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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
O autor, usando como exemplo o famoso caso de Zanine Caldas, discute a formaão universitária do arquiteto e a necessidade de um exame de ordem para o exercício da profissão no Brasil

english
The author, using as example the famous case of Zanine Caldas, discusses the university formation of the architect and the need to take an exam in order to work in Brazil

español
El autor, usando como ejemplo el famoso caso de Zanine Caldas, discute la formación universitaria del arquitecto y la necesidad de un examen de orden para el ejercicio de la profesión en Brasil

how to quote

LAUANDE, Francisco. O exame de ordem para arquitetos. Uma contribuição importante para o ensino da arquitetura. Drops, São Paulo, ano 06, n. 012.03, Vitruvius, ago. 2005 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/06.012/1658>.


“Um arquiteto deveria pelo menos saber escrever..." Oscar Niemeyer

Já há alguns anos que nós arquitetos acordamos (pelo menos) para o fato de que nossa profissão sofre por causa de uma crise antiga e profunda que se avoluma cada vez mais, e ameaça a própria existência dela. Aponto para a representação da classe por meio de uma entidade única que promoveria, já de pronto, a necessária convergência das nossas forças fragmentadas: Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (ASBEA), Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP), etc.

É possível que seja uma arma de “um tiro só”, mas uma inevitável “vereda da salvação”. Não há dúvidas que através desta organização autônoma teremos o lastro financeiro na dimensão capaz de nos possibilitar a criação de uma quantidade maior de momentos para a divulgação da produção arquitetônica no país e o mais importante, a “educação” da sociedade (através de propagandas) do que sejam as nossas verdadeiras atribuições profissionais e os riscos da construção desassistida por um arquiteto. Coaduno com a opinião de que não há arquitetos em excesso, mas sim uma maioria subutilizada e, conseqüentemente, mal-remunerada e com sérias dificuldades para até mesmo sobreviver. Temos uma bela tradição na arquitetura que precisa ser resgatada, divulgada e perpetuada. Se quisermos ser entendidos, respeitados e necessários, devemos nos fazer entendidos, respeitados e necessários. E rápido.

Enquanto o sonhado Colégio Brasileiro de Arquitetos não sai do papel ou não é concretizado como resultado do projeto de lei que se encontra no congresso, poderíamos começar a arrumar a casa antes que essa nova realidade no exercício da nossa profissão finalmente apareça. O exame de ordem seria um grande começo. Como profissionais devemos estar não somente atentos ao cotidiano da vida no exercício do ofício, mas à formação dos futuros colegas. O exame deve ser encarado, em primeiro lugar, como uma contribuição importante para o ensino da arquitetura. As Universidades estarão sempre sujeitas à acomodação burocrática, e para elevarmos o respeito que os arquitetos devem angariar dentro da sociedade serão sempre necessários os bons profissionais formados com a consciência plena da responsabilidade social e que saibam “justificar” a existência com bons serviços prestados.

Nas últimas semanas, em matéria publicada pelo jornal O Globo, li o depoimento de um professor de direito em uma Universidade do Rio de Janeiro, que denunciou a mentalidade majoritária do ensino superior brasileiro em preocupar-se apenas com a formação técnica do profissional sem enfatizar o exercício do pensamento sobre a ética ou a consciência social, por exemplo. O resultado, segundo ele, é o crescimento na quantidade de advogados com desvio de conduta que encaram a profissão como resultado exclusivo de uma visão limitada às oportunidades do mercado. Muitos alunos entram para os cursos de direito querendo “se dar bem” na profissão. Só estão interessados em passar em concurso, ganhar dinheiro, deixando de lado o interesse pela ética (sic).

É notória a ampliação perigosa da indústria do ensino superior. Em Brasília (se as minhas contas estão certas) contamos com cinco escolas de arquitetura além da existente na Universidade de Brasília. Quais são as reais condições delas? Qual é o grau de exigência para admitir um estudante nessas instituições? Folgo em saber que dentro das propostas de reforma do ensino superior proposta pelo atual governo federal está a exigência da formação de cursos de mestrado nas faculdades particulares. Nada mais justo para os que têm a concessão para gerenciar o ensino superior e lucram fortunas com isso.

A educação deve ser encarada como assunto de segurança nacional. A universidade deve fomentar a pesquisa e servir para a formação de cidadãos pensantes. Ela não pode se prestar somente ao papel de uma mera indústria cujo sentido da existência seja limitado à “democratização” do diploma. Ponho-me ao lado do aluno que paga caro (muito caro) para estar em uma dessas escolas de arquitetura e quer ser bem formado e ao invés de descobrir que foi enganado ao confrontar-se com a realidade do mercado. Com o exame de ordem instituído os bons estudantes irão naturalmente exigir a prática do bom ensino. Para os estultos, “amantes da picareta“, ele servirá para punir a mentalidade do “entra quem pode pagar e só não sai se não quiser“ ou do “ele finge que me ensina e eu, que estudo”.

Quero aproveitar a oportunidade para citar o exemplo do Japão. Entre os pontos mais peculiares está a possibilidade que o exame de ordem nipônico dá para qualquer um que deseja se submeter a ele. Mesmo que não tenha freqüentado uma escola de arquitetura. Podemos aqui, como lá, darmos uma chance, por exemplo, aos que se travestem de arquitetos, sob o “título” de decoradores. Muitos se aventuram a projetar edificações sem a mínima condição para fazê-lo e as mesmas responsabilidades civis que a inscrição no CREA nos impõe. Lembro aos admiradores de Tadao Ando (arquiteto japonês) que ele não tem diploma universitário. Largou a atividade esportiva como pugilista para dedicar-se à arquitetura. Submeteu-se ao exame de ordem e exerce a profissão com os mesmos direitos de deveres daquele que passou pelo ensino formal. Os seus socos estão agora, limitados aos seus colaboradores quando não fazem suas tarefas a contento (adoro contar essa parte). Nem precisaríamos ir longe. Aqui no Brasil, da mesma forma, tivemos o nosso Tadao Ando – Zanine Caldas.

Deixo uma outra sugestão (essa é minha): os estudantes que fossem premiados em concursos de projetos como o “Ópera Prima” deveriam ser dispensados da obrigação em submeter-se ao exame de ordem. Nada mais justo, pois através dele são julgados os trabalhos de graduação. Para os que insistissem em trabalhar na ilegalidade e em autodenominar-se arquitetos, somente o rigor da lei, que prevê como crime o ato de exercer uma profissão de forma ilegal. Em outras palavras, falsidade ideológica cuja prática prevê uma temporada com todas despesas pagas na cadeia.

Ao contrário do que diz a propaganda do governo Lula, tenho cá as minhas dúvidas se a Universidade é para todos. Se for, que não seja ao menos conivente com a facécia do comércio do ensino de algumas instituições privadas e a apatia de outras, públicas. Definitivamente, a cultura do “se dar bem“ ou a do “jeitinho” não condiz com uma sociedade que – em tempos de “mensalão” e dólar na cueca – se mostra sedenta por mais ética e que está cansada de presenciar o futuro do país sendo apoucado pelo sentido de coletividade subordinado ao lado mais obscuro do individualismo.

sobre o autor

Francisco Lauande, arquiteto (UnB, 1987), ex-professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UNIP – Campus Brasília, pós-graduação em Sistemas de Construção pela Universidade Metropolitana de Tóquio (1990-1991).

Francisco Lauande, Brasília DF Brasil

Maquete de Zanine Caldas [Catálogo da 4ª BIA, 1999]

 

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