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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Por meio de uma narrativa textual e fotográfica procurou-se registrar e refletir sobre a rede de culto mariano que aproxima diferentes países da América Latina, tendo como estudo de caso os santuários localizados na Cidade do México e em Aparecida.

english
Adopting a textual and photographic narrative, this article seeks to record and reflect on the Marian cult network that gathers different countries in Latin America, foccusing the sanctuaries located in Mexico City (Mexico) and Aparecida (Brazil).

español
Adoptando una narración textual y fotográfica este artículo pretende registrar y reflexionar sobre la red de culto mariano, que reúne diferentes países de América Latina, centrándose en los casos de los santuários ubicados en Ciudad de México y Aparecida.


how to quote

SOARES, Eduardo Oliveira. Nossa Senhora de Guadalupe e de Aparecida, rogai por nós e por nossas narrativas. Arquitextos, São Paulo, ano 24, n. 285.01, Vitruvius, fev. 2024 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/24.285/8966>.

Aparições

Os diversos países que integram a América Latina têm especificidades na cultura dos povos originários, no impacto da colonização dos seus territórios, na estratégia de conquista de autonomia das nações europeias. Obviamente, também compartilham heranças comuns advindas das colonizações a que foram submetidos.

O processo de forçado intercâmbio entre culturas díspares foi realizado em um contexto em que a política e a cultura dos países colonizadores estavam imbricadas com a ideologia da Igreja Católica Apostólica Romana. Por isso, desde o primeiro momento da chegada dos europeus nas Américas, a religião foi usada como respaldo ao modo de agir dos desbravadores.

A nomenclatura de países e cidades, a configuração urbana, os modos de viver, de festejar e de celebrar, têm em si, ao longo dos séculos, a massiva interferência da religiosidade cristã. Apesar das particularidades dos contextos locais e de ações em prol da laicidade do Estado, percebe-se ainda hoje, na América Latina, tradições católicas advindas da cultura ibérica, em especial as relacionadas a Nossa Senhora.

Na América Latina “parte do catolicismo popular tradicional […] caracterizou-se por valorizar os milagres, as promessas, a devoção a Nossa Senhora e aos santos, com traços penitenciais, de caráter leigo, familiar, com enorme tolerância moral” (1). A crença de parte da população em Nossa Senhora, cujas características são revistas e atualizadas pela Igreja Católica no decorrer do tempo, se materializa em santuários que impactam e, mais do que isso, forjam as cidades. No dia a dia são como aparições urbanas que lembram a população da necessidade da devoção mariana.

Devoções marianas interferem — e em alguns casos definem — a configuração urbana, a identidade, o patrimônio material e imaterial de algumas cidades. “Na península ibérica a devoção à Maria vem de longa data. No século 12 o território é colocado sob a proteção de Maria” (2). Ao longo dos séculos, transcendendo as fronteiras nacionais, foram erigidos vários santuários para o culto mariano. “Uma visita às origens oficiais, processos históricos e efeitos publicitários das imagens marianas nacionais, aponta para a necessidade de um universo de especificidades no contexto de cada nacionalidade” (3). Dentre a cultura mariana latino-americana, destacam-se dois santuários: o da Virgem de Guadalupe, na Cidade do México, e o de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, no Brasil.

O santuário mariano mais visitado no mundo é o de Guadalupe, com cerca de 20 milhões de pessoas por ano (4). Já o de Aparecida é o “maior Santuário mariano do mundo” (5). Em 2017, ano do tricentenário da devoção mariana em Aparecida, o santuário foi visitado por 13 milhões de pessoas. A criação de uma narrativa textual e fotográfica sobre esses dois Santuários foi o mote da elaboração deste artigo.

As narrativas apresentadas são fruto de percepções em viagens, afinal, não resido em nenhuma das duas cidades. Ocorre que “no momento de uma viagem os sentidos parecem mais sensíveis para observar e assimilar a paisagem, pois ela apresenta-se como pano de fundo para momentos de lazer e conhecimento de uma cultura que não é vivenciada no dia a dia” (6). Portanto, por meio da narrativa textual e fotográfica, procurei registrar e refletir sobre: a rede de culto mariano que aproxima diferentes países da América Latina; a Maria multifacetada que mobiliza multidões; e a sua aparição na paisagem de duas cidades.

O artigo é dividido em considerações sobre o culto mariano, entremeado por uma reflexão sobre os modos de apreender as cidades, seguido de uma narrativa textual e fotográfica sobre os Santuários de Guadalupe e de Aparecida. No lastro cultural que une vários países, é possível identificar o “lugar preponderante da devoção mariana na Igreja da América Latina” (7). Se nós, latino-americanos, estamos imersos nessa cultura, Nossa Senhora de Guadalupe e de Aparecida, rogai por nós e por nossas narrativas!

Marias

As narrativas — textuais, orais, musicais, iconográficas — são fruto da apreciação, assimilação e reelaboração de vivências que dão testemunhos de como um indivíduo percebe a si e a sociedade. “Vivemos as nossas relações conosco mesmos e com os outros narrando” (8). Por meio de narrativas endossamos, consolidamos, destacamos percepções sobre vários temas. Ao mesmo tempo, silenciamos, apagamos, negamos outros tantos.

O modo de assimilação por quem tem contato com essas narrativas é incerto. Para cada narrativa pode haver as mais díspares interpretações possíveis. Cada pessoa ou grupo atribui um significado a partir de suas vivências, sua cultura e sua crença religiosa.

Segundo a tradição católica, Maria é, ao mesmo tempo, uma e muitas. Afinal, “de acordo com o catecismo da Igreja Católica, a Virgem é uma só. O que muda de uma região para a outra é a forma como ela se manifesta, seja através de uma ‘aparição’, seja através de uma manifestação sobrenatural, como o encontro de uma imagem de sua reprodução” (9).

Em registros muitas vezes mais ancorados na fé do que na documentação, as manifestações marianas permitem a criação e recriação das mais variadas narrativas. “Como símbolos, as imagens da Virgem são passíveis de diferentes interpretações. Imagens, feitas de ícones e discurso, cujas leituras permitem penetrar no universo das representações” (10). No México, a aparição de Maria em Guadalupe está próxima de completar 500 anos. No Brasil, a devoção a Aparecida já completou trezentos anos.

Na historiografia mariana, a aparição da Virgem de Guadalupe, em 1531, “dá início a um processo de mudança de uma mariologia da Virgem Conquistadora para uma mariologia popular libertadora […], aos poucos, espalha-se por toda a América Latina e vai se construindo uma Virgem com características de Mãe dos oprimidos” (11). Com isso, a narrativa sobre a Virgem foi adaptando-se aos novos tempos, anseios e interesses da sociedade e da Igreja.

Na atualidade, sobre Maria, o Papa Francisco questiona: “Porventura se conhece algo de mais forte que a força escondida na fragilidade do amor, do bem, da verdade, da beleza?” (12). A devoção mariana, impregnada de mensagens de amor, bondade, verdade e beleza, se mantém, em parte, graças aos santuários, às festas e às procissões que mobilizam as cidades e impactam na paisagem e nos espaços.

Paisagem e espaço são conceitos distintos. “A paisagem existe através de suas formas, criadas em momentos históricos diferentes, porém coexistindo no momento atual. No espaço, as formas de que se compõe a paisagem preenchem, no momento atual, uma função atual, como resposta às necessidades atuais da sociedade” (13).

Ao longo dos séculos, a presença mariana nas cidades foi sendo reelaborada e multiplicada a fim de que fosse percebida da maneira mais próxima possível da comunidade local, no tempo atual. “Espacialmente, no âmbito latino-americano e brasileiro, isso se traduz […] em formas de moldar a imagem de Maria, Mãe de Deus, pela plasticidade de signos motivacionais capazes de espelhar Marias, tão diversificadas quantos as infinitas Filhas de Deus” (14). Se há muitas Marias, ao se viajar desbravando países e cidades, possivelmente pode-se encontrar uma de suas facetas.

“Viajar é imergir em paisagens para vislumbrar seu patrimônio, desbravar a arquitetura e a natureza, os saberes, fazeres e falares. A experiência de conhecer novas paisagens, sejam urbanas ou rurais, desperta os sentidos, impregnando a memória” (15). Ao viajar, na busca consciente ou inconsciente por especificidades locais, pode-se perceber similaridades, mesmo que o espaço e a paisagem sejam aparentemente bastante distintos. Isso ocorre em alguns santuários marianos.

“Gigantismo, choque visual, provocações sonoras e linguísticas, escalada de violência e culto às celebridades, povoam tanto os conceitos de análise do hiperespetáculo, quanto as formas de leitura simbólica da teatralidade dos Santuários Marianos” (16). A intensidade da experiência da visita a esses santuários instiga a criação das mais diversas narrativas. Mas “como toda narrativa é uma criação — seja em forma de textos ou de registros fotográficos — trata-se de uma narrativa, dentre tantas possíveis” (17).

Ao criar uma narrativa, obviamente carrega-se toda uma bagagem pretérita que faz com que alguns pontos sejam destacados e outros silenciados. Ao tratar da extensão histórica e da densidade envolvendo questões relacionadas ao contexto da Igreja Católica, a distância, aos olhos de prováveis leitores, entre o que se narra e o que se poderia ser narrado, pode ser gigantesca. Mas, aqui, importa o registro da devoção mariana em duas diferentes cidades, apontando semelhanças e especificidades de cada uma delas. Sendo assim, será apresentada uma narrativa textual e fotográfica sobre seus santuários na Cidade do México e em Aparecida.

Guadalupe

Na colina de Tepeyac, Cidade do México, ocorreram, segundo a tradição católica, aparições marianas no ano de 1531 (18). O indígena Cuauhtlatoatzin, nomeado Juan Diego depois de ser batizado, após vislumbrar Maria por cinco vezes, seguindo o seu pedido, carregou flores em uma tilmaespécie de manto. Ao espalhá-las, elas deram origem a uma imagem de Nossa Senhora. Essa imagem, impressa no tecido, é a que está exposta no Santuário em Guadalupe (19).

A aparição da Santa e a materialização da imagem na tilma se deu em um contexto de revolta dos habitantes em relação à impiedosa colonização espanhola. Coincidentemente, ocorreu em um “lugar de culto dedicado à deusa Tonantzin, ‘a mãe dos deuses’ para os astecas” (20). Além disso, a imagem miscigenada de Maria continha elementos da simbologia ameríndia. Com isso, ao longo das décadas e dos séculos, a imagem passou a representar possiblidade de vínculo entre a cultura local e a europeia.

A Virgem de Guadalupe também é conhecida como La Guadalupana, nome de uma canção entoada no tradicional ritmo mariachi: “En la tilma entre rosas pintadas / Su imagen amada, su imagen amada / Su imagen amada se dignó dejar / Desde entonces, para el mexicano / Desde entonces, para el mexicano / Ser Guadalupano, ser Guadalupano / Ser Guadalupano es algo esencial” (21). Nossa Senhora de Guadalupe “foi declarada padroeira das Américas, em 1945, pelo Papa Pio XII. Em 1979, como extremado devoto mariano, o Papa João Paulo II visitou esse Santuário e consagrou solenemente toda a América Latina a Nossa Senhora de Guadalupe” (22).

A devoção mariana integra uma rede mundial. “Parte dos projetos dos membros da Igreja Católica deve ser compreendida de modo transnacional […]. Neste sentido, a formação de devoções, a exemplo do culto mariano no período contemporâneo, precisa ser analisada a partir de uma rede internacional” (23).

São várias as devoções marianas nos países latino-americanos, entre elas, podem ser citadas: Nossa Senhora de Lujan (Argentina); Nossa Senhora de Copacabana (Bolívia); Nossa Senhora del Carmem (Chile); Nossa Senhora del Rosário (Colômbia); Nossa Senhora de Los Angeles (Costa Rica); Nossa Senhora da Caridade (Cuba); Nossa Senhora da Paz (El Salvador); Nossa Senhora del Quinche (Equador); Nossa Senhora do Rosário (Guatemala); Nossa Senhora de Concepción (Honduras e Nicarágua); Nossa Senhora de La Antigua (Panamá); Nossa Senhora de Caacupé (Paraguai); Nossa Senhora das Mercês (Peru); Nossa Senhora de Altagracia (República Dominicana); Nossa Senhora de los 33 (Uruguai); Nossa Senhora de Coromoto (Venezuela) (24).

Na multiplicidade de manifestações marianas, há de se encontrar alguma vinculada à cultura e identidade mais próximas de onde se está. No México, a aparição mariana ajudou a moldar a paisagem e a identidade locais.

A religiosidade, principalmente a cristã, está imbricada na configuração urbana e nos costumes das cidades latino-americanas em diferentes intensidades. Com isso, há uma copresença do sagrado nos espaços, na cultura, na arte, no comércio, na economia, nas festas, no lazer, no turismo, enfim, no dia a dia da população. “Por meio de Guadalupe e Aparecida […] é possível perceber a riqueza da apreensão da presença, do papel e do lugar de Maria como expressão diferenciada da diversidade das culturas dos povos latino-americanos” (25). A manifestação local da religiosidade pode ser percebida antes mesmo de se chegar aos Santuários.

A Insigne y Nacional Basílica de Santa María de Guadalupe está localizada na colina de Tepeyac, ao norte da Cidade do México. Um dos acessos se dá pela Calz de Guadalupe, via que conduz os visitantes. Na generosa calçada destinada aos pedestres é possível cruzar com imagens de santos e visualizar o numeroso comércio com produtos relacionados à Virgem.

Calz de Guadalupe
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2015

 

A perspectiva conduz o olhar ao Templo Expiatorio a Cristo Rey, também conhecido como Antigua Basílica. A monumentalidade e a habilidade em construir perspectivas são parte do desenho urbano da cidade, que tem locais icônicos como Teotihuacan e El Zócalo. Na Cidade do México, a paisagem parece ter sido moldada tanto para expressar solenidade quanto para abrigar multidões. Algo coerente em uma megalópole.

Basílica Antiga
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2015

Muitas construções, monumentos, obras de arte e jardins ocupam a Villa de Guadalupe, onde consta que correu a aparição da Virgem em 1531. A “primeira igreja, cuja obra se completou em 1622, foi construída com a ajuda dos devotos, notadamente criollos, demonstrando a força do culto desde o seu começo. Em 1694, foi inaugurado um novo prédio, edificado no mesmo lugar do anterior” (26). Durante séculos houve reformas, ampliações e construções de novas edificações em Guadalupe (27).

Devido às condições do solo na Cidade do México e da ocorrência de sismos, periodicamente, vários edifícios sofrem avarias. É comum ver na cidade construções com fissuras ou mesmo fora de prumo, o que, para quem não está acostumado, dá uma estranha sensação de falta de referência de alinhamento vertical. Nesse contexto, a construção de uma nova basílica ocorreu por duas razões: pelo aumento da população mexicana — e dos peregrinos que vão a Guadalupe —, e pela deterioração do antigo edifício devido a recalques da estrutura (28).

A Basílica atual e a Basílica antiga estão lado a lado. Os autores da nova Basílica são Pedro Ramirez Vázquez e José Luis Benlliure Galán, que pretendiam realizar uma arquitetura da atualidade sem ofuscar as construções antigas (29). A equipe liderada por Vázquez teve que conciliar “não apenas a visibilização de um objeto sagrado, mas também o seu lugar em relação a outros elementos do templo e as condições que orientam o acesso das pessoas a ele” (30). A construção teve início em 1974 e, já em 1976, foi inaugurada.

A Basílica se mostra como uma robusta construção, com planta circular — o que atenua a sua dimensão em relação ao entorno. A capacidade é de 10 mil pessoas em seu interior e 30 mil na praça contígua (31). A horizontalidade do partido, o generoso número de portas para a praça, e a cobertura — cuja parte mais elevada está localizada ao fundo da construção — criam um espaço em harmonia com o conjunto histórico. A cobertura é em azul turquesa, cor que pode ser vinculada a antigas tradições astecas.

Dentro da Basílica, há refinado cuidado com o piso, o altar, o forro, os lustres, bem como com o grande atrativo do local: a imagem da Virgem gravada na tilda, praticamente emoldurada por uma grande cruz banhada por iluminação zenital. É preciso olhar para cima para apreciar a imagem.

“Sendo Guadalupe a padroeira da América Latina, considerando o peso cosmopolita do município-santuário (a própria capital mexicana e do império asteca), pode-se apontar a expressividade reticular de linhas interpretativas para cada panorama devocional” (32). A Basílica parece estar tanto à altura da tradição cultural de veneração à Virgem quanto da capacidade mexicana de construção de espaços opulentos. “Es un edificio fundamental en la historia de la arquitectura del siglo 20 en México” (33). O conjunto impressiona pela qualidade expressiva e coerência de seus elementos.

A imensa Plaza de las Americas é o ponto de acesso à Villa, local de chegada de várias romarias. A paisagem da praça é definida pela Basílica atual, pela Basílica Antiga, pelo Templo y exconvento de Santa María de Guadalupe de Capuchinas, pelas capelas, pelos painéis e murais habilmente dispostos. Há também mais um elemento monumental, o Carrillón, que abriga sinos, relógios — incluindo um solar — e um calendário asteca.

Plaza de las Americas
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2015

Basílica de Guadalupe
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2015

“A plataforma religiosa da América Latina se distingue da europeia por ter uma matriz dominante sincrética, uma religiosidade de fundo em processo de fragmentação e de subjetivação nas consciências e uma pluralidade crescente de agências religiosas de prestação de serviços” (34). Ao circular pelo local, depara-se com nuances da religiosidade, com exemplares da arquitetura realizados em diferentes séculos, e, obviamente, com jardins e espaços abertos. Por se tratar de uma colina, são belas as miradas para a cidade, bem como os diversos locais de culto existentes, como o Jardin del Tepeyac. No Cerro del Tepeyac, há cenas muito próprias que permitem apreender um pouco da religiosidade mexicana.

Jardin del Tepeyac
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2015

Pode-se observar mantas artesanais, flores, a bandeira mexicana, imagens do Papa, de Juan Diego, de Maria(s). Uma abundância de elementos que sintetizam a cultura mexicana. “As imagens que formam nosso mundo são símbolos, sinais, mensagens e alegorias. […] As imagens, assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos” (35).

Devoção no Cerro del Tepeyac
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2015

Por sua vez, a própria fotografia tem a capacidade única de, em um recorte, registrar espaços, pessoas ou até outras imagens e, com isso, criar uma narrativa própria sobre as cidades. Em conjunto com tantas outras narrativas, colabora no processo de documentar histórias, memórias e percepções sobre as cidades, instigando e subsidiando a reflexão sobre elas.

“A estrutura de culto a Maria, como elemento político nos projetos da Igreja Católica, foi elaborada durante a modernidade, com as aparições, visões ou achados das suas diferentes representações” (36). Apesar da antiguidade das aparições e dos achados, são historicamente mais recentes a sofisticação e a busca de excelência na gestão de complexos marianos que envolvem religiosidade, devoção, lazer, turismo e consumo. “Uma visita às origens oficiais, processos históricos e efeitos publicitários das imagens marianas nacionais, aponta para a necessidade de um universo de especificidades no contexto de cada nacionalidade” (37). Maria é a mesma, mas ela se manifestou e se manifesta de modos diferentes em Guadalupe e em Aparecida.

Aparecida

Diferente de Guadalupe, onde foi relatada uma aparição, em Aparecida a devoção foi iniciada após três pescadores terem encontrado uma escultura de Nossa Senhora em um rio. Segundo a tradição católica, a imagem de Nossa Senhora Aparecida em terracota, dividida em duas partes, foi encontrada por três pescadores — João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia — nas águas do rio Paraíba do Sul, em 1717.

Antes de encontrar a escultura, a pesca estava escassa, e “a partir desse momento a pesca é farta e rapidamente os barcos ficaram sobrecarregados de peixes” (38). Naquela época, o país ainda estava imerso na escravidão do povo negro e eis que surgiu a imagem em tom enegrecido. Uma avaliação da descoberta milagrosa é a de que “em Aparecida, logo desde o início, Deus dá uma mensagem de recomposição do que está fraturado, de compactação do que está dividido. Muros, abismos, distâncias ainda hoje existentes estão destinados a desaparecer” (39). O prenúncio dessa boa nova só tem séculos. Um dia esse tempo há de chegar.

Inicialmente, a Santa era venerada em culto familiar, mas ao longo do tempo o público que lhe dedica devoção foi se ampliando. Em 1930, Nossa Senhora Aparecida foi consagrada padroeira do Brasil pelo Papa Pio XI. É dessa época a idealização do manto azul que ostenta a bandeira do Brasil e do Vaticano, com o qual reconhecemos a imagem.

“O vestuário pode ser observado como um símbolo de poder da Igreja e do Estado que medeia a articulação religiosa, política e social, aparando conflitos e acomodando as contradições nessa busca pelo estabelecimento de uma nação” (40). O manto foi idealizado em um momento de reaproximação entre Estado e religião, na década de 1930, sob o governo de Getúlio Vargas.

A identidade nacional entrecruzada com a do manto abarca a sociedade como um todo. Mesmo em um samba que exalta a centenária Escola de Samba Portela, pode-se escutar: “Parece a maravilha de aquarela que surgiu / O manto azul da Padroeira do Brasil / Nossa Senhora Aparecida / Que vai se arrastando e o povo na rua cantando / É feito uma reza, um ritual / É a procissão do samba abençoando a festa do divino carnaval” (41). A religiosidade instiga as mais diversas formas de narrativas e de arquiteturas.

Em Aparecida, após a construção de várias capelas, inclusive uma edificação que “foi reformada e ampliada em 1768” (42), foi inaugurada, em 1888, no Morro dos Coqueiros, a edificação de feição barroca que é conhecida atualmente como Basílica Velha (43). Quando Nossa Senhora Aparecida foi alçada a Padroeira do Brasil, houve a iniciativa para que houvesse uma basílica mais grandiosa.

A nova construção, que impactou na infraestrutura da cidade, foi localizada no Morro das Pitas. “Entre os anos de 1946 e 1951 o arquiteto Benedito Calixto de Jesus Neto trabalha a elaboração e aprovação” (44) do projeto da nova Basílica, cujas obras em etapas se estenderam até pelo menos a década de 1980.

A grandiosa Basílica alterou sobremaneira a paisagem da cidade, bem como a construção da Passarela da Fé, inaugurada em 1971. A passarela conecta a Basílica nova com a antiga. Desde então, o santuário parece estar em permanente expansão, criando espaços para o “exercício da Fé e do turismo” (45).

“O estilo românico foi escolhido menos como referência arquitetônica estrita e mais por remeter a uma imponência imperial […]. Inspirando-se na Basílica de São Pedro, Calixto planejou uma planta quadrada, dominada por uma cúpula central” (46). No espaço interno, porém, o mais marcante é a forma de cruz, com o altar ao centro. Em uma das extremidades está exposta a venerada imagem. O material predominante é o tijolo à vista, inspirado na imagem da Virgem, que é de terracota.

No edifício há museu, mirante, lanchonete, estúdio da TV Aparecida, sala das promessas, lojas. Dentre esses espaços destaca-se a bela e cênica Capela das Velas, com cobogós, crucifixo suspenso e, naturalmente, velas de aspecto bruxuleante que enfumaçam o ambiente.

No Santuário há também várias lojas de diferentes dimensões, lembrando aos visitantes que lazer e consumo podem estar imiscuídos nos espaços da religiosidade. “A imagem de Nossa Senhora Aparecida tornou-se a um só tempo banal e grandiosa. […] Pode-se indagar, ao visitarmos o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, se todas aquelas mercadorias foram criadas para a Virgem, ou se a Virgem foi feita para vender os objetos de consumo” (47).

Na grande gleba que abriga a Basílica, há ainda vários edifícios e equipamentos, como o Centro de Apoio ao Romeiro — com praça de alimentação, centro de informações e até um aquário –, circundado por um quilométrico estacionamento. Entre as atrações, está o Morro do Presépio, com imagens que remetem tanto ao descobrimento da imagem da Santa, quanto ao nascimento de Cristo. Há, ainda, o Campanário, um projeto tardio de Oscar Niemeyer, inaugurado em 2016.

Morro do Presépio
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2022

A expansão do Santuário e das atrações é constante, instigando os fiéis a voltarem periodicamente a Aparecida. Por um lado, o imenso complexo se conecta, por meio de um bondinho aéreo, com o Morro do Cruzeiro, que tem Via Sacra e mirante. Por outro, conecta-se com a Cidade do Romeiro, localizada nas proximidades de Porto Itaguaçu e do rio onde a Santa foi achada. A Cidade abriga hotéis, centro comercial, pedalinhos, o Caminho do Rosário, o monumento do Obelisco, o Jardim do Devoto, o Trem do Devoto.

Morro do Presépio
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2022

Cidade do Romeiro
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2022

Referências a Maria imiscuem-se na cidade para além desses lugares. Pelas ruas há, por exemplo, esculturas de autoria de Gilmar Pinna relacionadas à Santa e aos milagres a ela atribuídos. “Em vários países e regiões do mundo, onde o catolicismo é religião predominante, é comum a existência de ‘cidades de função religiosa’. […]. Mas Aparecida talvez seja ímpar na síntese que é capaz de fazer da cultura brasileira, expressando com naturalidade a coexistência do sagrado e do profano” (48).

Escultura Milagre do cavaleiro ateu
Foto Eduardo Oliveira Soares, 2022

Apesar de contar com uma população de cerca de 35 mil habitantes, Aparecida se beneficia da proximidade das duas maiores cidades do País: São Paulo e Rio de Janeiro. A cidade é um grande palco para exercer a fé — e o lazer — em um ambiente onde todos parecem vinculados à mesma crença.

É a sua primeira vez aqui? Já conhece a outra parte da Basílica? Qual outro santuário mariano você conhece? Espontaneamente, entre estranhos, surgem perguntas assim nos santuários, fazendo com que os frequentadores se sintam irmanados na mesma fé, filhos da mesma mãe.

Materializações

A religião cristã e as devoções marianas contribuíram para a criação de um lastro cultural comum latino-americano. Essa influência moldou e continua moldando as paisagens ao materializar igrejas, basílicas, santuários.

A Basílica de Guadalupe, inaugurada na década de 1970, foi projetada pela equipe de Pedro Ramirez Vázquez, que buscou uma linguagem arquitetônica contemporânea. A de Aparecida, projetada por Benedito Calixto de Jesus Neto na segunda metade dos anos 1940 e finalizada na década de 1980, foi calcada no estilo românico.

Com isso, enquanto a de Guadalupe alinha-se com as monumentais obras modernas do México, a Basílica de Aparecida parece extemporânea, afinal, foi projetada antes da disseminação da Arquitetura Moderna, que caracterizaria edifícios emblemáticos país afora.

Os santuários marianos sobrecarregam os sentidos ao apresentarem as densas imagens cristãs imersas em uma arquitetura abundante de detalhes e de arte integrada. No caso de Guadalupe e Aparecida, integram complexos erigidos ao longo dos séculos. Há muito para olhar e assimilar, porém espaços de descanso e de lazer atenuam o esforço desprendido na visita.

Os dois santuários apresentados neste artigo são carros-chefes de uma rede de devoção mariana na América Latina. A multidão que os frequenta é impulsionada pela fé ou pelo interesse em conhecer locais icônicos das cidades e dos países onde estão localizados.

Os santuários atestam a força das narrativas que culminaram na sua construção. A começar pela narrativa oral de quem teve contato com a aparição da Virgem em Guadalupe, ou de quem participou da pesca da Santa em Aparecida. Apresentar narrativas sobre esses espaços colabora na identificação e no registro da cultura e dos patrimônios materiais e imateriais dos países.

“Maria de cada casa / E de todos os caminhos / Maria de nossa infância / Maria de toda gente / Maria de todo amor / Maria de cada Igreja / De azulejos, alfaias / Redomas, lindos altares / Maria das procissões / Das festas, das romarias / Dos cânticos, da alegria / […] Cuida de tudo que tudo é teu”(49). Se Maria, segundo a tradição católica, pode ser considerada virgem, grávida, mãe, esposa, conquistadora, guardiã, mestra, imperatriz ou rainha, pode, também, ser considerada artífice de parte da identidade latino-americana, impulsionadora da criação de paisagens nas cidades e, ainda, inspiradora de narrativas.

notas

1
LIBANIO, João Batista. Impactos da realidade sociocultural e religiosa sobre a vida consagrada a partir da América Latina: busca de respostas. Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, v. 37, n.101, 2005, p. 55.

2
MORENO, Júlio César. A ação do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida e o fomento do Turismo Religioso. Tese de doutorado. São Paulo, ECA USP, 2009, p. 24.

3
OLIVEIRA, Christian Dennys Monteiro de. Matergrafia e patrimônio: Santuários Marianos como espaço simbólico e vetorial da Latinidade. Ateliê geográfico (UFG), v. 12, 2018, p. 188.

4
Santuário Aparecida <https://www.a12.com>.
5
Idem, ibidem.

6
SOARES, Eduardo Oliveira. Narrativas sobre o Recôncavo: entre Cachoeira e São Félix, entre palavras e fotografias. In JORGE, Luis Antonio (org.). Anais do II Seminário Internacional Espaços Narrados: as línguas na construção dos territórios ibero-americanos. São Paulo, FAU USP, 2019, v. 1, p. 874.

7
HACKMANN, Geraldo Luiz Borges. Maria nas conferências episcopais da América Latina. ATeo, Rio de Janeiro, v. 21, n. 57, set./dez. 2017, p. 453.

8
MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise crítica da narrativa. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 2013, p. 17.

9
ROSA, Flávia Gabriela da Costa. Ressonância do imaginário cultural nas devoções Marianas: apropriações do sagrado feminino. Tese de doutorado. São Paulo, PPG Comunicação Unip, 2017, p. 19.

10
SOUZA, Juliana Beatriz Almeida de. Virgem mestiça: devoção à Nossa Senhora na colonização do Novo Mundo. Tempo — Revista do Departamento de História da UFF, Rio de Janeiro, v. 6, n.11, 2001, p. 78.

11
LANDGRAF, Robert Donizeti. A presença da devoção mariana na história da América Latina: da virgem conquistadora à mulher da libertação. Contemplação — Revista Acadêmica de Filosofia e Teologia da Faculdade João Paulo II, v. 2021, 2021, p. 152.

12
Viagem Apostólica ao Rio de Janeiro por ocasião da 28ª Jornada Mundial da Juventude. Encontro com o Episcopado Brasileiro. Vaticano, jul. 2013 <https://bit.ly/3TbLmHM>.

13
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo, Edusp, 2006, p. 67.

14
OLIVEIRA, Christian Dennys Monteiro de. Op. cit., p. 177.

15
SOARES, Eduardo Oliveira. Op. cit., p. 863.

16
OLIVEIRA, Christian Dennys Monteiro de. Op. cit., p. 185.

17
SOARES, Eduardo Oliveira. Op. cit., p. 866.

18
ROSA, Flávia Gabriela da Costa. Op. cit., p. 31.

19
Virgem de Guadalupe. Santuário Guadalupe <https://bit.ly/3TaAHwT>.

20
GIUMBELLI, Emerson Alessandro. Um estudo sobre materialidades religiosas: modos de exposição de imagens e regimes de visualidade em santuários católicos. Cultura y Religión, v. 16, n. 1, 2022, p. 272.

21
La guadalupana. Canciones con Mariachi a La Virgen de Guadalupe, Miriam Solis, 2012.

22
Santuário Aparecida (op. cit.).

23
MOURA, Carlos André Silva de. Aparições e Devoções Marianas: a formação de uma cultura visionária em Portugal e seus usos no projeto de Restauração Católica (1917-1950). Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 14, n. 35, 2022 p. 3.

24
OLIVEIRA, Christian Dennys Monteiro de. Op. cit., p. 188–189.

25
HACKMANN, Geraldo Luiz Borges. Maria nas conferências episcopais da América Latina. ATeo, Rio de Janeiro, v. 21, n. 57, set./dez. 2017, p. 454.

26
SOUZA, Juliana Beatriz Almeida de. Op. cit., p. 85.

27
ARTIGAS, Juan Benito. La Basílica del siglo 20 en La Villa de Guadalupe. Bitácora Arquitectura, n. 20, 2011, p. 59.

28
Idem, ibidem, p. 59.

29
Idem, ibidem, p. 59-60.

30
GIUMBELLI, Emerson Alessandro. Op. cit., p. 272.

31
ARTIGAS, Juan Benito. Op. cit., p. 61.

32
OLIVEIRA, Christian Dennys Monteiro de. Op. cit., p. 189.

33
ARTIGAS, Juan Benito. Op. cit., p. 65.

34
LIBANIO, João Batista. Op. cit., p. 57.

35
MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p. 21.

36
MOURA, Carlos André Silva de. Op. cit., p. 5.

37
OLIVEIRA, Christian Dennys Monteiro de. Op. cit., p. 188.

38
MORENO, Júlio César. Op. cit., p. 29.

39
Viagem Apostólica ao Rio de Janeiro por ocasião da 28ª Jornada Mundial da Juventude. Encontro com o Episcopado Brasileiro (op. cit.).

40
MOREIRA, Fuviane Galdino. Entre bandeiras e mantos: Aparecida e a identidade nacional brasileira. Visualidades (UFG), v. 15, 2017, p. 204.

41
Portela na avenida. Composição Mauro Duarte e Paulo Cesar Pinheiro. In Clara, Clara Nunes, 1981.

42
Santuário Aparecida (op. cit.).

43
MORENO, Júlio César. Op. cit., p. 41.

44
Idem, ibidem, p. 45.

45
Santuário Aparecida (op. cit.).

46
GIUMBELLI, Emerson Alessandro. Op. cit., p. 278.

47
SANTOS, Lourival dos. O enegrecimento da Padroeira do Brasil: religião, racismo e identidade (1854-2004). Salvador, Pontocom, 2013, p. 177.

48
Idem, ibidem, p. 60.

49
Ladainha de Santo Amaro. Composição Mabel Velloso. In Cânticos, Preces e Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu na Voz de Maria Bethânia, Maria Bethânia, 2007.

sobre o autor

Eduardo Oliveira Soares é arquiteto e urbanista (Ufpel, 1995), especialista em Reabilitação Ambiental Sustentável Arquitetônica e Urbanística (UnB, 2008), mestre em arquitetura e urbanismo (UnB, 2013) e doutorando na FAU UnB, tendo como tema de pesquisa as narrativas fotográficas. Trabalha na Universidade de Brasília.

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