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architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
O artigo apresenta uma narrativa contemporânea sobre a transformação do espaço edificado e a percepção do tempo para as diferentes sociedades, sob a ótica das eras da comunicação e das mídias relacionadas a cada época.

english
The article presents a contemporary narrative about the transformation of the built space and the perception of time for different societies from the perspective of communication eras and the media related to each period.

español
una narrativa contemporánea acerca de la transformación del espacio construido y la percepción del tiempo para diferentes sociedades, desde la perspectiva de las épocas de la comunicación y los medios de comunicación relacionados con cada época.


how to quote

MARQUES, Valquíria Sales Romero; PEREIRA, Renata Baesso. Espaço, tempo e sociedade. Do espaço acústico à espacialidade híbrida (introdução). Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 189.06, Vitruvius, fev. 2016 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.189/5952>.

Cena urbana
Foto Mister G.C. [Flickr Creative Commons]

“O espaço é a expressão da sociedade” (1). Vive-se atualmente em uma espacialidade híbrida, em um ambiente tecnológico, onde virtual e concreto se entrelaçam, sob a influência da teoria cibernética (2), em aldeias globais onde predomina a cibercultura (3), onde a interação entre os indivíduos é feita através do ciberespaço.

Marshall McLuhan (4), um dos grandes pensadores do século 20, defendia que a história e o desenvolvimento do homem podem ser analisados sob o ponto de vista da evolução da comunicação e da mídia ao longo dos séculos. A mídia, definida como “o conjunto de meios de comunicação social ou de massa, como a imprensa (jornais, revistas, livros), meios eletrônicos (rádio e televisão), além de outras tecnologias, como a Internet” (5) pode ser considerada uma extensão do homem, que transforma seu ambiente através de mudanças profundas e marcantes.

As sociedades, segundo McLuhan, sempre foram formadas mais pela natureza da mídia com as quais os homens se comunicam, do que pelo conteúdo da comunicação. Daí a célebre frase cunhada por ele: “o meio é a mensagem”. Uma nova tecnologia funciona como um agente transformador do meio, mudando a sociedade, seu comportamento, suas atitudes e até mesmo seu modo de perceber o espaço, de habitar e vivenciar a cidade (6).

Da comunicação oral à mídia escrita

As comunidades orais, existentes desde os primórdios da civilização, são comunidades não alfabetizadas, que estruturam sua cultura na transmissão oral das tradições. Ainda hoje, nesse tipo de comunidade, mitos e ritos são passados de geração a geração, sem que haja necessariamente registros escritos sobre sua cultura.

O espaço, para quem vive na cultura oral, é acústico, orgânico e integral, sem centro e sem bordas. O som não interpreta as barreiras da mesma forma que a visão, logo, o tempo e o espaço são contínuos. “Nas culturas tribais, a experiência se organiza segundo o sentido vital auditivo” (7).

A habitação do homem de tradição oral é coletiva, assim como as atividades por ele desenvolvidas. A casa em forma circular e com coberturas que seguem linhas de força dinâmicas, como um triângulo, é mais facilmente integrada ao espaço e sua construção está relacionada a um ritual de criação. As moradias em geral são abertas, sem compartimentos e várias pessoas habitam o mesmo espaço, não há a possibilidade de isolamento físico do indivíduo (8).

Foto da tribo indígena Enawenê Nawê
Fiona Watson [Survival International]

O povo Enawenê Nawê, uma tribo indígena da Amazônia, é exemplo de uma sociedade tribal de tradição oral da atualidade. Situada no estado do Mato Grosso, no Brasil, essa tribo vive relativamente isolada, distante das áreas urbanas. As malocas, casas circulares construídas por eles, são dispostas em torno de um círculo no centro da aldeia, onde rituais e atividades comunitárias são realizadas. O tempo para eles, assim como para outras comunidades orais, é cíclico, demarcado a partir das colheitas e épocas de pesca.

O modo de vida das comunidades tribais foi modificado a partir da introdução do alfabeto fonético. Embora em algumas culturas como a chinesa, a japonesa e a árabe, a escrita já existisse milhares de anos antes da invenção do alfabeto fonético, os hieróglifos, pictogramas e ideogramas são símbolos que não correspondem à fala, portanto, de difícil assimilação e de uso restrito a poucos.

O alfabeto fonético foi inventado na Grécia por volta do ano 700 a.C., permitindo uma separação entre os discursos oral e escrito. As letras provocaram, ainda que lentamente, uma ruptura na cultura oral. “Essa ruptura nada tem a ver com o conteúdo das palavras, e sim, com o resultado da súbita ruptura entre as experiências auditiva e visual do homem” (9). Com a alfabetização o homem deixou de ser essencialmente auditivo, mudou a sua percepção sensorial e passou a ser mais visual.

A introdução do alfabeto fonético propiciou ao homem tribal um raciocínio mais linear, sequencial, um entendimento do espaço de modo fragmentado, individualista, explícito, lógico, especializado e sem conexão.

Era da comunicação impressa

Outro momento expressivo de ruptura no modo de pensar e agir da sociedade ocidental ocorreu a partir do século 15, com a introdução da mídia impressa. Por volta do ano de 1450, o inventor e gráfico alemão Johannes Gutenberg, desenvolveu a imprensa de tipografias móveis.

A tipografia influenciou a formação das nações, graças à possibilidade de unificação linguística ocorrida em países como a Alemanha e a França, assim como, impulsionou o desenvolvimento das artes, da ciência, da mercadologia e da produção industrial. A partir da uniformidade e repetibilidade da imprensa, o tempo e o espaço passaram a ser mensuráveis e racionais. A coeva invenção da perspectiva ampliou a sensibilidade dos indivíduos.

A perspectiva científica, criada pelo arquiteto italiano Filippo Brunelleschi, foi o resultado de uma busca pelo modo de registrar a arquitetura sobre uma superfície plana de tal forma que a largura, a altura e a profundidade do edifício pudessem ser medidas com a mesma precisão com que poderiam ser medidas as vistas. Essa nova visão provocou uma ruptura entre a arte do Pré-Renascimento e a arte existente até então. O espaço, a partir da visão em perspectiva, passou a ser mais facilmente racionalizado (10).

Cidade ideal, pintura atribuída Piero della Francesca (1420–1492) ou Francesco di Giorgio (1439–1501), têmpera sobre painel, c.1470
Imagem divulgação [Galleria Nazionale delle Marche, Urbino]

Cidade ideal, Fra Carnevale, óleo e têmpera sobre painel, c.1480-1484
Imagem divulgação [The Walters Art Museum, Baltimore]

A perspectiva de Brunelleschi cooperou para que a arquitetura deixasse de ser uma atividade de canteiro de obras para tornar-se uma atividade intelectual. Nesse período, a percepção predominante dos indivíduos era a percepção visual e a arquitetura foi utilizada por governantes como mídia para organização das cidades e reestruturação social através das novas construções.

A mídia impressa proporcionou certa linearidade de pensamento, de cultura, de racionalização e, consequentemente, de compreensão do espaço.

Era da comunicação eletrônica

Enquanto na era da comunicação oral destacava-se a percepção acústica e na era da mídia impressa, a percepção visual, na era da mídia eletrônica, a percepção sensorial foi expandida. O telégrafo, inventado em 1844, promoveu uma transformação completa da cultura, valores e atitudes na sociedade ocidental, provocando a expansão das percepções humanas e maior equilíbrio sensorial.

No século 19, o telégrafo, a eletricidade, e as indústrias químicas, biológicas e metalúrgicas impactaram a sociedade. Foram alterados tanto os hábitos quanto os costumes cotidianos, assim como o ritmo e intensidade dos transportes, das comunicações e do trabalho (11). Materiais como o vidro e o aço abriram novas possibilidades para a construção civil, e as grandes feiras mundiais foram propulsoras dessa mídia que anunciava a mensagem de uma nova sociedade. As feiras, com suas belas construções e exposições celebravam o globalismo, o progresso econômico, científico e tecnológico, além de testar o uso de novos materiais para a concepção do espaço urbano (12).

“A luz elétrica trouxe ao complexo cultural da habitação e da cidade como extensões do homem, uma flexibilidade orgânica desconhecida até então” (13). As cidades foram transformadas. O solo urbano passou a ter valor de mercado, mas agravaram-se os problemas sociais de habitação, higiene, segurança e circulação das cidades industriais europeias e americanas.

A partir de meados do século 19 projetos urbanos foram implantados a fim de buscar soluções para os problemas da cidade industrial, a começar pelo Plano de Georges-Eugène Haussmann para Paris (1850), que alterou o traçado da cidade com a abertura de grandes bulevares, criando eixos monumentais em que grandes edifícios públicos eram os protagonistas. O espaço público foi reestruturado, visando o higienismo e saneamento da cidade, promoveu-se a melhoria dos parques existentes e a criação de novos espaços verdes.

Gustave Loiseau (1865–1935), Boulevard Hausmann, Paris, c.1923
Imagem divulgação [wikimedia commons]

Reforma de Paris promovida por Haussmann [lefigaro.fr]

A industrialização da construção civil e o uso de aço e vidro em novos edifícios alterou nessa época não só a arquitetura, mas o skyline e o traçado das cidades. “O urbanismo é a tomada de posse do ambiente natural e humano pelo capitalismo que, ao desenvolver sua lógica de dominação absoluta, pode e deve agora refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário” (14). Cenário perfeito para os flâneurs (15), as cidades tornaram-se “cidades do espetáculo” e as ruas eram como palcos preparados para a entrada dos atores, que buscavam o espaço para vaguear e contemplar a cidade, deleitar-se.

Imagem do flâneur. Homem com guarda-chuva em pé na junção das ruas Nassau, Grafton e Suffolk, c.1900
Fotógrafo desconhecido [wikimedia commons]

A percepção do mundo através do tempo e do espaço refletiu-se na arte, o meio utilizado pelos artistas para transmitirem uma nova mensagem. Picasso e Braque demonstraram com o Cubismo que o antigo espaço homogêneo da perspectiva linear do século 15 já não existia. “A celebrada obra de Delaunay, que descrevia a Torre Eiffel, foi talvez o mais espantoso símbolo público de um movimento que tentava representar o tempo mediante uma fragmentação do espaço” (16). O cubismo anunciou, como que de repente, que o meio é a mensagem.

Torre Eiffel, Robert Delaunay,1911, óleo sobre tela (202 x 138.4 cm),acervo do Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York [acervo do Solomon R. Guggenheim]

Acima, tela exibida pela primeira vez em 1911. Usa uma imagem familiar de construção para examinar a fragmentação e a ruptura do espaço típicas do cubismo (17).

Era da comunicação digital

Na era da comunicação digital a percepção dos indivíduos é fractalizada, multimídia. O tempo é instantâneo e o espaço concreto ganha uma ampliação espacial, a virtual. Esse espaço híbrido passa a ser denominado por alguns autores de ciberespaço, um espaço esboçado na era da comunicação eletrônica, mas que agora, na era digital, assume proporções imensuráveis. Segundo o escritor americano Bruce Sterling, citado por Kim:

“Ciberespaço é o “lugar” onde a conversação telefônica parece ocorrer. Não dentro do seu telefone real, o dispositivo de plástico sobre sua mesa. […] [Mas] O espaço entre os telefones. O lugar indefinido fora daqui, onde dois de vocês, dois seres humanos, realmente se encontram e se comunicam. […] Apesar de não ser exatamente “real”, o “ciberespaço” é um lugar genuíno. Coisas acontecem lá e têm consequências muito genuínas. […] Este obscuro submundo elétrico tornou-se uma vasta e florescente paisagem eletrônica. Desde os anos 60, o mundo do telefone tem se cruzado com os computadores e a televisão, e […] isso tem uma estranha espécie de fisicalidade agora. Faz sentido hoje falar do ciberespaço como um lugar em si próprio. […] Porque as pessoas vivem nele agora. Não apenas um punhado de pessoas […] mas milhares de pessoas, pessoas tipicamente normais. […] Ciberespaço é hoje uma “Rede”, uma “Matriz”, internacional no escopo e crescendo rapidamente e constantemente”(18).

Se para Sterling o ciberespaço existe desde a invenção do telefone, para William Gibson, Pierre Lévy (19) e outros teóricos da comunicação, o ciberespaço ganhou importância a partir da conexão em rede dos computadores pessoais, no final dos anos 1980, não só a partir da infraestrutura e de indivíduos que navegam por ele, mas também, como um espaço de comunicação, informação, conhecimento, e sociabilização. “Quanto mais ele se amplia, mais se torna universal, quanto mais universal, menos totalizável, a ponto de parecer óbvio que o imperativo categórico (20) da cibercultura é estar conectado” (21).

Em meados do século 20 a teoria cibernética colocou a comunicação em evidência e as mensagens, transmitidas por meio das tecnologias emergentes passaram a ser objeto de estudos. Segundo o teórico da comunicação Ciro Marcondes Filho (22):

“As máquinas, as novas tecnologias, aquilo que McLuhan descreveu como extensões do homem, constituem apenas um primeiro momento, um salto tecnológico motivado por razões econômicas, industriais e militares” (23).

A teoria cibernética foi desenvolvida na década de 1940 pelo matemático Norbert Wiener (24) após vários anos de pesquisa em diferentes campos, incluindo as ciências sociais. Embora tenha vivido antes da invenção dos computadores pessoais, Norbert Wiener conseguiu prever seu surgimento e as mudanças que essa tecnologia traria à sociedade e às percepções sensoriais dos indivíduos. Para Wiener, “a sociedade só pode ser compreendida através de um estudo das mensagens e das facilidades de comunicação de que dispõe” (25), para ele, somos constituídos de informação e é a informação que nos define.

A comunicação, aliada às tecnologias, proporcionou uma velocidade nas mudanças da história do mundo nunca antes vista. Na era digital, a velocidade é medida em bits (26) por segundo. A interação homem-máquina percebida por Wiener se desenvolveu a ponto de vivermos hoje conectados vinte e quatro horas por dia. As possibilidades infinitas de transmissão de texto, imagens, som, vídeo... via bits, fazem do mundo digital um mundo totalmente maleável, que “pode crescer e modificar-se de forma mais contínua e orgânica do que os antigos sistemas analógicos” (27). Se a sociedade da era eletrônica tinha a acumulação de capital como princípio hegemônico, para a sociedade da era digital, esse princípio é a circulação da informação (28), facilitada inicialmente pelos computadores pessoais ou desktops e mais recentemente, pela mobilidade dos dispositivos computacionais portáteis, como laptops, tablets e smartphones.

O ciberespaço é um espaço em constante construção. A partir do surgimento da web 2.0 (29), na primeira década dos anos 2000, surge um momento da Internet onde todo indivíduo com acesso a um computador nela conectado passou a ser construtor do espaço virtual, produzindo conteúdo e disponibilizando informações na rede. Segundo Anja Pratschke (30), “a informação é o material de construção dos ambientes virtuais, uma espécie de material arquitetônico do universo virtual” (31). Os espaços, tanto virtual quanto concreto, são construídos continuamente por indivíduos que são transformados durante o processo de construção e, ainda que através do efeito retrovisor, as mudanças na percepção do tempo e do espaço podem ser percebidas. Segundo o filósofo e arquiteto francês Paul Virilio (32):

“O espaço construído não o é exclusivamente pelo efeito material e concreto das estruturas construídas, da permanência de elemento e marcas arquiteturais ou urbanísticas, mas igualmente pela súbita proliferação a incessante profusão de efeitos especiais que afetam a consciência do tempo e das distâncias, assim como a percepção do meio” (33).

Novos espaços urbanos, uma arquitetura concreta, vêm sendo projetada e construída para abrigar uma nova realidade, uma nova sociedade: a sociedade da cibercultura, transeunte do mundo digital glocal (34). O espaço, para as cidades do século 21, tem sua importância geográfica e financeira, mas “o controle do território pouco significa a menos que você também detenha o controle sobre a capacidade de canal e os pontos de acesso que o servem” (35). A importância do território, para a sociedade da era da comunicação digital, está diretamente vinculada à versatilidade de suas redes e ao acesso às tecnologias de informação e comunicação.

Ainda que confinados entre quatro paredes, podemos estar conectados ao mundo. A era da comunicação digital mudou a forma como ocupamos com a cidade, assim como, nosso modo de habitar e perceber o espaço à nossa volta. O arquiteto norte-americano Charles Moore, refletindo sobre a pós-modernidade, compreendeu que o nosso habitat sofre influência direta do alcance de nossas redes. Nosso espaço, assim como nossas vidas, não é mais um espaço discreto, separado do exterior pelas quatro paredes de nossas residências, “temos, como todos sabemos, instantâneos em todos os lugares, ao usarmos nossa capacidade de fazer contato eletrônico imediato com pessoas de qualquer parte da Terra”, explica Moore (36).

Breve síntese da relação entre as eras da comunicação, a natureza de suas mídias e a produção do espaço/ tempo

Os lugares podem ser entendidos como espaços que agregam interação social e qualidades físicas que os diferenciam de outros espaços. Cada lugar é único, moldado pela história, pelo tempo, pela memória, assim como, pelas tecnologias utilizadas para a construção do espaço concreto e para sua inserção no ciberespaço. Compreender a história e “o modo como representamos o espaço e o tempo na teoria importa, visto afetar a maneira como nós e os outros interpretamos e depois interagimos em relação ao mundo”, explica David Harvey (37). O espaço, o tempo e a memória, portanto, podem ser estudados e compreendidos sob diferentes óticas.  

A tabela 1 apresenta uma síntese deste artigo, resumindo a história e evolução do homem sob o ponto de vista das diferentes eras da comunicação. A construção da tabela partiu primeiramente dos estudos de Marshall McLuhan sobre a influência da mídia na sociedade. Segundo McLuhan, “todas as mídias, desde o alfabeto fonético até o computador, são extensões do homem que causam mudanças profundas e permanentes no indivíduo e transformam seu ambiente” (38).

Na tabela, a divisão do tempo foi estruturada de acordo com as relações estabelecidas por Jacques Le Goff (39) entre a memória coletiva e o tempo histórico:

“1) a memória étnica nas sociedades sem escrita, ditas “selvagens”; 2) o desenvolvimento da memória, da oralidade à escrita, da Pré-história à Antiguidade; 3) a memória medieval, em equilíbrio entre o oral e o escrito; 4) os progressos da memória escrita, do século 16 aos nossos dias; 5) os desenvolvimentos atuais da memória” (40). 

Le Goff, por sua vez, retoma Leroi-Gourhan (41), que dividiu a história da memória coletiva em cinco períodos: “o da transmissão oral, o da transmissão escrita com tábuas ou índices, o das fichas simples, o da mecanografia e o da seriação eletrônica” (42).

Na construção da tabela, foram utilizadas ainda como fonte as obras de Manuel Castells, Pierre Lévy, Nicholas Negroponte e David Harvey, já citadas neste artigo. Esta síntese elaborada em forma de tabela apresenta o papel da mídia na construção da sociedade e sua influência nos meios de comunicação, na expressão do tempo e do espaço, na percepção dos indivíduos, nos saberes, nas formas da habitação e da ocupação do espaço, desde o advento do alfabeto fonético e seu impacto na tradição oral, até a chegada das mídias impressa, eletrônica, e finalmente, à era da mídia digital.

Eras da comunicação [Elaborada pelas autoras.]

Considerações finais

Ao longo da história as tecnologias de comunicação que influenciaram o espaço e o tempo, o modo de pensar e agir dos indivíduos, seu habitat e suas cidades, convivem em paralelo. Embora se viva na era digital, as comunicações oral, escrita, impressa e eletrônica não deixaram de existir e influenciar o dia a dia dos indivíduos, que habitam hoje uma espacialidade híbrida, um mundo glocal, onde é possível ser ao mesmo tempo local e global. O ciberespaço, esse espaço híbrido entre o virtual e o concreto, está em constante construção, a uma velocidade vertiginosa, cabendo aos seus construtores refletir, simultaneamente, sobre sua forma, seus impactos e desdobramentos.

notas

NA – Este artigo foi baseado em parte da dissertação de mestrado da autora Valquíria Sales Romero Marques, sob a orientação da Prof. Dra. Renata Baesso Pereira. MARQUES, Valquíria Sales Romero. O QR Code na Construção de uma Narrativa Digital e na Preservação do Patrimônio Edificado. 2015. Dissertação de Mestrado em Urbanismo – PUC Campinas, Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de Tecnologias. Programa de Pós-Graduação em Urbanismo, Campinas, 2015.

1
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede – a era da informação: economia, sociedade e cultura, vol. 1. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

2
O termo cybernetics é derivado do grego kubernetes, palavra utilizada para denominar o piloto do barco ou timoneiro. A cibernética traduz “o pensamento tecnológico contemporâneo em sua consciência reflexiva mais avançada, a filosofia ou discurso reflexivo mais sistemático do pensamento tecnológico contemporâneo; foi sistematizado pela primeira vez por Norberto Wiener, na década de 1940”. RUDIGER, 2013, p. 297.

3
Cibercultura pode ser definida como o “conjunto de práticas e representações que surge e se desenvolve com a crescente mediação da vida cotidiana pelas tecnologias de informação e, assim, pelo pensamento cibernético e pela civilização maquinística; apareceu como termo nos anos 1960”. RUDIGER, 2013, p. 297.

4
O canadense Herbert Marshall McLuhan (1911-1980), criador da célebre frase “o meio é a mensagem” foi pesquisador, teórico da comunicação e educador. Pensador contemporâneo e autoridade mundial em comunicações de massa, ao longo de sua carreira, McLuhan publicou livros e artigos com suas ideias sobre os efeitos dos meios de comunicação na sociedade, que lhe renderam diversos prêmios durante a sua vida. Marshall McLuhan faleceu em 1980MCLUHAN, 1969; MCLUHAN, 2012.

5
HOHLFELDT, Antonio; MARTINO, Luiz C; FRANÇA, Vera Veiga (org.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. 10 ed. Petrópolis, Vozes, 2010.

6
MCLUHAN, Marshall.  The Playboy Interview: Marshall McLuhan. Playboy Magazine, March 1969. Disponível em: <www.nomads.usp.br/leuphana/mcluhan_the_playboy_interview.pdf>. Acesso: 30 junho 2014.

7
MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação com extensões do homem. 18ª ed. Tradução Décio Pignatari. São Paulo, Cultrix, 2012, p.105.

8
Idem, ibidem, p.125.

9
Idem, ibidem, p.102.

10
JANSON, H. W.; JANSON, Anthony F. Iniciação à história da arte. Tradução: Jefferson Luiz Camargo. 3ª edição. São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009, p.193.

11
SEVCENKO, Nicolau. História da vida privada no Brasil. Vol. 3. São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 11.

12
HARVEY, David. Condição pós-moderna. Edições Loyola. São Paulo: 1989, p. 241.

13
MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação com extensões do homem. 18ª edição. Tradução Décio Pignatari. São Paulo: Cultrix, 2012, p. 249.

14
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, p. 112.

15
O flanêur foi descrito por Walter Benjamin como um indivíduo que andava pelas ruas apreciando e experimentando a cidade, observando as pessoas e sendo observado. As ruas da cidade eram tão atraentes e confortáveis para ele, como a casa adornada com as telas de pintura a óleo nas paredes das casas da burguesia. Fonte: <www.educacaopublica.rj.gov.br/cultura/livros/0060.html>. Acesso: 2 nov. 2014.

16
HARVEY, David. Condição pós-moderna. Edições Loyola. São Paulo, 1989, p. 245.

17
Idem, ibidem, p. 244.

18
KIM, Joon Ho. Horizontes antropológicos. Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004. Disponível em: <https://tecnos.cienciassociais.ufg.br/up/410/o/ CibernticaciborgueseciberespaoJoonHoKima.pdf>. Acesso: 15 maio 2014, p. XI-XII.

19
Pierre Lévy é um filósofo da cultura digital. Nasceu em 1956 em Túnis, capital da Tunísia. Fez mestrado em História das Ciências na Universidade de Sorbonne, em Paris (1980), doutorado em Sociologia na EHESS (1983) e obteve o PhD em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade de Grenoble (1991). Autor de diversos livros, Lévy atua como professor e pesquisador da Universidade de Ottawa, no Canadá, desde 2002. LÉVY, 2010, p. 271.

20
Imperativo categórico é uma expressão cunhada pelo filósofo alemão Immanuel Kant como indicação de uma fórmula que expressa uma norma da razão. O Imperativo categórico ordena uma ação que é boa em si mesma, por si mesma objetivamente necessária, sendo, portanto um princípio apoditicamente (ou absolutamente) prático. ABBAGNANO, p. 628.

21
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Irineu da Costa. 3ª edição. São Paulo, Editora 34, 2010, p. 113.

22
Ciro Marcondes Filho, brasileiro, é professor titular da ECA-USP desde 1987. Jornalista, graduado pela USP, doutor pela Universidade de Frankfurt, pós-doutor pela Universidade Grenoble (França), é titular da Cátedra UNESCO "José Reis" de Divulgação Científica. Formou vários pesquisadores nas áreas de comunicação, imagem, cibercultura e jornalismo. Escritor e conferencista, produziu mais de 40 livros nas áreas de comunicação, jornalismo, política, filosofia, psicanálise. Fonte: Plataforma Lattes. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/7984648859899240>. Acesso: 26 out. 2014.

23
MARCONDES FILHO, Ciro. Superciber: a civilização místico-tecnológica do século 21.  Sobrevivências e ações estratégicas. São Paulo, Paulus, 2009, p. 91.

24
Norbert Wiener (1894-1964) foi um matemático americano, fundador da teoria cibernética. Wiener graduou-se em matemática aos 14 anos e recebeu o doutorado em lógica aos 18 anos de idade. Trabalhou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e para o governo americano. Publicou, em 1948, o livro intitulado Cibernética.

25
WIENER, Norbert. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos. 4ª edição. São Paulo, Cultrix, 1973, p. 16.

26
Bit, (simplificação para dígito binário, BInary digiT em inglês) é a menor unidade de informação que pode ser armazenada ou transmitida. A digitalização do mundo está relacionada diretamente à possibilidade de compressão e transmissão de bits através de diferentes canais. “O número de bits por segundo que se pode transmitir através de um canal qualquer (um fio de cobre, um radioespectro ou uma fibra ótica) é sua largura de banda. Ela mede quantos bits podem passar por um determinado condutor”. Diferentes tipos de dados exigem quantidades diferentes de números de bits para que possam ser registrados. NEGROPONTE, 2011, p. 21.

27
NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. Tradução Sérgio Tellaroli; supervisão técnica Ricardo Rangel. 2ª edição. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p. 47.

28
Idem ibidem, p. 81.

29
Desde o início da internet mudanças significativas têm transformado o ambiente da web. Essas mudanças, no entanto, estão mais relacionadas ao comportamento dos indivíduos que utilizam a web, do que às tecnologias. A O’Reilly Media classificou essas mudanças em Web 1,0, Web 2,0 e Web 3,0. A Web 1.0 é estática, a inserção de informações no ambiente digital está restrita a poucos e os indivíduos em geral, apenas navegam e consomem informações. A Web 2.0 é mais participativa, os indivíduos começam a interagir mais, a participar, inserir conteúdos através de blogs, redes sociais e etc., é a web da computação em nuvem, da conexão interativa, enquanto que a web 3.0 diz respeito à web semântica, na qual os objetos, animais, lugares também estão inseridos na rede e a organização da informação permite que haja um novo significado para o uso da web. GABRIEL, 2010, p. 78.

30
Anja Pratschke, arquiteta alemã e pesquisadora, vive no Brasil desde 1990. Graduada pela Ecole d'Architecture de Grenoble, França. Mestre em Historia da Arquitetura e Doutora em Ciências Computacionais, pela USP. Doutorado Sandwich/Especialização pela Université de Paris (2001), Pós-doutorado na Bartlett School of Architecture, University College of London. Desde agosto 2001, é professora em tempo integral do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em São Carlos. Fonte: Plataforma Lattes. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/9669955733350604>. Acesso: 4 nov. de 2014.

31
PRATSCHKE, Anja. Entre Mnemo e Locus: arquitetura de espaços virtuais, construção de espaços mentais. Tese de Doutorado em Ciências de Computação e Matemática Computacional. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002, p.109.

32
Paul Virilio (Paris, França, 1932) é um filósofo frânces, arquiteto, urbanista, polemista, pesquisador e autor de vários livros sobre as tecnologias da comunicação. Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Virilio>. Acesso: 4 nov. 2014.

33
VIRILIO, Paul. O Espaço crítico. Tradução Paulo Roberto Pires. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993, p.16.

34
O termo “glocal” foi evocado pela primeira vez, criticamente, em ciências humanas, por Paul Virilio (1955), trata-se de um neologismo formado pela primeira sílaba do termo “global” e pela sílaba desinencial do termo “local”. (...) O glocal pode ser entendido como um processo social midiatizado que transpassa a situação global e local, pois hibridiza estas situações em tempo real utilizando-se de aparato tecnológico em rede”. Fonte: <http://congreso.pucp.edu.pe/alaic2014/wp-content/uploads/2013/09/GT10-Ariovaldo-Folino-Junior.pdf> Acesso: 04 dez. 2014.

35
MITCHELL, William J. Fronteiras/Redes. In: SIKES, A. Krista (org.). O campo ampliado da arquitetura: antologia teórica 1993-2009. Tradução Denise Bottmann. São Paulo, Cosac Naify, 2013, p. 176.

36
Ibidem, p. 182.

37
HARVEY, David. Condição pós-moderna. Edições Loyola. São Paulo: 1989, p. 190.

38
MCLUHAN, Marshall.  The Playboy Interview: Marshall McLuhan. Playboy Magazine, March 1969. Disponível em: <www.nomads.usp.br/leuphana/mcluhan_the_playboy_interview.pdf>. Acesso: 30 junho 2014.

39
Jacques Le Goff (1924-2014) foi um historiador francês especialista em Idade Média. Autor de dezenas de livros e trabalhos, ele publicou estudos que renovaram a pesquisa histórica sobre mentalidade e sobre antropologia da Idade Média. É considerado um dos continuadores do movimento da École des Annales. Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Le_Goff>. Acesso: 30 junho 2014.

40
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão. Campinas: Unicamp, 1990, p.369. Disponível em: <http://memorial.trt11.jus.br/wp-content/uploads/História-e-Memória.pdf>. Acesso: 16 fev. 2014.

41
André Leroi-Gourhan(1911-1986) foi um arqueólogo, paleontólogo, paleoantropólogo e antropólogo francês, interessado ainda em tecnologia e estética. Fonte: < https://pt.wikipedia.org/wiki/André_Leroi-Gourhan>. Acesso: 7 set. 2015.

42
LEROI-GOURHAN, André. 1964-65, p. 65. Apud LE GOFF, Jacques. História e memória. Tradução Bernardo Leitão. Campinas, Unicamp, 1990, p. 427.

sobre as autoras

Valquíria Sales Romero Marques é arquiteta e urbanista, Mestra em Urbanismo pela PUC Campinas e Especialista em Marketing pela FGV Rio de Janeiro. Atua como gerente de marketing, arquiteta e docente dos cursos de Arquitetura e Urbanismo, Publicidade e Propaganda e Sistemas para Internet do UNASP - Centro Universitário Adventista de São Paulo, campus Engenheiro Coelho.

Renata Baesso Pereira é arquiteta e urbanista, Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP. Atua como docente do Programa de Pós-Graduação e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC Campinas. Membro do grupo de pesquisa "História das Cidades: Ocupação Territorial e Ideários Urbanos" e tutora do PET (Programa de Ensino Tutorial, SESu - MEC) Arquitetura e Urbanismo da PUC Campinas.

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