Lamento minha timidez de então. Teria feito tantas perguntas não protocolares. Mas, enfim, de toda forma, foi privilégio, tê-la entrevistado, já idosa, quando visitou o Brasil (em 1989 ou 1990). Charlotte Perriand vem sendo cada vez mais valorizada – atualmente uma exposição na Fondation Louis Vuitton abraça boa parte de sua obra (1).
Arquiteta, formada na tradição das artes decorativas, envolveu-se cedo com o chamado moderne e foi procurar trabalho no escritório de Le Corbusier, depois de ter visto seu Pavillon de l'Esprit Nouveau na Exposição de Artes Decorativas de 1925. Machista e preconceituoso (seria isso um pleonasmo?), ele a dispensou com a famosa frase: “aqui não bordamos almofadas”.
Mas, logo depois, ele se arrependeria ao visitar o Salão de Outono e admirar o trabalho de Perriand, que replicava seu próprio apartamento – na falta de oportunidades em espaços públicos, as mulheres costumam transformar o espaço privado em espécie de laboratório próprio.
Corbusier chamou-a para trabalhar com ele, ganhando pouco e raramente sendo reconhecida como coautora das peças que, muitos anos depois, seriam consagradas e espalhadas mundo afora, os assentos que Corbusier declarava essenciais e universais: a chaise para relaxar, as cadeiras para trabalhar e comer, a poltrona para conversar e ler.
Pós Corbusier, Charlotte Perriand continuou sua carreira de designer e arquiteta ao longo de toda sua vida e é impressionante o projeto que fez para apartamentos de férias de esqui nos Alpes, com módulos inteiros pré-fabricados em fibra de vidro e outros.
Embora tenha escrito a favor do aço inox, como elemento da modernidade, Perriand rendeu-se ao bambu e à madeira, principalmente após sua estadia no Japão. Valérie Guillaume, curadora do Beaubourg, tinha a séria convicção de que seu trabalho com madeira fora bastante influenciado pela temporada que passou no Rio de Janeiro. Perriand trabalhou com Jean Prouvé, com Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, com Le Corbusier depois da guerra e é lindo ver a singeleza do interior dos apartamentos da Unidade de Habitação de Marselha, com uso de madeira e palha, na chamada arquitetura da reconstrução.
Hoje as releituras que se fazem de seu trabalho mostram preocupações ligadas tanto a questões de gênero como posturas alternativas ao mainstream modernista com relação a concepções de natureza.
nota
NE – quinto texto da série “Terça-feira das mulheres”, publicado pela autora em sua página Facebook.
1
Exposição “Charlotte Perriand: inventing a new world”. Curadoria de Jacques Barsac, Sébastien Cherruet, Gladys Fabre, Sébastien Gokalp e Pernette Perriand. Fondation Louis Vuitton, Paris, de 2 out. 2019 a 24 fev. 2020 <https://www.fondationlouisvuitton.fr/en/exhibitions/exhibition/charlotte-perriand.html>. A informação sobre a exposição me foi dada por Camila Gui Rosatti, a quem agradeço.
sobre a autora
Ethel Leon é jornalista, pesquisadora, professora na área de história do design brasileiro e autora dos livros Memórias do design brasileiro, IAC – Primeira Escola de Design do Brasil, Michel Arnoult, design e utopia – móveis em série para todos e Design brasileiro – quem fez, quem faz.