado para justificar e explicar os projetos ditos meta-urbanos (9).

Embora ainda não bem resolvido social, cultural e politicamente, o novo espaço da Via Gênova já teria estabelecido tal familiaridade com a população; a própria cidade de Dª Fifina já se teria aninhado tão confortavelmente dentro de seus limites; os graus de convivência com o centro da cidade já estariam tão singularmente estabelecidos; que a cidade talvez não poderá mais rechaçá-lo tão inconseqüentemente quanto gostariam seus detratores. A ‘caverna’ consumista já se incorporou ao contexto urbano, já faz parte das materialidades possuídas por Dona Serafina, são bens que são percebidos como que imersos no repositório de valores que a sociedade local possui. A atestar isso o fato de que a população, nos mapas mentais que desenha sobre o ambiente urbano local, invoca insistentemente sua lembrança. Os técnicos, compreensivelmente, insurgem-se contra sua presença com visível hostilidade. Recente Parecer do Conselho Estadual de Cultura, por exemplo, manifesta sua desaprovação pela continuidade das obras exclamando que "(...) a expectativa que fica é a de que nessa alucinada demanda pelas coisas que dizem respeito à Roma Antiga, venha a surgir no futuro um administrador à Nero, dando um basta a este lamentável equívoco" (Parecer nº 080/99).

A rigorosa verdade é que a cultura clássica da Roma dos Césares ou da Itália Renascentista não chegariam a guardar relações tão diretas com o mundo real dos imigrantes como o tentam criar as imagens fantasiosas da Via Gênova. A arquitetura vernacular, esta sim, verdadeiramente representativa da cultura da imigração, é que seria suficientemente rica para exercer, ela mesma, um papel forte no marketing cultural tentado em Serafina [imagem 7]. Bem como o seriam as manifestações espontâneas celebradas no "Festitália" e as locuções das rádios locais que transmitem seus programas no dialeto "talian". No campo estrito das teorizações sobre a urbe do início do século, todavia, resta extremamente significativo encontrar correspondência entre situações que se passam hoje na escala planetária, com as que acontecem na minúscula Serafina Corrêa dos altos da serra gaúcha. A mensagem que Dona Fifina envia por intermédio de sua Via Gênova é destemperadamente over, é certo. Mas não pode deixar de ser ouvida. Afinal, na prática, o que vem acontecendo mundialmente é uma ampla aceitação por lugares criados artificialmente e introduzidos nos ambientes urbanos, quer queiram ou não seus ácidos críticos.

Muda a cultura? Mudam as tradições? Muda o ser humano?

Para os que se interessam pela percepção dos ambientes construídos abrem-se boas perspectivas com todos esses questionamentos. Afinal, tudo indica que se está finalmente acompanhando uma (esperada) inflexão entre o que é tradicionalmente chamado de ‘problemas ambientais’, isto é, a preocupação com as mudanças físico-ambientais que ocorrem no mundo (e que pareciam que jamais iriam dar o salto qualitativo que as habilitasse a enxergar além das mensurações do tamanho do buraco de ozônio na atmosfera), para preocupações que, com base subjetiva, ressaltam as mudanças psico-ambientais que são igualmente responsáveis por densas e profundas alterações na qualidade de vida dos cidadãos e que, como tal, exigem sérias e permanentes mensurações.

De qualquer maneira, assim como Celebration, Dona Fifina – sempre guardadas as proporções – também oferece um laboratório interessante para elucubrações científicas, necessárias e desbravadoras. Aprender com Dona Fifina pode ajudar a dar o passo inicial para entender um fenômeno cada vez mais presente no elenco do urbanismo pós-moderno, e oferecer as primeiras anotações empíricas quanto à sua manifestação em localizações mais afastadas dos grandes centros urbanos mundiais.

notas

1
O presente texto é uma versão reduzida do original CASTELLO, Lineu. "Imparare da Serafina. A Trama das Percepções Estimuladas". In: Ética, Planejamento e Construção Democrática do Espaço. Anais do IX Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional. Rio de Janeiro, ANPUR, vol.3, 2001, p. 1704-1716.

2
Originalmente, um distrito denominado "Dona Fifina Corrêa".

3
Ver artigo "FCUK®", de Carlos M. Teixeira, Arquitextos nº 7.03, que comenta sobre o início do emprego do brandismo por arquitetos, isto é, uma adaptação por esses profissionais dos métodos que são empregados na área de publicidade para fabricar ‘marcas’ (brand, em inglês).

4
10.896 habitantes, dos quais, a população urbana é de 8.418 pessoas (resultados preliminares do Censo Demográfico de 2000).

5
Rem Koolhas destaca Coney Island, no Brooklyn de New York, projetada na virada do século 20, como uma "Metropolis of the Irrational", abrindo caminho para um "Urbanism of the Fantastic". Ver KOOLHAS, Rem, Delirious New York. Nova Iorque, Monacelli Press, 1994, p. 63). Mais tarde, o mesmo KOOLHAAS, em S, M, L, XL. (New York: Monacelli, 1995) viria a proferir uma diatribe contra o que chamou de generic city.

6
Um dos eventos mais comentados no milieu urbanístico neste fim de século é, sem dúvida, a construção, por parte da Disney Corporation, de Celebration, uma cidade-nova ao lado de Orlando, na Florida. O planejamento urbano é de Robert Stern e Jaquelin Robertson. A cidade foi inaugurada em 1996, e foi designada oficialmente como a contribuição nacional para representar os Estados Unidos da America do Norte na Bienal de Arquitetura de Veneza (Castello 1998). Ver também sobre o assunto o artigo "Vizinhos do Pateta", de Fernando Lara, Arquitextos nº 11.02.

7
Conforme correspondência pessoal com Elizabeth Plater-Zyberk, 28/10/1999. Sobre o assunto "New Urbanism", ver artigo "Admirável urbanismo novo", de Fernando Lara, Texto Especial Arquitextos nº 56.

8
Em nível de comunicação pública, ilustra bem essa preocupação o teor da reportagem especial sobre O Futuro das Cidades, que ocupou edição recente do Caderno de Cultura do Jornal O Estado de São Paulo. A matéria traz comentários do arquiteto italiano Massimiliano Fuksas, curador da 7ª Bienal de Arquitetura de Veneza, que se debate por "(...)uma Bienal que falasse ao grande público! Eu penso que a primeira coisa a ser feita é torná-la popular!...Despertar a atenção das pessoas para a arquitetura é (...) dar a elas um meio de comunicar-se. A linguagem normalmente usada na arquitetura é um dialeto incompreensível para a maior parte do mundo, impedindo a sua participação efetiva na sociedade." Reforçando seus argumentos, a manifestação do arquiteto argentino Alberto Varas, jurado na última Bienal de Arquitetura de São Paulo, acrescenta que "(...) o fortalecimento da qualidade do espaço público é, sem dúvida, um grande instrumento da arquitetura para criar o ‘círculo virtuoso’ da responsabilidade frente ao cuidado da qualidade do espaço público. Trata-se de um fabuloso meio de ensino de conduta social e orgulho cidadão". "O Futuro das Cidades". Entrevistas a Cristiana SABÓIA e Jotabê MEDEIROS. Caderno2/Cultura, nº 1043, Ano 20, Jornal O Estado de São Paulo, edição de 22/10/2000, p. D8-D9.

9
Saramago, por exemplo, ao traçar uma metáfora entre o papel do shopping na cidade de hoje e o mito platônico da caverna, filosofa: "Os shoppings, de fato, são cavernas (...) É muito sério pensarmos que o único espaço público no qual as pessoas reúnem-se e sentem-se protegidas é esse. (...) Somos cercados, bombardeados por imagens a toda hora. Elas deveriam servir para mostrar a realidade e acabam por bastarem-se a si próprias e a levar-nos a esquecer a realidade. (...) Mas voltando à caverna, contemplamos as sombras que nos mostram e que nos dizem ser elas a realidade e esquecemos da realidade. (...) A realidade é muito mais feia, muito mais dura. É incômoda. Talvez seja por isso que as pessoas se refugiem no engano." José Saramago Autografa Novo Romance na Capital, entrevista a Susana VERNIERI, Jornal Zero Hora, 9/12/2000, p. 7-9. Já Luis Fernández-Galiano, diretor da revista Arquitectura Viva, observa que (p.109) "(...) criticamos las falsificaciones azucaradas del nuevo urbanismo, pero nos entregamos a las ficciones narcóticas que nos protegen (...) El mundo de Truman es el nuestro. Desde el fondo de la caverna contemplamos la sucesión de las sombras, y soñamos soñar que alguien nos sueña". La Década Digital, una crónica de los noventa: Ficciones, Arquitectura Viva, nº 69, nov-dez 1999, p. 92-111.

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sobre o autor

Lineu Castello é arquiteto, urbanista, pesquisador CNPq, diretor da U&A – Urbanismo & Ambiente e professor titular da UFRGS.

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