Em geral, tenho procurado enviar a Vitruvius correspondências que, partindo de eventos profissionais aqui em Israel, possam despertar um interesse geral dentro de horizontes mais largos.
Hoje fugirei a esta regra, no desejo de transmitir impressões que me foram despertadas por recente viajem à França, e que me transportam às origens de uma formação cultural que ultrapassa limites geográficos.
Em meio às infinitas opções oferecidas a quem visita Paris e redondezas, quero aqui relatar de duas experiências marcantes e para mim inéditas, que vieram de certa forma encerrar um ciclo de algumas dezenas de anos na cristalização de uma consciência arquitetônica: refiro-me à tomada de conhecimento direto com projetos longamente ilustrados e comentados na literatura: a Villa Savoye de Le Corbusier, e a sede do Partido Comunista de Niemeyer.
Freqüentemente, ao chegar a logradouros muito divulgados, fui acometido por uma certa sensação de anticlímax, decorrente do conflito entre a imagem ideal, quase mística – e a realidade concreta e palpável, visível e mensurável dentro de um complexo contexto de ambiente, escala, entorno humano, etc.
Não este foi o sentimento perante a Ville Savoye em Poissy: talvez por se achar tão isolada em sua cândida brancura, no meio do quadrilátero gramado do jardim, que uma barreira de grandes árvores separa do movimento e do ruído externos, de modo a criar uma identidade entre a imagem figurada e a construção verdadeira. Talvez pelo encontro real com um ícone que se tornou elemento quase inseparável da formação de todo arquiteto moderno. Talvez pela familiaridade com que o conjunto e seus detalhes são assimilados pelo visitante conhecedor da influência que o projeto teve sobre gerações sucessivas de arquitetos. Talvez por sua impressionante atualidade e inalterada coerência.
Percorrendo seus espaços internos, reconheci igualmente obras de mestres brasileiros, que melhor do que qualquer outra “escola” souberam compreender e interpretar a mensagem de Le Corbusier: Niemeyer, irmãos Roberto, Artigas, Millan, Mendes da Rocha. E melhor do que quaisquer outros traduziram para uma linguagem autenticamente moderna iniciada por Le Corbusier, uma tradição histórica e cultural de profundas raízes.
O edifício do Partido Comunista Francês de Oscar Niemeyer coloca-se na linha dos melhores projetos deste, e combina a clareza e simplicidade da concepção e impostação (tão própria da boa arquitetura brasileira) com uma execução rigorosa e aprimorada, fruto da tecnologia européia.
Ele apresenta uma justa hierarquia entre os elementos do conjunto, que torna o projeto i/clientes/vitruvius/mediatamente legível, claro e compreensível: a entrada no amplo espaço de recepção, através de um acesso anri-retórico em descida desde a esplanada externa; o grande auditório, cuja cobertura em abóbada faz do volume um elemento destacado no exterior, mas fluentemente ligado ao espaço interior tratado com espantosa austeridade e rejeição de grandiloqüência; a solução óbvia e anti-bombástica da ala dos escritórios; a colocação lógica e simples das circulações verticais e elementos de serviço: todos vocábulos de um léxico já adquirido e assimilado, mas grotescamente rejeitado pelas tendências vigentes de algumas arquiteturas de moda.
Aos colegas arquitetos que não tiveram oportunidade de ver de perto esses projetos (e em especial dentre eles a meus colegas israelenses) recomendo este itinerário, como um ensejo para um salutar exame de consciência e para uma avaliação em profundidade de sua atividade criativa.
notas
[publicação: outubro 2001]
Vittorio Corinaldi, Tel Aviv, Israel