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português
No artigo "Os dias ímpares", Eliane Lordello resenha da obra completa do poeta Sérgio Blank – Os dias ímpares.

english
Review by Eliane Lordello of the complete poems by Sérgio Blank – Os dias ímpares.

español
Reseña de Eliane Lordello acerca de la obra completa del poeta Sérgio Blank – Os Dias Ímpares.

how to quote

LORDELLO, Eliane. Sérgio Blank – o irmão da poesia. Resenhas Online, São Paulo, ano 21, n. 246.01, Vitruvius, jun. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/21.246/8512>.


Breve nota biográfica

Sérgio Luiz Blank, nascido a 7 de abril de 1964 em Cariacica, Espírito Santo, foi um poeta capixaba. Exemplar da descendência da imigração alemã oitocentista no Espírito Santo, Sérgio tinha pele alvinitente, olhos azuis e cabelo louro. Na adolescência, vestia-se sempre de preto, o que, em contraste com o fenótipo que acabei de descrever, granjeou-lhe o apelido de Nosferatu. Foi assim que o conheci, no antigo bar Adega, em Jardim da Penha, Vitória. Tendo dedicado-se à poesia desde a adolescência, Sérgio publicou, em 1984, aos vinte anos de idade, o seu primeiro livro: Estilo de ser assim, tampouco (1).

Em sua vida profissional, o poeta trabalhou, sempre na área de Literatura, na Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes, em duas livrarias capixabas (Edição e rede Livraria da Ilha), e coordenou oficinas de Literatura para pessoas em tratamento na Secretaria Municipal de Saúde de Vitória. Atuou também no antigo Departamento Estadual de Cultura – DEC, hoje Secretaria de Estado da Cultura – Secult, onde vim a reencontrá-lo, como colega.

Sérgio Blank, em sua posse na Academia Espírito-Santense de Letras, 22 de julho de 2019, com Eliane Lordello
Foto divulgação [Acervo de Eliane Lordello]

Sempre muito querido pelos amigos, vizinhos, colegas, deles recebeu homenagens em vida, tais como o vídeo biográfico intitulado Risque Meu Nome do Mapa (A Poesia de Sérgio Blank), produzido e dirigido por Jorge Ribeiro (2). Tive a satisfação de estar presente ao lançamento deste vídeo, em sala cheia, na Biblioteca Pública Estadual, que Sérgio dizia ser a sua “segunda casa.”

Trabalhador incansável da poesia, Sérgio publicou os livros de poemas Pus (3); Um, no próprio título seguido de uma vírgula (4); A tabela periódica (5); Vírgula (6); e a obra completa intitulada Os dias ímpares (7). Em prosa poética, publicou Blue sutil (8). Para crianças, publicou Safira (9). Como organizador, publicou Por que você escreve? (10), livro que reúne importantes autores da literatura – Caê Guimarães, Suely Bispo, Pedro J. Nunes, Orlando Lopes, Bernadette Lyra, Francisco Grijó, Wilberth Salgueiro, Ana Laura Nahas, Adilson Vilaça, Fernando Achiamé, Jace Theodoro e o próprio Sérgio Blank – , em um recorte totalmente dedicado ao Espírito Santo.

Tendo o seu trabalho pela literatura amplamente reconhecido, e sua obra valorizada, Sérgio foi eleito como quarto ocupante da cadeira número 9 da Academia Espírito Santense de Letras – AEL. Em sua posse, foi saudado pelo acadêmico, historiador e professor Fernando Achiamé, que, logo no início de seu discurso, mencionou que Sérgio tinha “uma irmã, a poesia”. Sérgio faleceu aos 56 anos, em 22 de julho de 2020, exatamente um ano depois de sua posse na AEL, que hoje tem um concurso literário com o seu nome.

Convite e website do Concurso Literário Sérgio Blank
Imagens divulgação

Ao modo de resenha

A resenha que aqui passo a apresentar dedica-se à obra completa de Sérgio. Seu título, Os dias ímpares, foi tomado a uma poesia que consta do livro Vírgula (poemas de 1993 a 1996), ei-la:

Os dias ímpares

são os meus preteridos
em feixo de soluços
nestes sonhos datados
os meus anos colecionados
do calendário fixo no prego
na parede de azulejos – copa ao lado da cozinha
‘folhinha’ de papel couché sem foto de musa nua
e sim, ah mas claro que sim: óbvio
com sagrado-coração-de-Jesus sangrando flechado e escarlate (11)

Na perspectiva etimológica a palavra poesia remete a poiesis, de origem grega, e a uma ação: a de fazer algo, o que está na base do pensamento estético de Platão e Aristóteles. Durante muito tempo mais estudada do que a prosa, desde pontos de vistas como o epistemológico, ético ou linguístico, entre outras análises, a poesia persiste como um campo fértil de pesquisa.

Ainda no respeitante à linguagem poética, Massaud Moisés destaca o pioneirismo de I. A. Richards, no século 20, que teve seguimento nas pesquisas da Estilística, do Formalismo Russo, do new-criticism anglo-norte-americano, do Estruturalismo e da Semiótica.

Contudo, embora tão amplamente pesquisada, a poesia continua irredutível a definições. Para dizer com Moisés, “no curso da História, teorias e doutrinas sem conta têm sido apresentadas, no afã de emprestar clareza e definição a um terreno infenso a toda sistematização” (12).

Uma característica da poesia que considero fundamental aqui é a de que ela não explica nem quer explicar nada. Ao dizer isso, quero assumir que ela me interessa também por seu mais absoluto desprovimento de didatismo. A poesia não comenta, não esmiuça, não teoriza – simplesmente é em si mesma. O que nela existe é aquilo que nos é aberto pelo olhar do poeta. Assim ela se apresenta na obra completa de Sérgio.

Reunindo poemas de jaezes os mais diversos – históricos, bíblicos, políticos, sociológicos, antropológicos, musicais, a obra completa do nosso poeta inclui poemas focados em Vitória, no Espírito Santo, no Brasil, no mundo.

Nela, os caracteres românticos também se fazem presentes, de modo seriíssimo ou irônico. Ela demonstra que às vezes Sérgio brincava com a literatura, com a própria poesia, e até com a gramática. Em outros momentos, ele abordava esses mesmos temas com a maior seriedade.

Além disso, cortejava autores como Arthur Rimbaud e Oscar Wilde, que se fazem presentes em momentos muito sérios, como no poema O Retrato do Oscar Wilde, e, em outros, totalmente descontraídos. Da mesma forma, Sérgio brincava consigo mesmo, o que o poema “Os Olhos do Espelho” atesta claramente.

Eu poderia citar uma catadupa de poemas aqui, mas exemplificar na poética de Sérgio Blank é tarefa enormíssima. Então, só me resta encerrar neste momento com a poesia “Sursum Corda – poema sete, eleve o seu coração”.

Como muitos devem saber, o termo eclesiástico Sursum Corda significa justamente “erguei os corações,” uma exortação do padre oficiante ao conjunto dos fiéis, ao iniciar a missa. Este poema integra o livro A tabela periódica (1988-1993) em que há uma sequência de poesias esclesiásticas. Vamos a ele:

Sursum Corda
Poema sete, eleve o seu coração

elevai os corações em altos níveis
elevai os corações em brandos
em montes nos cumes das rochas
em precipícios no topo com neves
aos bandos nos pântanos em larvas
com força em fogo nas nuvens entre o sol
para que alguém perceba ou sinta
para surtir efeito aos brancos aos negros
no canto em todos nos tantos
já que seu pranto tem um alvo
que dá de costas ao seu manto
de carícias de amor e entregas
sem surcis perdão fé compaixão
quebre todas as cordas vocais neste vulcão
se for preciso
para que perceba ou sinta um alguém
eleve o seu coração na única vez
o só e seu e só seu
depois abaixe a voz o tom a fronte (13).

No dia do desparecimento de Sérgio, o escritor, jornalista e bailarino Jace Theodoro declamou este poema em um vídeo, em preto e branco, ao modo de uma elegia ao grande irmão da poesia, Sérgio Blank.

notas

1
BLANK, Sérgio. Estilo de ser assim, tampouco. Vitória, Fundação Ceciliano Abel de Almeida/Ufes, 1984.

2
Risque Meu Nome do Mapa (A Poesia de Sérgio Blank). Produção e direção de Jorge Ribeiro. Brasil, 2016, curta-metragem, 28’47” <https://bit.ly/3QspDb0>.

3
BLANK, Sérgio Luiz. Pus. Vitória/Rio de Janeiro, Fundação Ceciliano Abel de Almeida/Anima, 1987.

4
BLANK, Sérgio. Um,. Vitória, Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo, 1988.

5
BLANK, Sérgio. A tabela periódica. Vitória, Secretaria de Produção e Difusão Cultural/Ufes,1993.

6
BLANK, Sérgio. Vírgula. Vitória, Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo, 1996.

7
BLANK, Sérgio. Os dias ímpares. Vitória, Cousa, 2011.

8
BLANK, Sérgio. Blue sutil. Campo Grande, Edição do Autor, 2019.

9
BLANK, Sérgio. Safira. Vitória, Departamento Estadual de Cultura, 1991; BLANK, Sérgio. Safira. 2ª edição. Vitória, Cousa, 2015.

10
BLANK, Sérgio Luiz (Org.). Por que você escreve? Vitória, Secretaria de Cultura da UFES/Estação Capixaba, 2018.

11
BLANK, Sérgio. Os dias ímpares: toda poesia. Vitória, Cousa, 2015, p. 155.

12
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. Rio de Janeiro, Cultrix, 2002, p. 402.

13
BLANK, Sérgio. Sursum Corda – poema sete, eleve o seu coração. In: A tabela periódica (op. cit.), nota xi, p. 130.

sobre a autora

Eliane Lordello é arquiteta e urbanista (UFES, 1991), mestre em Arquitetura (UFRJ, 2003), doutora em Desenvolvimento Urbano (UFPE, 2008), pesquisando e atuando sempre na área de Memória e Patrimônio Histórico. Servidora da Prefeitura de Vitória há 29 anos, trabalhou, como requisitada, na Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo por seis anos. Atualmente, é lotada na Coordenação de Revitalização Urbana da Secretaria Municipal de Desenvolvimento da Cidade de Vitória. Membro do corpo editorial deste Vitruvius, participa dos seguintes clubes de literatura: Leia Capixabas, Lendo Clássicos Brasileiros, Leia América Latina e Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Domingos Martins, ES.

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A tabela periódica

A tabela periódica

Sérgio Blank

1993

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