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drops ISSN 2175-6716

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O arquiteto alemão Hans Broos, naturalizado brasileiro, autor de obra de excepcional qualidade, é um dos homenageados do XIV Seminário de Arquitetura Latino-americana – SAL.

how to quote

MARETTI, Orlando. O adeus ao Mestre. Hans Broos, 1921-2011. Drops, São Paulo, ano 12, n. 050.03, Vitruvius, nov. 2011 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/12.050/4114>.



Em um país que adquiriu o execrável costume de cultuar a mediocridade, onde o sucesso é medido pelo número de inserções de notícias na mídia envolvendo as chamadas celebridades, nada mais justo e oportuno que a homenagem que o Seminário de Arquitetura Latinoamericana – SAL (1), presta ao arquiteto Hans Broos, falecido em agosto último.

O saudoso e irreverente jornalista Ivan Lessa, um dos fundadores do Pasquim, numa de suas mais ácidas e pertinentes tiradas, afirmou uma vez: “de quinze em quinze anos o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos”. A homenagem em questão tenta contrariar esta máxima.

Resumo biográfico

Hans Broos fez parte daquela geração de arquitetos europeus que, no imediato pós-guerra, fixou-se no Brasil, como Franz Heep, Victor Reif, Lina Bo Bardi, Giancarlo Palanti e tantos outros que contribuíram com suas idéias e obras para a evolução da moderna arquitetura em nosso país.

Broos nasceu em Gross-Lomnitz, hoje território eslovaco, em 1921. Seus estudos superiores foram iniciados na Áustria mas, com a eclosão da guerra, transfere-se para a Alemanha, onde conclui o curso de engenheiro-arquiteto, segundo a denominação da época, na Universidade Técnica de Braunschweig.

Já formado, muda-se em 1949 para Karlsruhe, onde inicia sua carreira como assistente do professor Egon Eiermann, na Universidade Técnica daquela cidade. Sua colaboração com Eiermann, a quem Broos chama de “o grande homem da reconstrução da Alemanha”, abrange diversos projetos e obras de restauro, especialmente em Berlim, e também em outras cidades, como a Rádio Emissora de Stuttgart (1951) e o Laboratório Ciba (1952). Participou ainda da reconstrução da cidade de Lübeck, onde manteve escritório próprio.

Seu perfil discreto e reservado, até tímido, ocultava um espírito inquieto e uma mente em permanente ebulição, ávida por novos desafios. Vem dessa época seu interesse pelos projetos de Le Corbusier, a quem convidou pessoalmente para fazer uma palestra na Universidade de Kalrsruhe, com a anuência de Egon Eiermann. Broos também ficou vivamente impressionado com o que leu a respeito da arquitetura moderna brasileira em catálogo – Brazil Builds – preparado especialmente para uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), na qual sobressaía o projeto do edifício-sede do Ministério de Educação e Saúde, obra do arquiteto Lúcio Costa, discípulo de Le Corbusier, construído no Rio de Janeiro em 1936.

Broos deixa a Alemanha em 1953, dirigindo-se diretamente ao sul do Brasil, onde se instala na cidade catarinense de Blumenau, fundada e colonizada por alemães. Inicia intensa atividade profissional desenvolvendo diversos projetos e obras na região do Vale do Itajaí. Para exercer de fato e de direito sua profissão, o arquiteto passa um período (1953/1957) no Rio de Janeiro, iniciando o processo de convalidação de seu diploma na então Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil.

Conforme registra Karine Daufenbach, em sua dissertação de mestrado (2), Broos torna-se assistente do professor Lucas Mayerhofer, com quem colaborou na reconstrução das ruínas das missões jesuíticas de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul. Esta passagem pelo ambiente acadêmico do Rio de Janeiro, então capital da República e centro cultural do País, proporcionou a Broos uma extensa rede de contatos, que lhe abriram a perspectiva de participar de novos projetos em diversas regiões do Brasil.

Ao concluir cum lauda o curso de convalidação de seu diploma, dada sua estreita colaboração com o professor Mayerhofer, aceitou o desafio que lhe foi feito pelo então reitor da Universidade do Brasil, o historiador Pedro Calmon. O futuro ministro da Educação do governo de Juscelino Kubitscheck, propôs que o arquiteto fizesse um levantamento sobre a arquitetura luso-açoriana no litoral catarinense, uma questão pendente e que na época carecia quase que totalmente de registros.

Broos caiu nas boas graças do então governador catarinense Heriberto Hülse, que lhe cedeu uma caminhonete, com uma mesa de trabalho adaptada à carroceria, um motorista de confiança e suprimentos para realizar suas pesquisas, que se estenderam por mais de um ano ao longo do litoral catarinense, desde São Francisco do Sul até Laguna. Em 5 de novembro de 1957 cumpriu o compromisso assumido com o professor Pedro Calmon e entregou à Secretaria do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, quarenta exemplares datilografados, em forma de livro, com 280 páginas, ilustradas com fotografias, aquarelas, croquis e plantas baixas, todos executadas por Broos. Esta obra, produzida artesanalmente, recebeu o título de Açorianos.

Meio século depois, por obra do acaso, Broos recebeu do então diretor do Iphan em São Paulo, Victor Hugo Mori, um exemplar do Açorianos, do qual não tinha sequer um exemplar (3). Estimulado por mim e outros amigos do pequeno grupo que com ele colaborava, o arquiteto finalmente concordou em ter sua obra publicada. Reescrevi todo o texto e Broos entregou os originais à editora da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, que entrou em acordo com a Editora Cultura em Movimento, de Blumenau, e o novo livro (4) foi finalmente lançado no final de 2004, em São Paulo, Florianópolis e Blumenau, tornando-se uma importante referência para arquitetos e estudiosos da arquitetura luso-açoriana no litoral catarinense.

Modéstia e sabedoria

Hans Broos naturalizou-se brasileiro e integrou-se em definitivo em nossa cultura. Sua estreita amizade com o paisagista Roberto Burle Marx e o arquiteto Rino Levi, o levou a embrenhar-se pelo sertão de nosso País, para conhecer a fundo sua natureza e sua cultura. Sua modéstia e assumido low profile não o impediam de intervir em acirradas polêmicas e demonstrar sua contrariedade em relação a determinadas soluções urbanísticas, como a adotada no Vale do Anhangabaú.

"Aprendi que a massificação no urbanismo nos retira a própria fala. A arquitetura foi sobrecarregada pela má ambientação, por arranha-céus, não existe nada que se expresse livremente" (5).

Hans Broos foi um filósofo, de entranhada formação humanística. E também um artífice. Quando foi acompanhar a implantação do projeto que criou para a Hering Nordeste, enfileirou os primeiros trabalhadores que se apresentaram para edificar o prédio e os ensinou a assentar, com argamassa e prumo, a primeira parede experimental, daquele que seria distinguido pelo IAB nacional como o Projeto de Construção Industrial do Ano, por seu perfeito sistema de ventilação natural, numa das regiões mais quentes do País.

Hans Broos foi um asceta, um missionário e também um estudioso de detalhes da natureza. Quando me relatou o incidente que fez o Boeing da Gol, no qual viajava, deslizar ao aterrissar na pista do Aeroporto de Navegantes, em Santa Catarina, e lançar a asa direita contra o muro que margeava a pista, danificando seriamente a turbina da aeronave, fez a seguinte observação:

“Quando vai se projetar um aeroporto, primeiro deve-se estudar detidamente o regime dos ventos”.

Hans Broos foi um sábio, um mentor, um mestre que nunca constrangeu os seus discípulos. Mais de duas gerações passaram pelas pranchetas de seu escritório, aprendendo como agregar poesia ao concreto, a serem excelentes técnicos sem perder de vista a Humanidade.

Desde o final dos anos 1990 Hans Broos foi acometido de uma grave enfermidade degenerativa incurável, cujos sintomas, semelhantes ao Mal de Alzheimer e Parkinson, foram se manifestando gradativamente. Sua memória começou a ser afetada e lentamente o tremor das mãos dificultava seus manuscritos. Nos últimos anos, era visível o tremendo esforço que fazia para manter a sua mente lúcida. Tinha o costume de usar uma agenda de tamanho grande, das Edições Paulinas, como se fosse um diário. Se estivéssemos em uma reunião ou numa conversa de alguma importância, ele anotava detalhadamente na agenda, que passou a ser sua memória recorrente. As páginas datadas eram simetricamente divididas em quadrados. Broos anotava os compromissos em vermelho e os demais assuntos em azul ou preto.

Outro exercício mental a que se impôs foi o registro de suas memórias. Não se preocupou em seguir uma narrativa linear ou em ordem cronológica. Seu foco era a relação que mantinha com algumas pessoas que tiveram importância em sua vida. Fiquei muito comovido quando recebi o esboço de um episódio marcante: seu primeiro encontro com o filósofo Alceu de Amoroso Lima, ou Tristão de Ataíde, pseudônimo que usava como crítico literário. Católico praticante, foi ele quem apresentou Broos ao prior da Ordem de São Bento. Amoroso Lima tinha uma filha, Maria Teresa, que ingressara na Ordem como freira e viria a se tornar superiora da Ordem, como Abadessa da Abadia de Santa Maria, o maior projeto sacro desenvolvido por Hans Broos. O arquiteto também foi o autor do projeto do Mosteiro de São Bento, bela obra que se encontra na cidade de Vinhedo, a 70 Km de São Paulo.

Para manter a fluência de sua caligrafia, passou a usar uma régua como guia. Em 2008, recebi outro manuscrito. Broos iniciara a tradução da principal obra do filósofo e poeta chinês Lao Tsé, o Tao Te King, a partir da versão alemã preparada pelo sinólogo alemão Richard Wilhelm, publicada em 1910. Interessava-se pelo taoísmo, mas não lhe agradavam as várias traduções de Lao Tsé existentes em português.

O fragmento abaixo é um belo exemplo do trabalho que Broos executava para manter ativa a sua mente:

Sobre o que é essencial

Aquele que é escolhido não acumula propriedades.
Quanto mais coisas materiais ele obtém com seu trabalho,
mais ele distribui aos outros.
E mais se contenta com o que tem.
Quanto mais ele dá aos outros
tanto mais ele possui.

Junto com seus mais de 450 projetos catalogados e cerca de 150 obras executadas, este fragmento sintetiza o ideal humanista que orientou a vida desse homem iluminado, um mestre raro, que compartilhava seus conhecimentos e impressionava seus amigos e colaboradores com exemplos de serenidade e ascetismo, diante das situações mais adversas, como as que enfrentou nos últimos meses de sua admirável existência.

notas

1
XIV Seminário de Arquitetura Latino-americana – SAL. Instituto de Artes – Unicamp, Campinas, de 08 de novembro a 11 de novembro de 2011.  O proponente da homenagem foi o Grupo de Apoio a Hans Bross, formado por admiradores da obra do arquiteto, dentre eles Orlando Maretti, Karine Daufenbach, André Xavier, Gustavo Drent, José Tabacow, Bernardo Brasil e Abilio Guerra. Coube ao arquiteto Bernardo Brasil, autor de comunicação sobre Broos aprovado no evento, a leitura da homenagem.

2
DAUFENBACH, Karine. Hans Broos. A expressividade da forma. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, Proarq FAU UFRJ, 2006.

3
MORI, Victor Hugo. Hans Broos. Um desenho, algumas memórias e muita saudade. Arquiteturismo, São Paulo, n. 05.054, Vitruvius, ago. 2011 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/05.054/4032>.

4
BROOS, Hans. Construções antigas em Santa Catarina. Blumenau, Editora da UFSC, 2002. como a obra foi financiada com recursos do Governo do Estado de Santa Catarina, sendo então governador Espiridião Amin, para efeito legal a edição está datada como sendo 2002. Mas foi efetivamente concluída em 2004.

5
Entrevista ao jornalista Fernando Serapião, publicada na revista Projeto Design, edição Abril 2004, depois reproduzida no Portal ArcoWeb.

sobre o autor

Orlando Maretti é jornalista.

 

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