Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
O incêndio na Cinemateca Brasileira em São Paulo, ocorrido no dia 29 de julho de 2021, não é apenas uma tragédia anunciada, mas revela o risco iminente da vitória de um projeto que ignora nosso passado cultural.

how to quote

GERVITZ, Roberto. Cinemateca Brasileira. O fascínio do fracasso. Minha Cidade, São Paulo, ano 22, n. 253.02, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/22.253/8193>.


Incêndio na Cinemateca Brasileira, São Paulo
Foto divulgação [Corpo de Bombeiros]


Na última quinta-feira, dia 29 de julho, o fogo tomou um depósito da Cinemateca Brasileira. A violência das chamas que destruíram parte de uma instituição responsável por nossa memória audiovisual, impactou a sociedade brasileira. Imediatamente nos veio à lembrança o trágico incêndio do Museu Nacional, em 2018.

Desapareceram nas cinzas quatro toneladas de documentação de toda a história das instituições responsáveis pela política cinematográfica brasileira de 1966 até o surgimento da Ancine nos anos 1990 – cinquenta anos apagados, mais uma prova de nosso desprezo pelo passado. Não seria tal desprezo um retrato de nossa baixíssima autoestima, do nosso “complexo de vira-latas”? Essa ausência de intimidade com o passado que nos constituiu como povo seria um prato feito para uma “análise psicanalítica de massas”, se é que isso é possível.

Incêndio na Cinemateca Brasileira, São Paulo
Foto divulgação [Corpo de Bombeiros]

Mas associado a essa característica parece haver um projeto regressivo de rebaixamento do Brasil frente a outras nações. Uma escolha pelo papel de pária, sempre decepcionante frente às nossas dimensões continentais e, mais do que isso, frente às grandiosas oportunidades que desperdiçamos para que nos afirmássemos como um país de contribuições singulares e valiosas para outros povos do planeta. Como disse o cineasta João Salles em recente entrevista, poderíamos nesse momento, nos identificar como uma potência ambiental, liderando as nações através de uma ação sustentável diante de nossa natureza com seus infinitos biomas, alguns únicos em nosso planeta. Mas, ao contrário, estamos próximos de destruir irrecuperavelmente a Amazônia e os povos guardiões dessa riqueza necessária, mas não mercantilizável, transformando-a em um deserto, espelho fiel dos que estão hoje no poder político e econômico do país.

Será a predação a nossa real vocação? Extrair colonialmente tudo o que é possível até que não sobrem vestígios? Há mais de um ano a comunidade cinematográfica e as organizações da sociedade civil se mobilizam e alertam para evitar o que assistimos na última quinta-feira. Mas a reverberação dessas ações não chegou aos pés do frenesi que a replicação das imagens da destruição provocou na mídia e nas redes sociais. Esse fenômeno que se repete me faz perguntar se não somos fascinados pela nossa própria destruição. Parece haver um certo regozijo mórbido e catártico, um prazer em reafirmar o nosso fracasso e a nossa incompetência como povo.

Mas ainda há o prenúncio de um novo sinistro. Na sexta feira, dia 29 de julho de 2021, foi divulgado o Edital de Chamamento Público para a escolha da nova Organização Social – OS que deverá gerir a Cinemateca pelos próximos cinco anos. Vale comentar que a opção pelo sistema de gestão por OS suscita críticas e dúvidas importantes entre os gestores culturais.

Incêndio na Cinemateca Brasileira, São Paulo
Foto divulgação [Corpo de Bombeiros]

O Edital de Chamamento destina a quantia de R$ 10.000.000,00 anuais para a Cinemateca e exige que a OS selecionada levante mais 40% dos recursos aportados perfazendo R$ 4 milhões. No entanto, no próprio estudo de publicização elaborado pelo governo federal, está demonstrado que os custos anuais estimados para a Cinemateca, a partir de 2022, serão de R$ 22.500.000,00! Ou seja, mesmo que a OS obtenha a quantia exigida pelo Edital, a soma de 14 milhões de reais inviabiliza uma gestão que signifique avanços necessários e resgate o período áureo de 2003-2013 quando a Cinemateca foi colocada entre os cinco principais centros de restauro do mundo.

Vale notar que entre os critérios de seleção, o peso dado para eficiência de gestão e a capacidade técnica para gerir uma cinemateca, em uma escala de 0 a 5, é 2. Já o valor dado à capacidade de captação de recursos têm a nota máxima, 5. Tais valorações são incompatíveis com um contrato de gestão, pois o objetivo de contratação de uma OS é o de aumentar a eficiência e não repassar custos.

Destaca-se ainda o projeto de cobrar os Produtores Cinematográficos pelo depósito de seus filmes na Cinemateca no intuito de arrecadar recursos para a manutenção da instituição. Além do fato de que a soma desses recursos será irrisória frente às necessidades já apontadas, é importante deixar claro que a Cinemateca não é uma prestadora de serviços de preservação audiovisual; não é um negócio, ela é uma instituição pública governamental responsável pela conservação do patrimônio audiovisual brasileiro. Ao guardar, conservar e restaurar parte significativa desse patrimônio, a Cinemateca cumpre sua finalidade mais importante associada ainda, à divulgação de seu acervo e do cinema.

Incêndio na Cinemateca Brasileira, São Paulo
Foto divulgação [Corpo de Bombeiros]

Os princípios que norteiam esse Edital expressam cabalmente o desprezo com a nossa memória e o consequente descompromisso com a constante renovação de imagens que iluminem nossas identidades, almejadas ou não. Delas, conhecemos apenas lampejos. É como se condenássemos o nosso inconsciente à escuridão da ignorância sem querermos saber quem somos.

nota

NE – publicação original no jornal O Globo, Rio de Janeiro, 06 ago. 2021.

sobre o autor

Roberto Gervitz é cineasta, diretor de Feliz Ano Velho e Jogo Subterrâneo, entre outros trabalhos. É membro do grupo de trabalho em defesa da Cinemateca Brasileira, o SOS Cinemateca-APACI.

comments

253.02 São Paulo
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

253

253.01 São Paulo

Anhangabaú

Uma praça nova assombrada pela velha pobreza

Celso Aparecido Sampaio

253.03 Rio de Janeiro

MES à venda

Palácio Capanema à venda

Raquel Rolnik

253.04 Rio de Janeiro

Patrimônio sob cerco no Brasil

Palácio Capanema à venda

Ana Tostões, Renato da Gama-Rosa Costa, Docomomo International and Docomomo Brasil

253.05 São Paulo

Carta aberta sobre o Arquivo Histórico de São Paulo

Ana Maria de Almeida Camargo, Ana Célia Navarro de Andrade, Sonia Maria Troitiño Rodriguez and Marcelo Antônio Chaves

253.06 Rio de Janeiro

Carta de Kenneth Frampton a Ana Tostões e Renato Gama-Rosa Costa, presidentes do Docomomo International e Brasil

Palácio Capanema em risco

Kenneth Frampton

253.07 Rio de Janeiro

A destruição da memória

Contra a privatização de um importante monumento histórico e cívico

William J. R. Curtis

253.08 Rio de Janeiro

Lembrete para autoridades sem memória, e sem juízo

O Palácio Capanema não é mercadoria

Jorge Francisco Liernur

253.09 Rio de Janeiro

A venda do Palácio Capanema é um ultraje e uma insensatez

Carta aos arquitetos Carlos Eduardo Comas e Abilio Guerra

Josep Maria Montaner

253.10 Rio de Janeiro

Equipamentos, documentos, monumentos, desgovernos

A desventura do Palácio Capanema

Carlos Eduardo Comas

253.11 Rio de Janeiro

Oportunidade perdida (mais uma...)

Ignorância e ignorância assolam o Palácio Capanema

Andrey Rosenthal Schlee

253.12 Rio de Janeiro

Palácio Capanema

O difícil processo de alfabetização

Milton Hatoum

newspaper


© 2000–2021 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided