No primeiro semestre de 2012 o artista Rubens Mano assistiu e documentou a ação comandada pela prefeitura que destruiu grande parte das caixas de madeira usadas para o transporte de hortifrutis no Ceasa. Caixas que, produzidas e vendidas de maneira informal, empilhavam-se de modo instável e vertiginoso nas calçadas próximas ao grande mercado. Surgem assim, desse episódio, interessantes percepções acerca das dinâmicas visíveis e invisíveis presentes na produção do espaço físico e social da metrópole: 1) a crescente especulação imobiliária, que transforma vastas áreas da cidade, empurra os serviços de apoio, ainda artesanais, para a informalidade, isto é, para a ilegalidade; 2) contenedores vazios, as caixas são tanto metáforas da mercadoria circulante quanto módulos estruturais em si, isto é, símbolos de uma racionalidade construtiva que vai também se tornando recessiva nas dinâmicas imateriais da cidade contemporânea.
Apropriando-se poeticamente dessas caixas como ready-mades urbanos, Rubens Mano cria uma grande montanha que obstaculiza a passagem. E se as pilhas originais de caixas, tal como vemos nas fotos, se escoravam em espaços estreitos de calçadas contra muros descascados, envolvendo postes e árvores, no Beco do Pinto o artista cria um volume profundo e impenetrável, e autônomo enquanto forma geométrica e cargas portantes. Assim, enquanto o corte no primeiro caso está associado à destruição e remoção das caixas, no segundo ele reaparece como interrupção de um fluxo através das mesmas caixas, em uma espécie de retorno simbólico do reprimido, para falar em termos psicanalíticos. Sendo o trabalho de arte uma ação física real, é como se a dinâmica de transformação de uma parte da cidade ativasse involuntariamente processos em outros locais, reaparecendo então como enigma, e sem deixar de trazer também, inscrita nela, uma componente de violência surda.
Quase no pé do antigo Colégio dos Jesuítas, o Beco do Pinto é uma das vielas íngremes construídas para conectar a colina histórica da cidade à baixada do rio Tamaduateí, onde está, significativamente, a primeira Zona Cerealista de São Paulo. Fechado por um portão, o Beco já está hoje interditado ao livre trânsito entre essas áreas, deixando de ser um espaço público. Assim, ao edificar uma rigorosa trama de caixas entre a antiga Casa no 1 da cidade e o Solar da Marquesa de Santos, Rubens Mano conecta discursivamente elos invisíveis da metrópole, ainda que na forma física de uma obstrução. Um bloqueio que também funciona como elemento de conexão.
sobre o autor
Guilherme Wisnik é arquiteto e crítico. Professor da Escola da Cidade, é formado pela FAU-USP, mestre em História Social pela FFLCH-USP, doutor pela FAU-USP. Autor de “Lucio Costa” (Cosac Naify, 2001), “Caetano Veloso” (Publifolha, 2005) e “Estado crítico: à deriva nas cidades” (Publifolha, 2009), e organizador do volume 45 da revista 2G (Gustavo Gili, 2008) sobre a obra de Paulo Mendes da Rocha.